Notas iniciais
Gente! Postei o capítulo ontem de madrugada, mas o Nyah bugou tudo, e eu excluí pra não ficar com erro, entãaao estou postando de novo. Enfim, boa leitura~

Deai mo areba wakare mo aru nante

Em uma estação em que alguém decide que

Dareka ga kimeta kisetsu ni

Se existem encontros também existem separações

Mata ne to ookiku te wo futte

Nós dissemos "vejo você mais tarde" e fizemos o possível

Sayonara ja nai koto tashikameta

Para nos certificarmos de que não era um adeus

Kotoba ni naranai kimochi wa

Espero que os sentimentos que eu não pude colocar em palavras

Kono hanabira ni nosereba iin da yo

Se realizem nessas pétalas de flores

Tte kimi ga oshiete kureta koto

Mesmo agora, eu ainda me lembro exatamente

Ima demo chanto oboeteiru kara

O que você me ensinou

Are kara takusan no

Todos aqueles dias me mudaram

Tsukihi ga watashi wo kaeta kara

Me pergunto se aquelas flores de cerejeira

Chigatte mieta no kana

Que desabrocham lindamente

Kirei ni sakihokotta sakura

Também ficaram diferentes



~Capítulo 51~

— Aquilo ontem foi incrível, senpai!

— Ah, obrigada, não foi nada…

Natsume fez um trejeito com a mão, como se não se importasse, e Miyako riu contidamente, pois estava evidente que aquela atenção repentina toda estava deixando-a embaraçada.

— Foi sim! Nós mal podemos esperar até o próximo treino!

— Até a próxima, senpai!

As duas garotas do primeiro ano que haviam se juntado ao time de vôlei e presenciaram o teste de Natsume do dia anterior acenaram, animadas, enquanto se afastavam. Entre as jogadoras não se falava em outra coisa – Natsume tinha jogado de igual para igual com o capitão do time masculino, e isso não era pouca coisa! Até mesmo Miya, que nada entendia de esportes, tinha ficado admirada. Está bem que o jogo deles mais pareceu uma rixa particular do que um jogo propriamente dito, e os dois ficaram boa parte do tempo se provocando e desafiando um ao outro, porém, foi o suficiente para Natsume mostrar suas habilidades, embora ela admitisse que já conhecesse boa parte dos movimentos ensaiados dele de cor.

— Foi realmente um ótimo jogo, Natsume-san. — Miya incentivou, enquanto acompanhava Natsume pelo corredor. A aula havia terminado, e elas estavam indo embora. Naquele dia ainda não teria treino, mas as duas já haviam sido paradas pelo menos duas vezes nesse espaço de tempo, por veteranas ou novatas que queriam parabenizá-la pela performance.

— Ah, aquilo não foi um jogo, foi só o Shuuhei querendo se mostrar. — Natsume entoou, parecendo irritada, e Miya não sabia dizer se ela estava mesmo ou era apenas aparentemente. — Você viu que ele mandava umas bolas cheias de efeito?! Aah, ele sempre faz isso!

— Vocês dois são… amigos? — Miyako indagou, curiosa. Queria ter perguntado se eram namorados, mas achou invasivo demais.

— Algo assim, eu acho. Eu sempre morei na casa ao lado, e como a família dele tinha uma padaria, eu ia lá sempre, e foi assim que a gente se conheceu e começou a brincar. Como acabamos estudando sempre nas mesmas escolas, íamos e voltávamos juntos… Ele entrou no clube de vôlei no ginasial, e eu acabei começando a jogar também. Acho que dá pra dizer que nós somos bem amigos, afinal… Enfim, aí quando eu estava no segundo ano do ginásio, meu pai foi transferido e eu fui morar uns tempos com ele. Só voltava durante as férias, e via o Shuuhei de vez em quando, mas ele não mudou nada, continua insuportável! Então, agora que eu voltei a morar com a minha mãe, nós somos vizinhos de novo. Acho que têm encostos nessa vida que nós não podemos evitar...

