Sons

23 O beijo.


O beijo fora calmo, quente e, infelizmente, excitante. Senti-me mal, suja. Mas queria me sentir bem.

Sentia tudo ao eu redor, como todos aqueles sons que os rodeiam quando vamos a praia, como todos os sons que ela não escutava.

Levantei-me de sua cama em um pulo. Queria estar ao lado de fora da casa, ao lado de fora do meu corpo, ao lado de fora de mim. Olhei para o canto, lá estava meu skate, a minha parte favorita do meu corpo era agora a minha forma mais rápida de fuga. O segurei com força, com tanta força quanto segurava a minha sanidade.

—O que aconteceu? — Ela suspirou, assustada.

—Eu tenho que ir embora. Eu preciso ir embora. Eu não posso estar aqui. — Balancei a minha cabeça em não.

Dizia algo, sentia outra coisa, pensava uma mais outra e meu corpo não respondia.

—Tudo bem. — Ela assentiu, sendo perfeitamente perfeita, com todos seus defeitos.

Pure se levantou, com passos calmos e cuidadosos, como se não quisesse me assustar. Abriu a porta, respirando alto atrás da mesma. Não conseguia esperar, não conseguia suspirar, não conseguia funcionar. Corri para baixo, corri para qualquer coisa que não fosse aquele quarto que me fizesse sentir tão mal.

Não sabia como abrir a porta de saída. Não havia como gritar para que sua mãe abrisse a mesma e eu não tivesse que olhar a sua perfeita feição ariana.

Ela apareceu na ponta da escada e levitou até a minha frente, com uma calma sublime. Queria estar em todo aquele seu nirvana.

A porta se abriu e eu pulei para fora. Pulei para dentro de uma realidade mais próxima da minha, mais distante do que tinha acabado de acontecer.

Subi no skate e apenas segui, pelo que achava ser uma falta de rumo. Mas, em pouco, reconheci o urso de pelúcia e sua casa de boneca.

Chip e seus longos cabelos castanhos estavam em cima do seu carro, segurando um cigarro branco e um livro. Ele era a perfeição, mas me fazia sentir pior, muito pior. O que era sujeira e nojo, virou repudio. Eu queria sumir, deveria.

—Frankie! Você está pálida... — Seus olhos preocupados me viram de cima do retângulo preto. Ele se inclinou para ir ao meu encontro, o que me fez ir para trás.

—Eu beijei a Arizona! — gritei.

Ele parou.

Seu rosto se tornou vermelho.

Seu maxilar pulava junto com suas carótidas.

—Você fez o que? — Sua grossa voz era violenta.

Seu corpo grande se levantou do carro e se colocou no chão com o peso do mundo. Cada passo era um terremoto.

Fui indo para trás, assustada.

Quanto mais perto ele chegava, mais longe eu ia. E, quando não dava mais para fugir, subi de novo ao meu skate e fugi.

Fugi para o único lugar que entendia como casa, como seguro, como normal.

Aqui, seria necessário algum tipo de disclaimer, umas aspas. Todas as ações que me seguiram não passam pela minha cabeça como atitudes que eu tomei. Lembro-me de tudo como um flashback, como um filme, como uma história que me contaram. Poderia explicar tudo isso pela quantidade de drogas que usei. Ou, apenas pelo fato de que eu não queria lembrar de nada do que fiz.

Mas, afirmar isso, desta maneira, seria uma grande mentira. E, se estou escrevendo tudo isso, é para ser sincera, então, no final das contas, vou me contradizer.

Senti todas aquelas sensações esquisitas e boas do filme daquele dia. Eu quis tudo que fiz, mas não fiz tudo que quis. E agradeço a qualquer força divina que me impediu do mesmo.

Tudo começou com aquele beijo, da mesma forma que tudo começou com aquele acidente. Eu preciso de empurrões.

Segui para a grande casa verde na ponta final da cidade. Era bem na divisa, bem longe da minha casa real, mas era onde meu coração batia em uma sintônia calma e quieta. Aquele era o colo dos meus pais.

Ele estava ao lado de fora, como sempre. Era uma visão comum. O cigarro na boca, o sorriso triste, o maxilar proeminente.

—Eu sabia que você iria voltar, bonequinha. — Ele suspirou, pesado.

—Acho que merdas acontecem. — Fui ao seu encontro.

Steve me encontrou no meio do caminho. Parou meu skate com o pé e segurou meu braço firmemente. Pela primeira vez, notei o quanto aquilo era bruto, violento. Ainda sim, era um carinho.

Senti-me mal por sentir aquilo. Era ruim, mas não conseguia parar de sentir o querer, ou a culpa.

—Mas, porque voltou? — Sua respiração pesada veio de encontro ao meu ouvido.

Ele me segurava perto, muito perto, tão perto quanto sempre me segurava. Era bom, era carinho e era casa.

Não podia mentir. Ele sabia da verdade, ele sabia de todas as verdades do mundo. Apenas o olhei debaixo e mordi os lábios, em tensão de pensar o que estava em minha mente e saber que não podia pronunciar nenhuma daquelas ideias.

—Eu sabia, bonequinha, eu sempre soube... Você deveria pensar mais antes de fazer as coisas. – Ele riu, em deboche, então encostou o indicador na minha testa, soprou fumaça em meus olhos e suspirou – Eu sou o único que vai te fazer feliz, porque do meu lado, você está sempre em contato com o pior de você.

E era a verdade. Era o meu momento de fuga. Aqui, eu deveria ter subido em meu skate e corrido para a minha casa, deveria ter contado toda essa história sobre o lobo mau do meu melhor amigo que me fazia fazer coisas absurdas.

Infelizmente, ali, eu já não era Frankie.

Ali eu era a bonequinha.

Então, em um pique de adrenalina segurei ambos seus braços para baixo, me elevei na ponta dos meus pés, abracei a sua cintura por baixo da jaqueta de couro e o beijei.