Sonhos

14 Really Don't Care


Notas iniciais
Galera, desculpem por esse atraso de vinte minutos; mas esse capítulo destruiu um pouco comigo. Nesse capítulo eu peguei mais a ideia da aceitação gay, que o clipe passa do que a música, mas tem algumas coisas da letra se for analisar certinho. Anyway, notas finais. Capítulo inspirado na música Really don't care, da Demi Lovato.

Jason acordou em um pulo quando ouviu a voz animada de Leo.

Tudo ainda um borrão indistinguível, o mundo real ainda meio onírico, e tudo rescendendo fantasia. Os olhos azuis tentaram se fixar em algo, quase não se abrindo.

— Eitcha, tô vendo que a vida tá difícil, hein. — A voz era tão característica, carregava tantas memórias e companheirismo, que mesmo fora de seu juízo mental perfeito, ele provavelmente reconheceria. — Vida de trabalhador é difícil mesmo.

Jason massageou o cenho, notando puxadas de uma dor de cabeça que viria. Ele tinha certeza. O olhar se fixou em Nico, sem mais demoras, dormindo ao seu lado, imperturbável com aquele sono necromante que ele tinha desenvolvido. Acordar Nico era sempre uma luta, pelo menos isso tinha de bom.

— Leo, sério, se você acordar o Nico, eu não vou lutar por sua vida. — Leo riu através da mensagem de íris. — O que quer?

— Como assim? Sabe que dia é hoje? — Leo perguntou empolgado, vendo o loiro negar sem a mínima animação. — Morar com o rei dos fantasmas está sugando toda sua energia vital, Super Homem.

— Leo, são nove horas da manhã; fala logo.

— Seu namorado aí, que parece morto, não sei, eu acho que está, você deveria medir o pulso dele. — Jason sempre achou interessante o modo como Leo falava, parecia um desses poemas modernos com uma narrativa desfocada. — Hoje é dia da parada gay de São Francisco, e seu namorado prometeu nos levar lá.

Jason pareceu fora da órbita por alguns segundos. — Nos?

— É: Eu, Piper, Percy, Annabeth... O grupo.

— Meu namorado?

O moreno de cabelos encaracolados assentiu freneticamente. — Yep.

—Leo... Mas tipo... O Nico?

O filho de Hefesto rolou os olhos. — É. O rei dos fantasmas, o filho de Hades, o invocador de mortos e o mais recente título: O laçador de loiros filhos de Zeus.

— Júpiter.

— Foi o que eu falei, Júpiter. Júpiter.

Jason o encarou por alguns segundos. Sem saber o que fazer, olhou para Nico dormindo ao seu lado, a confusão negra que era seus cabelos de manhã — E verdade seja dita, durante o resto do dia, também —, e negou.

— Não é bem a cara dele prometer isso.

— Pergunte para ele.

O loiro suspirou. — Nico? Nico... Acorda.

— Morra, Grace. — Ele respondeu no meio do sono, fazendo Leo rir.

— Nico, Leo disse que você prometeu o levar para a parada gay, é verdade? — O moreno ainda no sono assentiu, e Jason franziu o cenho. — Sério, por quê?

— Ele estava me enchendo o saco e eu supus que era a falta de um macho na vida dele.

— Hey, eu ouvi isso. — Leo gritou.

Jason observou o namorado abrir os olhos, aquele brilho assassino de quando era acordado antes do esperado. As sombras tremularam ao redor, e ele podia jurar ouvir o latido de cães do inferno e o lamento de mil almas encher o espaço. Jason temeu pelo melhor amigo.

— À tarde eu busco vocês, filho de Hefesto. — A voz um atrito entre o tártaro e os rios horrendos do submundo.

Leo pareceu entender o medo de Jason, apenas assentiu, satisfeito e contido, e o os dois observaram Nico voltar ao mundo dos sonhos, deixando atrás de si um rastro de destruição e medo.

xXx

Algumas horas depois, lá estava Nico ao lado deles, quase todos os amigos reunidos. O filho de Hades tinha passado no acampamento Júpiter para pegar os amigos romanos, também. Menos Reyna, que se negou veementemente a vir, não por ter algum problema com gays, mas por ser constantemente confundida por lésbica, e alegar que um evento desses apenas privilegiaria essa visão.

Que era errônea. Ela teve que confirmar, após Leo descaradamente perguntar se ela calçava mais que 42.

Então lá estavam quase todos, tendo alguma diversão. Mesmo Nico, que antes era a encarnação do mal, tinha uma aura relaxada. Leo parecia ter sido acolhido por um grupo de Drag Queens que juravam que ele era engraçado o suficiente para se juntar a elas. Piper e Annabeth recebiam dicas de moda de dois homens vestidos como se estivessem em um clipe da Lady GaGa; Hazel e Frank tentavam negar o convite para um ménage à trois de um casal de lésbicas, embora pela expressão de Frank, Jason poderia dizer que ele sentia-se levemente tentado a aceitar, e Percy parecia se divertir com uma bandeira arco-íris envolta no pescoço, dançando ao lado de uma série de homens tão bem trabalhados quanto ele.

Ele sentiu Nico puxar sua camisa. — Leo está atraindo alguns olhares. — Disse fazendo Jason rir.

— Ele é hétero.