— Pare de ser teimosa e admita que eu sou um presente na sua vida, Natsume!

Surgido do nada, o próprio assunto da conversa apareceu ao lado de Natsume, como se tivesse sido invocado pelas palavras dela, e já foi se apoiando no seu ombro, naturalmente. Ela soltou apenas uma interjeição de desagrado, mas Miyako sorriu, porque eles pareciam ser realmente próximos um do outro. Ela sempre admirara muito esse tipo de amizade onde um está tão acostumado com a presença do outro que nem a percebe mais, pois já era algo cotidiano e, simplesmente, acontece. Havia momentos em que Yuri e Wolfram eram assim também, embora fosse uma situação completamente diferente.

— Claro, como o cavalo de Tróia também foi. — Ela ironizou, e ele revirou os olhos. Só então, pareceu reparar em Miyako, andando ao lado dos dois.

— Olha só, você fez amizade com uma caloura?

— Não, eu… Eu estou no segundo ano, também… — Ela corrigiu. Shuuhei a fitou, intrigado, mas então sorriu abertamente, fazendo uma pequena mesura, embora ainda apoiado em Natsume.

— Asahina Shuuhei. E é uma honra conhecer alguém com paciência e compreensão suficientes para se associar com esse enigmático e excêntrico ser humano de um metro e meio de altura. — Ele entoou, fazendo Miyako rir, e Natsume soltar um “ah, cala a boca” resmungado.

— Prazer em conhecê-lo também, Asahina-san. — Ela respondeu formalmente, mas logo que chegaram ao portão de entrada, ela esqueceu imediatamente o que mais fosse dizer. — Ben… — Suspirou de repente, ao notar o namorado escorado no muro, esperando por ela. Assim que a viu, ele tirou o headphone e o apoiou no pescoço, vindo sorridente na sua direção.

— Eu sei que disse que ia estar ocupado nessa semana com o comitê da escola, e que não ia poder te buscar, mas hoje consegui um tempinho. — Ele explicou.

— Ah, está bem! — Miya estava radiante, e quase dava pulinhos enquanto falava. — Eu estava pensando em ir até o café mais tarde. Já chegaram os volumes desse mês?

— Chegaram ontem... Eu esperava que você pudesse me ajudar. — Ele sorriu de canto e deu uma piscadinha. Miya concordou prontamente. Os dois estavam tão distraídos em seu próprio mundinho que não notaram a plateia logo ao lado.

— Oe, Natsume… — Shuuhei sussurrou, escorado na garota, e com uma das mãos no bolso da calça, ainda de olhos fixos nos dois que pareciam ter uma aura rosa os rodeando e isolando de todo resto. — Impressão minha ou tem um clima rolando ali?

— Clima? Uma estação meteorológica inteira, isso sim! — Natsume exclamou, e Shuuhei notou que ela estava bastante surpresa.

— Mas ela é tão pequenininha, e o cara parece um viking ruivo…

— Ele só é alto… Como se você fosse alguém pra falar. — Ela comentou, dando uma cutucada no garoto que era consideravelmente mais alto do que a média, mas ele não pôde responder o comentário a tempo, pois Miya lembrou que tinha companhia, e se apressou em se aproximar deles, interrompendo o momento de análise profunda dos dois.

— Ah! Ben-kun, esses são Natsume-san, e… ahn…

— Shuuhei. — Ele respondeu, dando um aceno com a cabeça e a mão ao mesmo tempo, e enfim, soltando Natsume.

— Eu sou Benjamin Gurrier, mas podem me chamar de Ben. Você é a amiga de quem Miyako tem falado, não é? — Ele se referiu à Natsume, que sorriu, sem jeito.

— Acho que sim? Muito prazer. — Ela se curvou rapidamente.

