Sono Te Hanasanaide
53 Capítulo LII
Hontou wa tsuyogari no jibun ga
De verdade, eu sinto que começo
kirai ni naru souna kiri yo
a odiar-me, enquanto tento ser forte
muukurito furikaeru
Toda vez que eu olhar para trás
kimi no koega kikoeta
Eu escutarei sua voz
Kanau ka wakaranai
Eu não sei se eu posso aguentar isso
demo yuku shikanai darou
Mas eu não tenho outra escolha se não ir
sonna koto shitte miru kara
E irei ver isso
Namida ni kakuretteru
Eu segurei minhas lágrimas
kotoba tachi ga kikoeru
Eu guardei as palavras que ouvi
itsuka kanarazu kurushiku naru
Dizendo que um dia, irá ser difícil para mim
hontou ni sayonara
Isso realmente é um Adeus?
modorenai yakusoku wo
A promessa não pode voltar atrás
bokutachiwa kakaete yuku noni
E nós enfrentaremos isso juntos
~Capítulo 52~
O que ele havia acabado de presenciar, era mesmo real?
O sol iluminava a rua e as pessoas passavam em todas as direções, cuidando dos seus próprios assuntos, apressadas, naquele sábado. O garoto estrangeiro destoava da multidão praticamente homogênea do distrito movimentado, ainda mais porque, diferente de todo o resto, ele não se movia; na verdade, estava parado naquele mesmo ponto há mais de cinco minutos, sem conseguir processar aquilo que seus olhos haviam acabado de visualizar.
Por que ele havia vindo até ali mesmo? Não recordava. Algo sobre uma encomenda que Elizabeth pediu que alguém buscasse em uma loja para ela, já que não podia sair da escola interna onde estudava. Mas isso nem passava pela cabeça de Wolfram, no momento. Todo e qualquer pensamento havia sido varrido imediatamente, assim que teve o vislumbre daquele garoto no seu caminho.
Havia visto somente ele, a princípio. O garoto alto, de cabelos loiro-platinados, com o qual havia tido uma bizarra conversa meses atrás. Nada nele o agradara, à primeira vista, e é claro que ele o reconheceu de primeira. Ainda tinha o sabor amargo das palavras que ele o dissera na outra ocasião em mente, inclusive. Porém, nada no mundo o prepararia para a visão que obteve no segundo posterior. Yuri. Yuri estava ali. Com aquela pessoa. Naquele lugar. Sorrindo. O que ele estava fazendo ali? Com aquele desconhecido, ainda! Logo aquele!
Os dois caminhavam próximos, como velhos amigos, e era evidente que já estavam juntos naquele lugar há algum tempo, dadas as circunstâncias. O garoto de cabelos longos apoiava a mão delicadamente no ombro de Yuri, como se o conduzisse sem esforço pelo local. Wolfram não entendia. Não queria compreender. Por mais que pensasse, apenas uma única conclusão chegava à sua mente, e ele desejava mais do que qualquer coisa, não acreditar nela.
Ele quis gritar, mas a sua voz morreu na sua garganta, machucando-a. Queria correr na direção deles, mas suas pernas fraquejaram, e ele não conseguia se mover. Queria chorar, mas seus olhos pareciam secos, vidrados, sem nem piscar, fixos na mesma direção. Parecia um sonho ruim, e ele só esperava pelo momento em que acordaria, e tudo estaria bem novamente, mas isso não ocorreu.
Yuri entrou em uma das lojas com o garoto, ainda sorridente como sempre, e Wolfram não conseguia decidir o que fazer. Olhava ao redor, mas era evidente que ninguém o ajudaria. Ele estava perdido, sem norte… Acabou, automaticamente, dando meia volta e indo embora, sem olhar para o caminho, esbarrando nas pessoas por quem passava, quase sendo atropelado ao atravessar a rua.
“— Nunca se sabe quando ele pode se cansar e resolver ir embora“ … “Eu provavelmente o verei de novo outro dia. Até mais.”
As palavras ditas há tanto tempo faziam mais sentido agora. Mas quem era aquela pessoa, o que ele fazia com Yuri, de onde se conheciam? Wolfram sentia sua cabeça começar a latejar com tantas dúvidas. Era isso o que Yuri escondia dele com tanto afinco nas últimas semanas? Só poderia saber se confrontasse Yuri e exigisse a verdade diretamente – mas ele tinha medo. E se aquilo que ele mais temia virasse realidade?
