Sono Te Hanasanaide

33 Capítulo XXXIII


fukigen sou na kimi to sugoshite

Passando tempo com você quando você está de mau humor

wakatta koto ga hitotsu aru yo

Tem uma coisa que eu aprendi

sonna furi shite tatakau koto ni hisshi

Você está apenas fingindo ser assim e lutando desesperadamente

kitto ima mo tachitsukushite mamori no tochuu

Eu tenho certeza que, mesmo agora, está no meio de ficar firme e defender

yukute ni wa kazoekirenai

Incontáveis inimigos estão no meu caminho

teki ga ite atashi o matteru, kimi ni mo matteru

Esperando por mim, esperando dentro de você também

Capítulo 33

Os três encontraram um lugar para conversar na parte de trás do templo, onde o fluxo de pessoas era menor. A neve acumulara mais ali, evidentemente. Wolfram afundava os pés na camada branca e gelada que não parecia derreter tão fácil, com as mãos no bolso, fazendo o possível para não se intrometer na conversa entre os outros dois garotos. Não era nada que se referisse a ele, não era sua família, então, ele não tinha motivos para estar ali. Mas ainda estava.

Benjamin e Yuri sentaram-se no primeiro degrau que descia pela colina, e mantiveram-se em silêncio por algum tempo. O ruivo estava com o rosto abatido, escondido atrás do cachecol, e Yuri esperava que ele começasse a falar primeiro, antes de qualquer coisa. Wolfram já estava andando de um lado para o outro, chutando a neve para o lado, muito impaciente. Não aguentava esse tipo de enrolação. Não era mais fácil Benjamin apenas dizer o que havia feito com Miyako e terminar isso de uma vez por todas?

— Shibuya… — Benjamin hesitou, desviando os olhos incrivelmente azuis de um ponto a outro, sem coragem para olhar diretamente para ele. Wolfram teve que se conter para não ir lá e dar um tapa nas costas daquele garoto, para ver se ele desengasgava e soltava tudo de uma vez. – Eu… Sua prima, ela é uma pessoa muito especial, muito mesmo, eu não… Não pretendia magoá-la de maneira alguma, sinto muito se…

— Espera aí… — Yuri sibilou lentamente, com o semblante alterando-se. Wolfram soltou um baixo “Ah, agora ele percebeu!” para si mesmo. – Você que deixou a Miya-chan daquele jeito? – Ele se ergueu, e Wolfram tinha certeza de que agora ele havia realmente se dado conta do que acontecia entre aqueles dois. Francamente, a lerdeza de Yuri fazia ele se admirar às vezes.

— Eu não tinha intenção… N-não sabia que ela ficaria assim, eu… Eu…

— O que você fez com ela? – Yuri ergueu a voz, algo que raramente acontecia, e, justamente por não estar esperando por isso, Ben se encolheu, sem saber como continuar.

— E-eu não fiz nada… Quero dizer, o problema é justamente porque eu não fiz nada… Eu… — Ele suspirou, tomando coragem para terminar de falar. Wolfram se aproximou, intrigado com a súbita alteração em Yuri. – Shibuya, a Miya-chan… Miyako-san… Ela é alguém muito importante para mim. Ela é tão delicada e sensível… E ainda aguenta tudo o que acontece, sem medo de sofrer pelas pessoas que são preciosas para ela, eu a admiro muito por isso. Ela é capaz de fazer qualquer coisa pelos outros, mas raramente presta atenção em si mesma… Por isso, eu queria que ela percebesse o quão incrível ela é! Ela não tem muitos amigos, vocês sabem… E eu queria realmente ser amigo dela, ser alguém em quem ela poderia confiar, ser a pessoa que estaria lá para ela, para protegê-la…

— E o que aconteceu? – Wolfram finalmente desistiu de tentar se manter alheio, e, enquanto Yuri silenciosamente digeria as informações, ocupou a posição de interrogador. – Por acaso, a sua vontade de ficar ao lado dela acabou? Ou será que… evoluiu para outra coisa, e apenas ser amigo já não é o suficiente…?

