Sons
27 Mandy.
Queria dizer que tudo que se seguiu daquela conversa com a minha mãe foram flores, que ela seria a última a respeito de nossos desencontros e desentendimentos. Mas nem eu, nem vocês acreditariam que as coisas da vida podem ser simples assim. Na chegada da fila da hamburgueria já estávamos discutindo novamente.
Ainda assim, aquele grito me ajudou a libertar algo significativo, mas acabou por ecoar dentro de mim.
Era absurdo pensar que eu realmente acreditava naquilo, que eu realmente queria que, no dia do mais terrível dos acidentes, minha própria mãe tivesse ido e meu pai ficado.
Como isso iria me fazer melhor?
Em que tipo de realidade aquilo seria aceito?
Se essa fosse a verdade, meu irmão não existiria. E, eu não acho que consiga imaginar um mundo no qual ele não esteja gritando e correndo pela minha casa infestada por seus brinquedos fora de lugar.
Se essa fosse a verdade, eu nunca teria conhecido Steve. O que significa que eu provavelmente nunca teria andado de skate na vida, e, se tivesse, aquele não seria meu ato de rebelião; poderia ser uma relação completamente diferente da que conhecia.
Será que meu quarto, aquele no qual estava deitada, olhando para cima e fazendo essas indagações, seria azul? Será que esta casa, seria a minha casa? Será que todas aquelas roupas seriam minhas?
Não acredito que nada do que conhecia como mundo seria repetido neste universo alternativo.
E, talvez, só talvez, fosse por isso que aquele fosse o meu desejo. Todas as mudanças seriam tão radicais que poderiam ser exatamente o que eu precisasse, não só neste momento, mas em qualquer que seja o tal que me fez começar a perder a cabeça.
Houve uma batida tímida na porta do meu quarto, que, de forma abrupta, interrompeu meus pensamentos.
—Pode entrar – sentei–me na cama, o que me fez cair a pressão por alguns segundos.
Sabia que ainda não estava bem, mas não sabia o quão frágil ainda estava.
—Antes, eu acho que te devo um milhão de desculpas – a voz do outro lado era mais do que reconhecível, era um familiar tão gostoso que esquentou meu peito.
—Não posso acreditar em você sem olhar nos seus olhos.
Com um rangido pequeno, a porta se abriu. Duas grandes pernas indianas se esgueiraram para dentro do meu quarto e se cruzaram a minha frente, fazendo com que Mandy se sentasse me olhando nos olhos.
Ela ainda era uma visão maravilhosa.
—Eu não conseguiria – ela suspirou.
—Porque?
—Pelo simbolismo, Frankie... Não há uma maneira boa de explicar isso, mas, acho que nós temos aquela ligação infantil até hoje. E eu só sei que não conseguiria te ver daquela forma, ainda mais, por algo que Steve causou.
Não, não fora ele que causara aquilo. Mas com todo o meu conhecimento sobre como as coisas funcionavam dentro da cabeça daquela mulher, não havia como discutir.
Ela estava ali, não estava? Tentando se redimir.
No momento e, pela forma como seus olhos me encaravam, não precisei de mais nada para entender que era genuíno.
E simpatizei. Talvez, pela paciência que ela teve comigo ao longo dos anos, ao longo do nosso afastamento, ao longo de todo o período pelo qual eu fui um ser humano horrível e uma amiga pior ainda.
Segurei sua mão e assenti.
—Está tudo bem – sorri.
—Está tudo bem? – ela ergueu uma sobrancelha.
E não estava.
Mas aquilo era o suficiente para fazer a minha dor se amenizar por algum tempo.
Mandy foi uma parte tão importante da minha mudança, tão importante do meu crescimento. Não havia como culpá–la ou deixá–la ir. E, se eu realmente queria mudar, ela tinha de estar ao meu lado, essa era uma das minhas certezas, que agora constituíam de uma lista com: skate, minha mãe e Mandy.
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