Sons
8 Frankie, é só um beijo.
O alarme soou.
Pensei em como poderia não ir para a escola. Esperaria até a minha mãe sair de casa, então tomaria um longo banho, assaltaria toda a geladeira. Seguiria com o meu skate até a pista, ficando lá até de madrugada.
Meu telefone tocou, logo em seguida. Não como em uma mensagem, mas uma ligação. Em meio as cobertas, meu celular deveria estar conectado ao carregador, perto da parede. Procurei, tateei durante toda a extensão da cama, até encontrar aquele retângulo que vibrava. Assim que desconectei o celular da tomada, a ligação foi interrompida.
Abaixo das horas, havia um símbolo de um telefone verde com um nome ao lado: Chip. Porque ele estaria me ligando?
O telefone vibrou novamente, então a batida começou e finalmente a tela se transformou em algo que eu poderia atender. Arrastei o pequeno ícone de telefone no final da tela para a direita e atendi o telefone.
—Você nunca me disse que toda a sua família é chinesa. – sua rouca voz soou.
—Nossa descendência é, na verdade, japonesa. – bufei.
—Então asiáticos sempre se casam com asiáticos ou algo do tipo?
—Na verdade, eu acho que foi só a minha mãe que, sendo japonesa, conseguiu engravidar de dois japoneses e ter dois filhos de olhos puxados de pais diferentes.
Ele riu. Uma curta risada abafada, que soava com um "rã". Pelo que o conhecia, sabia qual era aquela risada. Era do tipo que faziam seus ombros mexerem para trás e se fechava em um sorriso do canto esquerdo da boca. Toda aquela imagem mental do que havia acabado de acontecer me arrancou um arrepio entre as coxas.
Por quanto tempo eu estava me sentindo assim? Lembrando de todos os detalhes, fantasiando e arrepiando em seu nome?
—Estou na sua sala. – ele continuou.
—Me prove. – sentei-me na cama, com uma pitada de desespero correndo pela minha espinha.
—Seu sofá é marrom, as almofadas são amarelas, sua mãe pinta os quadros laranjas da sala, seu irmão anda grudado com um cavalo roxo e você peida enquanto dorme. – sua voz estava calma, firme.
Levantei-me, subitamente. Ele realmente estava na minha sala, agora, eu só tinha de tentar conversar com ele o máximo possível para poder me arrumar e descer dali.
—Quem te deixou entrar?
Andei em direção ao closet, que estava uma completa bagunça. No chão, havia um short, no qual me deslizei para dentro.
—Sua mãe... Ela faz torradas maravilhosas.
Uma única blusa estava no cabide, bem a minha frente. Preta, grande, larga, com um macaco zumbi e verde desenhado na frente. A joguei para minha cama.
—Se acha isso, deveria conhecer as panquecas dela.
Abri uma gaveta, vi um sutiã e o joguei sobre a cama, saindo do closet.
—Vai demorar para descer? Eu posso subir aí...
—Não suba, estou pelada. – coloquei o telefone no viva voz, retirei minha blusa de pijama.
—Então eu definitivamente vou subir aí.
—Já vou descer, Chip. – desliguei o telefone.
Entrei em minhas roupas. Corri para o banheiro, desodorante, dentes e cabelo. Desci, descalça. Mas, em meio as escadas, tremi.
Chip estava sentado na sala. Ele me ouviria ou veria descer. Não queria me sentir idiota assim, mas estava. Respirei fundo, ergui a cabeça. Terminei meu trajeto, e virei para a esquerda.
O sofá não dava para a escada, mas sim, para a televisão. Vi sua cabeleira castanha, que ouviu meus passos tímidos até a sua direção e se virou.
—Acho que nunca tinha visto as suas pernas, Frankie. Você é muito mais do que imaginava. – ele se levantou.
Alto, com uma blusa de mangas apertadas, deixando claro seus braços torneados e aquele cabelo que caia sobre os ombros. Eu o vi pela primeira vez, e, deuses, como ele era bonito.
—Você é um babaca. – sorri – Onde está o resto da minha família? Devo me preocupar que você os assassinou e eu sou a próxima?
Continuei caminhando até a cozinha.
Abri a geladeira, peguei o suco de laranja e uma geleia de morango.
—Não tive tempo de os enterrar ainda, estão no quintal. Estou pensando em te fazer cavar as covas de vocês três antes de te matar. – ouvi sua voz me seguindo de longe.
Sentei-me sobre a bancada, ao lado da pia, de frente para a janela. Minhas torradas sempre estavam ali e neste dia não foi diferente. Coloquei tudo junto do meu lado, na bancada. Abri as pernas, então a gaveta que estava no meio delas e retirei uma faca.
