A verdade é que a beleza do amor está não quando você percebe seus próprios sentimentos, mas quando fica prestes a percebê-los.

Sete anos atrás.
Matthew nunca pensou realmente em como seria se apaixonar. Na verdade, sempre sentiu-se agraciado pelo destino, teria uma vida fácil e não precisaria se preocupar com absolutamente nada. Meras cortesias e buscar sempre ser amado pelo povo era o necessário para viver confortavelmente pelo resto de sua vida. Mas quanto ao amor... sempre pensou inegavelmente que era um sentimento superestimado pelas damas da corte, e também pelos poetas que escreviam para as mesmas. Já havia repousado os olhos em alguns e era descrito como um sentimento arrebatador. Onde o caçador se torna a presa, onde morrer ou matar pela pessoa amada não importa, contanto que ela esteja segura, e feliz.
Matthew nunca pensou nisto, até o dia em que conheceu Maeve. Dentre todas as mulheres que cruzaram seu caminho, por quê ela? Talvez houvesse sido apenas uma grande atração, e com o tempo isso se resolveria, haveriam mulheres mais bonitas no mundo, de certo. Com o tempo isto iria passar. Entretanto, não passou. Recusou-se a aceitar. Bebeu até ficar inconsciente, saiu em longas caçadas sozinho, dormindo na floresta, de quando em vez, e frequentemente treinava esgrima com tanta ferocidade até seu corpo despencar exausto ao chão. Mas não importava, a cada vez que fechava seus olhos para um descanso vão, era a mesma garota com os cabelos e olhos negros, obstinada e sorridente que ele via em seus olhos. E estando acordado, era por ela a quem ansiava secretamente. Nos raros momentos em que seu pai insistiu em que ele deveria casar-se, "Já passou do momento de você se casar e ter herdeiros, lembre-se de seu compromisso como príncipe" Matt negava diligentemente. Ou quando Louis o perguntava a razão de não sair com ele para os locais públicos onde as mulheres conhecidas por venderem seus corpos atuavam. Eram de sangue real, poderiam ter quem quisessem, como e quando quisessem. Fazia questão de lhe lembrar. -Não é verdade.-respondera Matthew uma vez ao seu irmão.

—O que quer dizer? Meu irmãozinho está apaixonado?-perguntou gargalhando.-É isto, Matt? Se tornou um poeta boêmio que chora por não conseguir o amor de uma donzela?

Louis não conseguia parar de rir.
Diminuiu um pouco quando Matthew o mandara procurar uma puta para foder ao invés de perturbar-lhe.
Louis lhe deu uns conselhos inúteis de como ele também deveria procurar uma para esquecer o objeto de seus pensamentos e retirou-se.
Matthew estava terminando uma garrafa de vinho quando sua mãe entrou na sala onde se encontravam. As roupas e o cabelo desarrumado do filho a preocupavam, assim como a quantidade de álcool que ele agora ingeria com frequência.

—Matt.-ela o chamou, fechando a porta atrás de si.
Ele fechou os olhos, massageando duramente as pálpebras com os dedos, parecia carregar um peso muito grande.

—Mãe, não é um bom momento.

—Eu tenho percebido. Quer me contar o que está acontecendo?-falou, sentando-se na cadeira à frente dele.

—Eu não posso.

—Sabe que pode me contar qualquer coisa.

—Falar as palavras as tornariam verdadeiras.

—Não falar não as tornarão em mentiras. Quem nos dera, meu filho. Assim não haveriam guerras, sofrimento e tantas mortes.

—Diminui a dor. Ou é o que eu penso-falou, se esticando para pegar mais uma garrafa.

Sua mãe o parou.

—Perder um filho. Você não entenderia, seria impossível, é muito novo e ainda não é pai. Mas eu não creio que há coisa pior. Não há sofrimento maior. E é o que eu vejo acontecer aos poucos com você, seu brilho se esvai a cada dia, Matt. E quebra meu coração.

Sua mãe era de uma alma pura e ele sempre a amou por isso. Assim como ela o amava.

—Meu coração também está quebrado, mãe. Tento juntar os pedaços, e me afundo cada vez mais. Não posso tê-la, e não me parece justo.-Doía admitir, doía sentir, acima de tudo, doía não tê-la.

