Sonhos Febris
3 Weapons don't weep (pt.1)
Notas iniciais
Interagir com uma galáxia significava interagir com um trilhão de culturas diferentes. O Capitão Heyri sabia disso muito bem, e geralmente não se abalava ao ver algo muito diferente da sua cultura natal. Mas ele achava a Eisen uma organização repugnante. Não era seu trabalho interferir no que outros planetas-membros do Governo-Geral achavam apropriado ou não, e por isso ele já tinha trabalhado com os Eisenyoung antes, mas nunca com alguém como Tamura Eisenyoung.
Os Eisenyoung eram guerreiros de elite treinados desde crianças, uma alternativa privada à força policial, disponível a quem quer que pagasse o preço do serviço. A maioria dos que conhecera eram fervorosamente positivos com seu estilo de vida. Eram terrivelmente insubordinados a qualquer um que não ostentasse o emblema da Eisen no peito ou um comprovante de contratação. Mas pague-os bem e você será como a realeza. Era a maior honra deles, pôr suas armas à disposição e fazer um serviço bem feito.
Eles podiam enfeitar a história como quisessem. Para Heyri, ainda era meramente uma forma de escravidão institucionalizada.
Heyri não estava sozinho nesse pensamento. Muitos sistemas estelares proibiam enfaticamente as atividades da Eisen em seu território, e Eisenyoungs fugitivos eram acolhidos nesses planetas. Não que Heyri já tivesse ouvido falar de algum fugitivo. Pegue um órfão jovem o bastante, isole-o em uma estação espacial controlada, e ele crescerá acreditando em tudo o que disser.
Mas Tamura Eisenyoung era diferente. E não tinha nada a ver com a aparência distinta de seu povo, com os cabelos e olhos quase prateados. Se Eisenyoungs eram fervorosos e barulhentos, Heyri mal a percebia na sala. Sempre de pé em uma postura rígida, o olhar fixo, aguardando ordens. Ela não falava com ninguém a menos que lhe dirigissem a palavra antes e não parecia prestar atenção em ninguém que estivesse no mesmo ambiente. Ainda assim, sua dirigente, Desmera, também uma Eisenyoung, nunca precisava repetir uma ordem. Tamura a cumpria tão rápido quanto possível.
Quando Heyri e Desmera terminaram de fazer planos contra os contrabandistas de biotecnologia que estavam perseguindo, Heyri se sentou à mesa e ofereceu às mulheres um pouco da bebida que servia a si mesmo. Desmera recusou. Tamura não pareceu achar que a pergunta era para ela também. Heyri bebeu, observando-a longamente. Estavam ali a manhã inteira e não tinha visto ela se mover desde que entrara seguindo Desmera, nem beber água ou comer coisa alguma. Heyri assumiu que ela pertencia a uma classe diferente de Eisenyoung. Por algum motivo, perceber isso amargou o sabor da bebida em sua boca. Não bastasse a Eisen explorar os órfãos que “resgatava”, ainda existia uma diferenciação entre eles, que ele ainda não entendia muito bem, mas supôs que era algo tão repugnante quanto o resto.
Desmera murmurou uma palavra que Heyri não entendeu. Quando voltou sua atenção para ela, viu o olhar alternar entre ele e Tamura brevemente. Ele não percebera que tinha sido tão explícito com sua curiosidade.
“Significa criança ingrata”, ela explicou. Se Tamura se incomodava em ser o assunto da conversa, não demonstrou. Mas Heyri percebeu seu olhar abandonar qualquer que fosse o ponto imaginário a sua frente e descer para o chão. Talvez fosse imaginação dele, mas, por um segundo, ele quase achou que a postura dela vacilara um pouco sob o peso invisível daquele estigma ainda desconhecido para ele.
“O que é uma ‘criança ingrata’?” perguntou, mas não tinha certeza de que queria saber.
“Quer explicar, Tamura?”
Ela não respondeu com mais do que desviar as pupilas para Desmera. Era bem perceptível, pois seu povo tinha as escleras pretas e as íris claras, e os olhos de Tamura lembrariam duas luas prateadas no espaço se não fossem tão sem vida. Com o silêncio, Desmera riu para si mesma.
“É isso, senhor Heyri.” Antes que ele dissesse que não tinha entendido, Desmera continuou. “Deixe-me reformular: Tamura, diga ao capitão o que é uma criança ingrata.”
“Crianças ingratas são órfãos resgatados pela Eisen que desprezaram os cuidados que a Corporação dedica a elas” respondeu Tamura, sem sequer pensar. Uma resposta gravada na ponta da língua. Heyri não soube o que responder, e Desmera assumiu que seu silêncio ainda era pela incompreensão da classe.
“Explique melhor.”
“Crianças ingratas não veem a Eisen como família e fazem pouco para retribuir o acolhimento que receberam. A Eisen dá aos Eisenyoung comida, abrigo, educação, cuidados médicos e treinamento, cada Eisenyoung sendo um investimento de milhões. Quem investe tanto assim em um indivíduo ou é sua família ou é seu dono.”
“Entende agora, capitão Heyri?” Desmera tinha um tom irônico na forma como usava a patente. Ele não era da Eisen e não era seu contratante, então tinha bastante dificuldade com estabelecer autoridade. Mas no momento ele não se importou. Ainda observava Tamura, que assim que terminou de respondê-lo, voltou a olhar para a frente como se nunca tivesse se mexido.
“Como assim, ‘dono’?” Heyri não sabia como a voz não tinha falhado. Desmera deu de ombros.
