Sonhos
19 Bem Que Se Quis
Notas iniciais
Mas já não há
Caminhos pra voltar
A minha estrada corre
Pro seu mar
Era duro ser Nico, o próprio Nico pensou.
Justamente naquele momento, ele estava preso em uma caverna com centenas de túneis subterrâneos e mais centenas de Lagartos humanoides que parecem adorar as porras dos filmes do Jackie Chan, porque lutam que é uma beleza, e pior, atrás dele.
Ele tinha que falar que a caverna não era mapeada, nem tinha GPS?
Pois é, ele até que podia viajar pelas sombras e fugir dali, claro, mas não queria. Estava mais interessado em descobrir os segredos das civilizações escondidas no submundo.
Você ficaria surpreso com quão avançadas e diferentes elas podem ser. A Europa era apenas uns países simples com monarcas, velharias e Pubs se comparada com esses impérios.
Quando ele estava pronto para entrar em mais uma incursão pelos túneis escuros e bem esculpidos, ele sentiu o ar tremular à sua frente. Sério, mesmo? Ele arqueou a sobrancelha, aquele maldito loiro não tinha o time correto para ser conveniente.
— Hey, e aí, Nico? — Jason perguntou, o apartamento atrás tão bagunçado, que dava vontade de estapear aquela carinha de modelo americano que o outro tinha.
— Não parece que você precisa de minha ajuda.
— Não, só queria conversar um pouco.
Nico bufou. — Grace, quando eu disse para me chamar, era se você precisasse de ajuda ou algo assim.
Jason o olhou, os olhos azuis brilhando em divertimento.
— Hum... Entendo. — Ele parou de falar por alguns segundos. — Mas e aí, fazendo o que?
Nico poderia jurar que uma veia pulsava em sua testa, ele sentiu a pressão na própria cabeça aumentar exponencialmente. Aquele idiota estava fazendo isso desde o dia que o autorizara a mandar mensagens de íris, não se passava um dia sem que fosse importunado por uma dessas mensagens; o outro era Romano, mas aparentemente tinha se acostumado ao modo Grego de forma melhor do que todos tinham pensado.
— Quase sendo morto, por espécies de monstros, provavelmente, nunca vistas antes, porque um idiota filho de Zeus...
— Júpiter, minha irmã que é de Zeus.
— Foda-se, aquele deus é um idiota em qualquer forma.
Nico respirou fundo, olhando o ambiente para ter certeza que não teria nenhuma surpresa repentina; e certo, tudo que ele precisava agora, era o senhor do Olimpo contra ele.
— Se você não está em perigo de morte, vai embora.
Jason fez uma careta, mas um brilho de satisfação brilhou no celeste daqueles olhos impertinentes. — Cuidado, não vá morrer, Nico. — O moreno arqueou a sobrancelha, sério, que tipo de conselho é esse? Não é como se você estivesse andando na rua e morresse, tipo, Ai droga, morri, claro, ninguém me lembrou de fazer o contrário...
— Grace, morra. — Dessa vez Jason riu.
— Certo... Depois que terminar com seja lá o que você esteja fazendo, apareça por aqui, a gente pode sair para comer de novo.
— Eu neguei o convite as cinco vezes anteriores, o que te faz pensar que eu aceitarei agora?
Jason deu de ombros. — Você é imprevisível, nunca se sabe...
Nico não sabia da onde as pessoas tiravam que ele era imprevisível, todas as suas ações seguiam uma lógica: A lógica dele, claro, mas lógica ainda assim. Quando ele estava prestes a declinar, ele ouviu os passos das criaturas se aproximando, murmurou um droga baixinho.
— Ah, tô vendo que vai se machucar um pouco... Passa aqui depois, eu tenho Merthiolate.
xXx
Ele amava lojas de disco.
O que mais poderia dizer? Tinha cheiro do passado dele, o vinil tinha textura, cheiro de tudo que ele perdeu desde que fora pequeno. Quer dizer, mais pequeno do que era, já que basicamente ele não parecia crescer a um ritmo muito bom.
Agora mesmo, estava ouvindo um disco da década de cinquenta, ou algo assim, em uma dessas lojas. Acabou tendo que fugir da maldita caverna dos lagartos, mas ele voltaria em breve, sempre voltava.
As roupas ainda um pouco rasgadas da luta, os membros doendo e cortes pelo corpo... Merthiolate, aquele loiro era um idiota, mesmo. Ele, era um idiota. O que tinha na cabeça quando contraiu uma dívida de gratidão com aquele cabeça de vento? O outro vivia atrás de si, é claro que não o deixaria em paz.
Seria muita humilhação dizer que aquilo o agradava? Que ter alguém procurando por ele era bom? Não para pedir coisas ou usar de seus poderes, e sim porque, aparentemente, ele era um “amigo”.
Nico não acreditava muito nisso, ainda. Da onde Jason tirou que eles eram amigos? O filho de Júpiter era certinho demais para deixar um “amigo” sozinho, era fiel demais, mas os dois mal passaram tempos juntos, a única coisa foi aquele maldito Cupido. E agora esse incidente do Percy.
Ele torceu o nariz, sentindo o rosto queimar.
Que bobagem, que grande idiota ele era, ficar desse jeito por uma paixonite de pré-adolescência. Ele parou, olhando atentamente para aquela loja feita de passado, tudo recorte de eras idas, e que ele perdeu; tudo uma parte dele, que não o integrava; tudo fodido, as paredes com infiltração e pó por todo lado, tão fodido quanto ele; tudo antiquado, assim como ele próprio o era para o mundo.
Desde que ficara no pequeno quarto de Jason, se sentia um pouco atraído pelo outro. Jason o dissera que brigara com os amigos, com a namorada... Isso era no mínimo estranho, e agora vivia em condições decadentes, sozinho. Ele sentia-se grato pelo outro acolhê-lo sem grandes perguntas, mesmo querendo saber; sentia-se grato pelo outro confiar nele; sentia-se grato por aquele sentimento de alguém dormir perto de si, ressonando no próprio sono. Há quanto tempo ele não sentia esse calor humano?
Agora lá estava ele, curioso pelas circunstâncias que envolviam o próprio Jason.
Ele guardou os discos, saindo daquela loja pela primeira vez, sem comprar nada. Os cabelos sujos e desgrenhados caindo ao rosto. Um pé, sombra e o outro pé, e Jason o olhava com aqueles olhos elétricos, mas assustados pela repentina aparição.
— Vamos fazer um jogo, Grace. — Ele murmurou, baixo o suficiente para ser ouvido. — Uma resposta por luta. — Desafiou, passando a mão no cabo da própria espada.
Jason estava comendo frango frito de um balde enorme, tão lambuzado e sujo quanto uma criança poderia estar, mas mesmo assim seu olhar brilhou com o desafio.
— Qualquer resposta?
— Qualquer resposta.
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