Sono Te Hanasanaide
32 Capítulo XXXII
Watashi ga doko ni mo inaku natte mo
Mesmo que eu não exista em nenhum lugar
Subete wo terasu hikari no naka
Dentro da luz que brilha sobre tudo,
Itsumo kimi no soba ni iru kara
Estarei sempre ao seu lado
Hakanasugite
O mundo é passageiro
Kiete ikisou na sekai
E está prestes a desaparecer
Dakedo kimi ga iru
Mas você está aqui
Soredake de mamoritai to omotta
E quero apenas protegê-lo
Shizuka na inori ni hitomi wo tozashite
Eu fecho meus olhos em uma prece silenciosa
Mou sugu saigo no yasuragi ni
Porque, enfim, alcançarei
Todoku kara
A paz final
Mabushii asa
Na manhã deslumbrante
Capítulo 32
— Aonde você vai, Onii-chan? – Debaixo do kotatsu, lendo um mangá, apenas o rosto de Miyako era visível, e esse ainda estava parcialmente coberto pela touca de orelhinhas usual. Ela era realmente muito sensível ao frio.
Yuri, que terminava de colocar um cachecol no pescoço e dava uma última olhada no espelho da sala antes de sair, sorriu para ela. Ainda trazia aquela aura brilhante e cor-de-rosa ao seu redor, desde o Natal, e parecia estar flutuando a cada passo que dava. Ele e Wolfram nunca estiveram melhores, e Miyako sabia muito bem disso, então estava feliz pelo primo. Ela havia presenciado o beijo inesperado do ringue de patinação, e, apesar de ficar absolutamente extasiada com a cena, não conseguiu impôr-se o entusiasmo de sempre. Nem teve vontade de comentar sobre isso com o primo. Andava tão desanimada nos últimos dias que até mesmo Yuri, no alto da sua felicidade, podia reparar que ela não estava normal. Porém, não importando o quanto ele insistisse, ela se recusava a dizer o que era.
— Eu vou encontrar Wolfram no templo. Acredita que ele nunca fez uma visita de primeiro dia do ano? – Ele se aproximou do kotatsu, observando a prima. – Você quer vir também? Eu espero você se arrumar…
— Não, obrigada, Onii-chan. Não quero estragar o seu encontro… Eu vou depois, com a Oba-san… — Ela baixou os olhos. Havia combinado de ir com Benjamin, semanas atrás, mas agora não se sentia muito confortável com isso, então apenas deu uma desculpa qualquer para cancelar. Era uma sorte que o café estivesse em recesso para o ano novo, pois assim ela também não precisaria se obrigar a ver ele no trabalho também, pelo menos por enquanto.
— Tudo bem mesmo? – Ele insistiu, notando a aparência abatida da garota. Ela parecia tão pequena e frágil agora, muito mais do que quando Mariko e as outras garotas a importunavam na escola. Ele não conseguia mensurar o que poderia ser tão grave a ponto de deixá-la naquele estado.
— Pode ir, Onii-chan, e diga feliz ano novo para o Wolfram-kun por mim… — Ela tentou sorrir, sem muito sucesso. Yuri afagou o topo da sua cabeça, por cima da touca.
— Certo… Até depois. – Ele se ergueu, dirigindo-se para a saída. – Eu vou comprar um amuleto de felicidade para você…
— Obrigada, Onii-chan! – Ela se esforçou para parecer animada, mas até para si mesma, sua voz soava estranha. — … Embora eu ache que não vai adiantar muito… — Ela murmurou baixinho, voltando a olhar para as páginas preto-e-branco do seu mangá. Dois garotos apaixonados um pelo outro era sempre melhor do que um só apaixonado por ela. Ainda mais quando a segunda opção era ainda menos improvável do que a primeira. Porém, pelo menos, enquanto tivesse boas histórias e um romance que, apesar de fictício, era capaz de se realizar, isso a distrairia, e ela não teria que se preocupar com os problemas reais.