“Explique, Tamura.”
“A Eisen oferta guerreiros e oferta armas. Quem não é um, é outro.”
Um olhar de Desmera seria o bastante para que ela soubesse que deveria continuar, mas Desmera estava gostando da demonstração guiada.
“Diga a diferença.”
“Guerreiros escolhem seus contratos e ficam com 70% do pagamento. Armas não escolhem suas missões ou seus contratos, e servem da forma que a Eisen designar sem receber pagamento, o dinheiro é retido pela Eisen para a quitação do débito.”
“Existe outra diferença entre guerreiros e armas. Quer explicar?”
Tamura ficou em silêncio. Heyri percebeu que Desmera já tinha feito isso antes. Tamura só respondia as suas ordens, não as suas perguntas, muito menos as que eram sobre querer.
“’Armas’ não têm querer?” Heyri arriscou. Desmera sorriu satisfeita.
“Exatamente. A vontade é um privilégio das pessoas.”
Heyri bebeu um pouco mais, torcendo para que não ficasse tão óbvio que ele queria vomitar. Tamura parecia ter metade da sua idade. Poderia ser Hyejin, sua filha, naquela situação. Mesmo assim, ele insistiu em saber mais.
“Como a Eisen restringe a vontade?”
“Ah, a Eisen não restringe a vontade, ela restringe o comportamento. Tirar dos ingratos a vontade seria tornar muito fácil o que é para ser um castigo. Tamura pode querer o que for, desde que, aqui fora, ela saiba o seu lugar. Ela pode querer lhe responder quando eu pergunto, mas sabe que não deve, não sem que a ordenem.”
Heyri não disfarçou o olhar penalizado. Isso significava que Tamura estava desde o início da manhã naquela posição de guarda não porque tinham introduzido um instinto de obediência anormal dentro dela, mas porque sabia que não podia deixar a guarda sem que lhe ordenassem, porque a vontade se tornara um crime para ela.
Porque devia ser uma arma, não uma pessoa.
Heyri se levantou e parou na frente de Tamura, ainda incrédulo. Talvez também a estivesse testando, o que era bem ruim de admitir, mas se aproximou bastante buscando alguma reação, qualquer coisa. Ele quase ficou aliviado quando ela desviou o olhar, a única reação de desconforto com a invasão de espaço. Heyri se proibiu de perguntar que tipo de condicionamento era capaz de fazer alguém se controlar alguém assim. Decidiu que não queria saber.
“Diferenças culturais uma ova... Sua Eisen é doente, Desmera, e você também.”
“Não fale sobre o que não sabe. Meu contrato é com sua superior, não com você, e eu não vou tolerar uma ofensa dessas contra a minha família.”
Heyri iria responder, mas viu algo sob a gola de Tamura que capturou toda a sua atenção.
“Isso é... Eu não acredito... Isso é um código de barras?”
“Isso é comum, todos temos. Eles costumam ficar nos aparelhos de monitoramento interno. Só marcaram a pele dela para desencorajar tentativas de fuga. Só é preciso no começo. Ela não fugiria agora, não é, Tamura?”
“Você não pode achar isso normal!” Heyri explodiu, mas Desmera apenas revirou os olhos de forma aborrecida. “Eu não posso acreditar nisso!”
“Acalme-se, não é uma coisa ruim. Explique, Tamura.”
“O código…”
“Eu não quero ouvir nada que alguém lhe mandou dizer!” Heyri cortou. Mas Tamura não era Desmera, e embora ela apenas tivesse piscado com a interrupção inesperada, sem demonstrar nenhum incômodo, ele falou: “Desculpe-me. Desculpe-me... Não precisa explicar o que Desmera ou a Eisen mandou, só... O que você acha disso?”
Tamura franziu a testa minimamente, era um sinal pequeno, mas demonstrava genuinamente sua confusão. Desmera acenou com a cabeça, permitindo que respondesse, mas ainda assim, ela desviou o olhar por um instante, pensativa e, talvez, desconfiada da pergunta. O instante demorou mais do que deveria, mas enfim, ela disse sem dúvida alguma:
“O código simboliza pertencimento. Ter ele visível é uma precaução, desencoraja os alvos a reagirem, pois qualquer dano à propriedade da Eisen deve ser restituído.”
“Propriedade, é?” Heyri suspirou, frustrado. Por um instante, quase pensou que ela responderia de verdade. “Isso soa muito como uma frase decorada.”
“Eu sei qual é a sua preocupação, capitão, mas não se preocupe.” Desmera voltou a falar. “A maioria dos clientes não se sente seguro quando um ingrato é designado, pois acham que eles não vão cumprir o serviço com o mesmo profissionalismo que bons Eisenyoungs.”
Heyri só queria acabar logo com aquela conversa. Inicialmente, Desmera lhe parecera cínica, mas, agora ele tinha certeza que ela não entendia o problema. Ela era uma Eisenyoung autêntica, o que significava que estava desde a primeira infância sob a tutela da Eisen. Para ela, aquilo era perfeitamente natural.
“Os planos que fizemos. O senhor quer esperar reforços do Governo-Geral que levariam 40 horas para chegar até aqui. Nesse tempo os contrabandistas terão se livrado das provas, isso se não conseguirem evacuar antes de invadirmos. Então que tal permitir uma exibição?”
“O que disse?”
“Eu proponho uma exibição de material. Toda arma é testada diante de um cliente em potencial. Amanhã Tamura invadirá o abrigo deles. Sozinha.”
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