Sono Te Hanasanaide
3 Capítulo III
Mou sukoshi de asa ga kuru yo
A manhã já vai chegar.
Sorosoro nenakucha da yo ne
Em breve vou ter que ir dormir, eu acho.
Mata ashita ne denwasuru yo
Amanhã, de novo, eu vou ter a certeza de chamá-lo
Yappa samishii yo...
Como eu pensava, é solitário...
Capítulo 3
Na residência dos Shibuya, o silêncio imperava. Miko preparava-se para sair e fazer compras, deixando seu filho mais novo e sua sobrinha em casa. Seu marido ainda não retornara do trabalho, e seu filho mais velho estava em uma importante reunião, e provavelmente chegaria tarde. Ela estava tranquila, ao fechar a porta e sair, cantarolando baixinho alguma música que passasse por sua cabeça.
Mal sabia ela do desenrolar dos fatos, dentro do quarto de hóspedes da casa.
Yuri, ajoelhado ao lado da mala aberta, fitava descrente a sua prima, que o encarava com a expressão vazia. Confuso, ele esperava pela explicação que ela citara. Miyako deixou seu peso ceder, caindo de joelhos no chão à frente de Yuri. Tocou com uma das mãos trêmulas a mala, e só então levantou seu olhar. Por trás dos óculos, lágrimas se formavam, derramando-se pelas bochechas coradas e indo se juntar no queixo, pingando uma a uma na roupa. Ela mordeu os lábios trêmulos, forçando-se a engolir o choro, em vão.
— Yuri nii-chan! – Ela soluçou. – E-eu não queria que você visse esse lado vergonhoso meu! Esse é... o meu hobbie secreto... – Ela sussurrou por fim, sem encará-lo diretamente.
— Miyako-chan... – Yuri balbuciou, sem saber ao certo o que dizer. – Eu sinto muito por invadir sua privacidade, mas eu fiquei preocupado com o seu comportamento mais cedo. Eu não podia imaginar que dentro dessa mala... Que você... – Ele balançou o livro, ilustrando o que queria falar.
— QUE EU SOU UMA FUJOSHI! – Miyako gritou, com ainda mais lágrimas saindo, e agarrou o livro que Yuri tinha em mãos, abraçando-o com força enquanto soluçava. Na capa, dois homens sem camisa se abraçavam sugestivamente, com expressões ainda mais sugestivas.
Yuri abriu a boca e tornou a fechá-la várias vezes, antes de conseguir dizer qualquer coisa. — Olha só... Eu não acho que tenha problema você gostar dessas coisas... Quer dizer... Eu não tenho nada a ver com isso...
— Você não acha estranho, Yuri-nii-chan? Você não vai me odiar por isso? – Ela indagou, esperançosa. Impulsivamente, ela largou o mangá de lado e jogou os braços ao redor do corpo do primo, comprimindo-o em um abraço.
— Claro que não, por que eu iria? – Ele riu, constrangido com a repentina demonstração de afeto. — Eu só estava preocupado porque você pareceu muito nervosa quando nós chegamos na escola... Eu queria saber o motivo...
— Eu acho que se for para o Nii-chan eu posso contar... – Ela murmurou, soltando Yuri e voltando a sentar à frente dele. Depois de muitos segundos de silêncio, ela começou a falar. – Quando eu estava... na outra escola... Bem, eu nunca fui muito boa em fazer amizades, e eu sou muito chorona e fraca... As outras garotas riam de mim e faziam... brincadeiras... – Miyako deu um sorriso melancólico, levando a mão para trás da nuca da mesma forma que Yuri fazia quando estava sem graça.
— Brincadeiras? – Ele indagou, preocupado.