— Nós íamos até o café, vamos juntos? — Miya ofereceu, parecendo nervosa em fazer um convite tão repentino, mas que havia sido ideia de Ben, já que ele disse que era bom que ela finalmente estivesse se enturmando. — Q-quero dizer, só se quiserem…

— Claro que sim! — Natsume já foi concordando, animada, e Shuuhei foi na mesma onda, dizendo que hoje era seu dia de folga no trabalho.

— Cara… — Ele foi para o lado de Ben, parecendo impressionado. — Você é estrangeiro mesmo?

— Mais ou menos… Eu nasci aqui, mas minha família é de um país da Europa chamado Shin Makoku.

— E esse é, tipo… um país de vikings?

— Shuuhei! — Natsume censurou, com aquela cara que dizia claramente “esse garoto só me faz passar vergonha”. Miya fitou Ben, e ele sorriu de volta, querendo transmitir confiança a ela. Até que ela estava indo bem com aquela coisa toda de fazer amigos.

~

Yuri levou o pedido do casal de clientes até a mesa, servindo exatamente da maneira como foi ensinado, e com a bandeja vazia voltou ao balcão. Hori-san nem precisava mais ficar vigiando-o, pois ele sabia exatamente como fazer o que devia ali. Ela ainda estava concentrada na sua tarefa de ajeitar os bolos na parte refrigerada, quando, sem olhar para Yuri, informou:

— Sara-san disse que precisa falar com você, ali no fundo.

Yuri largou a bandeja no lugar, e sem demora, encaminhou-se para a sala de funcionários, onde havia um armário para cada um deles, uma mesa de reuniões e um sofá em um dos cantos. Sara estava sentado na ponta oposta da mesa, com alguns papéis, e examinava-os através das lentes de um pequeno óculos de leitura. Quando Yuri entrou, ele apenas ergueu os olhos do que lia, e sorriu imediatamente, indicando a cadeira logo ao seu lado.

— Aconteceu alguma coisa? — Yuri já foi logo se adiantando, ao sentar, preocupando.

— Ah, claro que não, Yuri. — Sara riu brevemente, fitando Yuri daquela maneira direta e minuciosa de sempre. — Só gostaria de conversar um pouco com você. Aqui, este é o seu pagamento da semana. — Ele estendeu um envelope branco, que Yuri aceitou de bom grado, já fazendo mentalmente as contas de quanto dinheiro teria agora. Tinha o suficiente para comprar um bom presente, isso era certo.

— Muito obrigado, Sara-san.

— Já não disse que não há necessidade de honoríficos, Yuri? — Ele emanava aquela mesma tranquilidade na voz, como todas as vezes em que falava com ele. Sara parecia sempre tão calmo, centrado e adulto. O completo oposto de Yuri. — Bem, como você mesmo informou quando começou a trabalhar aqui, seu objetivo era ficar por um curto período de tempo, até conseguir dinheiro para obter algo importante para você, correto?

— Sim, isso mesmo. — Yuri confirmou. — E eu acho que já tenho mais do que o bastante para poder comprar o que eu pensei…

— Fico contente por você. Apesar disso, porém… — Ele ponderou por poucos segundos, passando os cabelos para trás dos ombros com a mão. — Haveria a possibilidade de você continuar trabalhando aqui?

— Sara-sa-… hm, eu… — Yuri foi surpreendido pela proposta. Seu plano era encerrar o trabalho de meio período assim que recebesse seu pagamento, e ele já tinha até mesmo informado a todos sobre isso, mas não esperava um pedido como esse.

— Por favor, não se sinta pressionado pelo meu pedido. — Sara tentou tranquilizá-lo. — Eu estava ciente das suas limitações quando o contratei. Estou apenas tentando mantê-lo aqui pois, veja bem, você aprendeu a fazer tudo tão rápido e eficientemente, seria um desperdício sem tamanho dispensar um funcionário tão bom sem ao menos arriscar. Eu gostaria muito, se você pudesse ficar, Yuri, não somente por aprovar seu desempenho como meu funcionário, mas também, porque gosto de você, como pessoa. — Os olhos de Sara brilhavam, naquele incrível tom de dourado, e Yuri piscou duas vezes para tentar raciocinar com coerência.

