Sons
24 Pontapés.
O calor do beijo se cessou em segundos. Já não era mais carinho, fogo ou casa. Era só bagunça, a bagunça da minha vida.
Fui para trás, tomei conta do meu skate e suspirei.
—Tem uma festa... — Ele bufou, com um sorriso tímido e orgulhoso no canto esquerdo da boca. — Estava indo para lá agora.
—É só uma festa ou é um trabalho? — Abaixei o rosto, tirando meus cabelos do rosto.
—Você me conhece muito bem, Frankie.
—Isso não é uma resposta, Steve.
—Mas, a sua pergunta também não foi uma pergunta. — Ele sorriu, um sorriso largo e satisfeito.
Não tenho muitas certezas do porquê entrei em seu carro, mas quanto a Steve, eu nunca tinha muitas certezas. Tudo o que eu sabia é que aquela cena era tão automática para mim quanto respirar, quanto a batida do meu coração. Eu era aquilo, eu era Frankie no carro do meu melhor amigo, indo em direção a uma festa da qual não sabia o lugar ou o que aconteceria, colocando a minha vida em risco por algum trabalho que eu não sabia o que era, me arriscando por Steve.
Tudo retornava a ele, tudo girava em torno dele e suas mãos esguias e voz desconcertante.
E eu sabia disso, tanto que quando decidi mudar a minha vida, ele foi a primeira coisa que cortei.
Ainda sim, havia voltado para ele e todo o perigo que o entornava.
O carro foi ligado, o limite de velocidade foi ignorado, as mesmas pílulas da noite do acidente saíram de dentro do seu bolso esquerdo do casaco de couro e foram direto a minha boca, duas, inteiras, garganta abaixo. Meu coração palpitava e achei que aquilo era adrenalina, mesmo que se parecesse com medo.
Chegamos a festa, meu sangue corria por todo o meu corpo com uma força e pulsação que remetiam a musica que tocava dentro da grande casa a minha frente. A porta do carro se fechou atrás de mim. Caminhei para dentro, aparentando uma confiança que eu não sabia se tinha, mas sabia que se fingisse o suficiente, acreditaria.
Seria isso que teria acontecido durante toda a minha vida? Durante todo aquele tempo eu só tinha me convencido de algo?
—Tenho que resolver umas coisas, você está bem sem mim? — Steve sussurrou sob a minha orelha enquanto entravamos, e estava a sua frente, segurando sua mão atrás de mim.
—Quando eu precisei de você para ficar bem? — Menti, sorrindo.
Ele assentiu e seguiu para uma sala qualquer longe de mim e eu fui atrás de uma cozinha. Havia algum garoto com uma tatuagem esquisita no pescoço ao lado de um enorme barril de cerveja.
Parei ao seu lado e ele me entregou um copo, sem interagir comigo. Sentei-me em um balcão qualquer ao lado da pia e comecei a tomar o que estava dentro daquele copo. O garoto se sentou ao meu lado e fez o mesmo. Aquilo criou um vínculo esquisito entre nós, um vínculo entre pessoas socialmente esquisitas que se imitavam, mas, ainda sim, não queria que aquele momento evoluísse para uma conversa, mesmo que, a cada segundo mais, eu sabia que era eminente.
—Você só vem a festas? — Ele suspirou.
—Da mesma forma que vou embora delas. — Bufei.
—Qual o motivo de vir se simplesmente se vai embora?
—Para me divertir.
—Você está se divertindo?
Por um segundo parei. Eu nunca estava me divertindo, eu sempre estava perdendo a cabeça por não estar confortável. Então, o que eu estava fazendo ali? O que eu estava fazendo da minha vida?
Steve apontou na porta.
—Boneca, tenho uma tarefa para você. — Ele sorriu, meio de canto de uma boca, um sorriso sedutor e inerente a ele.
—O que eu tenho de fazer?
Ele ergueu a mão e fui ao seu encontro, me guiou até uma sala com pouca iluminação e uma musica alta, então parou meu corpo a frente do seu e sorriu. Pensei em como eu não queria dançar, mas meu corpo já se movia, de encontro ao seu e de costas para ele.
Não sabia quanto tempo ficamos ali até ele me virar e me beijar, primeiro com carinho, depois com calor, cheio de mãos e ardências. Não sabia como subimos ao quarto, de quem era o quarto ou onde era o quarto. Não sabia se queria. O que eu sabia eram o que os flashs me diziam.
Lembro das escadas e seu carpete verde escuro, lembro da porta branca que foi fechada e trancada, lembro da colcha rosa sob a cama, lembro do peso do corpo de Steve sob o meu, lembro de falar não, de falar sim, do meu sutiã no chão, de Chip entrar no quarto aos berros, lembro de ver que a festa via meus peitos, de me cobrir com uma cortina qualquer, de entrar em um carro que não conhecia, lembro das árvores do meu lado, da falta de cerca na rodovia que dava para árvores e de entrar nelas, com o carro ao ar.
Lembro do acidente, de outro acidente.
Eu sempre precisei de pontapés.
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