~
— Como sobrou algum dinheiro, depois que o Sara conseguiu um desconto para mim, eu acho que vou levar o Wolf para jantar em algum lugar legal, o que você acha, Miya?
Enquanto chegavam à escola juntos, Yuri terminava de contar à Miya como havia sido sua jornada atrás de um presente perfeito para Wolfram. Ele havia percorrido todas as lojas possíveis, no sábado, até ter certeza de que aquele era o que queria. Mal podia esperar para ver o semblante de Wolfram ao recebê-lo, e só poderia torcer para que ele realmente gostasse tanto quanto ele imaginava. Depois de tanto tempo e trabalho para conseguir aquilo, queria aproveitar todo o tempo que poderia ter ao lado de Wolfram, no melhor encontro de aniversário de todos.
— Acho que ele vai amar, Yuri-nii. Eu já disse, não precisava ter feito nada disso, qualquer coisa que você desse ao Wolfram-kun, ele iria ficar feliz. — Miya reafirmou aquilo que sempre repetia à Yuri.
— Exatamente por isso, eu tenho que me esforçar para elevar as expectativas do Wolf. Ele merece que eu dê o meu melhor. E eu quero que ele saiba o quanto eu quero valorizar ele, entende?
— Hm, acho que sim… — Miya ponderou, imaginando consigo mesma que existiam muitas outras maneiras de Yuri recompensar Wolfram se quisesse, e que não envolviam nenhum dinheiro, mas se dissesse o que pensava, ele certamente ficaria horrorizado com a sua mente avançada.– Mas, ao menos agora, você vai ter mais tempo para passar com ele, já que saiu do trabalho de meio-período, não é? — Ela prosseguiu, resolvendo manter a conversa em um âmbito seguro para Yuri, por enquanto.
— Mais ou menos... Os treinos recomeçam hoje, então… — Ele deixou evidente naquelas reticências que não poder ficar com Wolfram o aborrecia.
— Ah, sim!! — Miya recordou desse fato somente agora. — Você não está nervoso, Onii-chan? Em ter que voltar de repente?
— Não tanto quanto eu estou para entregar o presente do Wolf, com certeza. — Yuri suspirou. Havia outra coisa que o preocupava mais do que os treinos, na realidade. — Eu tentei ligar para ele ontem, e ele não me atendeu. Acho que ainda está bravo por eu ter meio que sumido nesses dias, e também, pelo que aconteceu no armário…
— Armário? — A atenção de Miya se elevou a 200% somente com uma palavra, e a perspectiva nela contida. — Que armário? Onde? Quando? Como?
— Ahn? Armário? Eu disse armário? — Yuri amaldiçoou aquela sua mania de falar sem pensar que sempre o colocavam em situações difíceis. — Quis dizer “vestiário”. Wolfram não gostou muito… que eu tenha ido no vestiário do time… sabe? Porque tem caras no time que não gostam de mim, e podiam arrumar confusão. É isso! — Yuri mentiu descaradamente, e Miya não era boba, principalmente porque os Shibuya tinham a tendência de mentir terrivelmente mal, e ela não era exceção à essa regra, por isso sabia bem. Porém, não insistiu. Se Yuri não iria contar que armário era esse, tudo bem, afinal, ela sempre descobria tudo de uma maneira ou de outra.
Os dois prosseguiram pela escadaria, e Miya continuou no andar do segundo ano, enquanto Yuri avançava mais. Sem perceber, ele estava muito ansioso para ver Wolfram, e subiu mais rápido, adentrando a sua sala já vasculhando à procura dos cabelos loiros no lugar à sua frente. Sobressaltou-se. De fato, a classe da janela onde Wolfram geralmente sentava estava ocupada, mas não era por ele. Outro garoto, que Yuri não se incomodou em tentar recordar o nome, estava lá, e ele caminhou mais rápido naquela direção, já aflito com o que quer que pudesse ter acontecido.
— Onde está o Wolfram? Esse é o lugar dele. — Ele disse rapidamente, e o garoto o encarou, confuso e surpreso.
— Eu sei… Ele que pediu para trocar. — O garoto deu de ombros, deixando claro que não sabia muita coisa além disso.
— Mas por quê?
