Sonhos

18 Say Something


Notas iniciais
Capítulo inspirado na música Say Something, do A Great Big World junto com a Aguilera, eu nunca tinha ouvido e amei. Anyway, notas finais, hein.

And I

Am feeling so small

It was over my head

I know nothing at all

And I

Will swallow my pride

Ele piscou algumas vezes quando a densidade de escuridão aumentou no cômodo.

Como e porque, exatamente, Nico di Angelo estava parado no meio de sua sala era uma coisa que ele não poderia responder. Mas lá estava o moreno, o ar ao seu redor tão tempestuoso como sempre.

— Nico? — Perguntou, ainda meio confuso se era ele mesmo.

O moreno assentiu, meio perdido, e Jason poderia jurar que ele não conhecia nada desse Nico à sua frente, tremendo por algo que não era frio, e que tinha medo de abrir a boca.

Ele se levantou, deixando a coberta na cama. — Aconteceu algo?

Nico tentou negar, mas foi uma questão de segundos até que alguns fios rasos e frios de lágrima descessem pelo rosto anguloso do filho de Hades, e foi uma questão de segundos para que elas parassem, do mesmo modo como começaram.

Dava para ver que o filho de Hades se negava a deixá-las ir.

Ele andou até o amigo, o segurando pelos ombros, receoso de que ele pudesse cair. — Você se machucou, ou algo assim?

— Não encosta em mim! — O outro tentou gritar com aquela voz molenga de quem chora.

Mas não era uma ordem, era um pedido, quase.

E isso assustou Jason, eram raras as vezes que Nico pedia, ele ou mandava ou sugeria, simples, mas pedir não. O garoto até tentou se livrar do toque, mas foi uma tentativa falha. Os olhos negros dele estavam tão brilhantes...

Jason nunca pensara em Nico como um garotinho, apenas. Quando se conheceram, Nico tinha quatorze, atualmente, tinha ou estava próximo dos quinze, ele não sabia ao certo. Mas ele nunca agira de modo que pudesse denunciar essa pouca idade, ele era como um velho em um corpo de garoto.

E agora não, Nico era tão criança quanto nunca foi.

Quase todo em preto, no entanto, podia-se ver claramente que ele era quase todo ossos. Magro, magro demais; tinha um rosto anguloso, ainda que bochechas proeminentes, tudo nele parecia ter ângulos. Mesmo os olhos, tinham ângulos. Afiadíssimos, ainda que quase não os desse para ver, já que viviam ocultos pelo cabelo de desordem dele.

Jason olhou para ele com carinho, por ver todo aquele ser quebrado. Mas o que faria? Ele mal podia encostá-lo, Nico se negava a dizer qualquer coisa, como ele deveria agir?

— Eu posso dormir aqui, hoje? — Aquilo o pegara de surpresa, ele assentiu com um semblante, provavelmente, nada inteligente no rosto.

— Claro. Pegue a cama.

— Não, eu posso ficar aqui no chão.

— Pegue a cama. Não tem lá muita diferença entre ela e o chão de qualquer forma. — Aquilo conseguiu arrancar um sorriso diminuto do moreno.

O filho Hades andou até a cama, tirando os grandes coturnos militar que usava, e não deitou, mas sentou-se, os joelhos colados ao peito e os cabelos sobre o que sobrava de seu rosto. Jason teve a impressão que o moreno não dormiria aquela noite.

Ele pegou uma almofada, e deitou-se no chão. — Nico, se você precisar conversar, eu vou te ouvir, certo?

Demorou alguns minutos até que algo viesse. — Obrigado, Grace.

xXx

Ambos ficaram partilhando por quase uma hora o silêncio da noite.

Em algum ponto, Jason dormiu, Los Angeles rosnando lá fora, e Nico se doendo, mas ele dormiu. Tivera um dia complicado, afinal. Alguns monstros mortos, e criaturas que pareciam sair de qualquer lugar. Às vezes, ele iria tomar um copo d’água, e uma ninfa saía da torneira.

