Sono Te Hanasanaide

68 Capítulo LXIII


Cause we were just kids

Porque éramos apenas crianças

When we fell in love

quando nos apaixonamos

Not knowing what it was

Não sabendo o que era isso

I will not give you up this time

Não vou desistir de você dessa vez

But darling just kiss me slow

Mas, querido, apenas me beije devagar,

Your heart is all I own

seu coração é tudo o que eu tenho

And in your eyes you're holding mine

E em seus olhos, você está segurando o meu



Capítulo 63



Iniciar aquela conversa era muito mais difícil do que Yuuri tinha imaginado — e ele de fato havia imaginado isso, antes de bloquear completamente a sua memória, com medo da reação de Wolfram com esse assunto. Era milhões de vezes pior quando ele tinha à sua frente a real mágoa no rosto da última pessoa na qual ele gostaria de ver aquela expressão. Wolfram estava sentado na beirada da piscina, com uma toalha nas costas, fitando fixamente a extensão azul, que refletia a luz do sol. Yuuri acomodou-se ao seu lado, sabendo muito bem que deveria dizer alguma coisa — qualquer coisa — para aliviar aquele sentimento e não deixar Wolfram sentindo-se mal por causa dos seus próprios erros.

O problema era decidir o que deveria falar — e como deveria falar.

— Wolf… — Ele chamou com a voz suave, tocando de leve com o pé a perna dele, debaixo da água. — Você não fez nada de errado, sabe disso, não sabe?

Wolfram se encolheu, mas não ergueu o rosto para encará-lo.

— Então por que você me afastou…? — A voz de Wolfram era fraca, e Yuuri sabia que ele devia estar muito confuso com a forma como aquela situação se sucedeu. Ele só queria ser melhor, mais eloquente, mais seguro, para poder dissipar toda aquela confusão de uma só vez e fazer Wolfram acreditar de verdade que o problema era todo ele, Yuuri, e a sua mente bagunçada, e que ele era perfeito e não havia feito nada de que devesse se arrepender.

— Wolf, escuta… Eu… Tem algo que eu não falei com você, e que eu deveria ter falado há muito tempo, mas acabei adiando porque… eu tinha medo, da sua reação, e de não saber o que fazer… Eu errei, eu deveria ter conversado com você primeiro, antes de decidir resolver tudo sozinho. Me desculpe. — Yuuri falou, segurando a mão de Wolfram na sua, e se sentindo culposamente aliviado quando ele não a afastou.

Wolfram deixou seus ombros caírem, com um suspiro pesado.

— Por que você não me diz tudo agora, então? Falar dessa forma ambígua está me deixando com medo. — Ele finalmente ergueu os olhos. Andava tão distraído ultimamente, que não notou que Yuuri estava sofrendo com algum dilema. Para ele estava tudo bem, como sempre esteve. Ele não havia percebido nada de errado. Aparentemente, também havia cometido um erro, ao não perceber a hesitação de Yuuri.

— Não precisa ter medo... — Yuuri se aproximou um pouco mais, passando os dedos de leve pela pele úmida de Wolfram, percebendo que ele se inclinava levemente na direção do seu toque. Respirou fundo, reunindo coragem e pensando bem em qual a melhor forma de iniciar aquele assunto sem assustar ainda mais seu namorado. — O que você lembra da noite do casamento da Suzanna Julia? Quero dizer, depois da festa, exatamente…

Wolfram se surpreendeu com o rumo da conversa. Não havia entendido exatamente o cerne da preocupação de Yuuri, mas que tivesse algo a ver com aquela noite não havia passado pelos seus pensamentos.

— Você diz, enquanto eu estava… levemente alterado? — Wolfram arriscou, e Yuuri assentiu. Seu semblante era sério, o que só servia para deixar Wolfram mais tenso. Ele se esforçou, tentando abrir caminho pelas cenas turvas que se atropelavam em sua mente, confusas demais para fazer o menor sentido. E ele não estava inteiramente convencido ainda de que metade delas não teriam sido produtos da sua imaginação. Sonhos de uma mente influenciada pelo estado etílico elevado daquela noite.

Coragem para perguntar e tirar a dúvida sobre o que era realidade e o que não era, ele não possuía. Resolveu seguir por um caminho que parecia ligeiramente mais seguro.

— Eu lembro de… dançar, com você. — O delicado vermelho do rosto, corado do sol, intensificou-se. — Lembro do quarto do hotel… Lembro que você ligou o ar condicionado, e que o quarto estava quente, sufocante… — Um vinco se formou entre as sobrancelhas finas, enquanto mais imagens surgiam nas lembranças difusas de Wolfram, embora ele não soubesse exatamente a ordem de ocorrência entre elas, ou se, de fato, havia ocorrido assim. Como Yuuri continuava a assentir, incentivando-o, ainda com aquele semblante sério que Wolfram não estava acostumado a ver nele, ele tentou com mais afinco, organizar as memórias. — Depois disso as minhas memórias ficam meio confusas… Eu só consigo lembrar de você. De estar perto de você. Perto demais…

A última parte foi sussurrada, mas Yuuri conseguiu ouvir mesmo assim. Se Wolfram conseguia lembrar ao menos disso, ele já tinha um caminho por onde seguir. Só esperava que fosse o caminho correto.

— Eu acho que cheguei a mencionar algo sobre o que aconteceu naquela noite antes… — Yuuri ponderou por alguns segundos.

— Mesmo que não tivesse, eu teria deduzido, Yuuri. Quer dizer, havia marcas no meu corpo e… E no seu, então… Bom, eu não sou tão ingênuo assim, eu sei que eu devo ter exagerado, depois de ter bebido, e alguma coisa aconteceu. — Wolfram respirou fundo. Ter consciência de que ele havia facilmente perdido o controle e muito provavelmente atacado seu namorado até que ambos ficassem naquele estado era uma coisa, falar sobre isso em voz alta era completamente diferente. — Eu… fiz alguma coisa além disso? Yuuri, se eu fiz algo errado e isso te incomodou, de alguma forma, você tem que me contar…!