— E-eu… adoraria poder ficar, gosto muito de trabalhar aqui, mas... acho que não vai ser possível, me desculpe, S-Sara… — Ele hesitou, apertando o envelope de dinheiro com as mãos. — Meus treinos de baseball vão recomeçar semana que vem, então, não terei mais tempo disponível. Sinto muito. — Ele se ergueu, fazendo uma ligeira reverência. — Muito obrigado por tudo o que me ensinou e ofereceu durante o tempo em que estive na Little Shimaron, eu sou muito grato por ter me permitido trabalhar aqui. Apesar de não poder mais trabalhar aqui com você, eu gostaria muito de poder ser seu amigo, se não se importar. — Ele sugeriu, sorrindo. Sara abriu um satisfeito sorriso, estendendo a mão para segurar a de Yuri entre as suas, em um gesto de concordância.

— Nada me faria mais feliz.

— Então, eu o visitarei aqui sempre que puder. — Yuri prometeu.

— Pode vir quando quiser, Yuri, estarei sempre disposto a recebê-lo. — Ele soltou a mão de Yuri, lentamente, sem nunca desviar os olhos dele. — Ah, se não se importa, poderia me contar o que pretende comprar? Se não me engano, era um presente para alguém especial…

— Sim! — Yuri respondeu, animado. — Eu já pensei no que quero comprar para ele, mas ainda estou na dúvida... Quero comprar algo bonito e que combine com ele, mas não conheço nada de marcas e lojas chiques…

— Então eu acho que você está falando com a pessoa certa. — O sorriso de Sara ampliou-se, de uma maneira diferente. — Eu adoraria ajudá-lo a escolher.

— Ah, é mesmo, você é modelo, não é mesmo? Deve saber tudo sobre essas coisas!

— Sei o suficiente. — Sara descruzou as pernas e se ergueu da sua cadeira, organizando seus papéis em pilhas ordenadas. — Podemos ir quando você quiser.

— Isso vai ser uma mão na roda! Muito obrigado, Sara!

— Não precisa agradecer, Yuri. Isso é o que os amigos fazem, não?

~

Já era quase noite, quando Natsume e Shuuhei iam caminhando de volta para casa. Ainda não estava completamente escuro, mas a luz dos postes já estava acesa, e eles seguiam pelo conhecido caminho no bairro em que moravam – ruas estreitas rodeadas de casas medianas, onde eles brincavam quando crianças, vielas ocultas que já haviam explorado mais de uma vez, e já conheciam bem. Natsume sentira falta de poder caminhar naquele lugar tão familiar, quando esteve fora. Era bom estar de volta.

— Você fez amigos interessantes. — Shuuhei comentou, enquanto ela andava distraída cuidando um gatinho preto que caminhava pelo muro ao lado deles.

— Nee? Acho que fiz mesmo. — Ela confirmou, virando-se para ele.

— Eu nunca pensei que você fosse achar alguém que não te achasse uma completa maluca nos primeiros cinco minutos que te conhecesse, mas a sua amiga nova que parece um coelhinho parece compreender toda a sua conversa insana e ainda concordar e responder, então acho que você encontrou uma alma gêmea.

— Aaaah, tem alguém com ciúmes aqui, é? — Ela pulou em Shuuhei, fazendo-o cambalear e quase ir para fora da calçada. — Acho que o Mr. Popular aqui não entende os problemas de se ter uma alma excêntrica, e agora tem medo de que eu seja levada por outro alguém!

— Eu não sou popular, eu sou acessível, é completamente diferente. — Ele afirmou. – E, além disso, não estou com ciúmes. Na verdade, isso é bom, você ter mais amigos além de mim. Ficar independente. Voar livre.

