Notas iniciais
Obrigada a todos vocês que leram a fic e me deixaram reviews. Isso com certeza me incentivou muito na hora de continuar a escrever, e espero que vocês gostem do resultado! n_n

Tooi sora wo isogu you ni shizumi hajimeta yuuhi ga

O sol da tarde, que começou a desaparecer no céu distante, está correndo

sukoshi dake todomatte awai iro no yume wo miseru yo

Ele para por um momento para nos mostrar a cor desbotada dos nossos sonhos

shuun saki mo wakaranainda nani ga okite mo henjanai kedo

Eu não sei o que é que vai acontecer daqui a diante, mas não seria estranho se algo acontecesse



Capítulo 2



Yuri caminhava com dificuldade, com o braço completamente tomado pelo apertado abraço da prima, que não parecia nem um pouco constrangida em andar pendurada nele. Ela estava agora vestindo o uniforme da escola de Yuri, um conjunto de marinheiro comum, preto com detalhes em branco e a gravata vermelha. Sorria exultante, enquanto cantarolava uma música desconhecida, e Yuri, cada vez mais aborrecido, bufava disfarçadamente para o lado. Ele mal havia dormido durante a noite, e o cansaço resultante da privação do sono estava prestes a deixá-lo de mau-humor, o que era um evento absolutamente raro.

Os motivos pelo qual ele não havia pregado os olhos durante a noite eram vários. Um deles era o fato de ele estar sentindo-se culpado pelo péssimo desempenho durante o treino do dia anterior. E também havia o fato de sua prima parecer tem um sono muito agitado, gritando "kyaaa", falando coisas desconexas enquanto dormia, e ele podia jurar que a viu andando pelos corredores de madrugada, como um zumbi.

E, acima de tudo, havia aquela garota loira, de aparência mimada, que não saia dos seus pensamentos de maneira alguma. Ele a encontraria novamente? Por mais que ele teimasse em pensar que não queria, seus pensamentos sempre o delatavam, admitindo que ele gostaria de vê-la de novo...

Yuri nem percebeu que já haviam chegado ao colégio, só notando quando sentiu Miyako estancar, apertando seu braço com um pouco mais de força. Fitou-a de canto. Ela estava um pouco corada, e olhava para o chão, repentinamente muito nervosa. Nem parecia a mesma garota saltitante que cantava há poucos minutos.

— Você está bem, Miyako-chan? – Ele indagou, imaginando se a garota não estava passando mal por causa da comida da sua mãe. Para quem não estava acostumado, o tempero de Hamano Jennifer podia fazer grandes estragos...

— Estou... – Ela balbuciou. – Vamos... – E então começou a andar com passos bambos, na direção da entrada.

Mal atravessaram o portão, já era possível ouvir burburinhos, por todos os lados. Todos, especialmente as garotas, estavam eufóricas com algo, que era o assunto das rodas de conversa. Um grupo que estava por perto falava tão alto que os Shibuya conseguiram ouvir nitidamente, como se fizessem parte da conversa.

—... então, eu fiquei sabendo sobre um estudante transferido...

— Estudante transferido? Será que estão falando de você? — Yuri perguntou para a garota ao seu lado, esfregando a nuca com a mão livre enquanto ria de leve.

Miyako congelou, quase quebrando o braço de Yuri no seu aperto. Seu rosto, completamente pálido, evidenciavam os olhos arregalados em pânico, por trás das lentes espessas dos óculos. Ela suava frio, olhando para o vazio.

— Estão... falando sobre m-mim...? – Ela murmurou, indistintamente, enquanto cravava as unhas no tecido do gakuran. Yuri sentia o tremor dela passando por ele, e então percebeu que havia falado demais, novamente.

— Claro que não estão falando de você! – Tentou consertar, desesperadamente gesticulando com as mãos. – Podem estar falando de qualquer estudante transferido! Essa escola é bem grande, tem novos alunos todos os dias, é isso mesmo! Não estão falando de você, de jeito nenhum!

Miyako respirou fundo, e então forçou um sorriso. Yuri se tranquilizou.

— Me leve até onde fica minha sala, onii-chan? – Ela pediu, suavemente.

— Claro... – Yuri começou a se encaminhar na direção da entrada, com a garota a tiracolo. Ainda sentia o aperto trêmulo da mão que o segurava, e decidiu que iria se intrometer descaradamente na vida da sua prima mais tarde, para descobrir o que a afligia e ajudá-la. Talvez tivesse algo a ver com aquela mala que ela o impediu de carregar, no dia anterior.