— Não, não é nada disso. — Yuuri se apressou em tentar tranquilizar o outro antes que ele começasse a tirar conclusões precipitadas (ele tinha tendência a fazer isso). — Não foi nada do que você fez… Bem, não exatamente pelo menos. Foi mais… a maneira como você agiu e… as coisas que disse. Não que tenha sido algo errado, claro que não! Mas eu não consegui parar de pensar nisso, ficou na minha cabeça. Eu deveria ter conversado sobre isso com você muito antes, mas não tive coragem… — Nervoso, Yuuri perdeu o controle das palavras, que já começavam a correr sem seu consentimento, mesmo que ele soubesse que aos poucos estava perdendo a coerência naquilo que falava. O olhar no rosto de Wolfram deixava evidente que o estado de confusão era compartilhado por ambos.

— Você podia ser mais específico, Yuuri. Eu ainda não estou entendendo, você só está me deixando mais confuso. — Wolfram admitiu, a voz ainda baixa, mas com um leve tom de curiosidade e preocupação, e talvez até mesmo uma nota de irritação que se elevava por Yuuri ser tão vago em suas palavras.

— Ok… — Yuuri soltou o ar de uma só vez, e virou o rosto para encarar Wolfram novamente. — Naquela noite, quando nós estávamos… Enfim, você pediu algo. Não vou dizer que foi algo que me assustou, claro que não — Ele pigarreou disfarçadamente, tentando em vão ocultar o embaraço que sentia naquele momento. — Mas me pegou de surpresa. Quero dizer, você nunca é tão honesto assim sobre as coisas que quer, Wolf, e isso me pegou desprevenido…

— Do que está falando? — Wolfram interrompeu, cruzando os braços cobertos pela toalha junto ao peito, uma das sobrancelhas arqueadas. Mesmo sabendo que provavelmente era verdade, e que não seria a primeira vez que jogavam isso na sua cara, Wolfram ainda era orgulhoso o bastante para não admitir isso a alguém, mesmo que o alguém em questão fosse Yuuri. — Eu sou sempre honesto. Não é minha culpa se você tem uma mente tão simples e não consegue entender as entrelinhas.

— Não foi exatamente isso o que eu disse, mas você entendeu. E quis dizer que você nunca fala diretamente o que quer, sabe? Na maioria das vezes eu consigo adivinhar, mas não é sempre, e ainda assim, quando eu ouvi você sendo tão… objetivo, eu realmente não sabia o que fazer, e…

Yuuri. — Wolfram disse simplesmente, olhando fixamente para Yuuri e demonstrando de forma clara que ele já podia parar de enrolar e partir para o assunto que de fato importava ali.

Mesmo que estivesse constrangido, ele ainda estava impaciente, e queria — precisava — saber de uma vez. Yuuri entendeu, sem precisar de tantas pistas, que estava procrastinando além do necessário para chegar ao ponto principal daquela conversa. Não era à toa que Wolfram estivesse ficando incomodado.

Yuuri respirou fundo. Certo, ele podia ser mais sucinto e objetivo.

— Você pediu para… avançar as coisas. Sabe? — Ele explicou, hesitante, gesticulando com uma das mãos, como se isso fosse ajudar a ilustrar melhor o que desejava transmitir. O semblante de Wolfram deixava muito claro que ele não estava tendo sucesso com isso. — Aprofundar a nossa… relação? — Wolfram ainda o fitava, com a expressão em branco de quem claramente não estava acompanhando o raciocínio. — Você se empolgou durante o… É... O que nós fizemos, e queria, ahn… Ir até… o fim. Eu e você. Entende?

Avançar… Aprofundar… Ir até o fim? As palavras que pareciam tão fora de contexto lentamente iam se encaixando em uma perspectiva que Wolfram não sabia se estava preparado para encarar tão subitamente. Não havia como disfarçar, ou fingir que não havia compreendido. O tom corado na pele de Wolfram começou a gradualmente se tornar mais intenso, à medida que ele percebia o real significado de toda aquela conversa. Seus olhos foram se arregalando, e, por mais que ele estivesse com os lábios entreabertos, nenhum som realmente tomava forma. Yuuri iria questionar se ele havia compreendido o que havia sido dito, e chegou a erguer a mão na direção do outro, mas ele se encolheu, escondendo o rosto com ajuda da toalha que ainda tinha nas costas, enquanto se agitava de um lado para o outro, fazendo a água da piscina pular com o movimento dos seus pés, e resmungava coisas ininteligíveis para si mesmo.

A verdade era que queria sair correndo e se esconder no primeiro lugar que encontrasse, talvez ficar lá por mais de uma semana antes de ter coragem de encarar Yuuri de novo. Só não fez exatamente isso por consideração a Yuuri — que parecia estar realmente se esforçando para explicar tudo — e… Bem, principalmente, porque o espaço da piscina restringia um pouco seus movimentos, e ele não conseguiria sair correndo dali sem perder alguns pontos de dignidade por estar seminu, molhado, e provavelmente acabar escorregando pelo caminho. No entanto, como poderia suportar a ideia de que, por ter sucumbido aos atrativos do álcool, havia se tornado um demônio devasso e descarado que fazia propostas completamente indecentes ao seu ingênuo (ou nem tanto) namorado, em um quarto de hotel? Incabível. Wolfram von Bielefeld não suportaria viver com esta descoberta.

Yuuri pensou se seria uma boa ideia continuar falando agora, mas não parecia ser exatamente o melhor momento. Wolfram ainda precisava digerir os acontecimentos daquela noite, que ele próprio demorou tanto para absorver.

— Por que você… Eu não… Isso… Aargh, eu não consigo…! — Quando percebeu que o movimento de Wolfram indicava que ele pretendia levantar e sair dali, Yuuri colocou a mão em seu ombro, por cima da toalha, e não deixou que ele se movesse tão rápido. Lentamente, segurou sua mão, fazendo com que aos poucos ele cedesse e revelasse mais uma vez o rosto, enrubescido e confuso.