— Shuuhei, eu sempre tive amigos além de você. Em que mundo você esteve vivendo até agora? — Ela rebateu. — Eu só… cansava deles rápido. Ou eles não eram o que eu esperava. Ou não me entendiam. Eu sempre fui sociável, ok? Mas a Miya-chan é mesmo muito legal, e aquele amigo dela também. E você não vai acreditar, mas ela é prima sabe de quem? Do Shibuya Yuri! O garoto aquele dos rumores, que namora o príncipe e que eu estava doida para conhecer!

— Espera, o quê? Ela é prima do Shibuya?

— Sim! Eu ainda não tive oportunidade de conversar muito tempo com ele não, nem com o príncipe, mas a Miya já me contou várias coisas sobre eles, e aaahhh, eles são tão foooofos! Quero muito ver eles juntos!

— Você tá começando a sorrir daquele jeito estranho que eu já disse que é medonho. — Natsume nem ouviu o que Shuuhei falava, só continuou a divagar, mais para si mesma.

— Mas a Miya-chan está um pouco preocupada com eles, sabe? Eles andam meio distantes, e tem um monte de assuntos envolvidos.

— Hm… Ah, cara… Lembra aquilo que eu te contei, sobre ter ajudado uma pessoa que estava apanhando na rua?

— Ahn? Lembro… — Natsume logo se recobrou, sem entender o que um assunto tinha a ver com o outro.

— Então… Essa pessoa era o Príncipe. — Ele ajeitou a mochila nas costas, sem nem saber por que raios estava comentando com ela sobre isso. Só iria deixá-la ainda mais envolvida com toda a situação. Mas Natsume tinha mesmo um dom natural para arrancar informações das pessoas e ele era especialmente suscetível a isso. — Ele que estava apanhando de uns idiotas, por causa do relacionamento que ele tem com o Shibuya.

— Sério?? Mas a Miya-chan não sabe disso então, senão ela tinha comentado! Isso… Isso é muito sério, Shuuhei! Se tem garotos da nossa escola fazendo isso, nós temos que fazer alguma coisa! Falar com algum professor… ou ir na polícia! Eles não podem bater em alguém na rua e ficar por isso mesmo...

— Calma, Natsume! Não é bem assim. Quando o relacionamento deles foi descoberto, ano passado, o Diretor foi contra, é óbvio que não vai fazer nada dessa vez. E a polícia… Bem, eu bati mais naqueles caras do que eles bateram no garoto, então, digamos que não é uma boa ideia.

— Ah, mas então o que nós podemos fazer? — Natsume já estava agitada, e depois que se alterava por alguma razão, era difícil fazê-la voltar a se acalmar. Eles estavam quase chegando em casa, então Shuuhei parou de andar, e segurou a garota pelos ombros, fazendo-a parar de falar.

— Por enquanto, nada. Por que você está tão agitada, se nem conhece eles direito? — Ele a soltou, ainda a fitando diretamente. — Olha, eu sei que você está animada com a perspectiva de ficar amiga de pessoas legais e tudo mais, mas não vá se metendo assim na vida das pessoas. Isso só te dá problemas, não é?

— Mas Shuuhei! Eu não vou fazer besteira, juro! Só quero ajudar!

— Eu sei que você “só quer ajudar” em todas as vezes, mas mesmo assim… Não vá se envolver tanto, com as pessoas, sem saber se elas te aceitam de volta, entende? Embora… — Ele suspirou longamente, colocando uma das mãos no bolso e passando a outra pelo cabelo. — Talvez, nós já estejamos mais envolvidos com eles do que você pensa...

— Como assim? — O tom de voz de Natsume deixava bem claro que ela não deixaria Shuuhei escapar com uma meia resposta, e ele sabia bem disso. Não teria escapatória, depois de cometer o deslize de fazer um comentário descuidado.

— Estou falando do meu trabalho de meio período como entregador. Eu conheci o Shibuya lá, e ele me fez prometer que guardaria segredo, já que o namorado dele não pode saber. — Ele respondeu simplesmente, esperando pela explosão de Natsume, que ocorreria dali poucos segundos, assim que ela se desse conta de um pequeno fato. Já foi fechando os olhos e se preparando.