—Eu posso comer meu café da manhã primeiro? – passava a geleia no pão enquanto falava e enquanto Chip entrava pela cozinha, ajeitando suas madeixas.
—Ela levou seu irmão a algum lugar antes de o deixar na escola. E é completamente louca de me deixar sozinho aqui com você. – ele parou, a minha frente, apoiado na mesa que estava a poucos passos de mim.
—Ela te conhece. – sorri, mordendo a minha torrada.
—Como?
—Ficamos muito chapados em uma festa do Steve, então você, eu e o Nolan viemos dirigindo até a minha casa. Eu não conseguia entrar, porque perdi as minhas chaves, então dormimos todos no carro. Na manhã seguinte ela nos trouxe café da manhã antes de te pedir para tirar o carro porque tinha de ir trabalhar. – estava mais concentrada na minha torrada que nele, já que sua presença me deixavam nervosa.
—Eu não me lembro disso. – ele apertou os olhos.
—Ela sim, minha mãe se lembra de tudo. Já está aqui há muito tempo? – coloquei a minha torrada de lado, arredei um pouco para frente na bancada, olhei para ele.
—Frankie... Você tem alguma ideia do porque eu estou aqui? Não viria se não fosse algo importante. – ele juntou as mãos, estalando os dedos, era uma espécie de tique, sempre que estava nervoso o fazia.
—Sem rodeios. Me diga. – suspirei.
—Porque as pessoas não podem encostar em você? – ele deu um tímido passo para frente.
—Eu não sei, Chip. – respirei fundo, e ele deu mais um pequeno passo – Só sei que quando acontece, eu preciso fazer com que pare.
Chip parou, estava entre as minhas pernas, bem na minha frente, com ambas as mãos na bancada, me envolvendo. Seu rosto estava próximo ao meu, seu hálito emanava hortelã. Não queria fugir, retirá-lo de cima de mim, mas definitivamente não queria pular em seu pescoço e sentir suas mãos em meu corpo.
Minha nuca estava arrepiada, minhas pernas tremiam e meu coração pulava dentro do meu peito rapidamente. Meu corpo o queria, tanto, pedia por ele, mas minha mente me puxava para trás. Estava em conflito, uma batalha muito grande, mas não queria que ele notasse.
—Eu quero tocar em você, sempre quis, mas não sabia quanto até o acidente. Achei que era atração, só isso, já que você é uma garota muito bonita e a gente se sempre se deu tão bem... Mas... Pensamos que você tinha se machucado quando ligou do hospital, todos nós. Mas eu pensei que ia te perder, que não veria você mais. Fiquei em pedaços! Isso é mais do que uma atração física. Talvez, eu queira só você, tocar só você. – ele deu uma pausa – Precisava te contar isso, tirar isso do meu peito. Eu não sei quando vou começar a entender isso tudo, e se vai doer... Já que, você não vai me deixar fazer isso.
—Eu posso tentar. – as palavras pularam da minha boca, em desespero, rápidas, soluçadas, altas demais.
Com cuidado, ele pegou uma das minhas negras madeixas e colocou para trás da orelha, expondo meu pescoço. Seus lábios se aproximaram dali, sua respiração pesou ali.
—Não consigo parar de pensar nisso... Em você... No seu pescoço... Na sua boca... – suas palavras saíram com um quente ar.
Tremi, de forma que ele pudesse sentir, escorregando na bancada, indo para frente. Suas pernas tocaram nas minhas, mas aquilo não me assustava. Soltei um baixo e oco gemido entre um rápido suspiro quente. Estava sem controle nenhum sobre meu corpo.
Não era muito e eu sabia disso, mas aquela foi a experiência mais próxima do sexual da qual já havia participado. Aquilo me fazia sentir todo o meu corpo, pela primeira vez na minha vida.
Chip sorriu e retirou o rosto dali, me olhando nos olhos. Estava corada, com o rosto em fogo, com o sangue pulsando forte em meu corpo, vibrando, me fazendo sentir a força do meu coração na ponta dos meus dedos, pés, virilha, braços, pescoço e testa.
Seu olhar se transmutou para uma timidez respeitosa, sua boca tremeu um pouco.
—Eu posso?
Respirei fundo. Frankie, é só um beijo.
—Sim.
Sua mão direita se levantou, se aproximando do meu rosto. Aquilo me assustou, me fazendo recuar. Segurei seus dedos com cuidado e abaixei sua mão, segurando ambas na bancada. Ele assentiu, apertou os lábios, sorriu timidamente.
Seu rosto, se aproximou, devagar ao meu, seus lábios se aproximaram devagar aos meus. Pouco a pouco, estávamos respirando o mesmo ar, pouco a pouco nos tocamos, no primeiro beijo da minha vida.
Fale com o autor