Benjamin corou, destacando as sardas que pintavam sua face, e desviou o olhar. Ergueu-se de onde estava sentado, e, embora fosse mais alto do que ambos os garotos, parecia estranhamente vulnerável.

— Eu gosto da Miyako, Shibuya, de verdade. Muito mais do que eu acho que deveria, inclusive…

— Então, ela te rejeitou? É por isso que ela está triste? – Yuri indagou, arqueando uma sobrancelha. Já havia se acalmado, pois depois de Benjamin ter dito tantas coisas sobre sua prima, não haveria como ele ter feito qualquer coisa ruim com ela. Além do mais, alguma coisa nele dava a Yuri confiança em acreditar.

— Não teria como isso acontecer, porque… Bem, eu não me declarei. — Ele afundou o rosto no cachecol verde-escuro mais uma vez. – Eu não disse nada disso a ela.

— E eu achando que não podia existir ninguém mais burro do que o Yuri na face da Terra… — Wolfram resmungou para si mesmo, e voltou a olhar para Benjamin. – Por que você fez isso? Está na cara para qualquer um que queira ver que aquela garota adora você! Se está com medo de ser rejeitado…

— A Miya-chan realmente gosta dele? – Yuri estava confuso agora, o que só deixava Benjamin ainda mais desconfortável. — Eu pensei que ela só se interessasse por caras que gostam de outros caras ou algo assim…

— Yuri, não piore as coisas, é sério. — Wolfram segurou o namorado pelo pulso, colocando alguma pressão no aperto para impedi-lo de sair falando o que viesse à cabeça. – Você parecia bem disposto a demonstrar o que sentia, levando ela para o trabalho, buscando na escola, e tudo mais… Por que não se declarou então?

— Eu… realmente pretendia. E eu sei que a Miya-chan não iria… me rejeitar… Eu sei que ela também sente o mesmo por mim… — Ele admitiu em voz baixa, escondendo o rosto absolutamente vermelho.

— Sabe? Mas como? – Yuri estava surpreso com o detalhe que menos importava. – Ela disse?

— Yuri, é óbvio que ele deduziu sozinho, nem todo mundo tem que ser como você! Eu estava enganado, ninguém está no seu nível de lerdeza sobre-humana… – Wolfram revirou os olhos. – Agora, isso está difícil de entender, por que você não se confessou para ela se sabe o que ela sente?

— Porque… É porque… ela merece alguém melhor do que eu. Eu não posso dizer a ela o que eu sinto, seria injusto com ela se eu… Eu… Se eu não posso ser o príncipe com o qual ela sonha… Ela merece mais! Ela merece alguém que seja tão perfeito quanto ela é, entende? E eu não sou essa pessoa…

— Ainda não entendo… — Wolfram estreitou os olhos verdes, nos quais pequenos flocos de neve pintavam de branco os cílios longos. – Você não parece uma pessoa ruim… E é sobrinho do Yozak… O que te faz pensar que é alguém inadequado? Você… fez alguma coisa muito imprópria ou algo assim?

— Eu… não sou assim tão bom quanto devo parecer… A Miya-chan não sabe, mas eu… — Ele travou, e engoliu em seco. – Não vem ao caso… Mas… Eu não sou alguém apropriado para ela. Ela é tão inocente, e pura… Eu não quero fazer nada que… que… Eu… me arrependa. — Ele respirou fundo, tentando se acalmar, para ordenar os pensamentos confusos. – Eu apenas sei que não sou a pessoa certa para ela, e não importa o que eu sinta.

— Você tem medo do quê? – Wolfram indagou diretamente, pondo-se um passo adiante. Benjamin pareceu surpreso com a questão repentina, e pensou por um segundo.

— Eu tenho medo de machucá-la…

— Ela já parece machucada, não é? Você deu falsas esperanças à ela, e então desistiu covardemente!

— Wolfram, não seja tão mau… — Yuri balbuciou. A essa altura dos acontecimentos, já estava com pena de Benjamin.

