Sonhos
20 Wrecking Ball
Notas iniciais
I never hit so hard in love
All I wanted was to break your walls
Eles escolheram uma quadra de basquete para lutar.
Ela era toda circundada por grades, perto do hotel que Jason estava morando, era quase toda pintada de cinza, mas a ferrugem já comia muita coisa, a tinta, no próprio chão da quadra, já estava terrivelmente desgastada.
Nico fez questão de escolher um lugar mais afastado de pessoas, porque era provável que algum dos humanos normais, acabasse machucado. Jason questionou isso, não é como se ele fosse lançar raios no moreno por uma lutinha amigável, certo? Ele mal queria usar as armas, agora ele andava com sua gladio, mas apenas porque Nico o ameaçara com aquela maldita espada de aço negro que sugava até mesmo a luz.
O dia estava nublado, durante todo o dia Jason esperou a chuva que não veio, o vento assoviando pelas janelas e agora nos seus cabelos, que até então ele não tinha percebido estar tão grandes a ponto de balançar junto com o fluxo de ar.
— Eu imagino o que seus amigos iriam falar se soubessem que você está morando em um lugar assim. — Nico gesticulou ao redor, mas na verdade, não queria dizer só o ao redor, e Jason entendeu, ele queria dizer Los Angeles.
A cidade não era bem vista nem nos olhos dos habitantes dos USA, quanto mais nos dos meio-sangues. Todos que tinham um pouco de bom senso fugiam do lugar, lá pipocavam monstros, era mais inseguro que a maioria dos outros locais.
Jason tirou os fios loiros que teimavam em impedi-lo de enxergar do rosto. — São seus amigos, também. E eles diriam que eu sou louco, quase o tanto que você.
Nico sorriu irônico com o canto dos lábios. — Quase?
— Quase, ninguém supera você nesse quesito. — Jason sorriu.
Tinha algo de transcendental na cena toda.
Naquele momento, tudo era menos forma do que essência, as coisas pareciam ter mais cheiros e mais cores, tudo, tudo mesmo, era mais cores. Nico parecia uma mancha em tons escuros balançando ao vento, a desordem no cabelo, agora mais feroz ainda, era a definição perfeita para caos no dicionário.
Jason o viu sacar a espada da bainha e o olhar, a espada brilhou na mesma intensidade que os orbes negros, aquele brilho de coisa afiada, de coisa mortífera. Os olhos tão negros ou afiados quanto a espada, talvez até mais. E uma corrente elétrica passou pela sua espinha, avisando que tudo sinalizava perigo.
— Nico, você não está levando isso muito a sério, né? — Ele tentou dizer, mas em algum momento, o moreno já o atacava e ele teve de se desviar.
Verdade seja dita, nenhum semideus podia ser resoluto quanto à opinião de sacar a espada.
Ele segurou sua gladio, o ouro imperial brilhando no meio de toda aquela escuridão, e o brilho cortou o negro em um baque com a espada do moreno. Nico se afastou, rondando a cena com passos felinos. A forma de segurar a espada, de lutar, seria ridicularizada no meio Romano. A maioria dos gregos tinha uma forma que não era aceita no Acampamento Júpiter, a falta de disciplina deles doía aos olhos das legiões bem treinadas dos Romanos.
Em menos de um segundo, Nico pulara em uma sombra, e se materializara atrás de si, na sombra do próprio Jason, puxando seu pé. Seu nariz e o chão se encontraram com uma força, que pareciam ser apaixonados e estar separados há anos.
Ele conseguiu se livrar, despejando uma rajada de vento no moreno, o dando tempo para escapar do firme aperto que segurava seu pé.
— Isso responde à sua pergunta sobre ser sério, hun?
Jason o olhou com raiva pela primeira vez. — Se é assim que você quer.
O tempo de tempestade estava carregado, ele tinha energia elétrica saindo dos dedos sem nem ao menos pensar, o sentimento da raiva o tirou um pouco do controle, o ar estourando em pequenos estalos pela eletricidade e os cabelos se levantando.
Nico gingou à sua frente, ele era pequeno e magro, então seus ataques vinham rápidos e com uma força moderada. Jason nunca pensara nisso, mas agora isso parecia óbvio, o moreno era osso, claro que seus ataques não seriam fortes. Lutar com o filho de Hades era uma experiência terrível.
Nico invocou a mão de um morto para segurá-lo pelo pé, claro, devia ser uma das estratégias favoritas do moreno, e enquanto ele estava imobilizado, Nico o atacou, a lâmina negra cortando sua pele no braço.
Depois disso, sua reação foi rápida demais, a espada se ergueu e um raio caiu do céu, Nico conseguiu se desviar, mas ele próprio já estava lá, cortando o outro com seu gládio. Ele sentiu a sensação do metal cortando algo, e Nico cambaleou para trás, uma mão contra as costelas.
— Nico! Deuses, desculp... — Quando ele correu para ajudar, recebeu uma rasteira, a cabeça batendo com força no chão e a espada do filho de Hades pressionada contra seu pescoço.
— Como você é ingênuo, Grace.