~
— Oi, Wolfram, aqui! – Atravessando o mar de pessoas que vinham ao templo no primeiro dia do ano, Yuri agradecia por namorar um estrangeiro, e assim, poder identificar os cabelos loiros dele mesmo ao longe. Correu para o ponto onde Wolfram o esperava, com um sorriso no rosto, afundando os pés na neve recente. – Feliz Ano Novo! – Ele bradou assim que chegou perto o suficiente, roubando um rápido beijo dos lábios gelados de Wolfram, o primeiro do ano.
— E-eu já disse para parar de me b-beijar assim de repente em público! – Wolfram sibilou, embora parecesse mais desconcertado do que furioso em si.
— Ah... Desculpa, eu esqueci. – Yuri riu sem graça, passando a mão pelos cabelos bagunçados. – Bem, de qualquer maneira, espero que você continue cuidando de mim esse ano também. – Ele se curvou ligeiramente, à moda japonesa, e então mais um sorriso brilhante se abriu. Wolfram engoliu o sermão que estava prestes a dar.
— Feliz ano novo para você também, fracote… — Ele suspirou, cansado. – Bem, então, o que nós temos que fazer aqui? – Ele foi olhando ao redor, como se no meio de toda aquela multidão que se dirigia ao templo, houvesse alguma dica do que deveria ser feito.
— Ah, sim, você nunca comemorou o ano novo no Japão, não é? Bem, acho que podemos começar pegando os omikujis… Sabe, para verificar as nossas sortes para esse ano… — Ele segurou a mão de Wolfram sem cerimônia, enquanto falava e o conduzia para dentro do templo. Com tantas pessoas ali, seria difícil alguém notar, e, além do mais, eles acabariam se perdendo facilmente um do outro se não fosse assim. Wolfram corou, um tanto feliz, e afundou o rosto no cachecol enquanto caminhavam juntos por entre as pessoas.
Havia uma fila enorme para verificar as sortes, e então, quando finalmente chegaram ao ponto final, Wolfram se decepcionou. Era só um pedacinho de papel! Ele esperava algo mais… Com luzes, cartas de tarô, bolas de cristal, ou qualquer coisa assim.
— Então, o que diz na sua? A minha é boa sorte. Diz que meus planos vão se concretizar. Mas é melhor ter cuidado com quem se aproxima… O que será que quer dizer?
— Como é que eu vou saber? Isso aqui é mesmo uma previsão do próximo ano? – Wolfram indagou, indignado.
— Mais ou menos isso. Por quê? O que diz a sua? – Yuri se inclinou sobre o ombro de Wolfram para ler. – Má sorte… Aaah, você tirou má sorte! Diz aqui “Não seja egoísta com aquilo que pertence a você. Se algo é seu, então sempre voltará para você”.
— Eu sei o que diz, idiota, não preciso que repita para mim! – Wolfram puxou o papelzinho da visão de Yuri, antes que ele lesse a parte de “vida amorosa plena, mas está na hora de aprofundar sua relação”.
— Bom, agora nós amarramos nossos omikujis naquele lugar – Ele apontou para o espaço reservado, onde vários papeizinhos já estavam colocados. –, para que a previsão se realize... Ou no seu caso, não se realize… Vamos lá, vamos lá…
Depois disso, os dois garotos entraram na fila para fazer seus pedidos no altar, e Yuri explicou rapidamente como se fazia. Wolfram insistia que não acreditava em deuses ou em boa sorte, mas parecia bastante veemente na hora de fazer o seu desejo. Enquanto caminhavam em direção ao lugar onde se vendiam amuletos, Yuri insistiu para saber o que ele havia pedido, mas ele obviamente se recusou a contar.
— Se eu contar para você o que eu pedi, então você pode me contar também! – Ele argumentava, enquanto Wolfram ia caminhando um pouco mais a frente, ainda de mão enlaçada à dele, ignorando o falatório sem fim. — Se eu comprar para você um... – Ele não completou a frase, pois topou com alguém que vinha na direção contrária, e sua mão soltou a de Wolfram.