— Sim... Coisas como esconder meus materiais, sujar meus sapatos, rasgar meu uniforme durante a educação física, me trancar no armário do zelador... isso acontecia com frequência... Então, eu sempre estive sozinha, o tempo todo. Foi por isso que eu comecei a ler mangás... As histórias mostradas ali eram sempre tão lindas, que eu senti que não precisava de mais nada para viver. Mas a minha mãe se preocupou, vendo o estado das minhas coisas quando eu chegava em casa... E um dia eu cheguei ensopada da escola, porque as garotas me jogaram na piscina, e então tive que contar tudo para ela. Foi por isso que ela me mandou para estudar aqui, Nii-chan. Mas, por favor, não conte isso para ninguém! Eu não quero que as pessoas tenham pena de mim, nem nada assim. Eu vou conseguir me ajustar à turma sozinha, tenho certeza! – Ela disse por fim, parecendo um pouco mais confiante.
Yuri ouviu a tudo em silêncio, chocado com as coisas que a prima revelava. Não era à toa que ela parecia tão amedrontada ao chegar à escola.
— Não precisa mais se preocupar com nada, Miyako-chan! – Ele bradou, determinado. – Eu estou aqui com você, e não vou deixar ninguém fazer mal com a minha prima!
— Yuri-nii-chan... – Ela pronunciou indistintamente, emocionada, e novas lágrimas lavaram o rosto corado.
— E quanto ao seu hobbie... Pode ficar tranquila, ninguém aqui vai julgar você por isso. Mas eu acho que seria bom você guardar sua coleção naquela estante ali – Ele apontou para a estante de madeira que estava vazia do outro lado do quarto. –, ou eles irão amassar aí dentro.
— Você me ajuda, nii-chan?
— Acho melhor não... Esse conteúdo é um tanto quanto perturbador, para mim... – Admitiu, derrotado. – Ah! Mais uma coisa! – Ele lembrou de súbito.
— O que?
— Acho melhor você não andar tão livremente com essas coisas pela casa, para que minha mãe não veja...
— Por que? – Miyako assustou-se. – Ela vai brigar comigo?
— Pelo contrário... – Yuri coçou o queixo sem graça, olhando para o outro lado. – É capaz de ela roubar os mangás de você.... Bom, deixa isso pra lá...
Yuri precipitou-se para fora do quarto, deixando a prima a sós com suas coisas.
— Ano nee... Nii-chan... – Ela chamou, e Yuri voltou com a cabeça na porta. – Obrigada! – Ela disse, sorrindo enquanto secava as lágrimas com as costas da mão.
Yuri apenas sorriu de volta, envergonhado, e dirigiu-se para sala. Deitou no sofá, satisfeito pelo trabalho bem-feito. Apesar da revelação aterradora sobre os gostos da prima, Yuri havia conseguido fazê-la desabafar. Seu objetivo foi cumprido. E, com isso, havia espaço de sobra na sua mente para divagar e se perder, o que ocasionou um redirecionamento do seu foco. Sem que fosse essa sua intenção ou vontade, os pensamentos de Yuri voltaram a girar ao redor daquela pessoa. A garota, que na verdade era um garoto, irritava Yuri de tal forma que era simplesmente impossível tirá-lo da cabeça. Esse interesse repentino era tão descabido que Yuri nem mesmo sabia como administrá-lo. Aquele garoto certamente seria um garotinho mimado e cercado de facilidades por todos os lados. Ele era um príncipe afinal! Sua atitude arrogante e prepotente evidenciava isso. Era certamente alguém impossível de se conviver, ainda mais para alguém de mente simples e prática como Yuri. Porém, era estranho para ele, tão acostumado a manter apenas os problemas longe de sua cabeça, estar tão preocupado. Então, como não era do seu hábito cultivar as dificuldades, ou pensar por muito tempo nelas, ele resolveu rapidamente seu dilema. O fato de o loiro estar em sua mente, certamente, seria alguma necessidade inconsciente de querer ajudá-lo a se adaptar ao novo país. Ele seguramente deveria estar passando por complicações em um país novo e diferente. E Yuri iria ajudá-lo! Era isso! O tempo todo, Yuri só queria se tornar amigo do aluno novo!
Com ânimo renovado, Yuri rumou para a cozinha, à procura de algo para encher o estômago antes do jantar.