É, ele era idiota, mesmo. O que ele podia fazer, a aparência de Nico não era de alguém que aguentava cortes ou grandes impactos, parecia que ele precisava de ajuda não do contrário.
— Você pode tirar essa espada do meu pescoço, por favor?
Nico riu anasalado e guardou a espada, estendendo a mão para ajudá-lo a levantar. Ajudá-lo a levantar? Oi? Mas ele não hesitou em segurá-la antes que o outro mudasse de ideia.
— Por que fugiu dos seus amigos? — A pergunta veio rápida, e sem rodeios.
Jason apertou os olhos com força. — Então era isso que você queria saber... Eu não sei.
Ele sentiu a ironia naquele olhar. — Não sabe? Grace, eu não sou tão ingênuo quanto você. Prometa que vai me responder verdadeiramente: Pelo rio Styx.
— Eu prometo pelo rio Styx te responder verdadeiramente.
— Por que fugiu dos seus amigos? — Nico persistiu.
— Eu, não, sei. — Sua mão subiu pelo seu rosto, tentando controlar o cabelo cheio de estática.
Nico o encarou, com um olhar que nunca tinha visto antes. — Por que saiu do acampamento?
— Não era só uma pergunta?
— Estou te dando a chance de falar sobre o assunto...
Jason suspirou, era verdade, ele realmente queria falar daquilo ainda que tudo parecesse meio nublado para ele. — Eu não consigo me encaixar no acampamento. Estão todos tão felizes, nós saímos de uma grande vitória, e eu não me sinto assim. Piper parecia querer tanto de mim.
— Acho que ela queria que você gostasse dela da mesma forma que ela gosta de você. — O loiro o olhou.
— Mas eu gosto.
— Certeza, Grace? Você não fugiria dela, se não fosse para protegê-la caso gostasse.
Aquilo o fez pensar, Nico parecia estar certo de alguma forma, o natural seria ele querer passar mais tempo com ela, certo?
— Eu também me sinto deslocado, aquele lugar parece ter companheirismo demais, amigos demais e felicidade demais, para alguém como eu.
Jason grunhiu uma exclamação de sua raiva. — Eles devem me odiar agora.
Ele olhou o arredor, e quase riu com a cena que alguém de fora veria. Uma quadra velha e enferrujada, com dois garotos em pé lado a lado, o chão chamuscado por um raio, e os dois conversando calmamente.
— Eu não acho. — Nico disse, surpreendendo Jason. — Eu acho que você está perdido, e se você encontrar o motivo de ter fugido, seus amigos vão te entender.
— Você acha mesmo? — E Jason viu pela primeira vez o moreno sorrir de verdade, não aqueles sorrisos de lado ou irônicos, mas um sorriso branco e puro.
— Você é uma criança perdida, Jason. — Nico não pareceu perceber ter falado seu nome, não sobrenome. — Te vejo por aí.
— Espero em breve. — E recebeu um chacoalhar de ombros, que soou como uma afirmativa.
xXx
Jason acordou, tudo ainda estava escuro e rescendendo à noite de cidade grande, que não tem orvalho, mas tem frio.
Não era comum ele levantar àquela hora, no entanto, quando abriu seus olhos pareceu algo natural, ele mal conseguia enxergar alguma coisa, ainda que já estivesse acostumado ao escuro.
Tateou ao seu lado, procurando pelo corpo mirrado e quase delicado daquele que agora era seu melhor amigo e pessoa preferida na face da terra, e não encontrou nada. O quarto repentinamente maior.
Ele suspirou, as vezes isso acontecia, as vezes Nico acordava tendo pesadelos que não eram dele. Não visões reais de coisas que aconteciam, nem apenas pesadelos, mas pesadelos de mortos, de fantasmas e espíritos que o rondavam e o acabavam fazendo sonhar.
O loiro não conseguia imaginar o quão estranho e doloroso isso podia ser.
Ele levantou-se, a cama rangendo pelo seu peso e foram alguns poucos passos até a sala, Nico sentava-se no sofá com a cabeça escondida entre os braços cruzados, como se quisesse se esconder.
— Nico? — O moreno não respondeu, e ele só depois ouviu o som de bateria e guitarra sendo liberado pelo fone de ouvido do outro.
Aquele fone era a cara de Nico, tinha até uma caveira. O filho de Hades vestia uma calça negra folgada, e uma camiseta velha toda preta, ele se negava a usar pijamas. Jason se aproximou, e tocou delicadamente no moreno, ele o olhou assustado por alguns segundos antes de suspirar aliviado.
— Volta para cama?
Nico assentiu, sem dizer nada, os dois andaram até o quarto e se deitaram, o filho de Hades não reclamou quando foi acolhido pelos braços do outro e puxado para mais perto. Os dedos firmes se enrolaram no cabelo ondulado do Italiano, até as respirações pareciam carinho.
— Eu queria poder te ajudar com isso.
Nico suspirou cansado, contra seu peito. — Idiota, era bem pior antes. — Ele apertou o tecido da camiseta de Jason. — Obrigado, Jay.
E dormiram. Tão relaxados e livres quanto um semideus podia ser.
Fale com o autor