Sonhos Febris
1 Touch Starving
Notas iniciais
Naymeeneraham ainda não entendia completamente o capitão da Armígera.
A terrível nave bélica de Logmery era mais um mito do que um perigo real para a maioria dos povos na Super-Região, mas Naymee sabia que ela era bem real, e que não costumava fazer prisioneiros ou deixar sobreviventes. A única razão para ainda estar viva era porque o capitão queria uma informação sua. Exigia todo o seu esforço e todo o seu orgulho segurar as palavras que ele tanto queria ouvir, mas ele queria ouvir alguma coisa, então, se ela não o respondia, ele a fazia gritar. Quase todos os dias.
Ela não tinha mais tanta noção de tempo, aprisionada numa cela sem qualquer abertura para o mundo de fora, mas se acostumou a pensar que ele a “visitava” uma vez por dia. Se alguém lhe dissesse que estava presa ali há dois anos, Naymee acharia pouco. Para ela, parecia muito mais. O dobro ou o triplo desse tempo, era difícil estimar. Mas não importava o tempo, ela ainda não conseguia entender o capitão. No primeiro dia, ele quebrara sua perna na frente dos outros prisioneiros, todos subordinados dela. Por mais que odiasse lembrar do desespero de sua tripulação, vendo a capitã ser torturada, ela conseguia entender isso. Não era santa, conhecia muitas técnicas de coação, e naquele momento, agradeceu internamente por nunca ter dito a nenhum deles o que Logmery queria saber. Chegava um ponto em que lealdade era pouco confiável. Se eles soubessem, teriam revelado imediatamente.
Depois ele separou seu grupo. Levou Naymee para longe, sozinha, e aparecia com suas seringas e venenos. Havia algo que o fascinava em perfurar sua pele e injetar substâncias. Era o que mais a atormentava, mas ela também entendia isso. Logmery era um químico, e aquela era uma chance rara de testar suas criações.
Mas nem tudo o que ele fazia lhe causava dor, e isso ela não conseguia entender.
Depois de conseguir barganhar pela libertação do resto de seu grupo, ele continuava tentando arrancar uma resposta dela com seus métodos brutais. Mas, às vezes, ele apenas aparecia para conversar. Eles até que conversavam bastante no começo, porque eram dois jogadores em uma brincadeira de dar uma verdade em troca de outra. Mas depois que Naymee conquistou a liberdade da tripulação, Logmery não aceitara mais jogar. Mas tinha aqueles dias estranhos ele entrava na cela com uma expressão entediada ou mesmo cansada e se sentava no chão assim como Naymee, um em cada lado da sala. Ele a observava por um tempo com seus olhos claros, que sempre pareciam um pouco frios mesmo quando o sorriso dele era sincero.
(Quando tinha visto um sorriso sincero dele?)
Ela devolvia o olhar com desconfiança mal contida, esperando por algo. (Sempre tinha algo, não tinha?) Mas nada acontecia. Ele apenas falava irrelevâncias sobre o dia. Naymee não respondia nada ou cuspia xingamentos rancorosos. Era revoltante como ele conseguia sentar e conversar com ela, como se suas mãos estivessem limpas. Ele ria dos xingamentos e continuava falando sobre uma discussão que teve com a irmã. Embora o peito de Naymee doesse toda vez que ele falava algo que a lembrava da vida antes daquela cela, duvidava que fosse alguma técnica de manipulação. Não... Mas o fato de não saber, toda vez que ele entrava, se seria um dia de dor ou de calmaria era o que a corroía por dentro.
A cada dia desses, ele se aproximava mais, até que estava falando com ela lado a lado, como se fossem amigos conversando para passar o tempo. Naymee ainda não respondia nada além das ocasionais ameaças. (Tinha jurado uma centena de vezes que enterraria uma faca no pescoço dele.) Mas ela começara a relaxar. Não tinha mais a força de vontade para alimentar a desconfiança. Em vez do olhar atento, ela encostava a cabeça na parede e apenas ouvia. Não prestava atenção nem se importava com o que ele falava, mas em algum momento, aprendera a aceitar esses momentos como um descanso, uma melhora.
Um dia, ele fez algo que ela não entendeu. Com as seringas e os frascos que tanto apreciava, Logmery injetou um líquido incolor em suas veias.
"Pronto, é a única coisa de hoje. Precisava testar um sedativo."
Naymee estranhou. Muitas das suas criações faziam do corpo um inimigo, deixando-a vulnerável e fraca. Ele não a deixava dormir quando queria, e, quando não queria, ele não a deixava acordar. Mas raramente lhe dava algo contra a dor. Em pouco tempo ela sentiu o corpo todo leve, a sala branca sem objetos parecia se estender infinitamente, e a voz dele vinha em ecos. Sentia o toque antes de percebê-lo, e teria recuado se conseguisse se obrigar a isso, mas Logmery a puxou para perto. Ambos estavam sentados no chão com as costas na parede.
"Venha cá", ele disse, mas nem se quisesse ela teria se movido. "Não vou lhe machucar hoje, eu prometo, Naymee."
Naymee. Só uma pessoa lhe chamava assim, e durante todo aquele tempo ela se perguntava por que Logmery a imitava. Mais do que isso, queria saber o que tinha acontecido com a dona daquele apelido, saber se ele o arrancara da boca dela com a mesma brutalidade daquele longo e exaustivo interrogatório. A possibilidade fez lágrimas descerem silenciosamente por seu rosto, mas Naymee não se importou em limpá-las. Naquele ponto, não acreditava mais que um dia deixaria aquele lugar. Às vezes até se esquecia o porquê de estar ali.