— Sei lá, ele só chegou pra mim antes e falou que queria trocar de lugar comigo. Como ele senta na janela, eu não recusei. Vai lá e pergunta pra ele, ué.
Yuri olhou ao redor, mas não havia nem sinal de Wolfram. O sinal logo tocou, e ele se acomodou na sua classe, ainda olhando esperançoso para a porta. Esperava que ele aparecesse a qualquer momento e, talvez, fazendo algum escândalo sobre o estranho que tomara seu lugar.
Depois de poucos instantes, Wolfram realmente entrou na sala, mas, para Yuri, parecia mais como um estranho. Seu semblante era terrivelmente abatido, e ele nem mesmo olhou na sua direção. Caminhou diretamente até a fileira próxima à parede e acomodou-se no lugar vago. Yuri queria chamá-lo, mas o professor logo adentrou, então não foi possível. Segurou-se o máximo que podia, mas continuava a olhar para Wolfram, esperando que ele o notasse, e ao menos, pudesse ter alguma pista daquele estranho comportamento – porém, ele nem ao menos virou o rosto para o seu lado. Era como se não existisse.
O resto da aula prosseguiu dessa maneira e, impaciente como era, Yuri não parava de se retorcer na sua cadeira, olhando para Wolfram a todo segundo, tanto que Gunter chamou sua atenção cinco vezes, pelo menos. No intervalo, pulou da sua classe para ir conversar com ele, mas o loiro havia sido mais rápido e saiu da sala assim que teve a chance, fazendo com que Yuri o perdesse de vista quando entrou no banheiro. Resignado, Yuri tentou de novo no horário do almoço e, mais uma vez, ele fugiu rapidamente, sem que pudesse segui-lo. Ninguém parecia tê-lo visto também, e Yuri o procurou em todos os lugares em que pôde pensar, mas não o encontrou. Wolfram não voltou para a segunda parte da aula.
Aquilo era estranho e inesperado, e Yuri não conseguia pensar em nada que pudesse ter ocasionado aquela reação preocupante em Wolfram. Até a última vez em que haviam se visto, estava tudo perfeitamente bem. Exceto… por aqueles estranhos hematomas em Wolfram, que ele notara da última vez. Será que alguém estava ameaçando Wolfram dessa forma para separá-los? Se alguém estava realmente indo tão baixo apenas para atacá-lo, Yuri jamais o perdoaria. Iria encontrar essa pessoa e fazê-la pagar por isso.
Yuri parou no meio do corredor, assim que a aula enfim terminou, olhando para todos os lados, esperando Wolfram aparecer, e pensando onde mais poderia procurá-lo. Sabia que ele não teria ido embora, porque os materiais dele ainda estavam na sala, e, além disso, ele já havia verificado o armário de sapatos antes. Não sabia mais o que fazer, precisava conversar com Wolfram agora, e esclarecer de uma vez por todas qualquer mal-entendido que pudesse haver entre eles. Não aguentava ser ignorado dessa forma por ele.
— Yuri. — Ele ouviu seu nome ser chamado, mas não prestou atenção o suficiente para virar-se. Ainda olhava esperançosamente para o fim do corredor, esperando que Wolfram fosse surgir por ali com alguma resposta para ele. Uma mão no ombro acompanhou outro chamado. — Yuri, nós temos que ir para o treino.
Ele finalmente olhou para trás, e Conrad o fitava, intrigado.
— Ah, sim, eu sei. Já estava indo. Você viu o Wolf? — Ele indagou rapidamente, ansioso. — Eu preciso falar com ele antes.
— Não temos tempo, Yuri… Eu te ajudo a encontrar ele depois, mas por enquanto, venha comigo.
— Ok…
Com a cabeça ainda longe, Yuri fez como Conrad sugeriu, embora a última coisa na qual conseguiria pensar agora era o baseball.
~
Ele caminhava sem rumo pela escola há mais tempo do que imaginava. Passou por lugares que nem sabia que existiam no campus, andando sempre longe dos olhares dos outros para que não o percebessem. Primeiramente, queria apenas se livrar dos olhares insistentes e da presença de Yuri – colocar as ideias no lugar e pensar em como o encararia depois. Mas parecia que o tempo de felicidade o deixara mais fraco e covarde do que o esperado, e ele não voltou para a sala de aula. Estava com medo de ouvir a verdade.
