_Senhores passageiros, informamos que no momento estamos sobrevoando São Paulo , e em alguns minutos chegaremos no aeroporto. Agradecemos a viagem. Boa tarde a todos.

Se eu não tivesse afastado um pouco os fones do meu ouvido, que estavam tocando watch over you, não teria escutado o piloto do avião. Naten estava ao meu lado, encostado em meu ombro com um enorme travesseiro branco, segurando minha mão. Viera dormindo o caminho inteiro. Ultimamente ele estava mais calado e bem mais atento, e estava a todo o tempo comigo, quero dizer literalmente. Quase nunca largava minha mão. Não sei como ele me deixava ir ao banheiro sozinha...

O jeito como ele dormia, imerso em uma calmaria contagiante, me deu vontade de deixá-lo dormir até pousarmos. Mas a senhora desastre ambulante teve o descuidado de mexer o ombro, e então ele levantou a cabeça.

_Ali, está tudo bem? — Perguntou ele com cuidado extremo e procurando alguma coisa fora do comum. Eu disse que ele estava neurótico...

_Calma Nate, esta tudo bem. Chegamos a São Paulo. Eu ia te acordar só quando o avião pousasse, só que ai está você né... — Falei arrumando o cabelo dele.

_Ah... — Soltou encostando na cadeira.


Uns minutos depois estávamos em São Paulo, onde eu faria um show à noite. Me deu uma apreensão e um pouco de medo quando cheguei. O aeroporto estava abarrotado de gente gritando e correndo pra todos os lados, querendo chegar o mais perto possível de nós. Os seguranças não deixavam ninguém chegar perto , mas consegui falar com algumas meninas que estavam lá.

_Cuidado não corre muito se não você vai se machucar. — Falei pra uma menina que estava sendo presa pelo segurança. Parecia ter uns 10 anos. Pedi para o ele deixá-la passar. Ela correu em minha direção e me deu um abraço desesperado. — Calma, calma. — Só era o que eu falava. E tudo que ela fazia era chorar. Ainda não estava acostumada com isso...

Tiramos fotos com tanta gente que nem faço mais ideia, e depois entramos no carro em direção ao hotel. Minha mão foi puxada tantas vezes que me senti um elástico.

_O Brasil é bem diferente dos outros países mesmo... — Falou Naten.

_Pode dizer que somos loucos não precisa se conter não meu amor.

_Começa por você.

_Eu acho que alguma menina conseguiu tirar meu anel. — Falei olhando pra minha mão vazia. Tinha um anel de três dedos com uma caveira no meio e asas nas pontas, mas não estava mais la. Naten prestava atenção. — Besteira... Tomara que ela use. — Pensei alto.


A noite, chegamos no Arena, lugar onde eu faria meu show. Naten dessa vez não iria se apresentar no brasil, apenas eu. Depois desse show iríamos pra João Pessoa, visitar minhas amigas. Eu também faria um show lá, mas seria um show particular, com em média 200 pessoas.

O Arena estava completamente lotado, as meninas o tempo todo cantando minhas músicas.

_Não faz nem 2 meses e todo mundo ja sabe cantar... — Desabafei boquiaberta.

_É assim mesmo, meu anjo. — Disse Naten. Vestia uma calça azul com suspensórios, camiseta branca e blusa marrom por cima. Ele estava especialmente calado essa noite, e não saía de perto de mim um segundo.

_Há algo errado? — Perguntei segurando o rosto dele. Ele não olhou nos meus olhos, apenas mirou o chão.

_Não anjo. Só estou ansioso por você. Não quero que nada de mal aconteça. — Disse ele voltando a levantar os olhos para mim na última frase. Seus olhos acentuavam ainda mais o tom de preocupação na voz.

_Não se preocupe, é só mais um show, como todos os outros. E depois nós vamos ver as meninas... Quem sabe você não se anima quando começar a brigar com a Mel... — Consegui arrancar um sorriso dele. — Não quero ver você triste... Está tudo bem mesmo?

_Está sim. Vai, vai terminar de se arrumar se não a Amanda vem pegar no nosso pé. — Ele me deu um beijo. — Te vejo daqui a pouco.

_Pode deixar. — Disse enquanto Naten saia do camarim.

Coloquei um top azul brilhante, um short de cintura alta vermelho colado ao corpo e blusa preta aberta que ia até o final do short. Calcei um par de sapatos pretos com tarraxas pontudas que iam do calcanhar até o fim do salto, que Amanda deixara no camarim para eu colocar. Sempre era ela que escolhia minhas roupas, eu só dava a opinião final. Enquanto terminava de arrumar o cabelo, ela apareceu na porta para me chamar para subir ao palco.

A energia das pessoas brasileiras realmente é bem diferente do que qualquer outro país, isso era quase palpável. Enquanto eu estava no palco, a energia que recebia me fazia querer ficar pulando junto com o público e não querer parar nunca mais. Os brasileiros são loucos, e eu tenho orgulho de ser louca.

O show seguiu com tudo programado, e nada deu errado. Consegui passar toda a gratidão que eu tinha para elas, assim como elas me passaram todo o carinha enquanto eu cantava. Eu estava em casa. Terminou o show e eu desci do palco, e ele estava lá, me esperando, como sempre dissera que vai estar. O abracei forte.