Depois de deixar Miyako na sala do primeiro ano a qual ela pertencia, Yuri subiu as escadas, andando preguiçosamente até sua própria sala. A atmosfera da turma não estava diferente do resto da escola. Todos, muito agitados, falavam ao mesmo tempo, e as garotas todas pareciam que iriam ter uma síncope a qualquer minuto. Yuri não entendia nada, e até tentou se situar do que acontecia, sem sucesso.

Logo o professor adentrou a sala, e todos se acalmaram parcialmente, acomodando-se em seus lugares. O professor em questão era encarregado do clube de esgrima, e dava aulas de Geografia, além de ser o conselheiro daquela turma. Seu nome era Von Christ Gunter, ou simplesmente Gunter-sensei, e tudo o que Yuri sabia sobre ele era o fato de ele ser um estrangeiro naturalizado japonês, vindo de algum país de nome difícil da Europa, e que tinha uma animação excessiva que era capaz de fazer até o mais compenetrado professor desistir de fazê-lo agir normalmente. Apesar da personalidade resplandecente e difícil de compreender, ele era um professor rígido, que cobrava muito de seus alunos, levando-os muitas vezes à exaustão.

Tinha longos cabelos lisos e prateados, o que, aliado a sua natural boa aparência de estrangeiro, fazia com que todas as garotas daquela escola o idolatrassem. Havia suspeitas até mesmo de um clube em homenagem a ele, mas nada disso foi confirmado de verdade.

Gunter adentrou a sala elegantemente, quase como em uma dança ensaiada, arrancando suspiros sonhadores das garotas sentadas mais à frente. Sorriu brilhantemente, antes de prosseguir.

— Eu tenho uma maravilhosa notícia para dar a vocês, muito embora acredite que vocês já devem estar cientes do que vou lhes passar, levando em conta o quanto as notícias correm rápido por aqui. É com muita honra que eu anuncio que, a partir de hoje, um prestigiado conterrâneo meu irá iniciar seus estudos em nossa escola. E não é apenas um simples conterrâneo! Ele fez parte da realeza da minha amada terra natal, Shin Makoku! Por favor, sejam gentis e deem as boas vindas ao Sir Wolfram von Bielefeld, filho da Rainha Cecilie von Spitzweg de Shin Makoku!

Assim que Gunter terminou seu emocionado discurso, a porta se arrastou para o lado, e uma elegante figura se posicionou ao lado do professor, encarando profundamente a todos com determinados olhos verde-esmeralda. Os cabelos dourados emolduravam o rosto perfeito, brilhando em ondas suaves. Sua expressão denotava irritação, mas isso não o deixava menos belo, de forma alguma. Estava usando a calça preta do uniforme, e ao invés do gakuran, um suéter marrom claro, sobre a camisa branca de mangas compridas.

Yuri, que até poucos segundos olhava pela janela, resolveu prestar atenção no professor, para variar. Arquejou audivelmente, quase caindo da cadeira com um gesto amplo e exagerado, ao reconhecer aqueles olhos displicentes, que o fitavam diretamente. Levantou num salto, apontando acusadoramente para a pessoa à frente, que apenas o fitava com indiferença.

— Você! A loira mimada! O que está fazendo usando esse uniforme masculino?! – Yuri gritou, com a respiração pesada. Um ruído de surpresa conjunto, seguido de algumas risadas abafadas e comentários adicionais foram ouvidos.

— Yuri-kun, por favor, sente-se! – Gunter disse com repreensão contida e olhar suave. Era conhecimento geral que Yuri era o aluno favorito de Gunter, e ele chegava ao ponto de favorecê-lo em algumas ocasiões, embora nunca aliviasse quando o assunto era sua matéria.

— Você é o fracote que estava apanhando na rua outro dia! – Wolfram se pronunciou pela primeira vez, prendendo toda a atenção da turma. Encarou com furor Yuri, que parecia pasmo demais para dizer qualquer coisa. – Que pergunta idiota! É evidente que estou usando um uniforme masculino! Eu sou um garoto, qualquer um pode ver isso! – Terminou, com tom ofendido e raivoso.

Yuri abriu a boca, mas nenhum som saiu. Então... a garota na qual ele passou a noite inteira pensando... era um cara? Ele se sentiu traído, enganado pelos seus próprios sentidos. Olhou novamente para o loiro, esperando que tudo não passasse de uma piada muito bem formada na sua mente, mas ele continuava da mesma forma.

