Sonhos
21 À Sua Maneira
Notas iniciais
Nico olhou contrariado o olhar contrariado de Jason.
Que muito pelo contrário, fingia estar normal.
Certo, muito contrário aqui, mas se Nico lembrasse bem de tudo que os dois eram, contrário seria uma ótima palavra para defini-los. Jason brilhava mais que o sol, e Nico era a escuridão; Jason era alto e forte, e muito pro desgosto de Nico, ele era baixinho e franzino; Jason era consideravelmente mais aberto, e ele era recluso, para dizer o mínimo.
Eles ainda tinham muitas semelhanças, mas assim como é a felicidade e a tristeza, a tristeza grita mais alto, e as diferenças, também.
O loiro tinha dito que queria passar as festas de fim de ano com os amigos, e claro, Nico se negou. Jason poderia muito bem ir sozinho e ficar com os amigos deles, mas não, ele se negava a ir sem Nico.
Mas uma coisa irritante no filho de Júpiter era que ele sempre fingia estar tudo bem. Céus, como isso irritava o moreno. Não importava o que fosse, o que ele fizesse, Jason sempre acabaria deixando para lá e aceitando.
Era sempre à maneira que Nico desejasse, com raras exceções.
Isso normalmente agradaria um mundo de pessoas, mas não Nico. Ele tinha um espírito de burlar as regras, de fazer as coisas do jeito dele, esse maldito espírito anarquista que tomara conta dele desde a morte de Bianca. E ele odiava Jason ser tão submisso assim.
— Você não vai argumentar comigo? —Ele perguntou, um gosto de raiva em suas palavras.
Jason o olhou cansado. — Para quê? No final você fica bravo comigo, e aí sabe-se lá o que você e sua mente imprevisível vão fazer... Sumir por um tempo, você já fez, e você não gosta de se repetir; vai me impedir de te tocar, quem sabe, mas mais do que eu já não consigo? Você tem uma séria aversão a qualquer um te tocando; me deixar morrer de fome?
Nico franziu a testa, certo, ele queria provocar o outro, mas não a esse ponto. Tinha raiva naquelas palavras, ele podia ver. Era isso que Jason pensava dele? Tudo bem que ele era um maldito egoísta as vezes, uma pessoa difícil de se conviver e talvez negativo demais, mas não é como se ele fosse tão mal assim, Jason mais do que ninguém, devia saber disso.
— Jason, você sabe que eu não gosto de ficar no meio de muita gente. — Nico sussurrou. — E essa data é idiota.
O loiro o olhou atentamente. — Nico, são seus amigos, não estranhos qualquer...
— E qual o problema de passarmos só nós dois?
— Já falei que tudo bem.
— Não, você não falou que tudo bem, você falou tudo bem — Nico tentou reproduzir o som da voz de um Jason contrariado.
— Eu não falo grosso assim.
— Fala.
O filho de Júpiter suspirou, e parecendo realmente chateado, murmurou. — É sempre ótimo estar com você, mas eu queria ficar com nossos amigos, também... — Ele olhou para baixo. — Você sabe o quanto é difícil arrancar Leo daquela oficina, ou Reyna e Frank de Nova Roma, Annabeth sempre foi uma nerd, mais que você, e estudando arquitetura, há boatos de que ela descobriu passagens secretas na biblioteca, porque não sai mais de lá. Vai ser o momento que todos vão parar e se encontrar. E só vai faltar nós dois.
Droga, Nico pensou. Merda, droga... Por que Jason parecia tão certo? Nico tinha certeza que não estava errado, era o jeito dele, ele não sentia essa necessidade avassaladora de encontrar os outros; mas ver como o loiro se sentia o fez sentir-se culpado.
— Grace...
— Não se atreva a dizer para eu ir sem você! — O outro exclamou. — Eu não vou te deixar aqui, vai ser como faltar algo de mim.
Ele se arrependeria, em algum momento tentaria fugir, mas assim que olhou a janela, lá fora nevava, e ele quase conseguia sentir a necessidade palpável do loiro. Ele queria algo que aquela época vendia: A época de família e união.
Marketing filho da puta, ele pensou.
— Só o natal. — Ditou. — O ano-novo passamos em outro lugar.
Um sorriso brilhou em Jason, mas ele pareceu querer ocultar isso, como se não significasse lá muita coisa. Coisa que falhara miseravelmente. — Eu... Ótimo, vai ser legal.
O filho de Hades sorriu, divertido. E os dois ficaram se olhando, um sentado no sofá, e o outro em pé. Era constrangedor. Não era costumeiro Nico ceder após uma simples argumentação, sempre era preciso planos articulados; o ato de agora era quase pioneiro.
— Grace, você realmente acha tudo aquilo de mim? — Ele perguntou, e o outro pareceu perdido até entender que ele referia-se às falas do outro anteriormente.
— Mais ou menos, eu realmente me sinto frustrado pela coisa do toque, às vezes. — Ele viu o moreno se entristecer. — Mas eu sei que não é sua culpa, você só se sente assim... Eu te entendo.
Nico corou, antes de andar até Jason, os joelhos colados com a coxa do outro, e se inclinou para um beijo. Ele sempre se sentia envergonhado quando era ele que tomava iniciativa, de alguma forma sentia que iria estragar algo, sua mão sentia medo de se mexer e ele simplesmente escolhia algo para segurar, dessa vez eram os ombros do outro.
Tudo queimando, ele menos frio do que nunca, a morte até parecia mais longe, ele conseguia sentir aquele calor todo vindo do corpo de Jason. — Eu realmente acho que você é tarado demais, às vezes. — Ele observou os lábios vermelhos do outro, sentindo o ímpeto de parar de falar para beijá-los. — Não posso falar depois, mas por hora você tem permissão para... Tocar.
— Se isso for uma estratégia para me fazer esquecer o Natal... Continue, por favor.
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