Sons

15 Pista.


A pista era cinza, cheia de pichações, cercada por muros cobertos por desenhos coloridos. Era apenas um grande terreno cheio de curvas para acrobacias, ao fundo de uma praça extensa, repleta de árvores e bancos, cercada por grades altas.

Amava aquele lugar.

As árvores faziam com que tudo estivesse sempre com a temperatura amena, e, escondiam o nosso paraíso das vistas de outros garotos que iam ali apenas para fumar.

Chegava em cima das minhas quatro rodinhas, com o sol queimando em meu rosto. Assim que entrava na praça, a luz piscava em meio as folhas, me fazendo ter a visão turva, até que me acostumasse com isso. Então, na porta da pista, podia ver bem ao fundo, seus cabelos castanhos soltos ao vento, o cheiro de maconha me abraçou com carinho.

Queria correr até ele, até seu corpo, o beijar.

—Frankie! – ouvi qualquer voz grossa saindo de lá.

Não pude conter o sorriso.

Estava em casa.

Vários garotos levantaram as suas cabeças. Então, em um suspiro, vários correram até mim, mas pararam antes do abraço. Me senti tão amada e respeitada.

Abracei o primeiro que vi, e, assim, ganhei o maior abraço coletivo que já havia visto.

Não quis fugir, nada de coisas desconfortáveis. Era apenas amor, carinho e saudades.

E, como disse, não era uma garota cheia de sentimentos expressivos, a flor da pele. Mas fui consumida por uma felicidade tão grande, avassaladora e latente, que não havia como me conter. Lágrimas correram para as minhas bochechas e, então caíram ao chão.

Nunca havia me sentido assim. Meu peito pulsava, meu coração batia forte, minhas veias estavam cheias de algum hormônio do qual não entendia.

Minha mente tonteou, rateou, como quando a erva acaba de bater, fazendo um efeito leve e gostoso.

Os braços começaram a se desenrolar e se soltar, e eu comecei a limpar o meu rosto.

—Vocês são um bando de babacas, me fizeram chorar. – ri, secando meu rosto com as mãos.

—Queremos saber tudo que aconteceu. – um dos garotos gritou ao fundo.

—E mais várias coisas. – outro continuou ao meu lado.

—Me deem uma cerveja e um cigarro e serei de vocês.

Sentamos, eu e mais vários garotos. Com uma cerveja na mão, vários olhos atentos, pessoas andando com suas rodas ao nosso redor. Contei tudo sobre como o acidente realmente aconteceu, desde a bebida, ecstasy e a fratura exposta; falei da escola; do porquê não estava mais ali com eles todos os dias.

Recebi carinhos, perguntas, mais bebidas.

Em algum momento, tudo acabou. Subi em meu skate e andei pela pista, a estreando, antes de suavemente descer por uma das curvas e subir tão alto quanto podia no ar, caindo suavemente, começando aquilo de novo. Era nostálgico, como se aquilo fosse uma parte de mim que eu havia reencontrado, em um pequeno parque no final da cidade. Estava mais do que em meu elemento, ali, eu era eu mesma.

A bebida começou a subir, me fazendo cair uma, duas vezes. Chip me levantou, jogou água em minhas feridas, tendo um cuidado admirável, e, até desnecessário, comigo. Nos beijamos na frente de todos, abraçados em carícias.

Então, algo mais incrível que toda a ideia de casal – meio idiota, se me perguntassem – aconteceu.

Com um longo vestido colorido, grandes olhos delineados, um sorriso absurdamente lindo e uma mancha vermelha no centro da testa; Mandy entrou feliz na pista, segurando a grossa mão de Brad. Um casal exótico, bonito e feliz, que me contagiou com toda aquela energia.

A abracei. Dividimos uma cerveja.

Nunca me senti daquela forma. Eu era plenamente feliz. Não pela metade. Sem preocupações com a casa, a família, a polícia, libras, os toques ou Steve. Me sentia leve, plena, inteira. Não havia como ou porque segurar o sorriso.

A madrugada chegou e com ela o desejo de não voltar para casa. Não podia estragar todo aquele sentimento com mais brigas, com mais discussões.

—Você pode ir para a minha casa. – Chip estava sentado ao meu lado no meio de uma das maiores curvas da pista, sozinho, as quatro da manhã e com um cigarro entre os dedos.

—Eu tenho um histórico de tomar decisões erradas nesse horário da manhã. – suspirei.

—Essa não é uma decisão errada. É a mais certa a se tomar. Você não quer ir para casa, a única pessoa aqui sou eu. Vamos. – ele me passou o cigarro.

—E se me arrepender de algo que acontecer? – peguei o cigarro, traguei profundamente, queria sentir aquela fumaça pelo resto da minha semana.

—Então porque está comigo? – seu rosto se virou, me observando, com olhos ternos.

Parei algum tempo.

Era verdade. Porque estaria com ele se me arrependeria de algo que poderia acontecer?

A verdade é que... Não me arrependeria.

Era óbvio, eu tinha minhas dúvidas. Não sabia se estava pronta ou o que fazer. Queria ter essas certezas antes de fazer algo. Mas, acima de tudo isso, eu tinha a certeza de que não me controlaria perto dele.

Minhas pernas tremeram, com um arrepio que subia a parte de dentro das minhas coxas.

Chip sorriu e inclinou a cabeça para frente.

—Qual o problema? – seus dedos pararam em minha bochecha.

—Eu não quero fazer isso, não agora. Mas, se começarmos, sei que não vou conseguir parar. Você tem esse efeito em mim. – segurei sua mão.

—Vamos nem ao menos começar com isso. Vamos chegar, deitar e dormir. – ele beijou minha testa, então ergueu as sobrancelhas e colocou o dedo na ponta do meu nariz – Não quero saber de beijocas mocinha.

—Você promete? – ri, mas então, me levantei, seria.

—Prometo. – ele sorriu.

Começamos a andar em direção ao carro. Ele parou, sorriu e disse:

—Então, eu te deixo louca?