Sonhos

25 Você Não Me Ensinou A Te Esquecer


Notas iniciais
capítulo inspirado na música do Caetano, nem tenho que falar que sou meio apaixonado por esse homem, né? Depois do Caju, ele é meu compositor favorito. Espero que gostem, notas finais, please.

Que vontade que eu sinto

De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços

É verdade, eu não minto


Ainda que ele não fosse mais praetor, as pessoas continuavam a olhá-lo com aquele olhar de respeito.

Era de alguma forma, bem interessante. Meio intimidante ver todo aquele respeito e medo de seus poderes ao mesmo tempo. Era engraçado, também. Em algum momento enquanto estava buscando café da manhã, ele fez um movimento brusco e pensaram que ele iria disparar raios, ou algo assim, pois todos tentaram se esconder de um simples movimento de braço.

Um oficial, que já o conhecia, riu achando graça de tudo, compartilhando um sorriso meio brincalhão com o loiro.

Ele mal sabia como o encaravam agora. Antes, ele era o herói do acampamento e definitivamente, quem gozava de mais status e popularidade. Quase uma estrela pop de forma estranha, sendo constantemente assediado, por meninos e meninas.

Após sua memória ser apagada e ele sumir por meses, o viam como um mistério agora, provavelmente. O mesmo herói, com a força maior devido a guerra, mas com motivações diferentes. Com jeito e atos diferentes.

Todos estavam em dúvida, até ele mesmo, já que não sabia quais eram suas motivações de verdade.

Ele agora comprava comida. Para ele e para Nico, que provavelmente, ainda dormia. Ele não tinha comido nada havia um bom tempo já, e Nico nunca comia. Não do modo como deveria, ao menos. Ele pegava uma maçã, e a comia pela metade, sempre nesse modelo de alimentação.

Com isso, ele teve a ideia de comprar algo mais saboroso, já que, perdoem os admiradores da fruta, ela é um saco. Não há graça nenhuma em se comer uma maçã, é uma fruta com gosto de indecisão.

E por isso Jason comprava tudo que podia de queijo. Nico gostava de queijo, certo?

Uma das coisas boas de Nova Roma, é que lá, ele tinha dinheiro de sobra. Ter feito tanto sucesso na cidade o proporcionou uma boa quantidade de fundos. Nada explosivamente grande, mas o suficiente para bastante conforto.

Ele andou pelo acampamento, que se parecia mais cidade do que acampamento, de fato, e em cada comércio ele se perguntava se Nico iria gostar de algo de lá. Comprou doces, comidas salgadas e bebidas das mais variadas, com a desculpa que era para fazer o moreno comer, mas que em algum canto de sua mente, ele sabia que era uma forma de conhecer o outro, de mimá-lo um pouco

Sentiu-se ridículo andando com aquela quantidade de coisas, enquanto se dirigia ao hospital. E mais ridículo ainda, quando o filho de Apollo, que atendia Nico, riu por alguns minutos de sua cara enquanto tentava convencê-lo a deixar levar a comida para o moreno.

Foi até proveitoso ser tão ridículo, porque ele recebeu um olhar de dó risonho, e o outro o deixou ir. Com a promessa de que:

— Não deixe Nico comer tanto, porque senão vai dar merda. Tipo, literalmente.

Sacou? Pois é, Jason concordou, embora duvidasse que o filho de Hades fosse comer muito; sempre que comia com o outro, Jason sentia-se um trator perto dos hábitos alimentares do garoto.

Ele subiu com um pouco de dificuldade as escadas para o segundo andar, que era onde os pequenos quartos dos internos ficavam. De repente, a possibilidade que Nico tivesse ido embora o assolou. O moreno já estava lá há três dias, esse era seu terceiro. Levando em consideração que ele queria ir embora desde o primeiro minuto, não seria uma grande surpresa ele ter usado esse tempo para isso.

Seria uma grande surpresa para ele, porque ele não acreditava que o outro estivesse plenamente recuperado, e nem queria que ele fosse sem confiar plenamente em si, ou... Sem que o outro o ensinasse a jogar Mythomagic? É, Mythomagic, isso aí; tenho que aprender esse jogo, ele pensou hesitante e convicto simultaneamente.

Quando abriu a porta do quarto e viu Nico, aquele olhar perdido transbordando sono e impaciência em uma profusão de negro, soltou um suspiro de alívio que não passou despercebido pelo moreno.

Nico estava de volta ao seu negro usual. Apesar do branco cair perfeitamente no outro, em algum momento no dia de ontem, o outro lhe expulsara do quarto e quando ele voltara, Nico já trajava aquelas roupas pretas que o caracterizavam, quase como se fosse o véu da morte. Nico não era Nico se não usasse negro.

O que ele tinha de admitir, combinava com aquele olhar duro e escuro que o outro tinha, e que mandava-lhe uma chuva de trovões na espinha e uma furacão na barriga.

E dessa vez, não foi diferente: Ele quase colocou uma mão sobre o abdômen, para impedir aquela sensação estranha que ele jurava ser medo ou algo do gênero, por mais que não sentisse medo algum.