— Por favor, Wolf, não fuja dessa vez. — Apenas esse pedido já foi suficiente para manter Wolfram imóvel, enquanto ele percebia o olhar de Yuuri, tão perdido e embaraçado quanto ele próprio. — Eu também fiquei constrangido por tudo isso, mas você falou essas coisas e caiu imediatamente no sono, sem que eu tivesse tempo de confirmar se havia ouvido isso mesmo… Bem, eu tenho certeza de que ouvi, porque eu não conseguiria imaginar uma coisa dessas nem em sonho, mas você entendeu… Eu nem consegui dormir naquela noite, e estive pensando sobre isso desde então…

— Eu… fiz isso tudo mesmo? — Wolfram murmurou, incrédulo. Sentiu a culpa alojar-se como uma incômoda pedra no fundo do seu peito. Ele era tão egoísta. Yuuri agia normalmente, na escola e fora dela, e a rotina deles não havia mudado. E ele não havia desconfiado, nem por um segundo, de que poderia haver algo de errado. Apenas considerou aquela noite como encerrada e seguiu, tranquilamente, sem pensar mais nisso. Wolfram havia ficado tão focado nos seus próprios dilemas, ponderando sobre perspectivas pessoais, que nem percebeu que Yuuri podia estar confuso e cercado de dúvidas bem ao seu lado. Ele definitivamente não podia continuar com isso. Não faria Yuuri sofrer mais por causa dos seus ímpetos. Era hora de Wolfram fazer algo em troca.

— Não importa mais, já passou. — Yuuri sorriu, tranquilizador, e afagou de leve a mão de Wolfram, que ainda trazia junto à sua. — Eu só acho que nós não deveríamos mais evitar esse assunto, por mais embaraçoso que seja… É melhor conversar e resolver tudo de uma vez, não?

— Tem razão. — Wolfram fez o possível para se acalmar e encarar com seriedade a situação. Se não fosse honesto sobre a maneira como se sentia com seu namorado, como poderia esperar que ele também fosse? — Eu… sinto muito por ter colocado você nessa situação…

Wolfram queria abraçar Yuuri e esconder seu rosto nele, mas sabia que não era o momento para isso. Não podia mais se esconder dessa forma. Yuuri se aproximou mesmo assim, passando os dedos pelas suas mechas de cabelo molhadas, e colocando algumas atrás da orelha, carinhosamente.

— Eu já disse, não foi problema algum. — Yuuri ainda conseguia sorrir, e Wolfram não pôde evitar o pequeno abalo que isso causou em seu peito. — Você só… me pegou de surpresa, isso foi tudo. E eu fui meio covarde, acabei não esclarecendo o assunto a tempo, mesmo sabendo que você não lembrava de nada. Achei que poderia resolver isso sozinho.

— Nós definitivamente precisamos melhorar esse sistema de comunicação. — Quase inconscientemente, Wolfram se inclinou na direção do toque de Yuuri, e deixou que ele percorresse seu rosto com os dedos, delicadamente. — Mas… Só mais uma coisa... — Ele abriu os olhos subitamente, sobressaltando Yuuri, que deixou a mão cair de volta para o colo. Se a intenção era ser sincero por completo, Wolfram tinha que começar imediatamente. — Isso tudo… As coisas que eu disse, e a maneira como eu agi… Acho que você precisa saber que nada disso foi unicamente consequência do álcool, ou que foi apenas um devaneio momentâneo. — Ele podia sentir os olhos de Yuuri fixos em si, gradualmente mais desconcertados com o que ele ouvia. Sentia seu rosto queimar incomodamente, mas não iria voltar atrás agora. — Talvez esse tenha sido apenas uma válvula de escape para… algo que já vinha passando pela minha cabeça há algum tempo…

— Você diz… que esteve pensando nisso desde muito antes daquela noite? — Yuuri repetiu, e Wolfram apenas acenou, confirmando, com o rosto ainda muito vermelho. — Então… acho que… — Yuuri queria dizer que eles deveriam fazer algo em relação a isso, mas nenhuma alternativa plausível para exemplificar essa conclusão vinha à sua mente.

— A não ser que… — Wolfram pronunciou cuidadosamente, sua expressão tornando-se lívida e ligeiramente assustada. — Se você não quiser, Yuuri, eu vou entender! — Ele se apressou em esclarecer, falando tão rápido que Yuuri quase não compreendeu. — Não estou querendo te pressionar nem nada-

— Não! — Yuuri interrompeu mais do que imediatamente, igualmente alarmado. — Eu quero isso também! Eu realmente quero, totalmente! Sem dúvidas! — Wolfram o encarou com assombro, o vermelho que tingia seu rosto desde o início daquela desajeitada conversa espalhando-se ainda mais pela pele, e a toalha que ele trazia junto a si escorregando pelos ombros. Yuuri escondeu a boca, que havia falado mais do que o planejado, de novo, em pânico. — E-e-eu não quis… — Ele começou a se retratar, e então percebeu que não havia necessidade para retirar o que havia sido dito. Era exatamente isso o que ele queria falar para Wolfram aquele tempo todo. — É, é isso. Eu também quero o mesmo que você. — Seu semblante se tornou sério, ainda que absolutamente corado, e Wolfram engasgou e perdeu o ritmo de respiração por um breve segundo.

Mesmo que quisesse, não encontrou em si nenhuma maneira de desviar o olhar naquela hora, e os dois apenas compartilharam aquele momento de silencioso e constrangedor entendimento. Era isso. Os dois estavam finalmente na mesma página, pensando o mesmo e chegando juntos à mesma conclusão. Ambos sentiam-se prontos para um novo passo no relacionamento. Eles fariam sexo. Em algum ponto de um futuro próximo. Essa constatação parecia assustadora quando encarada à primeira vista, daquela forma crua e simples.

Wolfram baixou o olhar, deixando que esta afirmativa se instalasse confortavelmente em sua mente. Sentia como se um peso que ele nem sabia que existia tivesse sido retirado das suas costas. Yuuri parecia igualmente aliviado, depois de esclarecer todos os pontos que vinham torturando-o durante os últimos dias. A calma recorrente depois daquele turbilhão de emoções durante uma única conversa era reconfortante.