— Até Cindy Lauper e Madonna começar a tocar; depois disso, não há distinções. — Jason riu mais alto, passando o braço pelos ombros de Nico, o moreno não parecendo se importar.

— Não é irônica, essa visão toda? — Perguntou, recebendo um olhar intrigado. — Quero dizer: Há muitos meses atrás, você mal conseguia aceitar gostar de caras. E agora você está em uma parada gay.

— É... Vendo assim... — O filho de Hades diminuiu a distância entre os dois, e completou com um carinho que não era tão usual: — A vida é irônica, mas um loiro cabeça de vento, com péssimo gosto para roupas, me fez ver além. Fico feliz por ter tombado com ele naquela cidade.

— Sem querer acabar com o amor do casal... — Leo gritou. — Uns caras estão tentando me beijar aqui, rola um ajuda?

— Aceita que dói menos, Valdez. — Nico sorriu de canto. — Ahh... A vingança.

— Não seja maldoso, Nico. — Jason deu a impressão de que ia defender o amigo. — É claro que é com lubrificante que dói menos.

xXx

Após ter fugido do acampamento, ele ficara completamente perdido.

A paisagem, de cima, era linda. Mas não de perto. De perto ela era meio árida, ele achou uma estrada tortuosa, quase sem luz alguma.

A seguiu por não querer voltar.

Em algum momento, uma cidade emergiu da escuridão, lá longe; sua forma apenas moldada em luzes e escuridão. Uma escuridão densa demais.

Ao longe, ele viu um letreiro: Hollywood.

Ótimo, ele estava nas portas do submundo. Talvez ele quisesse mesmo morrer, a cidade era uma armadilha para semideuses, e ele sabia disso. Um pensamento pulou na sua mente: Nico Di Angelo.

Por sorte, uma ninfa de algum esgoto se apaixonara por ele. Ela era fofa, e se não fosse pelo cheiro nauseante que ela exalava, ele teria passado mais tempo com ela. Ela tinha conseguido uma espécie de emprego para ele: Exterminador de criaturas mágicas.

Ele era pago para destruir alguns monstros que incomodavam por algum motivo. Conseguiu viver assim por alguns dias. Aliás, tinha certeza que se continuasse assim, se tornaria fluente em Mandarim de tanto que conversava com chineses e comia sua comida.

E a todo lugar que ele ia, perguntava por Nico. Buscava qualquer informação, mas o garoto não era Rei dos Fantasmas por nada. E um dia, quase uma semana depois de estar na cidade; esperava um novo emprego e sua comida chegar, não tinha muito dinheiro sobrando. Menos de vinte dollars, para falar a verdade.

O coração quase pulou pela boca quando ele sentiu as sombras tremularem, em uma sensação que agora era assustadora e nada confortante, mas que ele, no futuro, torceria para sentir porque significava a presença dele.

— Virou um tarado atrás de mim, Grace? — Jason conseguiu distinguir o tom habitual de ironia, e um pouco de pura dúvida, mesmo.

Nico usava uma camiseta de alguma banda de rock que ele não conseguia ver bem, a blusa de aviador por cima, como sempre. Era interessante como ele conseguia parecer assustador ou ameaçador sendo daquele tamanho.

Jason meneou a cabeça em um não. — Eu andei te procurando.

— É. Eu sei, os fantasmas falam. Por quê?

Jason não conseguia imaginar como seria viver sozinho, a única companhia sendo os corpos imateriais e milhares de vozes que dizem. Dizem sobre a própria vida passada, sobre o que acontece, sobre as tristezas... Que dizem.

— Você é um amigo. — Falou tão sinceramente, que doeu nele o modo como até agora tinha suportado a ausência do outro.

Nico o olhou furioso. — Quem disse? Você não é meu amigo.

— Nico, você pode confiar em mim. — Ele engoliu em seco. — Eu não contei para ninguém, assim como você quis.

— Por que você faz isso? Acha que eu não consigo enxergar o nojo no seu olhar? Para de fingir que não se importa, que me apoia.

— Mas eu, realmente, não me importo. — Jason quase gaguejou.

— MENTIRA! — Os dois respiravam apressadamente, tudo pareceu pesar mais; e Nico tragou o ar com força, procurando se acalmar. — Não fode. É mentira. Eu sei. Jason, volte pro acampamento, volte pros seus amigos perfeitos, para sua namorada perfeita, para sua vida perfeita. — E foi embora, mais sombra do que quando veio.

Jason sentiu tanta dor ali, tanta solidão, tanta sinceridade. Ele podia dizer que Nico realmente achava aquilo. Nico achava que ele não se importava com ele. E Jason teria desistido, mas Nico estava tão errado, que ele queria provar ao outro isso. Jason não tinha uma vida perfeita, não quando um amigo estava sozinho e perdido.

Não enquanto ele sabia que podia ser o único a ajudar um amigo. Ele faria de tudo para ajudar. Nico e ele voltariam ao acampamento juntos. Juntos.

Notas finais
Okay, a culpa para esse atraso foi totalmente minha, me desculpem. E sim, o capítulo está triste no final, mas é o que essa retomada inicial ao passado pede. Esse capítulo PROVAVELMENTE, tipo, mesmo, tem algum erro, porque eu tô com muito soninho. Então, se alguém achar um, aquele esquema de sempre, okay? Espero que tenham gostado, vejo vocês ainda hoje, só depois de eu dormir.