_Você viu que loucura? — Falei eufórica. Não conseguia ficar quieta.

_Parabéns, meu anjo. — Dissera ele com os olhos brilhando, sem deixar de me soltar. — Agora, esta pronta pra ver suas amigas?

Não consegui conter meu entusiasmo.


Chegamos no hotel e eu refiz minha mala parecendo o flash. Naten quase não mexera na dele, só fez jogar algumas coisas que havia tirado de volta dentro da mala e se sentou no sofá, me esperando.

_Terminei. — Falei quase gritando de alegria. Ele sorriu e falou, só que seu tom não condizia com seu sorriso.

_Ótimo, então estamos prontos. — Disse com voz monótona.

_Tem certeza de que está tudo bem? — Falei chegando mais perto dele, já preocupada também. — Se você quiser podemos ficar aqui mesmo, eu peço para buscá-las. — Ele balançou a cabeça.

_Claro que não. Eu sei que você quer visitar sua cidade também, e vai ser muito bom você ir para lá, vai se distrair melhor. — Havia alguma coisa errada, mas eu procurei não enche-lo de perguntas... Sua preocupação começava a me incomodar.

Chegamos no aeroporto e minha mãe cuidava de tudo com Amanda enquanto eu e Naten falávamos com alguns fãs que ainda estavam lá. Isso mesmo! Eles não saíram de lá! Fiquei impressionada com isso. Depois Amanda me chamou e fomos para a porta de embarque. Só que Naten parou no meio do caminho.

_O que foi? — Perguntei. Naten olhava para o lado e apertava muito minha mão.

_Ali, você vai pra sua cidade. Eu vou ter que voltar pra casa, houve um imprevisto. — O que? Eu ouvi o que escutei mesmo?

_Não estou entendendo. O que aconteceu? Eu posso voltar com você. Minhas amigas vão entender. Depois eu volto para vê-las. — Falei ás pressas.

_Não Ali. Já falei com Amanda. Ela comprou a passagem de vocês pra lá e a minha para voltar para os Estados Unidos. Não há como mudar. — Ele falava olhando poucas vezes para mim, e já soltara minha mão para se afastar.

_Não, não é isso. Me fale a verdade. O que esta havendo? — Sussurrei exasperada. Naten tomou ar.

_Eu... Eu já cumpri o que devia com você Ali. Você cresceu, e não precisa mais de mim, pra nada. Você não precisa ficar presa a mim.

_Você tem noção do que está falando!? — Parecia que as batidas do meu coração encobriram minhas palavras, porque elas sairam abafadas demais.

Ele não me deixava olhá-lo nos olhos.

_Tenho. — Disse ele com força na voz. — Você vai se acostumar. Eu não posso atrapalhar você.

_Eu não acredito nisso! Não acredito em você! — Não conseguia pensar. Parecia que minha respiração iria explodir meu peito.

_Adeus, Ali. — Sussurrou ele colocando as mãos no bolso, se afastando para ir embora.

_Então é isso? Você vai mesmo jogar fora tudo que aconteceu entre a gente?- Dei um passo à frente, mas Naten recuou ao meu movimento.

Já estava sentindo meu coração quebrar com todo o resto, e minha visão completamente embaçada.

_ Naten, por favor — Minha voz agora saía em pequenos sussuros. Não conseguia encontrá-la. Abaixei a cabeça e me concentrei em falar com clareza. — Você, mais do que ninguém, sabe que o que temos vai além de qualquer coisa. Nate...

Levantei minha cabeça para mirá-lo. Ele estava olhando para baixo também. Eu podia sentir sua dor, mas ele não expressava reação alguma. Mas o que é isso tudo?

Ele então apertou as mãos no bolso e me olhou por um segundo, depois virou a cabeça para o lado e fitou o vazio, as sobrancelhas franzindo.

_Eu sou muito jovem pra sustentar tudo isso. A brincadeira acabou. — Depois voltou a cabeça e olhou com intensidade nos meus olhos. — Me desculpe.

Naten se virou e eu fiquei olhando-o ir embora com passos firmes.



Folhas estão no chão

O outono chegou

O céu azul está ficando cinza

Como meu amor

Eu tento levar você

E te completar

Mas isso ainda não é o bastante

Eu devo ir

E quem irá salvar você

Quando eu me for

E quem irá cuidar de você

Quando eu me for

Você diz que cuida de mim

Mas esconde isso bem

Como pode você amar alguém

E não você mesma?

E quem irá salvar você quando eu me for

E quem irá cuidar de você

Quem você irá culpar?

Eu não posso continuar

E deixar você perder tudo

É mais do que posso suportar

Quem vai aliviar sua dor?

Aliviar sua dor

E quem irá salvar você

Quando eu me for

E quem irá cuidar de você?

E eu-lhe darei força

Quando você não a tiver

Quem cuidará de você

Quando eu for embora

A neve está no chão

O inverno chegou

Você deseja ouvir minha voz

Mas eu parti há muito tempo


Watch over you — Alter Bridge