Sons

21 Culpa.


O ônibus buscou a nós três no ponto.

Mandy foi direto para a parte de trás do mesmo, seguindo em direção as suas outras amigas. Sentia ciúmes daquilo, é claro, mas sabia que não havia nada a ser feito. Ao mínimo, eu era a chamada nos momentos de desesperos como o da noite anterior.

Já meu irmão, sempre distante, se posicionou à frente do transporte escolar, com seus amigos. Era estranho pensar que ele tinha toda uma vida da qual eu não fazia parte e, muito provavelmente, nunca faria.

E eu, segui para o meio daquele grande retângulo de metal. Conectei meus fones de ouvido ao meu telefone, procurando a calmaria que as minhas músicas me trariam, mas não foi muito bem isso que ocorreu.

Em pouco tempo, um garoto se sentou ao meu lado. Aquele mínimo movimento fez com que várias memórias aflorassem.

Steve ao meu lado coberto de sangue, com seus ossos expostos. As colisões seguidas e repentinas. O chiado forte e alto em minha cabeça. O cachorro vermelho ao meu lado.

Comecei a suar, tremer. Minha respiração ficou erradica. Afundei minha cabeça no assentou e suspirei, segurando, com toda a força que tinha em meu corpo, as lágrimas para dentro de mim. Tudo acabaria em pouco tempo, eu só tinha que sobreviver até lá.

Imaginava que aquela memória havia parado de me assombrar, mas estava errada. Tinha crescido, forte, mas aquilo só significava que a queda seria maior.

Tentava me manter erguida, mas não havia como esquecer tudo que ocorreu aquela noite. Era uma parte minha, viva, que me definia agora.

Assim que o ônibus parou, as divagações cessaram, quase que de forma instantânea. Sem pestanejar ou esperar, desci do mesmo, atropelando algumas pessoas.

Coloquei meu skate ao chão e subi nele. Tendo um pedaço do meu nirvana antes de voltar a minha realidade.

Quando o sol tocou o meu rosto e o vento jogou meus cabelos para trás, eu fui perto do seu peito, próximo das suas grossas madeixas loiras e seus finos lábios. Ela era aquele sol, aquela luz, aquele calor.

Um formigamento subiu entre as minhas coxas. Eu não queria ir lá, então, abri os olhos. Minha primeira visão fora Chip, sentado em cima do quadrado carro preto, fumando um cigarro branco, observando a escola.

Era impossível não suspirar ao vê–lo ali. Com seus longos castanhos cabelos e braços largos. Mas, infelizmente, meu coração só se encheu de receios.

Não sabia exatamente o que era aquilo que estava sentindo, apenas que queria que parasse, que tudo voltasse a ser como o meu mundo de cabeça para baixo, naquele vasto momento de felicidade e paz que ele me trouxe no nosso primeiro beijo.

Resolvi que a melhor forma de ter tudo de volta era agindo como se tudo estivesse normal.

Corri para os braços de Chip, que passou um deles ao meu envolto.

A ideia se tornou ruim naquele mesmo momento. O toque suave me trouxe o horror do acidente em um flashback intenso e dolorido, me arrancando um gemido oco, um frio na espinha e uma falta de ar repentina.

Soltei–me, bruta.

—Você está bem? – Ele se afastou, me dando algum espaço para respirar em cima daquele não–tão–grande capô.

—Sim. – Suspirei – Eu só...

—Não está bem. – Ele sorriu. – Você pode me contar tudo, mas se não quiser fazer isso agora eu entendo.

Seu olhar de compaixão me fez sentir incapaz e despreparada. Uma culpa tomou conta do meu peito. Não queria me sentir assim, apenas por sentir.

—Só... Está sendo uma manhã difícil. – Peguei o cigarro da sua mão e traguei.

—Com a situação da Mandy?

—Comigo. – Dei uma pausa – Todas as vezes que penso estar chegando a algum lugar, caio. Sempre me senti assim, todos os dias, até mesmo antes do acidente. Eu só... Achei que tinha uma chance de tomar algum controle da minha vida. Mas acredito que seja impossível.

Chip tinha aquele poder mágico de me fazer soltar as palavras que estavam entaladas em meu peito, que nem eu mesma sabia que estavam ali. Fora exatamente o que me aconteceu naquele momento, juntamente com uma quantidade avassaladora de lágrimas e soluços.

—Posso te abraçar? – Sua voz quente me pareceu confortável novamente.

Assenti. Ele se aproximou com cuidado, colocando os braços suavemente sob meu corpo e, quando não houve resistência, me apertou com carinho.

—Eu me sinto assim o tempo todo, Frankie. Como se todo o mundo estivesse andando rápido demais e eu fosse o único que não conseguisse alcançar. Normalmente, fico parado deixando tudo rodar e rodar. – Sua voz era terna, me aquecendo o coração.

—Como quando se caí no pula–pula, mas todo mundo continua pulando? – Suspirei.

—Sim. Mas acho que todo mundo se sente assim, pelo menos alguma vez na vida, ou talvez, todo o tempo. – Ele suspirou, sorrindo seco de canto de boca.

O mesmo sorriso que me levava as alturas, me preenchia e destruía meu coração.

Com algum tempo de abraço, meu choro se cessou. Meus pequenos olhos asiáticos estavam ainda mais fechados, inchados e vermelhos pelo choro.

Saí do abraço e esfreguei meu rosto, tentando me limpar de alguma forma.

—Você é tão bonita. – Ele abriu um grande e largo sorriso.

—Você só diz isso porque parece o Jared Padalecki e quer me fazer sentir mal. – Suspirei.

—Asiáticas são um fetiche comum, sabia? Meu, por exemplo. – Ele riu.

Enquanto as brincadeiras continuavam seguindo seu fluxo, eu me sentia bem, em casa.

Os risos que ele me tirava me deixavam pronta para levar mais alguns socos da vida. Então, de cabeça erguida, deixei que todo mundo pulasse.