— Mas você sabe, não é… Que nós não precisamos, ahn… Fazer algo sobre isso imediatamente, também, certo? — Yuuri arriscou, o desconforto colorindo sua voz apenas de forma tênue dessa vez. — Bom, pra ser bem sincero eu nem saberia por onde… Ou como… começar. — Ele deixou escapar, e mordeu o lábio, fechando os olhos com força para tentar aliviar a vergonha de ter admitido isso em voz alta. Ouviu a risada leve e tímida de Wolfram logo ao seu lado.

— É claro que eu sei disso. Não passou pela minha cabeça agir tão repentinamente assim. — Ele disse, embora seu rosto o traísse e não demonstrasse a mesma confiança que ele trazia na voz. De fato, os dois eram absolutamente inexperientes, e tudo o que haviam feito até agora havia sido produto puramente de instinto e alguma imaginação adolescente fértil. Nenhum deles sabia exatamente o que estava fazendo até aquele momento ou como seguir em frente. — Nós vamos ter que… nos preparar apropriadamente, acredito eu. Pelo menos, fazer uma… pesquisa antes. Para ter certeza do que fazer.

— Tem razão. — Por mais que a ideia de estudar para esse fim parecesse… estranha e constrangedora demais, Yuuri acreditava que Wolfram estava certo. Ele não queria que nada desse errado. Wolfram era perfeito, e não merecia nada menos do que a perfeição. Ele faria o que estivesse ao seu alcance para conseguir isso.

Yuuri afagou o rosto de Wolfram mais uma vez, observando bem cada detalhe do rosto corado, as pequenas gotas de água que ainda pingavam do seu cabelo. Algumas permaneciam presas nos cílios longos, fazendo com que seus olhos parecessem ainda mais com duas jóias brilhantes. O loiro apertou os lábios, deixando que um sorriso pálido surgisse, enquanto ele o fitava em resposta, com a mesma intensidade.

Algo fez o peito de Yuuri apertar. Wolfram era tão precioso, e ele só queria fazê-lo feliz, mais do que qualquer coisa. Em um movimento repentino, ele se inclinou na direção do outro, tocando com os lábios a maçã do rosto, descendo para o maxilar, o espaço entre a orelha e o pescoço, e enfim, escondendo o rosto no ombro dele, enlaçando-o com os braços no abraço limitado que a posição de ambos, sentados na beirada da piscina, permitia.

— Desculpa, Wolf… — Ele murmurou, sua voz vibrando contra a pele exposta. Sentiu que Wolfram retribuía ao seu abraço, apoiando o rosto contra seus cabelos.

— Por que está se desculpando? — Wolfram indagou, calmamente. Yuuri passou os dedos pelas costas dele, medindo as palavras, ou talvez apenas apreciando a textura da pele macia nas suas mãos.

— Eu te afastei antes. — Ele respondeu, sem recuar ou desviar o olhar. — Não deveria ter feito isso, e você não fez nada de errado. Desculpe por isso.

— Não tem problema. — Wolfram acariciou de leve a nuca de Yuuri, entrelaçando os dedos em seus cabelos. — Se você não quer que eu faça algo, ou não estiver confortável, você tem que me falar também. Eu não vou me incomodar.

— Não, não foi esse o problema! — Yuuri ergueu o rosto rapidamente, voltando a ficar agitado, ávido em explicar qualquer mal entendido por menor que fosse. Não iria permitir que algo como o que ocorreu antes voltasse a se repetir só porque ele resolveu que omitir uma informação era mais fácil do que enfrentar a reação de Wolfram. — Eu gostei! Quer dizer, o problema ali foi exatamente porque eu me senti culpado por ter gostado tanto assim, depois de tudo o que aconteceu, e… Wolf?

Wolfram estava novamente com o rosto em chamas, e uma expressão de choque que tentava, em vão, disfarçar. Ouvir Yuuri ser tão direto não estava nos seus planos, e ele não sabia bem como reagir. Só sabia que agora conseguia imaginar com ridicula precisão como Yuuri deveria ter se sentido naquela noite no hotel, ao ouvi-lo falar seja lá o que ele tenha dito tão objetivamente.

Ele desviou o olhar, e se esforçou um pouco mais para parecer natural.

— Se é assim, então, hm… Acho que está tudo bem…

— Claro que sim! — Yuuri reforçou a ideia, inclinando-se um pouco mais na direção dele. — Você não precisa se conter de forma alguma, Wolf, inclusive, quando quiser tentar de novo, eu…

— Certo, já entendi! — Ele interrompeu, percebendo, através do sorriso que Yuuri tentava sem muito sucesso contar, que ele estava fazendo de propósito só para deixá-lo ainda mais embaraçado, como se toda aquela conversa já não tivesse sido mortificante o suficiente desde o início. Yuuri sorriu de canto, voltando a envolver sua cintura com um dos braços, e repousando casualmente o queixo em seu ombro. Beijou rapidamente o rosto de Wolfram, numa tentativa bem óbvia de aliviar os ânimos. Wolfram não admitiria, mas quase sempre funcionava, e dessa vez não foi diferente. Seus ombros caíram, lentamente, abandonando a tensão que os manteve rígidos até o momento.

— Lembrei agora, mas não tinha algo que você queria me dizer, e por isso me chamou? — Yuuri comentou de repente. Tinha certeza de que nada do que Wolfram planejava dizer a ele teria relação com a conversa que tiveram até aquele instante.

— Ah, é verdade… — Parecia até surreal lembrar disso logo agora. Todos os outros assuntos haviam sido varridos da sua mente, e falar sobre qualquer outra coisa parecia apenas trivial demais, sem importância. — Eu me candidatei à vaga no Comitê de Organização do Festival da escola. Agora sou o Presidente, e preciso recrutar membros. — Ele pronunciou simplesmente, dando de ombros, como se só tivesse comentado algo sobre o dever de casa.

Yuuri se afastou para encará-lo, dessa vez, sendo ele a pessoa completamente em choque.