— Eu sei que estou sendo covarde! Mas… eu não sei o que fazer! Eu tenho medo de… Se eu ficar ainda mais próximo dela… Acabar… Eu não sei, estragando tudo. Ela pensa em mim como um amigo… E eu gosto de ser amigo dela…

— Você está com medo de avançar e estragar a amizade que vocês têm? – Yuri indagou. Lembrava-se de ter tido pensamentos similares quando descobriu que gostava de Wolfram, mas a situação deles era diferente. Eles eram ambos garotos, e, apesar disso, Suzanna Julia bateu bem em sua cabeça quando ele começou a ser pessimista, de forma que ele só pensou em se declarar, mesmo que nem soubesse como. Mas Benjamin parecia ter algum motivo maior que o impedia de ser sincero quanto ao que sentia. E Yuri não pensava que deveria bater na cabeça dele… Talvez.

— É… Algo assim… — Benjamin desviou o olhar, afundando as mãos nos bolsos do casaco. – Eu não queria ver ela triste… Pensei que seria melhor assim, mas parece que eu errei de novo, não é?

— É melhor você decidir logo o que vai fazer. – Wolfram encarou-o profundamente, tendo que erguer o rosto para alcançar os seus olhos. – Ou então, deixe a Miyako em paz de uma vez. Ela não precisa de um covarde como você atrapalhando a vida dela. Pedir desculpas não adiantaria nada, a propósito.

— Tudo bem… — Benjamin acenou com a cabeça. Sabia que merecia esse tipo de tratamento, e queria dizer que ninguém estava se odiando mais do que ele próprio fazia nesse momento, mas Wolfram não se importaria de qualquer forma. Sentiu a deixa para ir embora, e Yuri tentou impedi-lo, mas Wolfram o segurou. Benjamin precisava pensar sozinho, e nada mais do que os dois falassem para ele poderia reverter em resultados… Não mais, pelo menos.

Ben seguiu até sumir novamente na multidão reunida ao redor do templo, e Wolfram e Yuri, ficando para trás, se entreolharam.

— Então… O que foi tudo isso? – Yuri indagou, surpreso.

— Isso o quê? Esse Benjamin me irritou! Todo hesitante, sem saber o que quer, fazendo a Miyako chorar…

— Você está preocupado com ela? – Yuri provocou, com um sorriso se formando lentamente. Wolfram pareceu indignado com a afirmação, e desviou o olhar. – Você está preocupado com ela!! – Ele bradou, ao ter a confirmação estampada bem diante de si. – Eu sabia! Você gosta da minha prima, e está querendo proteger ela também!

— Pare de gritar, fracote! Eu nunca disse nada disso, não fique repetindo essas asneiras! – Wolfram segurou Yuri pelo braço, irritado. – Eu só disse o que pensava, e esse garoto já estava me dando nos nervos. Você não fazia nada, eu tive que agir! E além do mais… É irritante…

— O quê…?

— Miyako está sempre ao nosso redor, falando sem parar, e rindo… É irritante que ela esteja parecendo um zumbi dentro de casa agora, sem se importar com nada… E tudo por culpa desse garoto…

— Awn, que fofo, Wolf! – Yuri trouxe Wolfram para mais perto. – Você fica tão fofo preocupado assim, eu amo isso! Parece até que a Miya-chan é nossa filha, e você é um pai preocupado…

Wolfram arfou, corando ligeiramente.

— V-você disse nossa…

O quê?

— Nada! Vamos nos atrasar para o almoço, é melhor irmos logo! — Wolfram pigarreou e seguiu em frente. Yuri levou meio segundo para partir no seu encalço. Havia se esquecido completamente disso, mas agora recordou dos problemas mais urgentes e imediatos dos quais tinha que tratar, e sentiu-se estremecer só de pensar.

~

Yuri nunca havia desmaiado na vida, mas imaginava que poderia muito bem estar prestes a conhecer essa sensação, enquanto ia chegando finalmente à casa de Wolfram. Tentava repetir mentalmente as razões que tinha para não temer, como um mantra, embora isso não estivesse se mostrando efetivo até o momento.

