Sonhos
15 Oceano
Notas iniciais
Nico se perguntava como as pessoas conseguiam viver naquela cidade. Ele andava, sentindo a pressão e as vozes dos fantasmas a falar com ele; e mesmo sendo uma criança do submundo, tinha problemas. Muitas vidas destruídas pelos próprios sonhos ali, era uma cidade dura demais e escura demais, apesar de todas suas luzes.
Constantemente tinha assuntos a tratar na cidade; ela era como a biblioteca de Alexandria, mas viva, e cheia de monstros. Se você quer informações acerca do mundo antigo, ali é o lugar. Em algum momento você vai descobrir o que quer, o problema é permanecer vivo e ter as moedas certas.
Os boatos de um loiro forte, com uma cicatriz nos lábios, caçando monstros pela cidade e procurando por ele vieram rápidos, assim, de repente. Ele estava indo buscar uma relíquia que tinha conseguido a um preço razoável, quando ouviu as palavras sendo sussurradas pelos fantasmas.
E fantasmas não criam, não são mentes criativas. São como meros gravadores: Gravam a vida passada como a interpretaram e gravam o mundo como o sentem.
Não tinha nem como confundir quem era o indivíduo em questão. Há poucos semideus estúpidos o bastante para se colocar em L.A. e matar monstros sem nenhum parceiro à vista. Um era Percy, mas Percy geralmente carregava alguns amiguinhos com ele; além disso, ele é moreno.
O outro idiota é o Grace. Os Grace, em geral, tinham alguns problemas com inteligência, Nico pensou. Embora pelo tempo que passara com Jason, conseguiu enxergar nele uma disciplina muito mais forte que a de Thalia; mas não forte o suficiente para não se arriscar pelo que achava certo.
Aquele loiro idiota achava que podia enganá-lo com aquele discurso todo de amizade e companheirismo. Ele sabia que tudo aquilo era bobagem. Não importava o quanto ele tinha ajudado o acampamento meio-sangue, ele ainda era visto como alguém a se evitar, alguém a se temer.
Todos pareciam ver as tragédias que ocorrera em sua vida, como um fato normal, por ser filho de Hades. Como se ele tivesse pedido para ser filho do deus.
Ele estava cansado de ver aqueles olhares de repugnância, medo ou dó.
Percy o olhava com dó.
O Grace o olhava com uma mistura de dó com repugnância. Grace o olhava como se ele ainda tivesse qualquer sentimento pelo filho de Poseidon. Droga, ele nunca pediu para sentir o que sentia por Percy, ele nunca iria escolher aquilo. E claro que ele ficava ressentido com Percy, ninguém sentira o que ele sentiu, quando viu Annabeth e Percy se beijando no final da guerra contra Chronos.
E o que ele podia dizer? Iria culpar Percy por ser um cara normal, e gostar de garotas como todo ser humano normal faz?
Ele sentia tanta falta de Bianca, mas ele não conseguiria encará-la caso estivesse viva. Não se ela soubesse de tudo, e ele nunca conseguiria esconder nada dela. Nada.
Após ter ido falar com o Grace, seus pés pesavam mais que nunca, e tudo ao redor parecia morrer. Ele tinha certeza que a energia dele estava mais obscura que o natural. E nos dias que seguiram, nada pareceu mudar. Ele ainda continuava a escutar os fantasmas falando do loiro com pinta de ator de cinema dos anos oitenta que andava por aí exterminando monstros.
Era tudo que faltava, um idiota que ia ficar o perseguindo. Dane-se, ele pensou, se ele quer assim, que seja, vai morrer por ser idiota e nem visitar ele no submundo eu vou.
Mas ele pensou no que Bianca acharia disso, ele pensou o que Hazel acharia disso... Certo, não era culpa dele o loiro ser um idiota, mas ele não se beneficiaria pela morte dele, muito pelo contrário, é provável que o acusassem, já que provavelmente Jason fora eleito alguma espécie de reabilitador do Di Angelo, e se ele morresse nessa função, a culpa cairia sobre Nico.