— Por que não me contou isso?

— Estou contando agora. Eu fui falar com o professor ontem, apenas. — Wolfram deu de ombros, baixando o olhar. — Eu só… senti que era algo que eu queria fazer. Quer dizer, desde que cheguei aqui, eu não tive interesse em muitas coisas, achei que valia a pena tentar…

— Ah, Wolf! Isso é ótimo! Eu sabia que o espírito do Festival ia capturar você também! Percebi que você tinha ficado interessado, e é tão incrível ver você participando de algo! — Yuuri parecia mais empolgado do que ele próprio com a notícia, e Wolfram não podia negar que isso o enchia de entusiasmo também.Yuuri era sempre tão intenso sobre tudo, e, se Wolfram conseguisse transmitir apenas uma fração desse sentimento através de si, sabia que conseguiria fazer um bom trabalho. — Esse vai ser o melhor festival de todos!

— Espero que sim. — Wolfram sorriu em resposta, e Yuuri sentiu como se o mundo inteiro estivesse fazendo sentido de novo. Era tão bom sentir aquele peso que estava instalado em seu coração finalmente se dissipar. Ele estava tão feliz que poderia sair voando.

Em vez disso, abraçou Wolfram com força, trazendo ele para junto de si, enquanto afundava o rosto no espaço entre o pescoço e o ombro. Sentiu quando ele estremeceu por inteiro em seus braços, correspondendo ao abraço e apoiando as mãos em suas costas quase que automaticamente. Wolfram cheirava a cloro, e algo mais. Algo que era inteira e puramente Wolfram, e ele não tinha como explicar, mas isso o enchia de uma calma que ele não sabia que era possível sentir. Só sabia que, naquele instante, com o garoto que amava nos braços, ele estava feliz.

Ainda com Wolfram bem seguro em seus braços, Yuuri começou a deixar seu peso ceder para o lado, em direção à piscina. Quando Wolfram percebeu a intenção dele, já era tarde demais.

— Yuuri, o qu- Yuuri!!— O grito se estendeu com a ênfase na última sílaba do nome dele quando os dois enfim caíram, com um estrondoso som, jogando água para todos os lados. Yuuri ria com vontade, enquanto Wolfram tirava o cabelo molhado da frente dos olhos, e se esforçava para demonstrar toda sua fúria, embora o sorriso que se esboçava no canto dos seus lábios fosse bem óbvio de se ver. Wolfram jogou mais água na direção dele, sabendo que isso não o afetaria nem um pouco, mas tentando mesmo assim.

Aproveitando a distração, Wolfram se jogou contra ele, tentando empurrá-lo novamente na direção da água, pelos ombros, e uma risada escapou de dentro de si, quando Yuuri resistiu, e o envolveu pela cintura. Algo parecia queimar, explodir em seu peito. Ele não demorou a identificar o sentimento, que sempre acompanhava situações como essa, quando estava com Yuuri, e tudo parecia estar exatamente da maneira que deveria estar. E se isso fosse felicidade, como ele imaginava que deveria ser, então naquele momento, Wolfram era a pessoa mais feliz desse mundo.

E então, ele esqueceu seu breve pensamento de fazer Yuuri pagar por ter o jogado na piscina, esqueceu da conversa embaraçosa de pouco antes, esqueceu dos planos para o futuro e de como eles o deixavam ansioso. Seu foco voltou-se totalmente somente para os lábios do seu namorado, molhados, convidativos, irresistíveis. Naquele momento, nada mais importava.

~

Recrutar pessoas para trabalhar durante o Festival era uma ideia que funcionava muito melhor na teoria do que na prática. Pensando melhor, nem na teoria isso parecia uma tarefa fácil. Como convencer estudantes do colegial a aceitar voluntariamente um encargo extremamente burocrático, não remunerado, que faria com que eles fossem obrigados a ficar mais tempo depois da aula, e ainda os manteria ocupados durante todo o evento, impedindo-os de aproveitar plenamente? Quem além do próprio Wolfram estaria disposto a fazer isso por livre e espontânea vontade?

Verdade seja dita, Yuuri até se ofereceu para ajudá-lo, depois que Wolfram explicou para ele tudo o que Gunter informara, mas ele não teria como fazer isso e ainda trabalhar na tenda do time de baseball. Como veterano, ele tinha muito mais coisas para fazer lá, e Wolfram não queria de maneira alguma que Yuuri se desdobrasse em dois apenas para ajudá-lo em algo que ele supostamente deveria fazer por si só. Era orgulhoso demais para aceitar esse tipo de ajuda, e tinha bom senso de sobra para saber que Yuuri só estava fazendo isso porque queria ajudá-lo, mas que acabaria metendo os pés pelas mãos na tentativa de acumular muitas responsabilidades. Apesar de tudo, Yuuri disse que poderia tentar falar com seus outros colegas de time. Os calouros teriam mais tempo livre na divisão de tarefas, e sempre havia um ou outro mais ávido em conseguir créditos extra para a faculdade.

Os dois haviam realmente tentado pensar juntos em algo para atrair pessoas interessadas em trabalhar. Ficar sentado esperando que alguém viesse até ele estava fora de cogitação. Yuuri sugeriu que Wolfram fizesse cartazes — ele sabia desenhar muito bem, Yuuri já havia bisbilhotado em alguns de seus cadernos antigos — então, desde que ele não tentasse nada muito Picasso, talvez pudesse chamar a atenção de possíveis candidatos com alguns desenhos fofos. Wolfram foi categórico em salientar que não iria querer trabalhar com ninguém que fosse atraído simplesmente por desenhos fofos.

Wolfram podia pedir recomendações a algum professor, sugestões de alunos que poderiam se encaixar no perfil que ele procurava, mas provavelmente não conseguiria nada assim. Se ninguém havia se interessado no cargo até então, dificilmente surgiria alguém logo agora, e, além do mais, aparentemente, toda pessoa minimamente responsável que estudava naquela escola já estava selecionada para trabalhar como representante da sua própria sala de aula.

