Sons

29 Até Logo.


Cheio, o caminho da minha casa até a dele não teve grandes reflexões. Fora inundado pelo calor da tarde que se seguia, com música alta, casos contados e risadas compartilhadas, o que tomou conta da maior parte da minha mente, que, às vezes, era invadida por uma pontada de algum sentimento vazio quando eu observava pela janela.

Quando o carro parou, porém, a minha cabeça se encheu tão rápido quanto a virada da chave da ignição. Meu coração foi parar em minha garganta, ainda que estivesse completamente parado. Entalado e adormecido, foi assim que ele se sentiu após ser quebrado pela primeira vez.

A pior parte, talvez, é que eu havia o quebrado.

Mandy, gentilmente, colocou a sua mão direita sob a minha coxa esquerda e assentiu. Mas aquilo não funcionou, não surtiu nenhum efeito.

Porém, alguns segundos depois, alguma luz dentro daquela casa se acendeu. Aquilo funcionou.

Tive um surto de coragem arrasador, daqueles que faz os cabelos do braço eriçarem, dominando todo o meu corpo. Saí do carro e bati a porta atrás de mim, com uma força que normalmente não usaria. Coloquei o capuz da minha blusa de moletom e caminhei em direção a casa, tal que já havia me feito imensuravelmente feliz, mas agora me tirava um sentimento horrível.

Bati na porta, já desistente. O surto arrasador já havia acabado. Ali, era só eu e a minha respiração irregular.

Algum tempo se passou. Imaginei que ninguém houvesse ouvido a porta, então peguei meu telefone para enviar uma mensagem. Porém, antes que eu terminasse de digitar todas as palavras, a porta se abriu.

Seus longos cabelos castanhos caídos sob os ombros me pegaram completamente desprevenida. Com força, todo o meu ar foi arrancado para fora do peito, colocando meu coração em seu local de direito. O empuxo fez com que ele voltasse a bater, firme, forte, acelerado, pulsando incessante e dolorido em meu peito. Tudo me remetia à violência.

Engoli a seco, em uma tentativa inútil de me acalmar, de me controlar.

Não importou o quanto eu tentava, o quanto eu me esforçava para colocar as palavras para fora, elas simplesmente não saiam.

—Você quer entrar e conversar? – Ele comprimiu os lábios, interrompendo o meu pequeno ataque de emoções.

Eram lábios perfeitos, mas a hora havia chegado, não havia como fugir.

—Sim – assenti, não que houvesse muito o que fazer dali.

Chip abriu mais a porta para que eu pudesse entrar, o que eu fiz com a cabeça baixa. Ele a fechou atrás de mim. Caminhamos lado a lado até seu quarto, em um silêncio que gritava.

Um terror inundou o meu peito. Queria sair dali, correndo e colocando tudo que estava dentro do meu peito para fora. Mas eu tinha de ser forte, pelo menos, aquela vez.

Chegamos ao seu quarto, ele se sentou em sua cama e eu me sentei ao seu lado, então, após respirar fundo, ele começou:

—Sobre o que você quer conversar?

—Eu achava que, pelo menos isto, você saberia.

—Eu não sei, Frankie.

—Você realmente não acha que fez nada de errado? – Fechei meus pulsos, em uma raiva devastadora.

—Não, Frankie. Eu não acho.

—Chip! Eu me abri para você, e eu tentei ser o que você queria que eu fosse, mas no meu primeiro erro você acabou com a vida do Steve!

—Você me traiu! – Ele se remexeu na cama, ficando grande, grande demais.

Era assustador, o seu grito, a voz grossa. Eu não me senti segura.

Foi a conta certa para que eu caísse em lágrimas, em prantos, em desespero.

Chip tentou segurar as minhas mãos, o que apenas me deixou mais irritada, e, com aquela soma de sentimentos, eu explodi:

—Nós não estávamos namorando, Chip! Arizona me beijou, e eu vim aqui em busca de conforto, não de ataques! Se eu soubesse que tudo isso ia terminar do jeito que terminou...

—Eu posso ir para a cadeia pela morte de Steve, Frankie, eu não preciso de mais você me enchendo de culpa.

—Eu não vim aqui para te culpar, porque eu não te culpo – respirei fundo, tentando falar mais baixo, tentando me controlar.

—O que você veio fazer aqui então?

—Exigir que você me peça desculpas e te pedir desculpas por ter de terminar com isso, conosco – suspirei.

—Porque?

—Porque eu não preciso de você para me validar como pessoa, eu não preciso de ninguém. E, se for para realmente começar um capítulo novo em minha vida, eu preciso disso.

Sua reação não fora nem ao menos próximo do que eu imaginava.

Chip levantou da cama, devagar, já que sabia que estava me assustando. Então, se ajoelhou a minha frente, entre as minhas pernas. Levantou as mãos, com cuidado, e lentamente as levou até meu rosto. Afagou as minhas bochechas em um carinho e cuidado gostoso, que me remeteu as coisas boas que vivemos juntos.

E eu sorri.

Ele aproximou o seu rosto do meu, e me perguntou que se poderia me beijar. Assenti com cuidado, até que nossos lábios se tocaram.

Pude sentir suas lágrimas quentes em meu rosto. Até que ele parou o beijo e colocou sua testa em encontro com a minha. Limpei o seu rosto, limpei o meu rosto e sussurrei um adeus.

E ele apenas me respondeu um breve: "até logo".