— Teve seu momento patricinha loira de Beverly Hills e foi às compras? — O filho de Hades questionou, o fazendo sorrir, ainda que estivesse sendo zoado.

— Quase. — Ele disse, recebendo um sorrisinho de canto do outro. — É tudo comida. Eu observei que você não é muito fã da comida de hospital, e trouxe outras coisas.

Jason começou a espalhar os alimentos, alguns na cama, ou em qualquer superfície que estivesse ao redor; Nico o olhou impressionado.

— É muito.

O loiro assentiu. — Sim, mas não precisa comer tudo, eu te ajudo, não é como se eu fosse imune à fome.

— Não, sério... É muito. Isso seria o suficiente para, sei lá... Semanas, talvez.

Semanas? Semanas é muito tempo. Certo, era bastante comida, mas duraria três ou quatro dias se fosse só ele comendo. Como aquilo poderia durar “semanas” com o garoto?

Ele observou o olhar duro, agora mais amaciado pelo seu recente gesto, observar a tudo cauteloso. — Cara, você realmente precisa fazer um intensivo de como comer, comigo, Leo, Frank e Pe... — Droga, ele pensou, pedindo desculpas com o olhar ao outro. — Você sabe...

— Eu não consigo lidar com dois de vocês simultaneamente, tem que ser um de cada vez, Grace. — Nico disse, dando de ombros à fala do loiro.

— Bem, aquele croissant ali, é de quatro queijos. — Ele observou os olhos de Nico brilharem, rindo logo em seguida.

Nico comeu metade do croissant, depois mais a outra metade, e Jason sorriu, o elemento x poderia ser muitos, mas para Nico definitivamente era queijo. Quando o outro manifestou desejo por um bolo, ele, sabe-se lá porque motivo, foi mais rápido, se inclinando e cortando o pedaço para o outro.

— Eu sei que você é muito bom com luta de espada e talz, mas uma faca eu sei usar. — O moreno disse, aquele leve levantar irônico no cantinho dos lábios de volta, e Jason quis se estapear.

Ele estava dando tanto material para Nico tirar sarro dele, que ele próprio já estava quase tirando sarro de si mesmo.

— Desculpe.

E dessa vez ele se focou em não interferir ou fazer besteira. Sentou-se corretamente, os joelhos quase juntos, os ombros alinhados. Era manhã e ainda estava meio frio, ele próprio usava uma blusa, Nico não. E quase se prontificou a ir buscar um cobertor ou uma blusa extra pro outro, mas se impediu antes da besteira.

Se Nico quisesse, pediria.

Fitou o outro, a pele dele parecia mais saudável do que antes. Ainda pálida pela falta de sol, mas aparentemente mais saudável. Jason evitou olhar para os olhos negros não querendo sentir as nuvens cheias de trovões em seu interior. Se focou nos cabelos, quase tão escuros quanto os olhos, e mais embaraçados que as redes de fios que Leo usava em sua oficina no acampamento; aquele ondulado característico do mediterrâneo, não tão acentuado como o do amigo hispânico, mas ainda ondulado.

Quando Nico fora dormir, ele não conseguiu resistir ao ímpeto de tentar desemaranhar ou emaranhar ainda mais aqueles cabelos, e ficou alguns minutos em uma carícia que pareceu natural, quase como se o outro quisesse.

Mas ele não se enganava, por sorte o filho de Hades não acordara, porque se tivesse, ele tinha certeza que estaria sem uma mão ou agora fazendo o mesmo caminho que Annabeth e Percy trilharam no tártaro.

Ele tinha que se lembrar que Nico não era uma criança, embora parecesse, e nem precisava ficar sendo protegido como ele teimava em fazer.

— O que foi?

Jason piscou repetidas vezes. — O que foi o quê?

— Fica me olhando com essa cara de besta, aí.

— Ah, desculpe. Eu...

— Deve ser esse seu complexo de super-herói. — Nico disse, e quase como lendo sua mente: — Eu não preciso ser protegido.

Jason bagunçou os cabelos em um grunhido de autochateação. — Você deve estar me achando um porre, assim né?

Nico deu de ombros, divertido. — Bianca também era assim, Grace. Você acaba me lembrando ela, as vezes, sabia? — Ele perguntou sem esperar uma resposta de verdade. — É estranho, mas bom. Só controle essa sua necessidade de me ajudar.

— Quer dizer que não liga?

— É melhor assim do que como estive há algum tempo. Há... Alguns anos. E pare com aqueles olhares idiotas que estava me dando.

Jason sorriu, não se negando a olhar o outro nos olhos e sentir as mesmas sensações de antes vibrarem mais fortes dentro de si. Ele notou os lábios do outro se torcendo um pouco, como se quisesse se negar a sorrir, mas era um sorriso de verdade. Nada daqueles de canto ou de ironia, era um sorriso branco; e se fosse possível, ele sabia que seu próprio teria se aberto mais.

— Olhar idiota, Grace.

— Desculpe.

Notas finais
Bom, eu tentei passar a sensação de medo de perca e protecionismo que a música me passa, não sei se fui meio efetivo, mas até que gostei do resultado final. That's it. Espero que tenham gostado, se acharem algum erro falem para mim, e see you tomorrow.