Sua mãe não sabia a quem ele se referia. No entanto, levantou-se e abraçou seu filho que continuava sentado com uma expressão letárgica. Acariciou-lhe os cabelos e prometeu que tudo iria ficar bem.

Amor, tanto tem a capacidade de nos destruir, como tem de nos reconstruir, e naquele momento, Matthew se sentiu melhor.

Atualmente

—Gostaria de propor um brinde ao meu filho e a minha nora. Futuro rei e rainha deste nosso amado reino!-o rei David exclamou.
Todos beberam. E era chegava a hora do baile em comemoração.
A primeira dança era do casal prometido. Dançaram em frente à todos uma valsa tradicional e típica dos noivados. Pareceram trocar algumas palavras.
Matthew observou como Maeve parecia linda, entretanto, notou como estava inteiramente vestida de preto. Inegavelmente esplêndida, adornada das mais belas pérolas negras distribuídas em seu cabelo, colar e vestido. Rara atitude, porém belíssima, assim como ela sempre fora aos seus olhos.


Louis parecia mais feliz com sua noiva, quanto a ela, Matthew não conseguia ler suas emoções e simplesmente não aguentava mais fingir.
Pegou mais uma taça de vinho e saiu apressadamente para sentar-se à frente do castelo. Sentado naqueles degraus, olhou para a lua e para a pedra que recebera sete anos atrás.

—Você a guardou.-disse Maeve, aproximando-se dele.

My lady—ele levantou, exasperado-todos estão dançando.

—Menos você.-ela replicou.

—Não aprecio dançar.

—Não tivemos a oportunidade de nos falar deste a minha chegada.

—Tenho certeza que não faltarão oportunidades de agora em diante.-Ele disse, jogando a taça de vinho à sua frente.
A mancha roxa no chão se destacou imediatamente no chão em meio aos cacos de vidro.
Ela sentou-se próximo a onde ele estava e fez sinal para que se juntasse a ela.

—Você está bem?

—Não acha que irão sentir sua falta, princesa?

—Creio que não, o brinde já foi feito, e os pares de dança já foram trocados. Seu irmão trocou-me rapidamente por uma belíssima moça.-ela fingiu estar afetada.-deve ser a cor do meu cabelo.

Então ela ouvira os boatos.

—Também não gosto de tanta atenção focada em mim.

—Mas é o seu noivado.-Matt disse, sem pensar muito.-Não está... feliz?

Ela olhou para o céu, sem responder.

Em seguida olhou para o presente que jazia na mão dele, que lhe dera há vários anos atrás.

—Por que você a guardou?

—Bom, foi... um presente. Seu.

Ela sorriu, embora tristemente.

—Fico feliz que tenha gostado. E sim, de fato é um dia feliz. Eu irei me casar. Deveria ser o sonho de toda donzela.

Enfatizou na palavra "deveria"

—Meu irmão pode ser um mulherengo irrepreensível mas é um bom homem. Não tenho dúvidas de que a tratará bem, eu me assegurarei disso.

Ele parou de falar por um momento.

—É o mínimo que posso fazer-Matt disse numa tentativa de tornar as coisas melhores. Seria presunção dizer que ela também não estava feliz com aquele futuro casamento.

—Um casamento deveria ser mais do que um acordo comercial. Fui vendida para um reino desconhecido, para um homem que não vai me amar e apenas com a função de ter filhos e sorrir perante a corte fingindo que isto sempre foi meu sonho. Você não faz ideia do quão feliz eu estou, príncipe Matthew.-falou, levantando-se.

Não. Seus olhos agora não tinham aquele brilho de antes. E a raiva dela era justificada.

Ele levantou, indo atrás dela.

—Maeve! Me perdoe. É injusto, eu sei. Mas você não tem o direito de me dizer isso.

—Como ousa...

—Você não tem o direito!-Matthew falou um pouco mais alto do que gostaria.

Ela pareceu assustada, mas se recompôs rapidamente.

—E quando a você, está feliz com este dia?
Ele queria falar. Precisava. Mas o que diria? Não sabia o que poderia dizer. As palavras que gostaria de dizer pareciam ser um juramento de morte. Pois a partir daquele momento ele sabia que era inevitável continuar negando que estava perdidamente apaixonado por ela.

—Eu...

Ela o encarou, esperando algo.

—Me perdoe.-Disse Matthew, antes que a beijasse.

Notas finais
O próximo capítulo será focado no ponto de vista de Maeve.