Sons

18 Pure.


Durante semanas, tudo corria perfeitamente bem.

A escola ocupava uma grande parte da minha vida. Passava horas da manhã a frente dos livros, as tardes em classes e a noite com os surdos.

Já meus finais de semana eram dedicados a Chip.

Tudo ia bem, exceto tudo que envolvia acabar, completamente, com meu trabalho comunitário.

Estava muito longe de começar a aprender libras e isso tudo tinha a ver com o quando eu não queria o fazer. Deixar de ir a pista nos finais de semana para estudar uma nova língua não era a ideia mais apelativa do mundo para mim.

A bola de neve foi parada quando Lydia comemorou meu segundo mês de trabalho comunitário.

Fui para casa completamente arrasada. Estava tentando, mas não seria o suficiente, nada seria o suficiente.

Peguei meu telefone e mandei uma mensagem para Arizona, decidida a resolver o problema. Chip ficou irritado em perder o domingo ao meu lado, mas entendia o que eu deveria fazer, e eu, entendia como ele se sentia, já que compartilhávamos daquilo.

Chegado o dia, almocei com os garotos na lanchonete, subi em meu skate e segui para a cidade, para a casa da garota loira que havia me deixado boquiaberta. Por todo o caminho, me sentia bem, mas, já em sua rua, um arrepio crescente na parte de trás das pernas.

Estava indo para a casa de uma garota que mal conhecia para aprender libras. Toda a ideia me parecia um pouco insana demais e, a cada passo, martelava para entrar em minha cabeça.

Não havia uma campainha na casa. O que me parecia obvio, se parássemos para pensar por alguns segundos. Mandei uma mensagem para ela, dizendo que já havia chegado. Ouvi passos dentro da casa, então, a porta se abriu.

O cheio de melancia que se deu quando a porta foi para dentro me inebriou, me tocou. Levantei meus olhos apertados e lá estava ela. Seus longos cabelos loiros cobriam todas as suas costas e seus ombros, se enrolando cada vez mais com a decorrência da sua extensão. Seus grandes olhos castanhos eram fechados pelas suas bochechas que se ergueram como consequência do seu sorriso.

Arizona me atraía, mas eu não conseguia explicar como, ou o que aquilo significava.

—Olá. – ela disse com sua voz nasalada e um pouco embolada.

—Oi. – senti que estava com uma expressão idiota, de bochechas rosadas e sorriso bobo.

—Vamos começar, temos muito o que aprender em pouco tempo. – ela entrou em sua própria casa.

Subimos até o segundo andar, lugar onde estava seu quarto. Entramos ali. Com naturalidade, ela se sentou em sua cama. Tremendo, coloquei meu skate recostado ao lado de sua porta e, gentilmente, sentei–me ao seu lado.

—Você parece tão assustada. É só por aprender? – ela segurou a minha mão.

Em um impulso comum e automático, retirei a minha mão de debaixo da sua. Irritada, comigo mesma, suspirei.

—Desculpe, eu... – comecei a falar, com a cabeça e o volume baixos.

—Frankie, se for falar algo, eu preciso ver o seu rosto. O que eu ainda tenho de audição, não vai ser o suficiente para te entender se você não me ajudar, ok?

Levantei a minha cabeça, seus olhos estavam ternos de encontro aos meus.

—Você pode fazer isso com um pouco mais de cuidado? Faz pouco tempo que eu comecei a deixar ser tocada por qualquer pessoa. Eu só... – continuei.

—Precisa de cuidados. – ela me interrompeu – Tudo bem, eu entendo muito bem o que é sempre ter de exigir algo dos outros. Não tem nada de ruim nisso se você for firme.

Arizona levantou a mão e a aproximo da minha devagar, a tocando. Aquele sim fora um toque quente e carinhoso, que me deixou confortável.

Sorri. Queria algo como abraçá–la.

—Como é meu nome em libras? – perguntei, não queria que aquilo se tornasse um silêncio constrangedor.

—Isso é difícil... Um sinal único para seu nome é algo que só um surdo pode te dar, já que vai ser algo baseado na sua personalidade. Vou te ensinar a soletrá–lo e, mais tarde, vou te dar um sinal único para seu nome. – seu sorriso me acalmou.

—Como é o sinal para seu nome?

—É assim – ela mexeu suas mãos com destreza e rapidez, mostrando um sinal que, para mim, naquele momento, foi simplesmente incompreensível – É o sinal para puro, com algumas letras do meu nome.

Ao decorrer daquele dia, ganhei uma cartilha enorme e encapada com todas as letras do alfabeto, das quais aprendi a realizar.

Aprender uma língua nova é algo difícil, mas aprender um novo alfabeto inteiro fez a minha cabeça latejar, mesmo com biscoitos e atenção. Ainda sim, Pure havia me acendido a última das minhas motivações interiores, tudo o que eu havia perdido com Steve; ela me fazia sentir estranhamente em casa, e eu não sabia se aquilo era om ou ruim.