~
Um novo dia de aula, e uma nova chance para os Shibuya. Miyako havia decidido que tentaria se ajustar à sua turma, e para isso, ia se inscrever em algum clube. E Yuri, completamente reanimado, estava decidido a iniciar sua operação de ajudar o príncipe estrangeiro a se adaptar à cultura japonesa. Não podia ser tão difícil, afinal, ele sentava atrás de si! O que podia dar errado?
Ao entrar na sala, Yuri se sobressaltou. Não conseguia encontrar sua classe. Ela fora encoberta pelo mar de garotas que riam e se amontoavam ao redor do loiro. Yuri mal podia acreditar. Ele nem sabia que sua sala tinha assim tantas garotas.
— Anoo... Com licença...? – Ele pediu, hesitante, ao se aproximar. Algumas garotas se viraram para ele, bufando, e então deram as costas, voltando a falar ao mesmo tempo. Yuri nem mesmo podia enxergar o príncipe, que certamente estaria sentado ali no meio daquela manada faminta e desesperada. – Vocês poderiam dar licença? – Ele tentou mais uma vez. — O meu lugar... Eu preciso...
Antes que ele terminasse, no entanto, o professor Gunter adentrou a classe, com sua presença esmagadora de sempre, e as garotas voltaram todas para seu lugar. Wolfram, que permaneceu em silêncio o tempo todo, apenas escorou a cabeça na mão, incomodado, e voltou seu olhar para a janela.
— Hm... Ohayo! – Yuri tentou um primeiro contato, mas parecia que Wolfram não havia o escutado. – Eu pensei que elas nunca sairiam daqui! – Ele riu. – Você é bem popular com as garotas, não é?
Wolfram apenas o encarou gelidamente por breves segundos, e desviou novamente a atenção para o lado de fora. Yuri sentiu-se patético, mas não se deixou abalar. Logo que ele foi fazer uma nova tentativa, ouviu a voz do professor chamando a atenção.
— Eu tenho uma maravilhosa notícia para dar a vocês. Sua professora de Química, senhorita Anissina, finalmente terminou de ser desintoxicada no hospital, e está voltando às suas atividades hoje! Por favor, recebam de volta, Anissina von Karbelnikoff-sensei.
Usando um jaleco de laboratório branco por cima de um vestido bordô, a mulher de cabelos rosa, e penetrantes olhos azuis entrou, sorrindo para todos, com o ruído das suas botas de salto ecoando no piso de madeira. A classe toda murmurou uma interjeição de pesar, enquanto sentiam arrepios agourentos na base das costas. Estava começando de novo. A temporada de explosões na escola estava aberta, e sem previsões de encerramento.
Gunter entregou a turma para a professora de química e se retirou, ansioso pelo chá da sala dos professores. Anissina sorriu para cada um dos alunos, antes de prosseguir.
— Como vocês bem sabem, há alguns meses, eu tive um pequeno probleminha em meu laboratório, que resultou em uma contaminação. Eu só tenho a dizer que aquelas pessoas do Centro de Controle de Contaminações são todos uns exagerados, e que aquele gás que foi liberado era só um pouco nocivo, nada fatal! Eles são todos contra o progresso! Mas, de qualquer forma, eles me mantiveram sob observação, até que eu estivesse completamente livre de qualquer resquício do gás... Então, aqui estou, para que possamos retomar nossos estudos do incrível e surpreendente mundo da química! Antes disso... Acho que o tempo que passei fora fez com que vocês passassem de ano não é? Aqui já é o segundo ano... Ok, vamos começar do começo! Se há algum aluno novo aí, por favor se apresente.
O único a ficar de pé, após a ordem de Anissina, foi Wolfram. Os olhos dela brilharam, ao reconhecerem-no.
— Eu sou Wolfram von Bielefield. – Ele repetiu as palavras que disse em seu primeiro dia, e voltou a sentar, visivelmente aborrecido.