Ele olhou ao redor, ainda tentando afastar o sono dos olhos, e Nico não estava mais lá.

Era até previsível, levando em conta a personalidade do filho de Hades. Mas de alguma forma, era um avanço, certo? Ele não conseguira fazer Nico falar, no entanto, ele dormira ali; de todos os lugares que Nico poderia alcançar viajando pelas sombras, ele foi parar ali. Significava algo.

Ou, ao menos, Jason assim pensou.

Repentinamente, ele avistou a blusa de aviador sobre a cama. Okay, Nico esquecera a blusa dele quando se fora? Não, improvável. Alguns segundos depois o moreno pulava das sombras, agora mais visível pela luz da manhã, Jason conseguiria atestar que ele estava comendo pouco e que aqueles cabelos precisavam de um pente urgentemente.

— Ah, você já acordou. — Ele pareceu tão desapontado, que Jason levou em consideração enfiar a cabeça na almofada e ao menos fingir que estava dormindo.

— Hãn... Desculpe?

Nico ignorou o desculpe, mas Jason não ignorou a falta de palavras. Tinha algo ali, o moreno estava quase... Tranquilo? O costumeiro ácido que ele despejava nas palavras, não estava ali; ele falava normalmente.

— Obrigado por me deixar passar a noite aqui.

— Tudo bem, pode vir sempre que quiser.

Nico negou. — Espero nunca precisar de novo.

— Nico... O que aconteceu? — Ele indagou, enquanto observava Nico colocar o que carregava na superfície plana da mesinha de plástico.

— Não quero falar sobre isso...

— Certo, então.

Nico parou de ajeitar os produtos em cima da pequena mesa. — Não vai me pressionar?

— Não, você vai falar quando quiser; acho que você é assim, se eu pressionar, você vai embora me xingando ou até sacando essa espada aí. — Ele apontou para a espada de aço do Estige.

O filho de Hades o olhou culpado. — Droga, Grace... — Ele pareceu ponderar antes de continuar. — Acho que eu tive um pouco de ciúmes.

Jason parou de observar os produtos alimentícios que Nico trouxera, que pareciam deliciosos, ele tinha de frisar, e prestou atenção em Nico. Nem precisava ouvir mais, já era mais que o suficiente para entender a cena toda.

—Eu sinto muito, Nico. — Ele se sentiu tão idiota, ali, parado... Ele corria atrás do garoto, falando que queria ser amigo dele, mas quando Nico precisava de ajuda, ele não conseguia fazer nada.

Ele não conseguia entender a dimensão do que o moreno sentia, e nem aliviá-la. Aquilo estava além do que conhecia. Afinal, ele não sabia lá muita coisa.

Nico o olhou divertido, aquele tom de ironia voltando aos olhos negros. Jason nunca percebera como eles tinham pigmentação azulada, era muito preto, mas parecia ter algo de azul reluzindo ali.

— Coma, filho de Júpiter, você come muito mal para conseguir se manter de pé. — Nico pegou a jaqueta de aviador, voltando a vesti-la. — Eu te devo uma. — Jason pareceu querer negar, mas com o olhar que recebeu de Nico não conseguiu. — Se precisar de algo, me mande uma mensagem de íris, não irei impedi-la de chegar a mim, se você mandar.

Jason sorriu, de alguma forma aquilo o alegrava, não era o laço que queria formar com o moreno, mas já era alguma coisa. Ele tinha uma promessa de que, de alguma forma, seu contado com o outro não seria cortado.

— Nico, você é sempre bem-vindo, ainda mais se trouxer comida. — Ele disse brincando, procurando amenizar o clima, e inacreditavelmente, Nico sorriu de volta.

Notas finais
As partes em inglês: " E eu estou me sentindo tão pequeno, está além da minha compreensão, eu não sei nada... E eu vou engolir meu orgulho". Mais ou menos isso aê. Cada um ganhou um trecho dessa vez, escrevi menos que normalmente hoje, mas achei melhor focar no passado. Espero que tenham gostado, see you.