A mãe de Wolfram, Cheri, gostava dele, era verdade… Conrad também era legal, e era seu técnico de baseball afinal, e ele sabia que ao menos teria com quem conversar. Gwendal era meio sério e calado, mas não parecia desgostar especificadamente da sua presença, também… O problema maior era, de fato, o tio de Wolfram, e aquela garota irritante, Elizabeth. Yuri nem sabia o que estava deixando-o tão atormentado, mas, enquanto seguia pelo caminho até a entrada, seu estômago embrulhava tanto que ele duvidava muito de que seria capaz de comer qualquer coisa naquele fatídico almoço.

Wolfram só soltou sua mão quando chegaram próximos à entrada principal, e, pelo que Yuri lembrava, era a sua primeira vez entrando pela porta da frente naquela casa. Das outras vezes, ele sempre avançou pela lateral, para encontrar Wolfram nos jardins. Esse pensamento, embora sem muita coerência, fez Yuri sentir-se ainda mais perturbado. Como se entrar por aquela porta fosse algum tipo de sentença irrefutável, confirmação de alguma coisa… Quase como se ele estivesse assinando um documento, ou algo assim.

O hall de entrada era, como esperado, magnífico, ricamente decorado com móveis e objetos de arte aparentemente centenários, como todo o restante da casa, e Yuri sentiu-se imediatamente malvestido, mas se reteve ao prolongar o pensamento. Wolfram o xingaria se ele ousasse verbalizar o que pensara.

Ambos retiraram os casacos pesados, cobertos pela finíssima camada de gelo, e uma empregada que Yuri nem notou que estava ali antes se encarregou deles. O lugar estava todo aquecido, como era de se esperar, mas Yuri se encolheu no seu suéter cinza-escuro, desejando ter prestado mais atenção no seu guarda-roupa durante aquela manhã.

Esperando para recepcioná-los estava a estonteante Cecilie, com um vestido justo que evidenciava suas curvas, inteiramente branco, com minúsculas pedrinhas brilhantes que a faziam cintilar como uma estrela caída diretamente do céu. Os cabelos loiros caiam pelas costas nuas como cascadas cacheadas, e ela sorria abertamente, com os lábios, que agora Yuri percebia que eram exatamente iguais aos de Wolfram, contornados por um forte batom vermelho.

— Ah, eu estou tão feliz por você ter conseguido vir, Yuri! – Ela se aproximou de braços abertos, quase arrancando Yuri do chão em um abraço, e estalando um demorado beijo na sua bochecha direita, ao que Wolfram ofegou, quase ofendido. – Feliz Ano Novo, querido!

— F-feliz Ano Novo para a senho… — Ele percebeu o olhar de repreensão vindo de Cecilie, e se retratou. -… para você, também.

— Vamos nos apressar, estão todos esperando na sala ao lado… — Ela fez um gesto amplo, indicando a passagem por onde Yuri conseguia ver parte da escadaria.

Wolfram segurou Yuri antes que ele começasse a seguir sua mãe, evidentemente questionando-se se havia sido mesmo uma boa ideia ter trazido ele até ali. Puxou um lenço do bolso, fazendo Yuri se perguntar que tipo de garoto ainda leva lenços de tecido no bolso do casaco, e começou a esfregar com força na face de Yuri.

— Ela não podia ser mais indiscreta? – Ele resmungou, até que a mancha de batom vermelho do rosto de Yuri estivesse no seu lenço.

— I-isso dói… — Ele conseguiu balbuciar, quando Wolfram continuou passando o lenço no local mesmo depois da marca ter saído. Como se não bastasse o nervosismo anterior, ao desviar os olhos para o outro lado, viu que Cheri ainda os observava com um sorriso indisfarçável nos lábios, e, atrás dela, Conrad e Gwendal vinham se aproximando.