Muitas pessoas passavam por ali, e, no meio da multidão, Yuri perdeu Wolfram de vista. Olhou ao redor, e então reparou na pessoa em quem havia esbarrado. Era uma garota bastante alta, vestida com um casaco pesado de pelúcia no capuz, com penetrantes olhos acobreados escondidos por trás de óculos de lentes lilás, e uma touca de lã grossa sobre os cabelos cor de ouro branco. Ao lado dela, um garoto ainda mais alto olhava em frente, e não parecia reparar no infortunado encontro entre os dois. Tinha cabelos castanho-claro e olhos afiados, com piercings que cobriam suas orelhas e roupas bastante ousadas, que sugeriam um gosto apurado para moda. Yuri o achava vagamente familiar, mas não se demorou muito pensando nisso, pois logo saiu em disparada por entre as pessoas procurando novamente por Wolfram.
A figura de cabelos platinados olhou para trás, e um sorriso enigmático formou-se em seus lábios.
— Que coincidência incrível, Masaki, encontrar as pessoas de quem você falava há pouco neste mesmo lugar…
— O quê? – O garoto finalmente desviou o olhar para a pessoa ao seu lado, que Yuri havia simplesmente assumido ser uma garota, mas que tinha uma voz muito mais grave do que seria de se supor. – O Shibuya está aqui?
— Com o namorado. – Ele completou a afirmação. – É mesmo nesse garoto que sua irmã está interessada?
— Ela já teve gosto melhor, eu sei. – Masaki falou como quem se desculpava, embora não estivesse realmente tão atento assim à vida amorosa da irmã.
— Não concordo… Na verdade, acredito que ele tenha um charme bem… característico. – O garoto de cabelos longos sorriu um pouco mais abertamente, e Masaki parecia mais com alguém que havia sentido um cheiro ruim. Cerrou os olhos, a expressão de quem não se importa com nada, embora ainda houvesse uma ruga formada entre as sobrancelhas. – Apenas refresque minha memória, por que mesmo você se importa com quem sua irmã quer ou deixa de querer?
— Eu não me importo com o que ela quer de verdade, uma prova disso é que ainda não contei o que descobri quando vi esses dois no parque para ela. – Masaki foi categórico, e olhou para o amigo. – Sara, você olhou bem para esses dois? Eu conheço o Shibuya há algum tempo, e ele não seria em nenhuma hipótese o garoto do vestiário que fica tentando espiar os outros no banho, se é que você me entende. Não sei como ele acabou com outro cara, ainda mais um daqueles…
— E por que isso incomoda você? – O garoto chamado Saralegui deu de ombros despreocupadamente, fitando Masaki. Era colega de trabalho dele como modelo, e eles praticamente tiveram suas estreias na carreira juntos; e, conhecendo Masaki como ele conhecia, sabia que era raro ver algo perturbá-lo daquela forma. – Eu confesso que não achei que aqueles dois combinassem muito, mas se eles estão juntos, o que se pode fazer?
— Não irrita você? Esses dois andando por aí livremente, tão felizes, sem se preocupar com nada? – O semblante de Masaki era obscurecido, quase ameaçador. Sara conhecia o passado de Masaki, e sobre os problemas pessoais que ele lutava para esconder. Sabia muito bem quem é que ficava espiando os colegas de time no chuveiro. E, por isso, imaginava o incômodo que ele sentia quando era confrontado com dilemas daquela natureza.
—Masaki… Você vai mesmo fazer o que sua irmã pediu? – Sara semicerrou os olhos. Aquela era a expressão que ele fazia quando estava negociando alguma coisa com seu empresário, ou quando um contrato não saia exatamente como ele queria. Eram os olhos de alguém que sabia o que estava fazendo, e não aceitava ouvir uma resposta diferente da qual esperava. Pareciam quase brilhar. Persuasivamente.
