Sons

28 Culpa.


Meu coração queria e lutava para se acalmar, buscando ficar longe de todos os assuntos inacabados presentes em minha vida. Porém, haviam ainda muitas coisas a serem resolvidas, e, eu tinha de as finalizar muito mais do que aquietar meu peito palpitante, caso contrário, aquele seria um estado contínuo de puro caos.

As mãos da indiana seguravam as minhas e eu só conseguia pensar em quem desencadeou toda aquela libertação. Então, as palavras apenas pulavam da minha boca:

—Chip! Eu preciso ver Chip.

Todo o meu ar saiu de dentro do meu peito, como um sopro quente e meio abafado e desistente assim que eu ouvi as palavras que saíram da minha boca.

—Porquê? – Sem negar seu espanto, ela ergueu ambas as sobrancelhas.

Respirei fundo. Talvez, ela não sabia de toda a história, pelo menos não daquela noite.

Ou sabia?

—Você sabe o que aconteceu entre nós? Na noite do acidente? – Soltei ambas as suas mãos, tentando me livrar da memória que aquele toque me traria.

Será que, para sempre, uma segurada de mãos significaria ele?

Além de que, aquilo não funcionou.

—Eu sei que todo mundo sabe, Frankie. Um boato sobre como Chip correu atrás de você durante toda a cidade e, quando te achou você estava em alguma festa transando com Steve... Eu tentei não acreditar neles, mas tem um vídeo rodando toda a escola, e nele você aparece saindo de um quarto seminua, completamente bêbada e uma briga horrorosa acontecendo bem na frente.

Seu rosto estava confuso. Era uma mistura entre choque, desapontamento e um desejo absurdo de entender aquela bagunça. Ela balançava a cabeça em um não, olhando para baixo e jogando o seu corpo para trás.

E tudo que se passava na minha cabeça era: "Eu também, Mandy, eu também queria entender toda aquela bagunça".

—Você sabe que eu tenho que aprender libras, não é? Para poder me livrar do serviço comunitário?

Ela assentiu.

—Estou tendo aulas particulares com uma das garotas da escola de surdos aos domingos, Pure. – Ela segurou na minha mão, mas a repuxei, precisava gesticular – No dia do acidente, ela me beijou.

Houve uma pausa, um silêncio que corroeu as paredes do meu quarto, junto com seus olhos semicerrados.

—Eu me senti um lixo, eu me senti o pior lixo da humanidade! – Continuei – Então eu simplesmente fugi e fui de encontro a coisa mais reconfortante que eu tinha memória.

—Você contou para ele? – Ela suspirou, profundamente.

—Quando eu vi os olhos dele, Mandy, eu não tive como não contar. As palavras simplesmente saíram da minha boca, elas pularam para fora. E eu tinha quebrado o coração dele, quebrado o coração da melhor coisa que já aconteceu comigo.

Ela se repuxou para trás, colocando uma mão em sua testa. Eu podia sentir em sua respiração o quão desapontada aquilo tinha a feito ficar.

—Você caiu em hábitos antigos, Frankie – ela me completou.

Aquilo me fez sentir pior, de alguma forma.

Eu não queria ser fraca, mas eu fui. Fui tão sem forças que acabei indo de encontro a quem mais me fazia mal, a quem mais me usava.

—Acho que fui muito além, não? Afinal de contas, eu dormi com o inimigo... Eu acabei matando o inimigo.

Respirei fundo.

Era a primeira vez que tinha reconhecido a morte dele em voz alta.

—Frankie... – ela puxou ar para dentro, muito ar para dentro, mas não conseguiu falar.

O quarto se tomou pela pausa que ela tomou.

Mandy se ajeitou para frente, colocou ambas as suas mãos em meus ombros e, com olhos calmos e carinhosos continuou:

—Steve não era o inimigo. Ele pode sim ter sido uma pessoa ruim para você, mas também foi muito boa. Certas coisas te moldam, certas coisas fazem parte do que nós somos; julgá–las mal é dizer que somos maus. E você não é uma pessoa ruim. Você está confusa e quebrada, mas ninguém pode te culpar pelas decisões que toma. Acidentes vem acontecendo com você desde que era pequena, nem sempre tomamos os caminhos certos da vida para lidar com esse tipo de coisa, você teve sua cota de escolhas erradas, mas quer mudar e isto já prova o quanto merece perdão. Mas, para isso, você tem que se perdoar antes. Ninguém te culpa pelo acidente de meses atrás, ninguém te culpa pela morte de Steve ou do seu pai, apenas você. E, se você não se perdoar, nenhuma escolha certa será boa o suficiente para te curar.

Suas mãos pesadas saíram de cima dos meus ombros, junto com um peso enorme.

E se há um Deus, obrigada por ter colocado este anjo na minha vida, eu realmente precisava.

Assenti.

Respirei o ar contaminado pelos conhecimentos elevados da indiana, que sorriu e saiu da cama:

—Vamos ver Chip.

—Agora? – Me retraí.

—Sim, você vai com estas roupas? – ela apontou para as minhas calças de moletom.

—Mas, Mandy...

—Francesca Wang, você é a garota mais corajosa do mundo e não sobreviveu dois acidentes para ficar paralisada em seu quarto com medo do que algum garoto pensa de você.

Sorri.

Ela me segurou por ambas as mãos e me levantou.

Apesar das suas palavras alegres e animadas, não foi aquilo que me impulsionou. O empuxo dos seus firmes braços me deu uma certeza que eu só tinha em cima do skate, uma que me levara ao encontro com o que era, no momento, um dos meus piores pesadelos.

Engraçado como eu fiquei feliz por isso.