— Ah, tá. — Natsume fez menção de continuar andando. — A Miya contou que ele quer guardar dinheiro para comprar um presente e… — Ela estancou, e Shuuhei engoliu em seco. — Não, pera… se você trabalha com ele… e ele trabalha pra ele… então… então… ASAHINA SHUUHEI! POR QUE VOCÊ NÃO ME CONTOU ISSO?

Ela se virou de uma só vez, indignada, e Shuuhei ponderou se sair correndo era uma boa opção, considerando que eles moravam exatamente ao lado um do outro, e ela poderia continuar gritando com ele da sua janela.

— Porque eu sabia que você ia reagir desse jeito se soubesse que eu trabalhava no mesmo lugar que aquele cara. — Ele soltou o ar, afundando mais ainda as mãos nos bolsos. Conhecia Natsume há tanto tempo que nem lembrava mais quanto, e esconder coisas dela sempre o fazia sentir-se culpado, mas ter que lidar com as crises que ela teria por causa dessa informação ia ser muito mais problemático.

— Não acredito que você escondeu isso de mim! — Ela parecia sem palavras, algo raro de se ver.

— E que diferença faria eu ter contado? O que você ia fazer? — Ele replicou, recomeçando a andar na direção da sua casa. — Ia acampar na frente da confeitaria pra ver ele e tirar fotos de longe? Ia pedir para eu te apresentar pra ele?

— Claro que não! — Natsume cruzou os braços, sem conseguir argumentos fortes o suficiente para se fazer ter razão. Odiava não ter como argumentar, porque quanto mais pensava nisso, mais o pensamento de Shuuhei fazia sentido. A lógica dele era incontestável. Ela piraria, se soubesse antes. Teria, no mínimo, feito alguma besteira. Argh, não estava nem conseguindo raciocinar direito agora! – Droga, Shuuhei! Eu vou pra casa! — Ela desistiu, dando meia volta e mais cinco passos até chegar ao portão da sua casa. Shuuhei só teve que andar um pouco mais até chegar à dele. — E você ainda vai ter que me pagar por isso, acho bom que não esqueça!

— Boa noite pra você também… — Ele murmurou, sorrindo para si mesmo, enquanto abria o portão, pensando que havia sido melhor do que o imaginado. Só esperava que continuasse assim.

~

Assim que desceram na estação de Ginza, e Sara começou a conduzi-lo, muito familiarizado com a área, Yuri teve a certeza de que não sabia o que estava fazendo. Como era sábado, a rua principal das lojas – a Chuo Dori – ficava fechada para os pedestres fazerem suas compras. Havia algumas poucas lojas ali que Yuri poderia dizer que eram do seu nível, mas mais para frente, ele só via grandes lojas estrangeiras que ele jamais se atreveria a pôr os pés. Se não fosse por Wolfram, ele certamente nunca teria ido até ali.

Ainda era primavera, mas a época das cerejeiras estava no fim, por isso, era raro ver alguma árvore desabrochando por ali, e quase não se viam mais pétalas rosa pelo céu. Yuri lamentava não ter aproveitado para levar Wolfram em algum parque para olhar as sakuras. Ele teria gostado, Yuri imaginou, porém, estava sempre tão ocupado no trabalho… Bem, oportunidades nos outros anos não faltariam.

Enquanto eles apenas passavam pelas lojas, Sara ia divagando sobre qual seria a melhor opção para a ideia de presente de Yuri, e também, informando sobre as especialidades de cada loja e de quais ele já havia feito campanha publicitária antes. Era um mundo que Yuri certamente não conhecia, mas Sara, com suas roupas estilosas e de marca, usando um óculos de sol enorme (que Yuri achava que era para não ser reconhecido) e caminhando com tanta segurança enquanto olhava para frente, se adaptava à toda aquela atmosfera que parecia tão exclusiva como ninguém.

— Ah! — Repentinamente, ele chamou Sara, puxando-o de leve pela manga do casaco. — Olha! É você!

