Sons
9 Me validei como pessoa.
Entrei no ônibus escolar sorridente.
Chip recebeu um telefonema de sua mãe e teve de ir embora. Não tivemos a chance de conversar a respeito do beijo. O que não invalidou a beleza do que aconteceu.
Estava feliz. De uma daquelas formas idiotas que não achei que ficaria. Minhas músicas não eram animadas o suficiente, felizes o suficiente, mas as cores eram diferentes, mais claras, mais vivas.
Ele havia plantado uma semente em mim, que me fazia ter uma grande vontade de levantar e participar das coisas, talvez, até mesmo participar da minha própria vida.
Observei as ruas, as árvores, nunca soube que amava dias claros. Dias em que o sol batia em meu rosto, que a pele ficava mais escura, dias mais longos...
Logo, estávamos na parada de Mandy, que entrou no ônibus com um brilho diferente, nos olhos, no rosto. Era tão linda, sempre fora, mas a felicidade lhe fazia tão bem... Seu sorriso caminhou até se sentar ao meu lado.
—Você parece feliz. – ela sorriu.
—E você também. O que aconteceu? – meus olhos pararam sobre os seus.
—Eu tenho um encontro hoje à noite. Um encontro oficial. – seus olhos brilharam.
—Com quem? – ergui uma sobrancelha.
Nós já havíamos falado sobre garotos – e garotas —, mas nada tão oficial que levasse a um encontro oficial.
—Um dos seus garotos... – ela se inclinou para mais perto do meu ombro, ponderou suas palavras, deu os ombros e continuou – Brad. Estamos nos encontrando meio em segredo há muito tempo... Tem anos que ele vem a minha casa, que eu o encontro em festas, que vou a sua casa... Ontem, ele me ligou e disse que algo havia o inspirado e, agora, decidiu de uma vez por todas que quer me assumir.
Mandy olhava para baixo. Provavelmente, buscando fugir de algum julgamento.
Não iria o fazer. A entendia.
Se havia algo que eu realmente conhecia sobre aquela garota, era como era forte e independente. Daquele tipo que não carrega as coisas para casa, mesmo que isso envolva fazer uma cena na cafeteria da escola. Se isso realmente estivesse acontecendo durante tanto tempo, se isso tivesse sido arrastado até aquele momento, havia de ser um sentimento real e profundo para justificar tudo. Daquele tipo de sentimento que desfocam sua visão.
—A gente sempre soube que ele tinha uma garota... Só que nunca soubemos quem era. É bom dar um rosto a lenda. – sorri, queria quebrar o clima sério.
—Não era muito isso que ele dizia quando acabava. – ela suspirou.
—Tudo bem. – respirei fundo – Não há como acreditar que você se submeteria a isso, sabe? Tem que ser algo grande demais para deixar morrer. Você me disse que eu sou frágil demais para lidar com um cara como ele. Mas eu tenho toda certeza do mundo que você é forte o suficiente e até mais para o trabalho. E, se chegar ao ponto de tudo ficar feio, você vai se tirar dessa, e se não tirar, eu te tiro. Além do mais, você sabe que eu estou aqui.
Tentei segurar sua mão, mas não consegui durante muito tempo. Cheguei a tocá-la, a apertar seus dedos entre os meus, mas tive de soltá-la. Mandy se alegrou muito com aquele pequeno gesto, com aquele pequeno esforço.
—Algo tem de ter acontecido com você.
—Eu me validei como pessoa. – sorri.
—Então, você acaba de não conseguir segurar a minha mão, mas beijou uma pessoa? – ela ergueu uma das sobrancelhas.
—Não foi algo assim... – gesticulei – Não consegui deixar que ele me tocasse, com as mãos, mas o beijo em si não foi um problema. Eu acho... talvez, se eu tentar de verdade, eu consiga.
Era um grande avanço.
Antes daquela tentativa, eu era cética. Sabia do meu bloqueio e acreditava que conhecia a sua totalidade. Tudo foi quebrado no instante do beijo.
Poderia fazer aquilo. Logo, não era um bloqueio, era apenas uma condição, que tinha cura. Seu fim era algo que eu queria, algo que me traria prazeres e felicidades.
Um grande desejo de vê-lo de novo, de fazer aquilo de novo, de tentar ir mais longe, inundou o meu peito. Estávamos muito longe da escola? Eu estaria muito longe de Chip?
—Você mudou, Frankie. Eu gosto de você, da nova você. – seu sorriso terno aqueceu meu coração.
O pouco caminho que restava foi cheio de silêncio e devaneios, viagens naquele desejo.
Chegando na escola, desci do ônibus, subi em meu skate e segui até o estacionamento. Queria ver o quadrado, preto e antigo carro parado, em sua vaga usual. Infelizmente, ele não estava ali, apenas os insatisfeitos Brad e Nolan. Coloquei meu pé ao chão, parando as pequenas rodas rapidamente.
—Chip? – suspirei.
—Ele deveria estar com você. Recebemos mensagens muito cedo de que ele iria a sua casa. – Brad se levantou.
—Ele foi, mas teve de ir embora. – olhei para cima, a fim de enxergar o grande garoto a minha frente.
Talvez, eu não tenha mencionado isso antes, mas Chip não era o único garoto que chamava a atenção do grupo. Brad era alto, negro, com traços fortes e grosseiros, tinha uma beleza tipicamente africana, grandes e largos braços de um viciado em academia e uma voz com o potencial de te colocar para dormir antes da briga. Nolan era o único que se escondia, dentro dos seus braços magros, franja esquisita e toucas fluorescentes.
—Você é tão ruim assim? – ele apertou o sorriso, num típico olhar sério que fazia ao brincar.
Senti uma orla crescente de raiva invadir o meu corpo. A maior parte do tempo, eu queria bater nele, por exatamente esse tipo de brincadeira, e era por isso que eu o amava tanto.
—Brad, eu não sou você. – sorri.
—Você está ficando boa. – ele me deu um soquinho no braço, que eu devo dizer que doeu.
—Temos aula de física. – Nolan se levantou.
Peguei meu skate.
—Entediante! Como ficamos tão chatos?! – virei-me para o prédio.
—Você bateu muito forte com a cabeça, acho que esqueceu que somos obrigados a te seguir. – Brado começou a andar em direção a entrada da escola.
Segurei Nolan para trás por algum tempo, para que pudéssemos conversar, então cheguei bem perto do seu corpo e disse:
—Eu sei quem é a garota dele.
—Vai me contar quem é?
—Te aponto ela na aula de trigonometria. – comecei a andar.
—Então nos levou dois anos? – ele sorriu, me seguindo.
—Algumas coisas levaram mais tempo. – subi no skate, indo em direção ao prédio.
Se era o inferno o meu destino, que entrasse com classe.
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