Ele tinha que admitir que era razoavelmente conhecido no ambiente escolar — e quando dizia razoavelmente, queria dizer que todos os alunos daquela escola, e provavelmente de outras escolas nos arredores também, sabiam seu nome, sua origem, e tudo sobre a sua vida amorosa, certamente. No entanto, ser conhecido não parecia trazer vantagem alguma quando você queria reunir pessoas para esse tipo de trabalho, aparentemente. Ele não tinha a menor intenção de sair por aí perguntando de pessoa em pessoa como algum tipo de representante religioso ávido por seguidores. Não, ele não estava desesperado. Só precisava pensar cuidadosamente em uma estratégia que pudesse ajudá-lo a encontrar as pessoas que estava procurando.

Ainda assim, e mesmo contra sua vontade, as notícias corriam rapidamente. Então, enquanto atravessava o corredor do segundo andar, em direção à sala dos professores — mesmo que não acreditasse na eficiência das informações que os professores pudessem disponibilizar para ele, ainda era melhor do que não ter nada — e percebeu a figura que parecia desfilar na sua direção, ele constatou imediatamente que estava prestes a enfrentar um dos ônus de ser uma pessoa que se destacava facilmente.

— Oooi, Wolfram-senpai~ — Ele nunca pensou que fosse achar ruim ouvir seu nome, mas quando aquela versão cantada chegou aos seus ouvidos, Wolfram só conseguiu lamentar por não ter sido mais rápido e nem ter tido a presença de espírito para sair correndo assim que havia notado a aproximação da garota.

Além disso… Senpai? Mesmo?

A garota — Mariko, e Wolfram lembrava muito bem disso, mas se recusava a dar qualquer reconhecimento a ela — não esperou por nenhuma resposta ou sequer um sinal de que era bem-vinda para se plantar diante de Wolfram, encurralando-o contra a janela do corredor e impedindo que ele prosseguisse seu caminho.

— Eu soube que você entrou para o comitê de organização do Festival Escolar, isso é o máximo, não é? — Mariko se inclinou ainda mais na direção de Wolfram, obrigando-o a recuar desconfortavelmente. — Fiquei sabendo também que você precisa montar uma equipe para esse comitê. Então, olha só, eu estava pensando em fazer e-xa-ta-men-te isso uns dias atrás, e é tão incrível que tenha rolado essa conexão entre a gente, você não acha?

— Não. — Ele respondeu cética e objetivamente, pronto para sair dali.

— De qualquer forma… — Mariko o segurou pelo ombro, ao perceber que ele pretendia ir embora, em um gesto que pretendia parecer casual. Wolfram se dignou a apenas segurá-la pelo pulso e devolver a mão para o lugar de onde ela não deveria ter saído, ou seja, para longe dele. — Bem, eu estava pensando se o senpai não iria apreciar se eu me oferecesse para trabalhar, sabe? Eu sou ótima em planejar festas! E eu posso fazer qualquer coisa que o senpai quiser!

Wolfram respirou muito fundo, tentando reunir toda paciência e os anos de treinamentos para lidar com entrevistas, reuniões pessoais e debates. Precisava ser claro como água se quisesse se livrar desse problema antes que ele de fato se tornasse um problema. E de onde ela tirou essa coisa de senpai? Era perturbador.

Antes que ele pudesse, porém, recusar apropriadamente os… serviços de Mariko, que ainda o fitava com aquele semblante forçadamente inocente mas absolutamente esperançoso, notou que a movimentação ao redor começava a ficar diferente. Era quase como se aquela troca de palavras, que não poderia nem começar a ser classificada como uma conversa ainda, estivesse sendo observada por dezenas de pares de olhos atentos.

Olhos atentos que, com a aproximação deliberada de Mariko, tomaram coragem para se aproximar também, e agora Wolfram se via cercado por basicamente a maior parte da metade feminina daquele andar, que havia hesitantemente tomado o corredor ao redor dele agora. Todas falavam ao mesmo tempo, encorajadas pela garota que havia tomado a atitude inicialmente, e que agora parecia absolutamente aborrecida, por ter que dividir a atenção de Wolfram tão repentinamente.

— É verdade? O príncipe está no comitê do festival? Eu quero participar também!

— Eu sempre quis fazer parte de algo assim!

— Estão aceitando membros? Onde se inscreve?

— O quê? É claro que eu sou perfeita pra isso, eu fui representante da nossa sala ano passado, você não lembra?

Wolfram já estava ficando tonto com tantas vozes clamando pela sua atenção simultaneamente, e lamentava não ter escapado disso quando teve a chance. Enquanto lidava apenas com Mariko, correr era uma opção viável. Agora, ele já não tinha tanta certeza de que seria.

— Olha, eu não acho que isso vá funcionar dessa forma…

Sua tentativa de falar alguma coisa foi brutalmente interrompida por mais dezenas de vozes. Todas as garotas pressionavam, repetindo variações de “Me escolhe”, “Eu quero trabalhar com o príncipe” e “Eu nasci pra isso”. Se elas obrigassem Wolfram a recuar mais do que ele já havia feito, ele iria cair pela janela atrás de si. Mariko gritava com todas, mandando se afastarem, já que ela tinha tido aquela brilhante ideia antes de todas e merecia créditos por isso. Wolfram podia muito bem explodir e mandar todas para longe dali, mas, diplomata treinado como era, sabia que a última coisa de que precisava para chamar atenção para sua causa era um escândalo causado pelo seu temperamento.

Ele estava justamente pensando em uma forma diplomática de encerrar a discussão e dispersar a multidão (parecia que a notícia se espalhara com uma rapidez absurda, e cada vez mais garotas, calouras e veteranas, se assomavam ao grupo que lutava para poder falar com ele primeiro), quando uma voz feminina destoante das outras soou em seus ouvidos.

— Será que dá pra manada se movimentar ou tá difícil? Eu preciso passar por aqui. — Wolfram reconheceu a voz, mas foram os cabelos que chamaram sua atenção primeiro. Azuis. Ela tentava afastar as garotas da sua frente, embora sem sucesso, já que trazia uma pilha de cadernos nos braços, que ocultavam parcialmente seu rosto e atrapalhavam a passagem. Ela não havia visto Wolfram no meio da confusão ainda.