Indignado, ele voltou a sentar, ouvindo as garotas ao seu redor fazendo comentários maldosos, alternando com exclamações animadas sobre a aparência do garoto. Embora relutante, Yuri tinha que admitir que ele era um garoto muito bonito. Tanto que foi capaz de enganar seus olhos, e ele de nada desconfiou. Era um príncipe, em todos os sentidos da palavra. E essa constatação só deixava maior o descontentamento de Yuri.

Wolfram terminou de se apresentar, visivelmente irritado, e Gunter indicou seu lugar. Como uma magnífica obra do destino, que não parecia ir nada com a cara de Yuri, o lugar vago ficava exatamente atrás da sua classe. Wolfram caminhou a passos duros e precisos até o lugar, resmungando um “fracote” ao passar pela classe do moreno, que apenas escondeu a cara entre os braços em cima da mesa e desejou poder sumir.

~

O caminho de volta para casa nunca pareceu tão longo. Além de ter que ficar a aula inteira sentindo o olhar irritado do loiro queimando suas costas, o episódio do escândalo de Yuri durante a primeira aula se espalhou como fogo na pólvora, e toda a escola comentava avidamente, cada um com uma versão diferente da discussão. Alguns insistiam em dizer que Yuri e Wolfram lutaram na frente de todo mundo, e que Yuri foi preso por agredir um membro da realeza. Outros diziam que Yuri se apaixonou por Wolfram, e foi rejeitado logo de cara, após se declarar instantaneamente, aos gritos.

Francamente! Essas pessoas deveriam parar de inventar histórias das pessoas! Ser preso por agressão, tudo bem, mas.... se apaixonar por um cara?! Por que as pessoas acreditavam tão rapidamente em um boato fantasioso e sem nenhum fundo de verdade como esse? O coração de Yuri se agitava desconfortavelmente com esse simples pensamento.

— Como foi seu primeiro dia, Miyako-chan? – Yuri indagou para a garota que caminhava ao seu lado, tentando distrair-se dos próprios pensamentos.

— Foi bom... – Ela sorriu, sem a mesma animação de antes. O reflexo dos óculos escondia sua verdadeira expressão.

— E você fez muitas amigas?

— Ainda é cedo... – Miyako fitou o chão por onde andava, desanimadamente. Yuri a fitou preocupado, não se lembrando de já tê-la visto tão deprimida. Na verdade, ele não se lembrava de nada na sua infância que se referisse a essa garota, mas preferiu não reabrir essa discussão, por hora.

— Hmm... Miyako-chan... Você tem alguma foto de nós dois juntos quando crianças? Sabe, só para eu relembrar... – Ele começou a falar, hesitante. Os olhos de Miyako brilharam, e ela sorriu entusiasmadamente, dando pequenos pulinhos.

­­— Eu tenho sim! Tenho um álbum cheio delas! Você quer ver, Yuri nii-chan?

— Sim. – Yuri respondeu, aliviado por ver a garota se recuperando. Talvez, revendo as fotos da infância e recordando, ela se animasse em contar qual era o motivo da sua estranha reação ao entrar no colégio.

Os dois continuaram pelo caminho, até chegar em casa. Miyako nem bem saudou Miko na entrada, tirou os sapatos de qualquer jeito jogando-os no canto e correu para dentro, escorregando de meias no chão liso. Yuri suspirou, tirando calmamente os próprios sapatos e entrando na casa.

— Tadaima. – Ele disse, enquanto largava a mochila azul no sofá da entrada.

— Okairi, Yuri-chan! – Ela sorriu. – Miya-tan está tão entusiasmada! Parece que o primeiro dia de aula dela foi muito bom, não é?

Yuri não respondeu, lembrando o quanto a prima parecia entristecida depois da aula. Ouviu um barulho de coisas caindo, vindo do quarto onde estava Miyako, e correu para lá, a tempo de vê-la soterrada por todas as suas malas, que ela ainda não havia organizado.

— Está em algum lugar por aqui! – Ela disse, jogando as malas caídas para o lado e começando a procurar. Depois de um tempo, ela tirou um pequeno livro, com vários recortes e colagens diferentes na capa. Mostrou-o para Yuri, sorrindo exultante.

Yuri pegou o livro, abrindo-o. A primeira foto era de uma garotinha pequena, que usava um vestido vermelho bastante sujo, de cabelos escuros curtos cortados na altura do ombro, totalmente bagunçados, com a franja caindo sobre os olhos, que tinha os óculos pendendo para um dos lados. Ela chorava copiosamente, sendo consolada por um garoto, um pouco maior, de cabelos negros e olhos gentis, que Yuri reconheceu como sendo ele mesmo. Eles tinham mais ou menos cinco ou seis anos. Foi aproximadamente um ano depois da mãe de Yuri desistir de vesti-lo como uma garota. Os dois estavam em uma espécie de parque, com folhas secas de outono caindo ao fundo.

