Sons
19 Amiga.
A semana que seguiu a minha primeira aula de libras trouxe consigo uma sensação completamente nova.
Pela manhã, aquela boca pequena, fina e rosada; nada de estudos. Na escola, grossos e longos fios loiros se enrolando em minhas ideias; nada das matérias. Quanto mais perto chegava a hora de vê–la, mais minha mente descia em seu corpo, fazendo o meu tremer, literalmente.
Estava sentada na mesa do jantar, tremendo, agarrada a cadeira, cortando a comida, sem conseguir conter as minhas pernas que tremiam ao tentar segurar algo dentro do meu corpo.
—Francesca? – minha mãe segurou a minha mão que segurava a faca.
—Sim. – soltei a mesma e puxei minha mão para perto de mim.
Nem todos os toques eram agradáveis.
—Você está bem?
—Sim. – suspirei,
Mas eu não estava.
A buzina soou do lado de fora da casa. Um pouco antes da hora, mas no momento perfeito.
Sem alguma cerimonia, levantei e saí daquele lugar, marchando até a porta e a abrindo com força.
O carro que estava ali, não era o de Lydia, mas o conhecia, então desci os três degraus da minha fachada e simplesmente, entrei no mesmo.
—Você sabia que o Nolan é gay? – seus grandes olhos escuros estavam avermelhados e, para mim, que sempre usava drogas, a vermelhidão não era fruto de ervas.
Mandy esteve chorando a tarde inteira.
—O que aconteceu? – segurei a sua mão, franzindo meu cenho em espanto.
—Você sabia?! – ela gritou, seus olhos estavam em fogo, suas unhas apertavam meus dedos.
—Não! Essa é a primeira vez que eu estou ouvindo essa merda! O que está acontecendo?! – igualei minha voz ao seu tom de voz, ela era uma daquelas garotas que se acalmava com um tapa na cara.
Puxei minha mão para mim, aquele negócio de toque já estava me enchendo o saco.
—O que está acontecendo, Frankie, é que eu não sou a garota secreta do Brad! O Nolan é! O Nolan é uma garotinha nojenta embaixo do Brad na cama que eu perdi a minha virgindade!
Ela não conseguia olhar para mim mais, então, focou sua visão em alguma coisa na nossa frente e começou a bater em seu volante com uma força impressionante, fazendo a buzina soar, mas não tão alto quanto suas palavras raivosas.
Eu, Francesca Wang, estava assustada.
Mas sabia o que fazer.
—Mandy! – a segurei com força.
—O que?! – ela se virou para mim, ainda aos berros.
—Para com essa merda! – gritei, o mais alto que pude, como naquelas cenas de filme que as pessoas ficam vermelhas e voa saliva para todos os lados. Aquilo a acalmou, a tirou de seu transe – Você vai entrar na minha casa e subir ao meu quarto, sem surtar até chegar lá. Porque tem uma velha asiática dentro daquela casa e você sabe como elas são perigosas.
A soltei.
A indiana socou novamente o volante e saiu do carro, batendo a porta com força e marchando até minha casa. Puxei a chave da ignição, saí do mesmo e tranquei as portas. Logo, notei o carro atrás daquele.
Fui até ele e bati na janela, que se abaixou para mim.
—Eu não vou hoje, ela precisa de mim.
—Você não pode largar o seu serviço comunitário dessa forma.
—Lydia, eu não ligo! Aquela garota que acabou de fazer a maior das cenas que eu já presenciei na minha vida é minha amiga e ela precisa de mim! Chame a merda da polícia se quiser. Eu não vou! – bati com os punhos fechados na porta do carro.
Voltei em casa, pensando que aquela explosão de raiva não era um indicador muito bom do meu estado mental. Fui direto para o meu quarto, ignorando as tentativas da minha mãe de se conectar comigo.
Cheguei e fechei a porta.
—Sua mãe não vai surtar ou algo do tipo? – Mandy estava sentada na ponta da minha cama.
—Pela porta? – me sentei ao seu lado.
—Sim. – ela me deu a mão – Ela é asiática, não é? Você não tinha que viver em uma bolha até se casar com seu primo ou algo do tipo?
—Ah... Eu não ligo. – apertei a sua mão.
—O que aconteceu com a garota certinha do ônibus?
—Sou eu, Mandy. Você realmente achou que isso ia durar? – tomei uma pausa – Deveríamos estar falando de você agora.
—Eu não quero falar sobre mim, Já estou calma.
—Eu não quero isso! – soltei sua mão – Onde está a Mandy raivosa? Onde está a sua raiva? Onde está o seu poder? – pulei na cama, apontando o dedo em seu rosto.
—Frankie... – ela se jogou na cama.
—Sem "Frankie...". Sabe quantas vezes ao dia eu tenho que ouvir isso?
—Eu estou bem! Eu só... – ela respirou fundo – Se tudo isso começar de novo eu vou ficar naquele ciclo bizarro que você acabou de me tirar e que durou umas quatro horas.
—Tem quatro horas que você está assim? – me sentei na cama.
—Estou trancada no carro tem umas duas. – ela se sentou a minha frente, com olhos cheios de água.
—Isso é nojento. Você precisa de um banho pra se lavar desse lixo espiral de emoções, batatas fritas e sorvete com pedaços de chocolate.
—Eu não posso fazer isso. – ela suspirou – Queria ser você, com essa rebeldia, cabelo perfeito e todo mundo te querendo.
—Eu queria ser eu. – sorri – Você precisa fazer isso, se não fizer isso, vai ficar com todos esses sentimentos dentro de você e eles vão petrificar e aí você vai ficar exatamente como eu. E é uma merda... Meu cabelo demora pra secar e as pessoas ficam o tempo inteiro te falando pra abrir os olhos.
Aquela fora a primeira vez que eu havia realmente falado sobre como o meu coração funcionava para uma pessoa. Foi como tirar um peso das costas. Talvez, a ajudando, eu me ajudaria.
—Como ele fica tão liso?
—Eu sou asiática. – sorri.
—Quero fritas com queijo. – ela se levantou, devagar – E eu preciso de uma calcinha.
—Você tem sorte da minha mãe viver comprando coisas com renda que eu nem ao menos tirei do pacote.
Levantei e fui até o closet.
Senti–me leve pelo que seria a primeira vez. Estava fazendo alguma coisa certa, alguma coisa puramente minha e bonita.
Mandy era algo que eu acreditava. Era como uma marca que podia continuar aumentando o preço, porque eu continuaria comprando. A ver daquela forma me matava, mas fazer parte de fazê–la melhor me ajuda a renascer.
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