Sonhos Febris
2 Feverish Dreams
Notas iniciais
Yarin tinha poucos arrependimentos do seu tempo apoiando a revolta contra o Governo-Geral, mas ele ainda tinha um: ter fugido.
Embora seu rosto e seu nome não fossem conhecidos, Yarin era a voz da revolta antes mesmo dela existir. Alguém precisava denunciar todos os abusos do governo interplanetário nas colônias de exploração, e ele decidira ser esse alguém. Com Castyr, seu mais antigo amigo, conseguiu adaptar uma estação de rádio amadora para alcançar até os planetas mais distantes. Quando a revolta começou, ele decidiu ajudar. Não era do tipo lutador, mas passava informações em códigos durante as suas transmissões, e seus contatos rápidos ajudaram a salvar milhares das armadilhas do Governo-Geral. Mas um Almirante percebeu e não parou até encontrar o responsável.
Sua pequena Rádio Fantasma desapareceu deixando os rebeldes e simpatizantes com apenas o barulho nada consolador da estática.
Privado de sua voz, Yarin suportou bastante coisa. Achavam que ele e o líder confabulavam juntos quando, na verdade, ele sabia apenas o nome do líder, e, dele, o líder nem isso sabia. Yarin não podia falar, mas podia ouvir. E quando soube de um cerco em uma área exclusivamente civil, soube que precisava ajudar. Havia uma chance de ouro e ele a agarrou para fugir. E passaria o resto da vida se odiando por isso. Por ter mordido a isca de uma pista falsa e levado o Almirante até sua estação, até Castyr.
Os soldados o jogaram no chão ao lado do melhor amigo, que olhava para ele em busca de alguma esperança, alguma carta na manga. Yarin não tinha nada.
"Eu esperava que nesse ponto você já tivesse traído sua pequena revolta. Mas se não dirá nada, talvez ele diga."
Pensar em Castyr sendo torturado por causa de um erro seu o encheu de desespero, e desespero deixa as pessoas burras.
"Ele não sabe de nada, deixa ele ir!"
Não era uma mentira, mas Yarin deveria ter feito o que mais fazia naqueles dias. Deveria ter ficado em silêncio. O soldado que o segurava contra o chão continuou firme, forçando-o a ver o cano da arma do Almirante tocar a têmpora de Castyr, que tudo o que trazia no olhar era medo.
“Se ele não sabe de nada”, o Almirante falou, “por que perder tempo com ele?”
O som do disparo afastou qualquer ruído do resto do mundo, como se o universo inteiro torcesse para que aquilo fosse uma mentira. Yarin, certamente, torcia.
Mas o tempo voltou a correr. Ele percebeu que havia sangue em seu rosto, sangue de Castyr. E fez a única coisa que podia. Yarin gritou.
Yarin gritou e gritou como se sua mente tivesse virado areia e escorrido para fora. Como se aquele pequeno instante fosse durar para sempre. Se aquela mesma arma se voltasse para ele, pronta para disparar, ele não perceberia. Talvez até preferisse que fosse assim. Se o destruíssem naquele momento, ele não passaria o resto de seus dias preso àquilo.
E não conseguia parar de olhar. E, ao fechar os olhos, continuava enxergando. Continuava enxergando.
E ao abrir os olhos em seu quarto na base escondida dos rebeldes, continuava enxergando.
O lençol grudava em sua pele pelo suor e pelo sangue, e Yarin sentiu o grito preso na garganta, mas já fazia tempo demais para reagir daquela forma e ele havia mudado muito. Seu desespero agora era silencioso, mas não menos agonizante. Arrastou-se para o banheiro, lavando as mãos freneticamente, mas por mais que esfregasse, ainda havia sangue. A água que descia pelo ralo estava límpida como sempre. Era uma mentira de sua cabeça, um pesadelo que permanece ao acordar? Não, Yarin estava sim cheio de sangue, da cabeça aos pés. Os dedos trêmulos lutaram brevemente contra a camisa empapada que o sufocava, mas acabou apenas ligando o chuveiro sem se importar com as roupas que ainda vestia. A água fria contra a pele febril estava no limiar entre um castigo autoinfligido e um alívio, mas o que realmente o ajudava era o som da água contra o chão. Em comparação com isso, o som de sua respiração ofegante quase não era percebido.
Lentamente, sua respiração voltou ao normal. Yarin encostou a testa na parede gelada e olhou para baixo pela primeira vez, confirmando que realmente não tinha sangue algum em suas roupas, nem em suas mãos. Era só aquilo de novo. Voltando. Voltando. Voltando.
Yarin se deixou cair no chão, a água ainda jorrando sobre ele, mas sequer conseguia senti-la.
Fale com o autor