— Ela não sabe quando desistir, não é? Eu disse que iria ajudá-la com o Shibuya, ou com o namorado dele, para ela tanto faz, mas se eles são desse jeito… — Ele colocou uma dose de desprezo a mais na voz. — Ela não vai conseguir o que quer de qualquer maneira. Eu só quero separar aqueles dois, isso é tudo.
— E se eu ajudar você… — Sara se aproximou sorrateiramente, e Masaki sabia, apenas em ouvir o tom de voz do outro, que sairia perdendo daquela “negociação”. — O que eu ganho?
— Eu não pedi ajuda.
— Se eu ajudar você – Sara fingiu não ter ouvido, e arrastou um pouco mais a voz, encarando Masaki diretamente. –, eu posso ficar com o asiático?
— Como assim? – Masaki parecia transtornado.
— Ah, vamos, ele parece interessante! Eu só quero brincar um pouquinho… Você sabe que eu gosto de asiáticos. Asiáticos que parecem asiáticos, não como você, de cabelo tingido. – Ele balançou a mão, displicentemente. – O que me diz?
Masaki virou o rosto, incapaz de demonstrar qualquer coisa que fosse.
— Faça o que quiser.
~
— Yoo, Murata! – Yuri ergueu o braço sinalizando, enquanto a outra mão segurava firme a mão enluvada de Wolfram, evitando que se perdessem novamente na multidão. Murata Ken visualizou os amigos, e separou-se da sua família, com quem havia vindo até ali, para ir até eles.
— Feliz Ano Novo! – Ele cumprimentou animadamente, recebendo a mesma saudação em retorno de ambos. – Vejo que vocês continuam love-love como sempre… — Ele observou as mão postas juntas, e sorriu de maneira sugestiva. – Provavelmente vai continuar assim pelo resto no ano, não é? Que inveja…
— Ei, você não vai roubar o Wolf de mim, ouviu bem? — Yuri tratou de abraçar o namorado bem forte, como uma criancinha que protege o seu brinquedo favorito dos outros mais velhos. – Arrume um namorado fofo pra você!
Como não era acostumado a crises de ciúmes por parte de Yuri, Wolfram limitou-se a corar até as orelhas, e virar os olhos para o lado oposto, com uma expressão de irritação. Murata permaneceu cético.
— Sinto muito estragar sua fantasia, Shibuya, mas nem todo mundo é como você, está bem? Eu quero uma namorada! Nada contra, mas cada um tem seu gosto, ok?
— Hunf, acho bom. – Yuri permaneceu desconfiado ainda, e Wolfram conseguiu se libertar do aperto dele, revirando os olhos.
— Boa sorte para você… — O loiro murmurou, desamassando o casaco, e Murata sorriu.
— Se até um idiota como ele conseguiu alguém, eu tenho esperança ainda. – Murata comentou, e Wolfram pensou consigo mesmo que teria que concordar com essa afirmação. – Então, Shibuya, e sua mãe, como ela reagiu quando soube?
— Soube o quê?
— Sobre vocês dois. Ela deve ter surtado… Mas a reação do seu irmão deve ter sido ainda pior, não é? Foi muito escandaloso…? – Ele fez uma careta, só de imaginar os ânimos na casa de Yuri, onde todo mundo era tão… intenso.
— Eu… não contei ainda… sobre o Wolf… — Yuri balbuciou, parecendo reparar nesse pequeno detalhe apenas agora. Estava sempre tão feliz por estar com Wolfram, e parecia tão natural como se estivesse com ele por toda a sua vida… Então, ele nem lembrava que precisava anunciar às pessoas sobre isso mais.
— Eu também… não anunciei à minha família… — Wolfram murmurou, embora seus motivos fossem um tanto mais sérios do que simplesmente esquecimento. Apesar do seu país ser bastante tolerante com relações entre pessoas do mesmo sexo, dentro de uma família tradicional e, acima de tudo, real, esse assunto poderia ser tratado com um pouco mais de relutância. Isso o preocupava de uma forma que Yuri não conseguiria sequer suspeitar.