Ele apontou para um enorme anúncio que cobria uma parede inteira de uma das lojas, e que trazia em destaque o rosto de Sara, que sorria levemente, de maneira quase enigmática, passando a mão pelos longos cabelos. Ao lado dele, um frasco de perfume se evidenciava em um facho de luz no fundo escuro. Sara sorriu, ao ver seu rosto tão grande, olhando fixamente para si.

— O que acha? — Ele indagou, fitando Yuri através das lentes escuras. Yuri ponderou.

— Você é bonito, então fica bem de qualquer maneira... Eu gostei. Parece muito caro. — O pensamento simples de Yuri fez Sara rir, surpreso. Já havia ouvido todo tipo de crítica sobre suas fotos, desde pessoas que exageravam em elogios, sempre engradecendo e ressaltando o quão maravilhoso ele era, até outros que simplesmente falavam mal e repudiavam sua imagem por ser provocante, indecorosa, ou apenas, ocidental. Era a primeira vez que alguém dizia que parecia muito “caro”.

— O que foi? Olha, eu não entendo nada dessas coisas, então, se você perguntar o que eu acho…

— Não é isso, Yuri. — Sara olhou mais uma vez para o anúncio, e voltou a caminhar. — Acho que, na realidade, você está completamente certo. Tem muito dinheiro envolvido em algo tão simples como essa foto. Isso é tudo do que se trata, no fim das contas. — Sua expressão não se alterava, permanecia tranquila como sempre, no entanto, seu tom de voz denotava algo que ele não havia demonstrado até então. — Mas, por falar em dinheiro – Ele rapidamente retornou ao seu usual, e Yuri nem reparou na diferença. -, temos coisas mais importantes a tratar, como, por exemplo... O que você pretende comprar e quanto vai gastar nisso? Dependendo disso, podemos começar a olhar as lojas.

— Eu tenho todo o dinheiro que recebi trabalhando...

— E você pretende gastar todo o seu salário de uma vez? — Sara indagou, parecendo ligeiramente curioso. Yuri confirmou, sem hesitar. — Bem, presumo que deva ser uma pessoa muito especial para você, então?

— Ele é. — Yuri sorriu, enquanto olhava as vitrines das lojas por onde passavam. As roupas daqueles lugares realmente combinavam com Wolfram, também. Yuri era o único que não se encaixava nisso. — É o meu namorado, afinal, certo?

Sara assentiu, concordando e sorrindo, como se soubesse exatamente do que ele estava falando.

— Seu namorado tem muita sorte, mesmo, em ter você — Sara prosseguiu. — Eu adoraria conhecê-lo.

— Ah, assim que eu der o presente dele, posso apresentar vocês dois! — Yuri pareceu se empolgar com a ideia. — Acho que vão se dar muito bem, porque vocês são parecidos...

— Nós somos?

— É, mais ou menos. Vocês dois são bonitos, e estrangeiros, e têm esse ar de… Eu não sei, importância. Não são pessoas comuns. — Ele riu do próprio pensamento tolo. — Mas você é muito mais tranquilo e fácil de conversar do que o Wolfram. Ele sempre se preocupa demais…

— Mas você gosta dele mesmo assim?

— Claro! — Yuri não hesitou nem um segundo em responder. — Eu gosto de tudo no Wolfram. Mesmo aquilo que todos podem considerar defeitos, como ele ser tão estressado, teimoso e ciumento, eu aprecio e aceito todas as características dele. No início, foi difícil… e nós já passamos por muitas coisas juntos. Mas eu fico muito feliz de poder crescer ao lado dele, todos os dias.

— Hm... Entendo… — Sara murmurou, com o olhar perdido no horizonte. Logo, se recuperou, e ao notar algo ao longe, retomou o sorriso.

— Yuri, eu acho que sei qual é a loja perfeita para você encontrar o que procura.

— Mesmo?

