Sonhos
7 Yesterday
Notas iniciais
Acordar, de repente, se tornara uma horrorosa experiência e Jason pareceu entender porque Nico tinha tanta aversão à luz.
Ele sentiu a cabeça latejar violentamente, e prometeu nunca mais cair nos encantos de Baco.
Ele sentiu, também, a falta de Nico. Embora tivesse bebido demais na noite anterior, conseguia se lembrar da maioria dos ocorridos. Não muito bem, as lembranças meio embaçadas e com cheiro de álcool, mas conseguia. E ele tinha certeza que Nico tinha dormido ali com ele. Sentiu-se mal por estar cheirando a álcool, e se sentiu pior ainda por ter feito Nico dormir com ele com aquele cheiro.
Mas o moreno não parecera desgostar, então...
Ele saiu calmamente debaixo dos cobertores, a luz entrando pelas retinas, a cabeça explodindo, mas ele suportou honrosamente, procurando pelo corpo esguio de Nico. Não encontrou nada, e voltou ao escuro de sua fortaleza impenetrável: O cobertor.
Só então sentiu-se completamente miserável. Certo que não era a primeira vez que suportava uma bebedeira sozinho, mas a falta de Nico pesava mais do que a solidão de antes. Aquilo o lembrava de antes de estar com Nico, aquilo o lembrava do final desastroso da guerra contra Gaia, aquilo o lembrava de Piper.
Quando tudo terminara, Nico fora embora. Ele não tinha nada a fazer ali, não queria encontrar com Percy. E ainda que Jason não gostasse daquele distanciamento de Nico na época, ele aceitara, porque achava que era uma necessidade, uma escolha do outro; ele quase entendia os conflitos do moreno... Era mentira, claro, no fundo ele não aceitava bem, mas fingia aceitar para manter aquela aura de felicidade que o rondava.
E tudo parecia tão bem para ele. Claro, houve mortes; mas em contrapartida, houvera o aproximamento dos dois acampamentos. Seus amigos pareciam felizes, Percy e Annabeth juntos, Hazel e Frank em uma melosidade que era só deles, Leo sem um par romântico, mas melhor do que ele muitas vezes vira, estar namorando não significa ter alguém. E céus, como Jason sabia disso.
Ele estava namorando Piper, e sentira-se mais sozinho do que nunca. A garota parecia tão feliz ao lado dele, mas ele não sentia-se assim com ela. E ele não poderia conversar com ninguém sobre isso, o que ele falaria a Leo, por exemplo? Que ele queria se ver longe da filha de Afrodite porque ela só significava amizade para ele? Leo embora fosse o entender, também entenderia a amiga, e ambos sabiam o quanto Jason era importante para ela.
Com os outros ele se dava bem, mas nunca conversaria sobre isso com eles, não que não confiasse neles, mas... Sabe? Só não era algo que ele sentia que podia falar. A única pessoa que ele confiava plenamente para isso era Thalia, sua irmã. Mas ela tinha obrigações com Ártemis, e se mostrava raramente.
E um dia ele andava pelo acampamento, ele precisava desses momentos para se esconder e fugir dela. Enquanto olhava para o horizonte tudo pareceu mais leve, simples e agradável.
E voou. Voou por aí, se perdendo entre nuvens e paisagens bonitas lá embaixo. Voou por horas, sem se dar conta de onde estava, nem nada.
Quando ele parou, tudo estava escuro, o ar frio e ainda que perdido, ele achava que estava no caminho certo.
Jason só voltaria a ver e falar com os amigos em três meses depois daquele dia.
E lembrar disso fez sua consciência doer, e querer partir do acampamento de imediato. Por incrível que pareça, nenhum de seus amigos fora atrás dele e ele nunca perguntara o porquê. A porta rangeu, e ele abriu os olhos, só então percebendo que os tinha cerrado com muita força.
— Quem é? — Perguntou com uma voz que nem parecia dele, e ouviu um daqueles barulhinhos que Nico costumava fazer com o nariz quando ia ser irônico.
— Sua voz está deslumbrante hoje, Grace. — Dito e feito. Ele se orgulhava de conhecer um pouco da mente do menor.
— Obrigado, Nico. Onde estava?
Nico fechou a porta, se aproximando.
— Fui ver como estavam os outros. Estão como você, sabe? Juro que não consigo distinguir se estão vivos ou não. Leo parece querer tacar fogo em qualquer um que fale mais alto, Percy está mergulhado no lago desde que acordou, se recusa a sair e receber os parabéns... Tinha esperanças de que saber como ele está ruim fosse te alegrar um pouco. — Disse com humor, e Jason riu fraco.
— Confesso, era tudo que eu precisava. — Nico puxou o cobertor para longe de Jason. — Não! Eu vou morrer. — Disse dolorosamente, fazendo Nico rir.
— Ahh, o doce sabor da vingança de quando você não me deixa dormir de dia... É realmente um prato frio, a vingança; melhor quando você quebra esse prato na cabeça de vento do seu namorado. — O moreno disse, alisando os cabelos de Jason com uma doçura que não combinava com suas palavras. Além disso... Namorado. — Trouxe ambrósia e umas aspirinas, Annabeth jura que vai ajudar.
Quando Jason abriu os olhos, e ingeriu o que Nico o oferecia tudo pareceu doer. — Além da ressaca, está tudo bem?
— Sim, por quê?
— Porque seu azul elétrico está mais nublado que uma tempestade. — Observou Nico, voltando a fazer carinho em Jason, o que o loiro não ia negar que gostava.
Não é como se pudesse negar, também. Nico sabia que o filho de Júpiter era caidinho por ele.
— Estava pensando em quando abandonei o acampamento. — Nico torceu o nariz. — Piper deve me odiar ainda.
O moreno deu de ombros. — Quem sabe, as coisas mudam com o tempo. Você já não conversou com ela?
— Sim, mas ainda estava meio constrangedor... Ela tinha colocado tanto esforço na gente.
— Talvez você esteja se achando demais. — Nico disse. — A essa altura do campeonato ela pode ter passado o rodo no acampamento inteiro.
Jason riu, engasgando. — Nico!
— É sério, você sabe como os filhos de Afrodite são... — Nico deu um sorrisinho de canto, daqueles que conquistaram Jason desde a primeira vez que os vira. — Você deve conversar com ela, de qualquer forma...
— Eu vou. — Jason não se sentia tão confiante ou másculo, mas já que eles estavam ali para resolver as coisas, que o fizessem, mesmo.
— E Jason... Nós devemos falar com eles hoje, você tá sentindo?
— O que? — Jason perguntou confuso.
— Cheiro de que coisas vão acontecer... Tenho sentido isso desde que acordei. — Nico murmurou, pensativo. — Devemos aproveitar as coisas boas, apesar de tudo. Como filho de Hades posso dizer, a morte chega do nada.
Foi a vez do loiro sentir um calafrio descer pela espinha. — Nem fale essas coisas, palavras têm poder.
Repentinamente, o barulho de falas e pés apressados tomou lugar lá fora. Nico levantou-se cauteloso, suas mãos parando o cafuné e fazendo falta a Jason. Ele olhou através da janela e sorriu em branco, um sorriso sem felicidade nem tristeza.
— Alegre-se, Grace, e vá pentear os cabelos. — Jason o olhou confuso. — Sua irmã chegou.
Fale com o autor