Wolfram guardou o lenço, e Yuri, com o rosto vermelho de tanto ser esfregado, se colocou em posição formal, com as costas eretas e os braços rígidos, sem se movimentar nem um único centímetro. Conrad vinha sorrindo, pronto para outro abraço, dessa vez sem marcas de batom.

— É bom ter você aqui, Yuri. – Ele disse com entusiasmo e sinceridade, e o moreno permitiu-se relaxar ao menos um pouco. Com Conrad ali, ele se sentia um pouco mais confiante.

— Feliz Ano Novo – Gwendal disse, apenas, mas Yuri não conseguiu sentir tanto medo dele, depois de fitá-lo e lembrar que ele tricotava toucas com orelhas de bichinhos para a sua prima.

Após rápidos cumprimentos usuais e de informar sobre sua família, Yuri sentia o nervosismo esvaindo-se aos poucos, e Wolfram, ao seu lado, embora não falasse nada, parecia satisfeito. Cheri os conduziu adiante, passando por mais duas salas, até chegarem ao local onde esperariam pelo almoço do primeiro dia do ano.

O local era mais amplo do que o hall de entrada, em tons pastéis discretos e de bom gosto, que se harmonizava com os enormes quadros de pinceladas expressivas que representavam paisagens lindas e profundas, de montanhas nas cores do pôr do sol, de florestas abundantes e de campos verdes e calmos, salpicados de flores silvestres. Mesmo sem ter sido informado, Yuri sabia que eram todos lugares em Shin Makoku. No centro da sala, um enorme piano de cauda, branco e limpo, e do lado esquerdo, dois sofás azul-marinho com detalhes entalhados na madeira escura, e duas poltronas no mesmo estilo. Sentados cada um em um lugar, estavam Valtrana e Elizabeth, que pareciam aguardar pela sua chegada sem muita expectativa. Cheri desapareceu por outra porta, alegando que iria verificar o andamento do almoço.

— B-bom dia… — Yuri engoliu em seco, ao enfim chegar perto o suficiente para ser ouvido. Elizabeth fez apenas um delicado sinal com a cabeça, e voltou a olhar para o colo, onde segurava alguma coisa entre as mãos. Ela estava… bordando? Yuri nunca havia visto ninguém fazer isso de verdade na vida, além daqueles quadros históricos que apareciam nos seus livros.

— Bom dia, senhor… Yuki? – Valtrana hesitou, avaliando-o com modos refinados, mas que demonstravam evidente desaprovação.

— Yuri. Shibuya… Yuri. – Ele sabia que Valtrana não gostava dele, mesmo que não tivessem se encontrado mais do que uma vez anteriormente, e não sabia como fazer para reverter essa situação. Conrad indicou que ele sentasse em algum lugar, e ele escolheu o sofá oposto ao de Valtrana, mas isso se provou uma péssima escolha, visto que agora o homem tinha a possibilidade de ficar encarando-o diretamente. Mas Wolfram acomodou-se ao seu lado.

— Ah, sim, claro, perdoe-me a falta de memória… Pois bem, a idade, você entende, não é? – Era evidente pelo revirar de olhos e o leve suspirar que ele não faria esforço nenhum para gravar o nome de Yuri. – Senhor Shibuya é amigo do meu sobrinho, não estou certo?

— Sim. — Yuri apertou uma mão na outra junto ao colo, e nunca pensou que se sentiria desconfortável em dizer logo essa palavra. – Amigos.

Um breve silêncio se instalou. Yuri olhou para Wolfram, e ele retribuiu o olhar, sem nada a dizer. Queria poder segurar a mão dele, pois nada no mundo poderia transmitir mais segurança do que isso naquele momento, mas se conteve, cerrando o punho no colo. Na poltrona ao lado, Elizabeth os observava, ou melhor, admirava Wolfram com olhos sonhadores. Yuri se remexeu, incomodado.

— Ah, sim, Yuri – Conrad cortou o silêncio repentinamente. –, você viu o último jogo do Boston Red Sox?