Por mais que doesse ficar se remoendo em dúvidas, ainda era melhor do que ouvir diretamente de Yuri que ele estava cansado, ou que queria terminar. Em outros tempos, ele teria corrido até aqueles dois e tirado satisfações naquela hora mesmo, então, por que é que estava se refreando tanto? Ele não era assim. Havia se tornado esse tipo de pessoa dependente e que não tinha coragem de questionar o que havia visto?
Mas, e se Yuri realmente dissesse aquilo que ele tanto temia ouvir? Preferia terminar tudo sem precisar ouvir que havia, de novo, feito tudo errado, e, por causa disso, perdido a pessoa mais importante da sua vida. Sentia-se partido em pedaços. Ao mesmo tempo em que se culpava por isso, porém, queria matar Yuri. O que é que ele estava fazendo com aquele cara na rua, afinal? Por que estava mentindo, escondendo coisas dele? Ele não era assim, não era da natureza dele, e Wolfram sabia que tinha algo a mais, que não se encaixava, não fazia sentido, em toda essa história.
Como é que aquele garoto, um completo desconhecido, se aproximara de Yuri? Em que momento que isso podia ter ocorrido, quando foi que Wolfram deixou de prestar atenção, e permitiu que isso acontecesse? Ele não sabia dizer. Só conseguia ficar ainda mais confuso. Yuri estava o deixando para trás, e ele se sentia incapaz de fazer qualquer coisa para impedir que isso acontecesse. O que ele havia feito de errado?
Já não enxergava nada à sua frente, pois lágrimas que se acumulavam na beirada dos olhos embaçavam sua visão, e ele se concentrava ao máximo para não as deixar cair. Nem sabia para onde estava caminhando, só não queria parar. Sentia raiva. Culpa. Vontade de bater em alguém ou em alguma coisa, e ao mesmo tempo, cair no choro na sua cama e não ver mais ninguém. Sua cabeça não parava de doer, desde que acordara, e agora parecia ainda pior.
— Oe, cuidado!
Wolfram não viu nada, mas sobressaltou com o chamado. Ao olhar para cima, algo eclipsava a luz do sol, gradualmente mais próximo, vindo na sua direção. Outra sombra maior se projetou acima de si. Ele não precisou pensar muito para entender o que acontecia. Estava tão distraído andando que acabou indo parar próximo às quadras de esportes, onde os clubes treinavam, e estava prestes a pagar por esse erro também. Porém, a mão à sua frente o livrou de levar um golpe certeiro no rosto, e a bola quicou de volta para a quadra. Era uma bola de vôlei.
— Cuidado por onde anda, Príncipe. — Rindo à sua frente, estava o garoto que o ajudara naquela noite da briga. Shuuhei? Wolfram não estava no melhor dos humores para lidar com qualquer um que fosse, e só queria ser deixado em paz, então apenas revirou os olhos e soltou o ar, pronto para sair dali sem precisar falar nada. — Ei, já é a segunda vez que eu te salvo. Devia cogitar a possibilidade de me contratar como seu guarda costas pessoal, o que acha?
— Talvez seja um sinal de que você anda se intrometendo na vida dos outros mais do que deveria. — Wolfram respondeu, sem muita paciência para agir razoavelmente.
— Hey, eu só estava brincando. — Shuuhei se colocou em posição defensiva, já alarmado com o tom de voz de Wolfram. Pela sua experiência, aquilo não parecia nada bom. — Voltaram a te importunar depois… daquilo que aconteceu? — Indagou, baixando a voz. Alguém do seu time gritou para que ele voltasse, mas ele respondeu com um aceno amplo, gritando de volta “Já vou!” rapidamente.
— Não, não voltaram. — Wolfram respondeu rispidamente, querendo dar o assunto por encerrado. Ficara sabendo somente, ao ouvir comentários, que aqueles garotos haviam sido suspensos por alguns dias da escola por aparecerem com hematomas, que eram evidências claras de que haviam se metido em alguma briga fora da escola, e eles não tinham nem como negar.
— E não vai nem agradecer por agora? — Shuuhei comentou.
— Não acredito que seja necessário agradecer por algo que não foi solicitado, mas já que você insiste em ser insolente e atrevido, eu o agradeço por sua falta de senso de privacidade, também. — Wolfram bufou, erguendo o rosto pela primeira vez, e Shuuhei pôde facilmente notar o quanto ele parecia abatido, apesar do semblante irritado de agora, ainda mais com os esboços de lágrimas que se juntavam nos cantos dos olhos.