— Hey, você me chutou! — Uma das garotas reclamou.

— Chutei nada. — Ela disse apenas, embora estivesse de fato usando um dos pés para abrir caminho entre o grupo que se aglomerava no meio do corredor. Enquanto ela ia forçando a passagem, Mariko a notou, e seu semblante se retorceu imediatamente em feições de puro ódio.

— O que você quer aqui?! — Ela atacou sem esperar, fazendo as garotas que ainda estivessem perto recuarem automaticamente. Algumas começaram a se dispersar, outras apenas ficaram mais afastadas para observar. Wolfram mal conseguiu reconhecer a voz da garota, que era tão aguda e enjoativamente doce, quando ela falava com ele segundos atrás. Natsume ergueu os olhos da pilha de cadernos que ainda tentava segurar, e virou o rosto para o lado, como se tentasse decifrar a pergunta lançada tão abruptamente. Nesse momento ela viu Wolfram, parado ao lado de Mariko e apenas observando aquele desenvolvimento inesperado, e pareceu compreender imediatamente que ele era causador, ou melhor, o alvo principal de toda aquela comoção.

— Ver você com certeza não é. — Disse apenas, para Mariko, pronta para seguir seu caminho novamente.

— Eu não vou deixar você tomar o meu lugar! — Naquele momento, Mariko parecia muito uma criança mimada fazendo birra e batendo o pé para conseguir o que queria. O que não era muito distante da realidade, na verdade.

— Não faço a menor ideia do que você está falando. — Natsume deu de ombros e voltou-se para Wolfram. — E então, como vai o Gwen?

— Meu irmão? — Surpreso pela pergunta repentina, Wolfram precisou de uns segundos para pensar no que responder. — … Vai bem. Tricotando, para variar. Comprou umas linhas importadas e está fazendo uns… porcos. Que ele diz que são coelhos. O de sempre.

Mariko piscou, batendo seus cílios absurdamente grandes com indignação pela troca casual de palavras entre os dois. Das coisas que ela não podia esperar que acontecessem, aquela certamente estava no topo.

— Aaah, eu quero ver isso! — Natsume se aproximou mais dele, estendendo os braços tomados por cadernos. — Você tá de bobeira aí, não é? Me ajuda aqui com isso. — Sem esperar por resposta, ela foi empurrando os cadernos na direção de Wolfram e ele não teve escolha a não ser pegar metade da pilha. — Preciso levar pra sala dos professores, vamos lá.

Wolfram foi a seguindo, sem conseguir pensar em nada para dizer, enquanto Mariko e o grupo de garotas ficavam para trás, ainda processando a sequência de eventos caótica que se sucedeu.

— É incrível a quantidade de pessoas sem nada pra fazer circulando por essa escola, fazendo tumulto e atrapalhando a passagem. Certas pessoas que ficam assombrando os corredores. — Ela continuou a falar, enquanto eles seguiam pelo corredor em direção às escadas. — Por que você estava no meio dessa confusão, mesmo?

— Por causa do festival. Elas me atacaram porque descobriram que eu sou membro do comitê de organização e elas querem participar. — Ele explicou simplesmente. Natsume aquiesceu, compreendendo de imediato toda a situação anterior.

— Ah, o Festival. Minha sala vai fazer um Maid Café, sabe. A Mariko não quis ajudar em absolutamente nada, fugiu para o banheiro quando começamos a fazer a reunião da nossa sala, não sei o que ela faz correndo atrás de você quando todo mundo sabe que ela foge de trabalho. Aliás, duvido muito que qualquer uma daquelas meninas seja o tipo de pessoa com quem você queira trabalhar. — Ela ajeitou melhor os cadernos nos braços. Wolfram a acompanhava de perto, trazendo a sua parcela de carga, mesmo que não precisasse realmente fazer isso. Natsume falava muito, é verdade, mas a essa altura ele já havia aceitado isso como um fato, e não se surpreendia mais. — E os outros membros do comitê, o que dizem sobre isso?

— Hm, sou apenas eu, por enquanto. Eu ainda não encontrei nenhum. — Ele relutou em admitir, falando tão baixo que a voz não passava de um resmungo. Não gostava de afirmar sua derrota, quando a verdade era que não fazia a menor ideia de como resolver o problema em que havia se metido.

— Ooh… Ok, isso me parece um problema. — Ela ergueu os olhos para o teto, como se analisasse cuidadosamente a situação. — Por que não convida seus amigos? Pelo menos assim vai ser mais fácil, com pessoas que você já conhece e se dá bem.

Falar “Yuuri não pode e eu não tenho outro amigo” seria depressivo demais, e Wolfram não estava nem um pouco a fim de ir por esse lado da conversa, então se resignou a soltar um suspiro incomodado que poderia significar absolutamente qualquer coisa. Como Natsume não era o tipo de pessoa que precisava de respostas para manter um diálogo — neste caso, quase um monólogo — prosseguiu firmemente em seu discurso.

— Acho que você deveria parar de pensar demais nas coisas. Não é nenhum dragão que você tenha que matar nem nada assim! Apenas tome logo alguma atitude.

Como? — Wolfram bufou, indignado. — Eu não posso lidar com essa função de forma tão leviana. Quando eu aceitei o cargo, tomei para mim essa responsabilidade, seria descuido colocar alguém que não vá levar a sério essa função e pode acabar colocando tudo a perder…

Wolfram precisou interromper seu discurso, pois eles chegaram até a sala dos professores. Natsume abriu a porta de correr com o pé e colocou a cabeça para dentro da sala.

— Sensei! Trouxe os cadernos da classe 2-B. — Ela anunciou, já se colocando dentro da sala.

— Coloque em cima dessa mesa. — Wolfram ouviu a voz do professor responder lá de dentro, e Natsume se movimentou para fazer como ordenado. Ele fez o mesmo, e os dois saíram da sala.