— Sim, aquela logo a frente. — Ele mostrou, e como tudo ao redor, parecia além dos limites de Yuri. — Eu já fiz um anúncio para eles, tenho certeza de que só oferecerão o melhor, e ainda podem dar algum desconto. O que acha?

— Pode ser… — Ele não conhecia nada por ali mesmo, então, estava apenas seguindo o ritmo que o outro impunha. Sara parecia apreciar muito essa situação, por sinal.

Sara passou a mão, delicadamente, pelo ombro de Yuri, conduzindo-o até o local que pretendia. Com os cantos dos lábios inclinados, e o olhar afiado esquadrinhando a multidão, ele viu novamente o seu alvo – por cima das lentes dos óculos, confirmou que se tratava mesmo de quem imaginava. Sorriu (de maneira que só dava ainda mais créditos aos críticos que insistiam em classificar sua imagem como “maliciosa”), e, sem retirar a mão do ombro de Yuri, disse algo que o fez rir. Os dois entraram na loja, e Yuri jamais percebeu que, do lado de fora, Wolfram o encarava sem fôlego, indignado e completamente sem reação. O que ele havia acabado de presenciar, era mesmo real?

Notas finais
Olá, pessoas o/ Hoje, postando dentro do prazo (que é mais ou menos dentro de um mês, geralmente) apesar de o capítulo já estar pronto há algumas semanas, pooorém, há um motivo especial para essa demora! Pela primeira vez na história, o capítulo foi betado ao vivo, e está sendo postado na presença ilustre (nem tanto) da minha querida (nem tanto) editora, que já me bateu tanto que posso pedir Maria da Penha. É uma história emocionante, dramática, e inspiradora, e... .. E a Autora acaba de me passar o notebook por estar com preguiça de escrever o resto das notas. Olá, de novo! Aqui quem fala é a Editora. Resumidamente, há mais ou menos três anos, eu e a Autora nos conhecemos através de reviews em uma das fics de KKM que ela escreveu. Com o passar do tempo, viramos amigas, passei a betar a fic e hoje, (ou ontem, mas enfim) ela veio pra cá passar o fim de semana comigo. Combinamos que a edição do capítulo ia ser feita ao vivo, e sério gente, como eu surtei. Ela judiou de mim! E eu nem bati tanto nela, foram só almofadadas (15, para ser mais precisa) a cada vez que eu surtava lendo o capítulo. De qualquer forma, demorou um pouco para cair a ficha - sabe, de que estávamos finalmente vendo e falando ao vivo com uma pessoa que conhecíamos apenas pela internet ("E que nenhuma das duas era um cara pedófilo de 40 anos", nas palavras dela). Mas agora já está tudo normal, nada que uma noite em claro vendo o musical de KKM no youtube (encontrado por acaso) e gritando tanto (que eu realmente fiquei com medo de que meus vizinhos acordassem) não resolvesse. E eu não sei escrever notas finais. Passando a vez de novo. Aai, tá -.-' o que dizer? É isso aí, essa história linnnda e inspiradora que foi contada, não tem o que acrescentar... Ah, sim, a Editora acabou de me lembrar, tenho imagens dos personagens pra mostrar pra vocês, imaginarem melhor XD De novo da Natsume, pra ilustrar melhor XD E do Shuuhei - terror das novinhas e amado da Editora~ Natsume -> http://i.imgur.com/0ZTHe0S.png Shuuhei -> http://i.imgur.com/KZjmojc.jpg Espero que tenham gostado desse capítulo, e o próximo está em processo de produção, muitas novidades em vista... e tretas, muitas tretas u-u (Gente, eu tenho uma reclamação!! Aqui não tem cafée!!! Como pode issooo???? To morrendo, me ajudem) (Aqui é casa de estudante, não tem essas coisas não. Eu sobrevivo muito bem sem café!) Aqui acabam as notas finais que ninguém se importa e nem vão entender o/ Eu estou, como sempre, muito feliz por todos vocês estarem acompanhando a fic, então, deem joinha, e se inscrevam no canal ~ não, pera.. Até o próximo capítulo!!