— Você está bem? — Shuuhei deixou escapar sem perceber, e Wolfram surpreendeu-se com a pergunta, vinda do nada.
— C-claro que sim, que estúpido! Por que eu não est-ta...ria... — Sua voz morreu antes do fim da sentença, o que só reforçou a ideia de que ele não estava nada bem, com o olhar perdido em algum lugar no fundo da quadra, e uma expressão de desespero e tensão tomando suas feições. Shuuhei olhou para trás e enxergou facilmente a fonte de aflição do loiro.
O time de baseball se reunia na quadra oposta para treinar, e entre eles, é claro, estava Yuri. Wolfram parecia ter congelado no mesmo lugar, encarando-o de longe, e Shuuhei só pôde deduzir que algo ia mal entre os dois, ainda mais levando em conta que Yuri lá longe também não parecia nada animado. Wolfram estava, mais uma vez, à beira das lágrimas, com o queixo tremendo e os pés recuando um passo para trás. Era bem óbvio que ele queria fugir.
Shuuhei agiu como de costume, ou seja, por instinto. Puxou Wolfram pelo pulso para o lado oposto, sem dar a ele a chance de resistir, e seguiu caminhando rapidamente naquela direção, até que estivessem ocultos pelo pavilhão do ginásio. Pego de surpresa, o loiro não tentou se desvencilhar, mas Shuuhei soltou-o de imediato, assim que parou de andar, e então ficou observando-o, esperando que ele se manifestasse. Wolfram não sabia se ficava surpreso ou ultrajado com tamanha insolência.
— Q-quem foi que pediu a você para…
— Pareceu bastante evidente para mim que você estava querendo escapar, eu só dei uma mãozinha. — Shuuhei o interrompeu, como se não fosse nada demais. — Eu estou certo, não é? Aconteceu alguma coisa ruim entre você e o Shibuya?
— Eu não devo satisfação alguma a um desconhecido como você. Com licença — Wolfram se aprumou, pronto para dar as costas à Shuuhei e, se possível, não vê-lo novamente tão cedo.
— Acho que não vai ser possível se despedir agora, Alteza, porque se você sair daqui, o Shibuya vai te ver com certeza. — Shuuhei sorria de uma maneira convencida, como se tivesse tudo sob controle, e Wolfram descobriu que não gostava disso. Era quase como se estivesse sendo coagido, e ele não estava com suas emoções no lugar, então isso realmente o irritava. — Se me permite dizer, você parece bem mal. Não quer me contar o que está acontecendo? Muitas vezes, conversar com alguém ajuda, sabe.
Ele arrumou um lugar para sentar, na muretinha que separava as árvores do canteiro do resto do pátio, mas Wolfram se recusou a acompanhá-lo, e ficou apenas encarando-o com ar hostil, de braços cruzados e de pé.
— Você não acha que está sendo muito invasivo e pretensioso, intervindo em assuntos alheios dessa forma? — Wolfram replicou, incomodado com aquela atitude tão despreocupada.
— Não, não acho. Pelas minhas contas, eu te salvei... — Ele parou para contar nos dedos. — três vezes, duas só nos últimos dez minutos, então acho que eu estou com saldo positivo, certo? Você está me devendo, então eu gostaria de saber mais sobre você, para descobrir o que eu posso ganhar com isso. Justo, não? Além do mais, você parece estar com problemas, e eu não sei se percebeu, mas eu sou do tipo que gosta de ajudar, sabe? — Ele sorriu de canto, inclinando a cabeça de maneira relaxada, o que fazia com que os cabelos soltos encostassem nos ombros.
— Essa atitude me parece tudo, menos altruísta. Eu diria suspeito, inclusive. Por que quer tanto meter o nariz onde não foi chamado?
— Digamos... que eu acabei pegando emprestado alguns hábitos nada educados de uma pessoa com quem eu convivo, e ela gosta muito mesmo de se meter na vida dos outros. Acho que estou ficando parecido com ela, nesse aspecto. Não que isso seja algo positivo. — Ele riu para si mesmo, como se contasse uma piada muito engraçada e pessoal. — E então? Quer me contar ou não dos seus problemas amorosos? Eu sou ótimo com conselhos, já adianto.