— Sim! Aquele home run no final foi incrível! – Yuri se apressou em responder. – Tenho certeza de que vamos manter essa boa campanha na próxima temporada! Espero que esses rumores de que o Tanaka Masahiro vai jogar no Boston seja real…

Depois disso, Yuri conseguiu manter uma conversa com Conrad, assim como faziam nos treinos, e foi fácil esquecer o nervosismo. Wolfram pareceu relaxar, juntando-se à eles, e enquanto os tópicos iam passando de esportes, para faculdades, livros, comportamento de animais e o final daquele filme que passou no outro dia, a conversa ia fluindo. Mesmo Gwendal, e até Elizabeth faziam comentários ocasionais, e o lugar não estava mais em silêncio. Mas Valtrana não esboçara nenhuma reação.

Logo Cheri retornou, animada com o clima e em ter a casa cheia, e anunciou que a comida estava pronta. Ela sentou na ponta da longa mesa que poderia muito bem acomodar o triplo de convidados, enquanto os outros, um a um, iam se acomodando. Yuri ia logo atrás de Wolfram, para sentar-se ao seu lado, mas de alguma forma, Elizabeth conseguiu fazer isso antes dele. Conrad, que estava acomodado do outro lado de Wolfram, cedeu o lugar para Yuri com um sorriso compreensivo.

A empregadas faziam fila para servir os refinados pratos, que Yuri nunca havia provado antes, mas não se atreveu a perguntar o nome. Estava tão acostumado com a culinária exótica da sua mãe, que adorava experimentar receitas novas e diferentes, que isso não o abalava. Havia talheres e taças demais para cada um, era verdade, mas Yuri se limitou a imitar tudo o que Wolfram fazia, desde abrir o guardanapo de tecido no colo, e começar pelos talheres de fora. Não parecia difícil, mas, sentindo o olhar investigativo e indisfarçável de Valtrana em cima de si, Yuri não conseguia mais relaxar como antes. Desejava que o enorme arranjo de flores no centro da mesa estivesse apenas um pouco para o lado, bloqueando a visão de Valtrana.

Mais uma vez, Conrad alimentou conversas simples e banais, das quais todos pudessem participar. Com Cecilie por perto, era mais fácil, pois ela colocava entusiasmo em todo e qualquer assunto que se quisessem discutir. Yuri falou um pouco menos, concentrado em seguir as coisas que sua mãe ensinou, como não fazer barulho com os talheres no prato, mastigar calmamente, falar baixo e sem afobação. Wolfram falava somente com ele, e Yuri parou para pensar que ele deveria estar se sentindo nervoso também, tendo que levar seu namorado em casa pela primeira vez, e, ainda, sem poder contar abertamente que ele era seu namorado. Era tudo tão complicado que Yuri preferiu apenas comer e não pensar mais nisso.

— É por isso que eu penso, Cecilie, que você deveria pensar melhor na proposta que fiz… — Valtrana tinha uma conversa um pouco mais acalorada com a matriarca, que não parecia nada satisfeita com aquela perturbação, e só agora Yuri percebeu. – Wolfram não precisa ir à escola, ele já completou seus estudos em casa. Acredito que seria muito melhor para ele voltar comigo para a Europa, e iniciar um curso superior.

— Senhor Bielefeld… Não é o momento certo para discutir isso, eu presumo, ainda mais quando temos convidados. – Gwendal estava mais sério do que Yuri jamais havia visto, embora ele tivesse a impressão de que Valtrana não parecia particularmente incomodado com a ideia de discutir assuntos de família na frente de um estranho. Pelo contrário, ele parecia estar realmente disposto a colocar esse assunto à mesa, naquele exato instante. – Se deseja minha opinião sincera, tenho certeza de que Wolfram é perfeitamente capaz de decidir sozinho o que é melhor para ele.