— Esse assunto é meio delicado mesmo, mas, sabe… Se vocês demorarem muito, pode ser tarde… Seria pior se eles descobrissem de outra forma, não é? – Murata arriscou, e os dois se entreolharam, um tanto abatidos. Certamente, estavam curtindo tanto o estágio “lua-de-mel” do relacionamento que os problemas passavam longe das suas cabeças.
— Ótimo conselho de Ano Novo, melhor do que os papeizinhos. – Wolfram resmungou, e não dava para perceber se ele estava sendo sarcástico ou não.
— Eu tenho que ir agora, tenham um… bom ano…? — Murata sorriu sem graça, virando-se para a direção oposta, enquanto acenava para o casal. Yuri acenou de volta, mas Wolfram apenas cruzou os braços.
— Ele tem razão, até. Nós deveríamos pensar em como vamos proceder com as nossas famílias… Não é algo que possa simplesmente ser dito na mesa de jantar ou algo assim. – Wolfram suspirou, subitamente exausto apenas em pensar nisso. Olhou para Yuri, e reparou que ele mais parecia que havia comido algo estragado. – Não faça essa cara, fracote! Não é um problema assim tão grande… Nós só precisamos pensar cuidadosamente nisso, e nem precisa ser agora, então não se desespere com antecedência!
— Está bem… — Yuri segurou a mão de Wolfram com força, tentando se acalmar. – O que nós podemos fazer agora? Minha mãe está fazendo Mochi, e acho que não vai ficar parecendo uma pedra esse ano…
— Eu acho que vou ir para casa, Yuri… — Wolfram respondeu, e não parecia realmente inclinado a fazer isso.
— Mas por quê? Nós acabamos de chegar… Ainda podemos ir a algum lugar para comer… — Yuri argumentou. Wolfram suspirou, pensando se deveria ou não contar.
— Elizabeth está lá em casa por causa do recesso de ano novo, e vai haver um almoço por causa disso, eu tenho que estar presente. – Ele enfim disse, parecendo quase arrependido. O semblante de Yuri parecia vacilante.
— Você prefere ficar com ela, não é...? — Ele balbuciou, virando os olhos e fazendo a cara mais suplicante que podia, com um cachorrinho faminto ou algo assim. – Eu entendo… Afinal, ela é toda refinada, e bonita, e eu sou só um jogador de baseball que não sabe quais são os nomes dos chás das cinco...
— Sem drama, Yuri. – Wolfram não caiu naquela chantagem fraca, e Yuri recuperou-se rapidamente, decepcionado por sua versão de cara fofa não ser tão convincente quanto a de Wolfram. – Não é como se eu tivesse escolha de qualquer forma, mas... Se você quiser, pode ir comigo.
— Eu... posso ir? – Os olhos dele brilharam, e Wolfram sorriu fracamente com toda aquela empolgação. Não esperava que ele fosse aceitar tão rapidamente depois de ter tido praticamente um infarto só em imaginar assumir o relacionamento deles para os pais.
— Pode. Minha mãe queria convidar você de todo modo, fui eu quem disse que você provavelmente já tinha compromisso. – Ele explicou, tentando esconder o fato de que estava animado com a ideia de que Yuri iria até sua casa.
— E-eu tenho que levar algum presente pela visita?? E c-como eu devo me apresentar à sua mãe…? Wolfram, eu não sei o que fazer! – Yuri passou de empolgado para desesperado em questão de um segundo, ao pensar melhor no assunto. Era a primeira vez que iria até a casa de Wolfram como seu namorado, afinal… E nem sabia como devia se portar, ou como seria se os parentes dele soubessem da verdade. Subitamente, a ideia já não parecia mais tão agradável assim. — Eu devo comprar um melão… ou sabão em pó?