— Em que lugar essa foto foi tirada? – Yuri indagou, curioso. Aquele cenário era vagamente familiar, mas por mais que se esforçasse, ele não conseguia dar a ele um nome.

— Uma vez nossos pais foram viajar juntos, para um outro país, de férias. Foi nessa viagem que nós dois nos conhecemos, Yuri-nii-chan. Seu pai é irmão do meu, nós estávamos todos juntos, o Shori-nii-sama também... Você não se lembra disso?

— Sinto muito... – Yuri admitiu, virando a página do álbum. As outras duas fotos, que estavam cada uma de um lado, mostravam Yuri de pé em um balanço, e Miyako correndo para o lado oposto, com um coelho de pelúcia que vestia um colete xadrez nos braços, e a outra era apenas de Miyako, dormindo abraçada ao coelho.

— Este é o Peter White. – Ela mostrou o mesmo coelho branco, que agora estava em seu colo. Ele estava ligeiramente mais velho, e faltava um dos olhos. Yuri sorriu, vendo Miyako abraçar o coelho da mesma maneira que na foto, e virou a página.

Nesta, Miyako estava segurando a mão de Yuri, com força, com Peter White do outro lado, e olhava de soslaio, desconfiada. Do outro lado de Yuri, que sorria sem um dos dentes da frente, estava um garoto, um pouco mais baixo. Ele tinha um semblante altivo, com olhos displicentemente verdes, e cabelos loiros macios que esvoaçavam suavemente. Encarava Yuri com certa relutância, de braços cruzados, e vestia um terninho azul marinho, do tipo que os garotos da Inglaterra do século XVIII costumavam usar.

Yuri encarou a foto com furor, por muitos segundos. Prendeu a respiração, analisando o garoto da foto. Seu cérebro trabalhava com tanto afinco que era possível ouvir as engrenagens girando.

— Não lembro quem é esse... – Ele disse por fim, desistindo.

— Eu também não... – Miyako admitiu com pesar. – Eu gostaria de saber, ele parece tão bonitinho....

Yuri a fitou com desconfiança, e Miyako corou furiosamente.

— E-eu vou p-preparar alguma coisa para nós comermos! – Ela se levantou, atrapalhando-se e tropeçando nas malas caídas ao tentar sair do quarto. – Você quer alguma coisa em especial, nii-chan?

— Eu estou bem... – Ele murmurou, olhando para foto. Assim que Miyako sumiu no corredor, ele deixou o álbum de fotos de lado, e avançou para a mala vermelha que ela havia o impedido de carregar no dia anterior. Não importava que fosse invasão de privacidade, Yuri queria muito saber o que aconteceu com sua prima para fazê-la agir tão estranho. E somado a isso, havia o fato de que pensar nos problemas dos outros ajudava a esquecer do seu próprio vexame.

Com cuidado para não provocar nenhum tipo de ruído, ele abriu a mala. Tirou um dos objetos que estavam mais em cima. Era um tipo de livro. Yuri o folheou, com seus olhos arregalando-se assombrosamente mais a cada página.

Aquilo... Aquilo era...

Espantado, com as mãos trêmulas, o livro escorregou e caiu sobre a mala aberta, com mais milhares de outras coisas do mesmo gênero. Yuri, pasmo e paralisado, não conseguiu se mexer.

— Onii-chan, eu só achei essas bolachinhas, então trouxe leite e... – Miyako, que vinha entrando pelo quarto, parou bruscamente ao ver o primo. A bandeja em suas mãos vacilou, e ela se esforçou para mantê-la firme. Adentrou o quarto, deixando a bandeja de lado, e avançou na direção de Yuri.

— M-miyako... – Ele gaguejou, em choque.

— Onii-chan... Você viu o conteúdo dessa mala? – Miyako indagou, fitando seriamente Yuri. Ele apenas confirmou com um aceno de cabeça. Puxando a mala para seu lado, ela fitou o chão, com o reflexo dos óculos impedindo uma visão clara do seu semblante. – Eu posso explicar...

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo. Eu sei que as coisas estão meio paradas, mas eu gosto de desenvolver a história lentamente, tenham paciência comigo, onegai. Agora, para quem tem alguma curiosidade de saber como se parece a prima do Yuri, a Miyako, eu vou colocar aqui uma imagem do que eu imaginei dela, okay? http://many-things-to-do.tumblr.com/post/22390714259 - Aqui está, depois me digam o que acharam *u* Kisuu~ [Revisado]