Sons
30 Acabou.
A casa. Eu estava parada do lado de fora daquela casa.
Tenho a impressão de que esta frase soou meio genérica, não? Afinal, esta história, a minha história, é cheia de casas. Ou vocês ainda não notaram? História repleta de casas que foram consideradas locais seguros, mas, infelizmente, quase nenhuma delas permaneceu assim.
Seria justo que tudo acabasse em uma casa... Alguma que significasse o que o final disso tudo deveria significar. Uma nova página na minha vida, algo grande, algo novo.
Mas, então, temos de assumir que mesmo repleta de casas, a minha história começou dentro de um carro. Um carro rodopiando em uma rua, com Steve ao meu lado, sangue em meu colo e drogas em meu sistema. Dor e desespero.
Vocês têm que concordar que, de fato, algo acabou em um carro, com Steve voando pelos ares, junto com meu coração.
Há ainda a pista. Há ainda o topo do meu skate. Há ainda mil e um lugares importantes, conversas importantes, sentimentos importantes e palavras não expressas nestas linhas que, querendo ou não, me influenciaram de alguma forma.
São tantas vertentes insaturadas de contos e recontos que eu nunca seria capaz de contar em uma história.
Porém, eu estava parada do lado de fora daquela casa.
O mundo inteiro estava em repleto silêncio. E aqui vem a ironia poética, já que o título de toda essa bagunça é sons. Como eu queria que houvesse algum som ali, mas era só silêncio. E aquilo ficaria marcado na minha mente para sempre, a forma como tudo ao meu redor se calou para que minha cabeça pudesse funcionar.
A minha mente gritava, absurdos. Desde palavras absurdas a uma altura absurda. Mas era só ali dentro.
A rua estava quieta. Os cachorros não latiam. Nenhuma das casas ao meu redor emitia algum som, principalmente, a qual eu estava parada na frente.
Casas de pessoas surdas possuem um chiado característico, mas acho que isso é alguma coisa de pessoas que escutam inseridas nesse meio. Você só vai ouvir nas primeiras vezes que entrar ali. É uma defesa, um reflexo. Seu cérebro preenche o que acha que é um espaço vazio, então, quando notar que não é vazio, mas sim um cheio de vida colorida sem som, o chiado simplesmente some.
Naquele dia, porém, houve uma necessidade de preencher muito mais do que um vazio no ar, na sonoridade da vida. Era uma necessidade de preencher algo que ficou vazio dentro de mim. O chiado era diferente. Era daqueles que começa fino, baixo e acaba por te ensurdecer.
Mandei uma mensagem, o tique das teclas me acalmou um pouco, mas não fez com que o tique da minha perna parasse. Eu estava ali, parada na frente daquela casa.
Com loiros cabelos, ela se sentou ao lado de fora comigo. Sem muitos rodeios, o mundo se encheu de um doce sabor de morango e um olhar terno, mas amedrontado.
Em língua de sinais, ela me perguntou se aquilo era um adeus e eu assenti.
—Eu vou para fora da cidade, com Mandy. Isso aqui é tóxico para mim, sempre foi. Ela tem dezoito anos, temos algum dinheiro, e um plano meio furado – olhava fixa em seus olhos, enquanto ela seguia o contorno da minha boca, tentando captar todas as palavras que saiam dali.
—Você vai dar conta, Frankie. Tudo vai dar certo – sua voz nasalada e um carinho no pulso aqueceram meu coração.
—Eu só vim me despedir de você, de todos os outros foi um... Pedido de desculpas ou aviso de fim – suspirei.
—Nunca começamos nada – ela sorriu, então, com gestos, completou – E talvez é só disso que você vai se arrepender.
Pure tinha razão.
Eu não me arrependi de ter fugido do meu serviço comunitário de sentença esticada para seis meses, de nunca ter deixado um bilhete para minha mãe, de não ter colocado flores no túmulo do meu pai ou de não ter levado aquela blusa. Eu me arrependi de só ter tido aquele beijo, aquele que matou Steve, como a nossa única lembrança viva.
Ela mudou minha vida. Me instigou fascínio pela comunidade de surdos, transformou a forma como eu lidava com a minha sexualidade e me fez pular alguns obstáculos. Tudo antes que eu completasse a minha sentença, tudo antes que eu aprendesse como se completa uma sentença.
Talvez, eu seja sempre aquilo. Sons perdidos em um mar de pessoas falantes e ouvintes, enquanto ela era sons harmônicos em um mar de surdos.
E, existe mais da minha história para contar, existe muito mais a ser escrito. Mas esse capítulo, acaba aqui.
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