— Absolutamente não. – O tom de voz de Valtrana era brando, porém era evidente que ele não gostava de ser contrariado. Yuri se sentiu deslocado, no meio de uma discussão familiar daquelas. Fitou Conrad, procurando por ajuda, mas ele apenas olhava para ele como quem pedia desculpas. – Wolfram é jovem, inexperiente, precisa de orientação de alguém com sabedoria para guiá-lo. Por isso, eu repito, se permitissem que ele fosse comigo, teria a melhor das universidades à sua disposição, e Elizabeth ficaria feliz em fazer-lhe companhia durante…

— Vocês podem, por favor, parar de falar de mim como se eu não estivesse aqui?! – A voz de Wolfram soou alta e imperativa, ecoando pelo amplo salão de jantar. Yuri percebia que ele tentava se manter controlado, mas seus ombros tremiam compulsivamente, e seu rosto estava vermelho. – Não falem dessas coisas… na frente de Yuri… — Ele sibilou. Yuri passou a mão pelo joelho de Wolfram, tentando tranquilizá-lo. Não era como se ele não estivesse acostumado com discussões familiares, na sua casa isso acontecia também, e não eram raras. Só queria que Wolfram não estourasse de repente, e acabasse fazendo qualquer coisa da qual se arrependeria depois.

— Desculpe, querido. – Cheri sorriu. – Espero que Yuri não tenha ficado desconfortável demais com esse pequeno… desentendimento. Afinal, ele já é quase da família…

— E-eu estou bem, não se preocupe... — Yuri se limitou a voltar-se ao seu prato, tentando ignorar o comentário sagaz da mãe de Wolfram. Algum tempo passou, e o prato de entrada foi trocado pelo prato principal, e, enquanto as empregadas passavam, com seu serviço impecável, ninguém disse mais nada.

— E-eu recebi uma carta da prima Amelia essa semana… — Elizabeth fez uma tentativa de aliviar a tensão no ambiente inserindo outro assunto. Yuri fitou Wolfram de canto, e ele ainda parecia tenso. Discretamente, acariciou a mão dele por baixo da toalha, e, quando ele ergueu o rosto na sua direção, sorriu. Wolfram apenas fez um sinal com a cabeça, alegando que estava bem. – Ela está na Noruega, e disse que está muito bem, apesar do inverno rigoroso…

— Eu já explanei minha opinião sobre Amelia, não é mesmo, Elizabeth? Seu tio não quer que fique tão próxima a ela. — Valtrana afirmou, resoluto, e Elizabeth se encolheu novamente na cadeira, arrependida por ter trazido à tona esse tema.

— Ora, Amelia é uma menina tão boa, não consigo imaginar por que você a julga como má influência… — Cecilie argumentou. – Eu a conheci durante um baile há dois anos, e ela me parecia uma bela jovem, perfeitamente saudável.

— Bem, ela realmente era uma boa jovem, isso até desonrar o nome da sua família e negar seu sangue em favor de… meros caprichos. — Valtrana entoou com desdenho.

— O que aconteceu?

— Amelia está… Bem, ela… — Elizabeth baixou a voz, indecisa sobre o que responder. – Ela mora com outra garota, e as duas são... namoradas?

Yuri paralisou por um instante, completamente apavorado, e sabia que seu rosto agora seria revelador. Ninguém prestava atenção nele, é claro, mas podia sentir a tensão no ar, e seu medo tornou-se realidade ao perceber o semblante de Valtrana. Ele estalou a língua em desaprovação, parecendo absolutamente decepcionado.

— Não estou dizendo que é errado… Nosso país possui uma cultura de aceitação admirável, e eu entendo que essa seja uma escolha muito pessoal, está tudo bem se for apenas uma fase durante a juventude. — Valtrana explanou, como se estivesse justificando um crime hediondo. – Mas Amelia é uma nobre, cresceu na corte, teve a melhor educação que se pode imaginar. Ela é filha de um Duque, Cecilie… Era o seu dever, como herdeira, honrar o brasão da sua família, casar-se com outro nobre de mesmo nível, e gerar descendentes valorosos que continuem carregando este legado. Mas ela apenas abandonou tudo isso insensatamente para viver com outra garota na Noruega! Isso é muita irresponsabilidade, inaceitável.