Wolfram suspirou. Que diferença fazia, dividir ou não as suas preocupações? Elas continuariam assombrando-o de uma maneira ou de outra. Além disso, nada do que ele pensava estava mais fazendo sentido – ele precisava ordenar os fatos de maneira lógica, e não estava conseguindo. Sentia-se tão mal que nada poderia piorá-lo mais. Ele sempre havia sido o tipo de pessoa que preferia esconder suas preocupações e resolver seus problemas absolutamente sozinho, e tinha dificuldades de externar os seus pensamentos para outros. Talvez fosse o tempo de convívio com Yuri que estivesse tornando-o mais fraco e vulnerável a essas coisas. Não queria admitir, mas estava mesmo suscetível a aceitar aquela oferta. Talvez, se outra pessoa ouvisse sua história, pudesse perceber o que era aquele detalhe que ele não conseguia entender de jeito nenhum.
— Bem… O Yuri, ele… — Wolfram olhava para o lado oposto, e notava que era muito mais difícil falar do que imaginara a princípio. Mal as palavras começaram a se formar na sua mente, e ele já sentia vontade de chorar mais uma vez. Patético. Sentou ao lado de Shuuhei, relutante, e cruzou as pernas, ainda refletindo consigo mesmo sobre o que presenciara. Sua conclusão, a cada vez que ele voltava a raciocinar sobre isso, parecia ainda mais acertada. — O Yuri está me traindo. — Ele soltou de uma só vez, em voz baixa, mordendo os lábios logo depois. As palavras doíam muito mais do que a bolada que ele quase levou poderia algum dia doer.
— O que? — Shuuhei juntou as sobrancelhas, incrédulo. Ele era mesmo muito expressivo e, por um segundo, Wolfram se arrependeu de sucumbir à proposta e contar tudo a ele. Alguém como ele jamais entenderia. — Eu não consigo acreditar em uma coisa dessas. O Shibuya, ele nunca… Sabe, depois de tudo o que ele fez, isso não parece do feitio dele. Você deve ter se enganado.
— Não! Eu vi com os meus próprios olhos! Ele foi enfeitiçado por uma espécie de sereia loira maligna, que cantou com uma voz mágica no ouvido dele, e roubou ele de mim! — A indignação de Wolfram, assim como sua voz, se elevou drasticamente. — Eu tenho certeza! Eu vi quando ele estava andando ABRAÇADO com aquele garoto na rua, como se não houvesse nenhuma preocupação no mundo!
— Sereia loira? — Shuuhei repetiu, um tanto intrigado.
— É! Eu já tinha visto ele antes, e ele me disse umas coisas muito esquisitas, mas só agora eu entendi! Parece que ele é modelo ou alguma coisa assim e, de alguma forma, se encantou com aquele trapaceiro inútil do Yuri e está levando ele de mim! Você pode acreditar nisso? O que aquele estúpido idiota que só tem baseball na cabeça tem de tão bom pra todo mundo querer ele?
Shuuhei queria dizer que não era todo mundo que queria Yuri, nem nada disso, mas achou melhor deixar que Wolfram extravasasse sua frustração da maneira que quisesse, antes de começar a questioná-lo. Porém, aquela descrição pareceu a ele vagamente familiar. Ele conhecia alguém que se encaixava no papel de Sereia Maligna como ninguém.
— Eu não faço ideia de como eles se conheceram e, pensando melhor, eu nem quero saber! O que é que eu fiz de errado, para o Yuri ter que procurar por outra pessoa? Eu não sei… Eu pensei que estava tudo bem… — A voz do loiro foi diminuindo aos poucos, enquanto ele baixava o olhar. — Será que eu fui egoísta demais? Fiz exigências demais? Ele sempre disse que gostava de mim do jeito que eu era, e eu acabei relaxando, deixei que esses traços ruins da minha personalidade aparecessem mesmo quando ele estava por perto. Eu brigava muito com ele, por coisas bobas… E eu menti para ele sobre aquela noite… Acho que a culpa é minha… Eu sempre… Eu sempre faço isso… As pessoas se cansam, e vão embora…
Shuuhei sentia que Wolfram já não falava mais com ele, mas sim consigo mesmo, com o olhar marejado e perdido. Ele sabia que nada do que Wolfram dizia estava correto e, portanto, estava apenas se precipitando e tirando conclusões completamente erradas — isso porque Shuuhei sabia da verdade, sobre Yuri estar trabalhando escondido. E, como não era possível que existissem duas pessoas iguais neste mundo, era óbvio que a pessoa com quem Wolfram viu Yuri era ninguém menos do que Sara, o seu bem-aventurado chefe. Bem, pessoalmente, Shuuhei não gostava muito de Sara, mas isso era somente a sua implicância, e ele sabia que Yuri jamais trairia Wolfram, com quem quer que fosse.