— Oh! Eu sabia que você estava aqui! Você cresceu tanto, Wolfram, mal posso acreditar! Estou novamente sendo sua professora, isso não é formidável?
Wolfram resmungou qualquer coisa em resposta, sem prestar atenção. Yuri, assim como muitos outros da classe, olharam de um para o outro, confusos.
— Eu fui professora particular de Wolfram, no palácio Blood Pledge em Shin Makoku! Ele certamente foi um aluno complicado! – Ela disse, e se calou logo após perceber o olhar de censura vindo do último lugar da fila da janela, onde Wolfram se encontrava. – Enfim, como esse é o início dos nossos estudos em química esse ano, eu sugiro que montemos as duplas de trabalho, antes de irmos até o laboratório, que foi totalmente reformado depois da minha última... experiência. Por favor, virem-se para o aluno que estiver sentado atrás de vocês. Ele será seu parceiro de laboratório. E eu não aceito mudanças após isso.
Yuri esperançosamente aguardou que o garoto a sua frente virasse e sorrisse para ele, mas isso não aconteceu. Ele então, virou para trás, onde encontrou a carranca mal-humorada de Wolfram completamente em sua direção. Sorriu, fraquejante. Sua animação acabou se esvaindo, como um balão de gás no final da festa. Ah, isso ia ser mesmo ótimo...
~
Depois de todas as aulas encerradas, Yuri vestiu o uniforme e correu para seu clube, encontrando com Murata no meio do caminho. Apesar de estudar em uma escola particular, que ficava razoavelmente perto da escola de Yuri, ele vinha todos os dias, como gerente do time. Ainda vestia o paletó azul que era seu uniforme.
— Yo, Murata! – Yuri sorriu para o amigo, ao vê-lo próximo ao depósito onde ficavam os equipamentos.
— Shibuya! Eu soube que o príncipe está na sua escola, é verdade? – Ele indagou, nem dando tempo de Yuri se aproximar.
— Você é mesmo bem informado, Murata. – Yuri comentou, sem graça. – Ele está aqui, e senta no lugar atrás de mim. É um pouco arrogante... e muito fechado, mas acho que é de se esperar de alguém da realeza, não é?
— Sim... – Ken respondeu, enquanto Yuri pegava tacos, luvas, e outros equipamentos.
— Então, eu tava pensando... Por que será que tem tanta gente estrangeira aqui nessa escola, hein? O Gunter-sensei... A Anissina de química que voltou hoje, esse príncipe... Isso não é estranho?
— É sério que você não percebeu? – Murata sorriu em dúvida.
— Perceber o quê? – Yuri tornou a indagar, ainda mais confuso.
— A sua escola foi fundada há muito tempo por dois homens de Shin Makoku, que se fixaram aqui no Japão há muitos anos. – Ken começou a falar, ajeitando os óculos no rosto. – Eles eram Shinou, e outro conhecido como Grande Sábio... Yuri... Você nunca reparou que a sua escola se chama Escola Shinou? E que há uma grande estátua lá na frente desses dois homens, onde se pode ler “em honra de Shin Makoku”. Ou então nos quadros deles que ficam logo na entrada. Você nunca notou nada disso?
— Hehehehehe... Acho que não... – Yuri bagunçou os cabelos da nuca.
— Bom, de qualquer forma, isso é apenas um facilitador de intercâmbio de professores e alunos entre Shin Makoku e o Japão. Eu achei que soubesse de tudo isso, afinal, seu irmão trabalha com esse tipo de coisa...
— Gomen nee... eu nunca tinha pensado nessas coisas...
— De qualquer forma, agora você já sabe. Vamos logo para o treino...
Yuri assentiu, surpreso pelo fato de estar tão ligado a esse país do qual nunca havia ouvido falar antes, e que, no entanto, lhe era tão familiar. Novamente, deixou os pensamentos aleatórios de lado, e se concentrou no seu jogo, direcionando toda a sua atenção para ele.
E estava tão focado, que não reparou na pessoa que o observava com tanta atenção durante o treino inteiro.
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