— Você está sendo ignorante, querido Valtrana, e parece cada vez mais patético a cada palavra. – A voz de Cecilie era doce e sedutora, mas escondia uma grande dose de irritação. – Não posso acreditar que estou ouvindo tais besteiras de um membro de minha própria família.

Valtrana estufou o peito, indignado com aquela repreensão tão inesperada. Conrad escondeu os lábios com o guardanapo para disfarçar uma risada.

— Você diz isso, Cecilie, mas coloque-se no lugar dos pobres pais dessa menina! Eles a criaram com tanto amor e esforço, para ela apenas juntar-se a uma plebeia qualquer e deixar tudo o que possuía para trás!

— Ela está sendo feliz, e eu duvido muito que a sua opinião importe a ela nesse momento. — Conrad soprou, deixando Valtrana ainda mais desconcertado. Yuri olhava de um para o outro, surpreso com o desenvolvimento da discussão. Quando fitou Wolfram, percebeu que ele ainda estava rígido em seu lugar, e parecia tão chocado quanto ele próprio.

— Você, Gwendal, que sempre foi tão sensato, deve concordar que esse ato de rebeldia por parte de Amelia não deveria passar impune...

— Concordo que Amelia foi leviana ao deixar o país tão bruscamente, sem conversar de maneira correta com seus pais. – Gwendal disse, deixando Valtrana por um momento esperançoso de que alguém finalmente estaria do seu lado. – Mas discordo quanto à sua resolução do que está errado. Amelia é maior de idade, responsável e adulta o suficiente para ter noção do que decidir sobre sua própria vida. Ela está feliz, isso é um consenso. Não acredito que as leis sejam feitas apenas para o povo, Valtrana. Se nossa lei diz que duas pessoas do mesmo sexo podem se casar, em Shin Makoku, isso tem valor tanto para um duque quanto para um criado. Sua ideia de prolongar o nome da família a partir do sangue é muito arcaica, se me permite dizer. Tais atitudes conservadoras foram as causas da queda da Monarquia, sem sombra de dúvidas.

— Se eu estivesse no lugar dos pais de Amelia… — Cecilie completou, orgulhosa da posição firme de Gwendal. — Ou melhor, se isso acontecesse com algum dos meus próprios filhos… — Ela sorriu, e poderia ser impressão de Yuri, mas seus olhos vacilaram na direção deles dois por um breve segundo. – Eu o apoiaria com todo o meu coração. Nada importa mais para um pai do que ver seus filhos felizes, Valtrana, e você saberia se tivesse tido os seus próprios ao invés de expôr opiniões aleatórias sobre os filhos dos outros.

— Cecilie, eu estou indignado…

— Eu também estou indignada, Valty! – Cheri o interrompeu, e o uso tão repentino de um antigo apelido de infância fez Valtrana, surpreendentemente, quem diria, corar nas orelhas. – Que você possa tentar tantas vezes atrapalhar um almoço tão agradável com a minha família. Vou pedir que venha a sobremesa, para aliviar essa conversa amarga de uma vez.

Valtrana ficou em silêncio dessa vez, e Gwendal puxou algum outro assunto com Conrad, sobre a bolsa de valores ou qualquer coisa assim. Cheri elogiou a maquiagem de Elizabeth, e, aos poucos, o silêncio foi preenchido por vozes um tanto mais animadas. Os pratos vazios se foram, e taças com algum doce que Yuri não conhecia, mas que parecia feito de chocolate, surgiram à frente de todos. Era delicioso.

Yuri fitou Wolfram mais uma vez, mas não tentou sorrir. Alguma coisa naquela reunião parecia ter deslocado o ar de alguma forma, e, apesar de ser tão lento quanto Wolfram adorava ficar repetindo, ele sabia perceber quando algo não ia bem.

E, definitivamente, a ocasião era essa.

Notas finais
hm... momentos tensos, certo?? Parece que o início do ano desses dois não vai ser fácil~ Ceerto~ só me resta esperar para saber o que acharam... preciso ir agora, até a próxima, bye bye~~ [Revisado]