Wolfram estava tão tonto com os acontecimentos posteriores ao encontro não planejado com Mariko que nem lembrou que pretendia ir até a sala dos professores antes também. Assim que saíram para o corredor novamente, Natsume virou-se para ele, disposta a prosseguir com a conversa do ponto onde havia parado.

— Sabe qual é o seu problema, Wolfram? — Ela falou, encarando-o diretamente, sem se incomodar em incluir um honorífico ao chamá-lo pelo nome, como se fossem conhecidos de anos. Ela voltou a andar, e, mesmo que não houvesse motivo para acompanhá-la, Wolfram o fez mesmo assim. — Você esqueceu o ponto principal de todo este evento. É um festival escolar, algo organizado pelos alunos, pra fortalecer toda aquela coisa de laços e de responsabilidade. O objetivo é a confraternização e o entretenimento, antes de qualquer coisa. É pra se divertir, sabe, acho que você está esquecendo desse detalhe. A parte da responsabilidade e da organização você já tem, a gente sabe. Agora, você tem que pensar na outra parte. Se você está pensando em coordenar esse festival com esse tipo de pensamento, desculpa falar, mas vai ser um festival muito chato. Sério. Então, para, volta duas casas, e começa de novo.

Wolfram a fitava como se estivesse tendo uma conversa com um alienígena. Ninguém, nem mesmo Yuuri, havia colocado as coisas desta forma e falado tão objetivamente com ele.

— Então… o que eu deveria fazer? — Wolfram relutou em perguntar, pois não queria demonstrar ineficácia, mas estava sinceramente perdido. Natsume ponderou por alguns segundos, com o dedo indicador no queixo, e então voltou a fitá-lo.

— Ok, eu sei que você deve ter tido uma preparação complexa e específica sobre coisas envolvendo governo e tudo mais, por causa do seu passado, e eu entendo que deva ser difícil mudar o seu método de fazer as coisas depois de tanto tempo aprendendo de uma forma, mas… você tem que lembrar onde você está, e quem você é agora. Nós estamos numa escola, e este é só um festival cultural. Você não vai encontrar nenhum, sei lá, ministro pra te ajudar a fazer as coisas do seu jeito, e nada vai sair perfeito. Essa é a graça! Nós vamos fazer várias coisas erradas e aí vamos ter que consertar esses erros, e no futuro, rir de tudo isso.

— Mas… se as coisas saírem erradas… — Wolfram estava com dificuldades para acompanhar aquela linha de pensamento. Nunca havia pensado na possibilidade de fazer qualquer coisa abaixo da perfeição, e que isso poderia ser considerado algo positivo.

— Wolfram, pensa bem. Nós somos só adolescentes inexperientes aqui, você provavelmente não vai encontrar ninguém no seu nível. Só convida alguém com quem você acha que pode se dar bem, e é assim que funciona. — Ela deu de ombros, apresentando a solução mais simples para o problema que veio atormentando Wolfram desde o dia em que ele havia decidido falar com o professor Gunter. — Se você olhar bem, vai encontrar pessoas que vão ser capazes de te ajudar a fazer algo legal nesse festival.

Wolfram olhou bem para a garota que andava calmamente pelo corredor ao seu lado, sem que nenhum dos dois tivesse um rumo definido em mente. O intervalo estava quase acabando. Aquela havia sido provavelmente a conversa mais longa que os dois já haviam tido, e que não envolviam o relacionamento de Wolfram e Yuuri. Natsume havia conseguido dispersar aquele grupo incômodo de garotas sem muito esforço, e ainda fez Mariko se calar — um feito e tanto. Escutou tudo o que Wolfram tinha a dizer, e tentou apresentar alguma solução para o problema dele, mesmo que não tivesse nada a ver com isso. Wolfram podia até disfarçar, mas não iria negar, estava bastante admirado.

— Certo. Nesse caso... Você gostaria de participar do comitê? — A pergunta saiu espontaneamente, antes que ele tivesse tempo o suficiente para ponderar sobre a alternativa. Natsume tinha razão, nesse ponto, ele realmente estava pensando demais. Então, resolveu confiar nos seus impulsos, pelo menos dessa vez.

Natsume abriu um sorriso lento que se espalhou por todo o seu rosto.

— Esse é o espírito! — Ela falou alto, com animação exagerada para algo tão simples, empurrando o ombro de Wolfram, um tanto bruscamente. Como forma de comemoração ou parabenização, ele não soube definir.

— Então? — Ele insistiu por uma resposta. O sorriso de Natsume aumentou mais ainda, se é que isso era possível.

— É claro que eu aceito, oras! — Ela falou como se fosse óbvio o bastante para que não precisasse ter dito nada. — Pensei que não fosse perguntar nunca.

O sinal que indicava o final do intervalo soou, e eles não puderam entrar em mais detalhes sobre esse arranjo, concordando que teriam que conversar melhor mais tarde. Wolfram seguiu pelo caminho de volta à sala de aula, sentindo-se incrivelmente mais leve, depois daquela insana interação. O ritmo de Natsume era algo com que ele não estava acostumado, mas, aparentemente, acabaria por se habituar. Precisava ainda encontrar mais algumas pessoas, mas agora que teria ajuda de alguém, já não parecia mais uma tarefa tão impossível.

Se soubesse que era tão mais simples do que planejado, Wolfram teria feito isso muito antes.

Notas finais
Olá pessoas! Demorou (pra variar) mas chegou, mais um capítulo~ Perdoa meus atrasos e não desiste de mim. Finalmente Yuuri e Wolfram conversaram - do jeito que deveriam ter feito uns 5 capítulos atrás, mas ok, e chegaram numa conclusão que acho que todo mundo já sabia? A coisa agora anda. Ou não. De qualquer forma, Wolfram também conseguiu algum avanço no seu pequeno projeto, resta saber no que isso vai dar~ Muito obrigada a todos que ainda acompanham a história o// não vou fazer promessas quanto a prazos porque eu nunca cumpro mesmo .-. mas logo saem mais capítulos, espero que em breve. ♥ Beijos e até a próxima :3