Sons
25 Terceiro Strike.
Lembro-me das árvores, tão verdes e densas indo em direção ao meu rosto. Desde então, tudo ficou negro.
Não acordei durante o acidente, não fora a mesma sensação do antigo. Poderia ser uma pancada mais forte na cabeça, poderia ser a falta de barulhos. Aquilo não interessava, pelo menos, não para mim.
Queria saber como me encontraram, a gravidade da cena. Queria saber se havia sangue, se meu rosto estava deformado, se eu estava dentro ou fora do carro. Queria saber se alguém se chocou com aquilo. Queria que alguém tivesse duvidado que eu iria sair daquela.
Acho que ia ser mais fácil sair daquela se alguém tivesse duvidado de que eu conseguiria.
Uma que eu nem sabia qual era, mas reconhecia o chiado da dor latejante da minha cabeça.
Sempre precisava de empurrões. De dúvidas, de alavancas, de alguém que duvidasse de mim. Porque, no final das contas, eu também não acreditava que conseguiria e, se concordassem comigo, se existisse alguém lá fora que tivesse a mente remotamente parecida com a minha; haveria por quem tentar.
Mas não havia por quem tentar.
Havia só o chiado.
Havia só o vazio iluminado de qualquer quarto de hospital que eu estivesse.
Não queria estar ali. Então, entrei mais dentro da minha mente. Dentro de um abismo inacabado e inseguro chamado Francesca Wang.
E dentro deste abismo inacabado chamado Francesca Wang não havia nada, nada que valesse a pena ressaltar. Eu era a necessidade de atenção, o carinho por meus amigos e meu skate. Eu era uma igual a qualquer outra. Mas, bem lá no fundo, havia uma chama que poderia ser acesa se alguém tocasse nela.
Porém, só eu podia tocar nela.
Não havia mais ninguém que a alcançasse. Chip com seus grandes braços definidos não conseguiria, Mandy com seu olhar terno não chegaria, Steve nunca seria capaz de algo tão profundo... Não havia ninguém que tocasse naquela chama.
Levantei-me, de olhos abertos. Não havia ninguém no quarto, nada muito diferente do que eu esperava.
Queria ir embora, mas sabia que tinha de esperar algum funcionário me atender, me explicar várias e várias coisas que não importavam. Por um instante, eu não queria sumir, eu não queria fugir. Queria uma segunda chance, mesmo que essa fosse a minha terceira ou quarta.
Suspirei, infeliz e me prometi que aquela seria uma última vez, que seria uma última vez para tantas coisas que a minha lista mental foi se perdendo dentro da minha dor de cabeça.
Era um tipo de mudança diferente, uma mudança que aconteceu a partir de um acidente, mas a sua causa não foi ela.
Uma enfermeira chegou ao quarto, com os olhos calmos e um sorriso falso no rosto:
—Foi por pouco dessa vez, Francesca.
—Frankie. – Sorri – Por quão pouco?
—Ninguém ainda veio te contar o que aconteceu? – Ela dizia enquanto checava tudo que estava ligado em mim.
—Não, eu acabei de acordar. – Suspirei, insatisfeita.
Já tinha acabado de quebrar uma das promessas que havia feito para mim mesma. Talvez, eu devesse criar planos mais possíveis de serem completos.
—Sozinha? – Ela se virou para mim, acho que fora a primeira vez que me viu desde que entrou no quarto. Puxou uma cadeira que estava próxima a mim e se sentou ao meu lado, então, segurou a minha mão, uma que estava dormente pela quantidade de tubos que estavam em minhas veias – Você se lembra do que?
Olhei fundo em seus olhos. Eu não me lembrava de nada. Não havia como entender o porquê de tanto cuidado comigo.
—Eu lembro do carro sair da rota e entrar... Eu não sei aonde ele entrou, eu sei que tinham muitas árvores e... – A minha mente simplesmente parou.
Eu não conseguia me lembrar das coisas, de absolutamente nada. Não havia um borrão, não haviam flashs. Havia apenas a memória do que eu tinha contado, havia apenas uma lembrança da minha própria fala.
—Na verdade, eu acho que não me lembro nem disso. – Continuei.
—O carro capotou. Você e o seu namorado estavam em uma rodovia, indo para outra cidade, mas o carro saiu da pista e capotou em um barranco de mais de 6 metros de altura. Você sobreviveu porque estava enrolada em uma espécie de cortina que amorteceu a queda quando foi jogada para fora do carro, e só foi vista por causa dela, também.
As suas palavras não entravam na minha cabeça.
—Como?
—Você estava em uma festa, Fracesca. Usou drogas, muitas drogas, encontramos de tudo dentro do seu sistema. Houve uma briga, uma briga violenta entre o homem que estava no acidente com você e um outro garoto. Ambos estavam transtornados e até você foi atingida por socos. A polícia foi acionada e você fugiu de carro, enrolada em uma cortina roxa. Vocês seguiram por uma rodovia para sair da cidade, que foi quando o carro saiu do controle de vocês e capotou do barranco. Assim que ele rodou a primeira vez no ar, você foi jogada para longe e ficou presa em algumas pedras. O carro caiu o resto do barranco e explodiu.
—Steve? Ele...?
Apertei a sua mão, o que repuxou algum enxerto embaixo da minha pele.
Ela apenas fez que não com a cabeça.
Steve era um não com a cabeça agora e eu não tinha nem ao menos uma última memória sua gravada em minha mente.
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