Logmery passou os pulsos algemados de Naymee sobre sua cabeça, dando a impressão de que ela o estava abraçando, e enlaçou o braço nas costas dela, mantendo-a perto. Naymee não conseguia se afastar, nem tinha certeza se queria. A percepção de que aquele era um homem que odiava ainda estava presente, mas estava cansada demais para pensar direito sobre se afastar, sobre o nojo que sentia de estar tão perto, do abraço cínico que ele lhe dava. Então apenas conseguia apoiar a cabeça em seu peito, sentindo o peso do sedativo tentar fechar suas pálpebras.
“Uma verdade por uma verdade?” Naymee sugeriu, quando esses dias estranhos se tornaram frequentes. Uma pausa bem vinda em uma rotina agonizante. Sua voz saía baixa e arrastada, mas estava perto o bastante para que ele a ouvisse bem.
“O que quer saber?”
“Isso é um esquema?” Se fosse, era bem idiota. Ela não iria passar a confiar nele porque em 2 anos de cárcere, havia passado uns 10 dias ao seu lado.
“Sim”, respondeu. “Vou lhe dar essa resposta de graça. Não tenho nenhuma pergunta de sim ou não para você no momento.”
De praxe, ela estava muito sedada para sentir raiva propriamente. Em outro momento talvez viesse a se sentir um pouco traída. E depois se repreenderia pela incoerência dessa sensação estúpida.
“Não vai funcionar.”
“Shhh... Ainda é cedo para saber.” Ele falou em um tom tranquilizador. Ou ela achou que fosse tranquilizador. Aquele dia estava sendo mais difícil. Sentiu que ele estava mexendo em seus cabelos. “Você parece cansada, Naymee. Pode dormir um pouco. Você está segura.”
Ela odiava abrir os olhos no dia seguinte (talvez?) e perceber que realmente tinha adormecido abraçada àquele maníaco. Ele sempre estava de olhos fechados, mas Naymee duvidava que ele dormisse junto dela. Ela se pegava olhando para as próprias algemas tentadoramente próximas do pescoço dele... Então ele colocava uma mão sobre a sua e murmurava: “Não tente nenhuma besteira.”
Ela o odiava. Mas em algum momento aprendeu que a presença dele era algo estável. Ainda não se acostumara a acordar em um quarto mobiliado, sem algemas nos pulsos e sem Logmery por perto. Os primeiros instantes eram assustadores. (Onde ela estava?!). O ambiente desorientador fazia seu coração disparar.
(Algo estava errado. Algo estava errado.)
“Naymee?” A voz de Irsa não expressava nada além de preocupação, mas deslizava por sob a pele de Naymeeneraham como um choque elétrico. (Outra pessoa a chamava assim.) Irsa segurou seus ombros tentando chamar sua atenção. “Você teve um pesadelo?”
(Ainda era um pesadelo se tinha sido real?)
Lentamente, Naymee soltou o pulso de Irsa, que agarrara em um reflexo defensivo. Suas mãos ainda tremiam. Suas costas reclamaram pelo tempo passado naquela posição, então Naymee lembrou que não tinha deitado na cama porque não queria dormir, mas o cansaço lhe vencera. Ela queria pedir desculpas por assustar Irsa, mas só o que conseguiu foi cobrir os olhos com a mão enquanto seu peito subia e descia lentamente, tentando voltar ao ritmo normal.
Irsa se sentou ao seu lado. (Muito perto... Muito perto...) Era a última coisa que Naymee queria. Irsa sabia das torturas. Ela estava lá no primeiro dia, quando Logmery quebrara sua perna. Mas Naymeeneraham nunca contara sobre aqueles momentos de calmaria. Por algum motivo ela sentia vergonha. Mesmo que estivesse drogada, ela sentia que falar daquelas conversas em voz alta era admitir uma vulnerabilidade que não queria ter. Não queria que Irsa (principalmente Irsa) soubesse que ela tinha sido tão fraca a ponto de tirar algum conforto da proximidade de um maníaco como Logmery.
Irsa não perguntou nada. Ela não sabia os detalhes, mas sabia do que se tratava. Segurou a mão de Naymee com firmeza, mas sua voz lhe traiu quando disse:
“Você não está mais lá, Naymee.”
“Eu acho que nunca vou realmente sair de lá…”
“Quer conversar?”
“Por favor, não... Estou bem, só estou... cansada…”
Irsa não tinha lhe deixado sozinha desde o reencontro. Não se conheciam há muito tempo (Na verdade fazia algum tempo, precisava contar os anos que tinha perdido), mas era grata por ela ter se tornado uma companhia tão leal em tão pouco tempo. Ela sempre perguntava se queria ficar sozinha, mas Naymee enlouqueceria com cada ruído fora do quarto se fosse deixada sozinha. (Não, ainda não... Era muito cedo.) Daquela vez não foi diferente. Irsa a fez se deitar na cama e ficou do seu lado. A luz apagou. Naymee quase pensou que conseguiria relaxar. Então Irsa lhe disse algo que fez Naymee se retesar em seu canto.
“Pode dormir agora, Naymee. Você está segura.”
Naquela noite, Naymee não dormiu.
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