Yuri é quem deveria esclarecer toda a verdade com o namorado e, de certa forma, os dois estavam errados naquela história toda, de querer esconder as coisas um do outro, mas só cabia a eles resolver esse assunto de vez. Shuuhei não poderia jogar tudo o que sabia para Wolfram agora – mas, no entanto, poderia fazer o possível para não deixá-lo afundar-se em deduções equivocadas. Agora, Shibuya também ia ficar devendo uma a ele.
— Ok, eu entendo que você tenha visto isso, e que possa ter parecido que o Shibuya traiu você, mas… você chegou a perguntar para ele? Sabe, esclarecer as coisas, dar a ele a chance de se explicar. Acho que ele merece ao menos isso, certo? Todo mundo é inocente até que se prove o contrário. — Shuuhei sugeriu, falando calmamente, para não correr o risco de irritar Wolfram e ele deixá-lo ali falando sozinho.
— Não, mas…
— Você é um príncipe, certo? Lá no seu país? Uma autoridade? — Wolfram o encarou atônito por dois segundos com a mudança brusca de assunto, e Shuuhei levou isso como uma confirmação para continuar seu pensamento. — Então… Se alguém fosse acusado de um crime grave, você condenaria essa pessoa sem ter provas, só porque alguém disse que viu acontecer?
— Quem decide esse tipo de coisa não é a realeza, é o juiz. — Wolfram replicou, com ar arrogante. Shuuhei soltou o ar, exasperado.
— Você entendeu o que eu quis dizer, acho que nós já deixamos a ideia bem clara aqui. Você precisa conversar com o Shibuya e dar a ele a chance de explicar o que está acontecendo! Por que não quer ouvi-lo, e acabar logo com isso?
— Porque.... — Wolfram hesitou, olhando para o outro lado com a cabeça baixa, e Shuuhei notou o quanto ele encolhia os ombros, como se desejasse sumir de vez. A voz dele falhou quando ele tentou completar a frase, e ele ergueu os olhos verdes, já úmidos novamente, mordendo o lábio inferior numa tentativa de segurar as lágrimas que ameaçavam escapar. – E... e se for verdade?
Shuuhei não sabia o que dizer agora. Entendeu, finalmente, qual era o problema ali. Wolfram não estava desconfiando de Yuri ou acusando-o. Ele sofria com a insegurança por si próprio, e pelo medo abstrato de perder o que era importante para ele. Não havia muito mais o que ele poderia fazer no momento para ajudar, Shuuhei percebeu.
Esticou as pernas, apoiando-se com as mãos no muro baixo onde estava sentado, enquanto escolhia as palavras com cuidado.
— ... Mesmo que a verdade seja dura, difícil de aceitar, ainda é melhor do que viver uma mentira, não é? — Olhou para cima, dando tempo para o loiro pensar no que ele havia dito.
Wolfram passou alguns segundos em silêncio, o olhar parado e a expressão vazia. Shuuhei entendeu que ele precisava ficar sozinho agora, para reordenar seus pensamentos, e se ergueu, torcendo para que tivesse feito um bom trabalho. Wolfram ergueu o rosto, talvez grato pela ajuda, talvez ainda confuso, era difícil discernir.
— Eu… vou pensar.
— Pense o quanto quiser, só não vai demorar demais. – Shuuhei virou-se na direção dele, ainda sorrindo. — Mas, qualquer coisa, meu divã está à disposição, Alteza. — Ele fez uma exagerada reverência à maneira ocidental. Wolfram revirou os olhos, ignorando a provocação, mas dava para se notar que ele já não estava mais tão perturbado quanto antes e, provavelmente, tiraria esse tempo para pensar racionalmente sobre a sua situação.
— Parece que meu trabalho está feito... — Shuuhei murmurou para si mesmo, voltando para o seu treino, ligeiramente orgulhoso pela sua boa ação do dia. — Imagino se eu vou ser repreendido por decidir me intrometer, no fim das contas...
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