Sons
20 Amizade.
Acordei na manhã seguinte com uma espécie de ressaca. A noite fora de carboidratos, lágrimas – dela e minhas –, açucares e risos, fazendo a minha cabeça doer, assim como todos os meus membros.
O telefone despertou uma segunda vez, ignorado da primeira. Já não havia mais tempo para estudar, para me preparar ou para Mandy voltar para casa; havia tempo apenas para correr. Sentei-me e retirei um pedaço de pacote de biscoito do meu cabelo.
Olhei para o lado e lá estava a indiana, com o cabelo em todo o seu rosto amassado pelo travesseiro e usando uma das minhas largas blusas. Ela não parecia ter passado por tudo aquilo ontem. Estava serena. Foi um daqueles momentos de realização, dos quais você para e nota o quanto ama uma pessoa.
Mandy era a minha amiga mais antiga. Me senti feliz por fazê-la bem em um momento como aquele.
Saí da cama, separei as minhas roupas e as levei para o banheiro, tentando não fazer barulho. Tomei uma rápida ducha, voltando com um rabo de cavalo, uma larga calça, tênis e uma justa regata.
—Não sabia que você tinha roupas que mostravam seu corpo. — Mandy se sentou a minha cama, claramente já acordada há algum tempo.
—Eu não desprezaria minhas roupas se fosse você, já que hoje você vai ter que usar esses trapos. — sentei-me ao seu lado, pegando o meu telefone, esperado alguma notícia de Chip.
—Eu te odeio. — ela cambaleou e se levantou, indo em direção ao closet – E seu corpo é maravilhoso.
—Vamos começar com essa conversa de novo? Eu amo quando você mente para mim. — levantei-me, procurando descer e nos fazer um café da manhã.
—Quando sua autoestima estiver compatível com a sua imagem, você me chama. — podia a ver olhando as minhas roupas, as julgando.
—Do que você está falando? – suspirei.
—Você tem tudo, só não quer aceitar isso.
Abaixei a minha cabeça, não queria aceitar algo que simplesmente eu não via.
Fui para a cozinha nos preparar um algo rápido tendo em mente cereais e suco. Porém, no meio do processo, alguém bateu a porta. Larguei tudo e ao abri-la me deparei com Chip, de braços cruzados e um semblante cansado.
—Precisamos conversar. — ele suspirou.
Meu coração parou por alguns segundos. Não queria me mostrar abalada, então me segurei firme, me agarrando a minha atitude.
—Mandy está lá em cima. — segurei minhas mãos juntas, já que elas tremiam.
—É exatamente sobre isso. — ele me puxou para fora de casa pelo braço, em um gesto rígido, mas com cuidado, então fechou a porta atrás de mim – O que está acontecendo? Brad chegou a minha casa ontem a tarde chorando e está lá até agora.
—Ele não te contou? – esbravejei.
—Não!
—Mandy me disse que chegou a casa dele e... — dei uma pausa, não sabia como colocar aquilo em palavras digeríveis, então, simplesmente, joguei tudo para fora – Brad e Nolan estavam transando.
Chip me deu a mão, apertou as sobrancelhas juntas e levou seu corpo para trás, como se o baque das informações tivesse o desequilibrado.
—Isso é... Eu acho que não tenho palavras pra isso.
—No dicionário não existe uma expressão para dizer quando os seus amigos são gays e estão juntos há muito tempo, mas não te contaram. — tentei aliviar o momento com uma brincadeira.
—Essas coisas deveriam existir. — ele sorriu.
—Eu não sei o que te dizer, não consigo realmente entender como deve ser para ela ou para ele.
—Eu não sei nem ao menos o que pensar ou falar. Eu simplesmente não sei qual é o próximo passo a se tomar em uma situação como esta. — ele se sentou em qualquer lugar que havia um encosto na varanda – Eu só não consigo entender porque ele não me contou isso.
—Ele não contaria isso a nenhum de nós, nenhum dos dois ou de qualquer um do nosso grupo de amigos, Chip. Não somos o tipo de pessoa que aceita a diversidade ou sei lá o nome disso. — sentei-me ao seu lado, apertando as duas sobrancelhas juntas.
—Você realmente acha isso?
—Como você acha que todos vão reagir quando descobrirem? – continuei.
Ele tomou um tempo para pensar, mas pelas caretas eu sabia que ele estava comigo.
—Isso é nojento, o jeito como tratamos as pessoas. – Chip me respondeu.
—Existem várias coisas nojentas a respeito do nosso grupo de amigos.
—Eu não quero mais fazer parte disso. — ele se levantou.
—Não sei nada a respeito disso, mas sei que você precisa ser o amigo que ele precisa agora, e eu vou ser a amiga que Mandy precisa agora. Sem julgamentos. — levantei-me, seguindo seus passos.
—Te vejo na escola. — ele suspirou, então me agarrou pela cintura com cuidado e me beijou, antes de descer os três degraus da varanda e entrar em seu quadrado carro velho, indo embora.
Entrei em minha casa. A indiana estava sentada a mesa comendo uma tigela de cereal, usando uma das minhas calças jeans apertadas — que ficaram perfeitas em seu corpo – e uma blusa sem mangas com estampa holográfica que a minha mãe havia comprado há alguns anos para a festa de aniversário do meu irmão. Seu cabelo estava preso em um coque volumoso a cabeça e seu rosto estava livre de maquiagem.
—Vocês estavam falando de mim? – ela disse com a boca cheia de cereal.
—Você é meu assunto favorito. — sentei-me ao seu lado e puxei para perto uma outra tigela que estava sob a mesa.
—O que ele disse? – ela me passou o cereal e o leite.
—Não acho que você realmente queira saber. — peguei as caixas e me servi.
—Eu estou perguntando, não? – ela ergueu uma das sobrancelhas.
—Brad está mal. Ele está na casa do Chip chorando desde ontem, sem falar nada. — já estava comendo e falando entre mastigadas.
—Que pena. — ela voltou para a sua comida, em um tom sarcástico.
—O que? – suspirei, largando minha colher.
—Você quer que eu tenha compaixão por ele? Porque eu simplesmente não consigo fazer isso agora. Ele é seu amigo e eu entendo que você queira escutá-lo e estar lá para ele, mas eu não posso, não quero e não vou fazer o mesmo. Não dá para simplesmente engolir que ele me enrolou todos esses anos para isso. Desde que você esteja aqui para mim, faça e seja o que quiser por ele. — seus olhos eram tristes, mas suas palavras ríspidas, ela era um amontoado de emoções.
—Tudo bem. — segurei sua mão, firmemente – Eu não vou a lugar algum, Mandy, estou aqui agora.
—Vamos para a escola, por favor. — com as lágrimas se acumulando, ela sorriu.
Fale com o autor