— Não precisa nada disso! Minha mãe nem lava a roupa, pra começar… E, bem, no meu país não existe esse costume. Você é o convidado, afinal. Enfim, pare de se preocupar sem motivo, não é como se você não tivesse estado lá outras vezes! E você ainda é… Bem, meu amigo, não é? Não há nada de estranho nisso.
— Eu sei... Mas, da outra vez que eu estive na sua casa, beijei você de repente e fugi logo de manhã cedo sem falar com ninguém. Não é um comportamento muito educado, não é? – Yuri resmungou, e Wolfram indignou-se apenas em lembrar-se desse fatídico episódio.
— N-ninguém mais se lembra do seu comportamento, então pare de pensar nisso, está bem? – Ele argumentou severamente, e Yuri não teve opção a não ser acatar. Wolfram levantou o olhar, e franziu a testa com desconfiança. – Yuri, aquela pessoa ali vindo na nossa direção com um sorriso enorme é…
— Yuri! Wolfram! Há quanto tempo…
Yuri virou-se há tempo de ver o homem enorme que se aproximava, e parecia ainda maior em pesados casacos de inverno. Os cabelos ruivos, além da altura, o destacava do resto das pessoas. Atrás dele, um garoto menor, mas igualmente ruivo e sardento, parecia um tanto desconcertado ao se aproximar.
— Ah! Feliz Ano Novo, Yozak-san, Ben-kun! – Yuri sorriu.
— Faz muito tempo que vocês não vêm à loja! Como vai o Conrad, Wolfram? – Ele já parecia familiarizado, e dava enormes mas amigáveis tapas nas costas de Yuri, que o faziam se curvar.
— Ele está bem.
— Eu vou visitá-lo, qualquer dia desses. Ah, espero que tenham um ótimo ano… Vou ali pegar a minha sorte, essas mikos não estão uma gracinha? – Ele já ia se afastando, e Benjamin, sem dizer uma única palavra, ia atrás, mas Yuri, de repente, parecia ter lembrado de algo.
— Ei, Ben-kun! Eu precisava falar com você! Tem um minuto…? – Ele chamou, e Benjamin cerrou os olhos, vendo o seu temor realizando-se.
— Ahn… Certo… precisa de algo, Shibuya? – Ele virou-se, com o rosto pálido e meio abatido.
— Eu só queria saber se você sabe o que aconteceu com a Miya-chan. Ela anda muito desanimada ultimamente, e isso não é normal…
— Ela está assim mesmo? – Ben exasperou-se, a expressão de lástima fazendo-o parecer ainda mas desolado.
— Sim… Primeiro eu pensei que poderia ser alguma coisa com aquelas garotas que incomodam ela, mas nós estamos no meio do recesso de inverno, não vamos à escola! Então pensei que poderia ser algo a ver com o trabalho no café…
— Ou com você, Benjamin… — Wolfram, que apenas observava em silêncio, era mais astuto do que Yuri, e havia percebido algo de estranho no comportamento do outro. Benjamin engoliu em seco, mordendo os lábios em sinal de nervosismo.
— Você sabe de algo, Ben-kun? – Yuri tornou a indagar, preocupado. Benjamin desviou o olhar, para a neve do chão, as árvores ao redor, a miko que passava por entre as pessoas. Sentia-se como uma presa encurralada, e cada segundo parecia mais improvável que sairia dessa situação ileso.
— Está bem… Vamos conversar em algum lugar mais calmo, Shibuya, por favor…
Yuri concordou, e Wolfram os acompanhou pelo lado do templo, até as escadas laterais, menos movimentadas. Estava mais frio ali, e o vento trazia consigo finíssimos flocos de neve. Benjamin respirou fundo aquele ar gelado, e encolheu-se, parecendo menor do que Yuri, muito embora fosse mais alto. Yuri franziu a testa, intrigado. O assunto parecia mais sério do que ele imaginara, e… ele não sabia se estava preparado para isso.
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