Ele apertou os punhos, era tudo que precisava, um guarda-costas que mal sabia tomar conta de si próprio.
xXx
Quando Nico voltou ao quarto de hotel de Jason, seu olhar não se assustou com o tanto de bagunça que só um ser conseguia produzir, mas sim com a quantidade de embalagens de comida chinesa, italiana, e ele supôs, árabe.
O cara era, de fato, um inútil se não fosse pelas habilidades com luta e liderança. Nico sorriu de canto, aparentemente, nem os meninos de ouro eram tão reluzentes assim, não?
Ele havia gasto o último dia espionando o loiro, e o que descobriu foi de uma insignificância assustadora. Jason passou seu tempo assistindo televisão, comendo besteira e saindo para trabalhar quando foi requisitado seus serviços de caçador.
Sério que ele achava que poderia o encontrar, desse jeito? Nico se sentiu ofendido, ele era um mestre na arte de desaparecer, e o idiota acha que o encontraria ali, parado...
Será que a maioria dos filhos dos três grandes era idiota? Como se fosse uma espécie de justiça do destino, por os fazer tão fortes, que precisavam de algo para igualá-los aos outros?
Ele andou pelo quarto barato, sem lá muitos confortos, uma cama, televisão, um banheiro... Deixou uma cesta com frutas em qualquer superfície plana que achou, e escreveu um bilhete, sua letra tão horrível como sempre: Você não é como eu, não sabe viver sozinho. Não perca seu tempo.
Estava para sair, quando uma lufada de ar invadiu o local, e Jason chegou voando pela janela. De primeira, não o percebera ali, parado no meio da sala; mas assim que jogou a espada em cima da própria cama, o avistou.
— Nico... — Disse em um sorriso o loiro.
— Você não sabe usar a porta, não?
Jason arqueou a sobrancelha. — Irônico, vindo de você, a pessoa que eu menos vi usar portas na minha vida. — Jason riu um riso fácil. — Além disso, ajuda a surpreender intrusos.
O moreno rolou os olhos. — Que seja, volte para casa, Grace. Seu lugar não é aqui.
O filho de Júpiter abaixou os olhos. — Eu não tenho uma casa.
Por algum motivo, aquilo surpreendeu Nico. Talvez o tom com que o outro falara, o olhar resignado, falta de um sorriso ou de confiança... Mesmo assim, não se deixou levar, apenas deu as costas, preparando-se para sair dali.
— Não é da minha conta.
Antes que pudesse sair, sentiu algo segurando seu braço, ele reagiu de imediato, puxando seu corpo para longe daquela tração, a mão se adiantando em segurar o cabo da própria espada.
— Não encoste em mim! — Ele tinha certeza que já tinha falado isso para o outro. Jason assentiu, se desculpando.
— Okay, certo. — Levantou as mãos em sinal de rendição. — Mas me deixa falar com você, por favor, me dê uma hora para eu esclarecer tudo.
Nico o encarou, o olhar mais gelado que a vastidão do Alasca. — Uma hora? — Jason assentiu. — Depois disso você vai embora? — Jason negou.
— Por favor, Nico, sabe quanto tempo eu não falo com alguém normal?
O filho de Hades sorriu irônico, os cantos dos lábios levemente levantados. — Receio dizer, Grace, mas você nunca conversou com alguém normal.
xXx
Ali, no meio daquela multidão, tudo parecia tão longe no tempo. Tão longe.
Ele sentia as lembranças tão amargas, dançando na sua cabeça. Mal conseguia se reconhecer naquele Nico todo em tons de negro. Se alguém lhe falasse que alguns meses depois ele seria feliz, provavelmente acharia que a pessoa estaria louca.
O que ele sentia por Jason era tão diferente do que o que sentira por Percy. Antes tudo era uma dor, agora, era um prazer. Tudo porque Jason fora persistente com ele.
— Você é um cabeça dura, mesmo, né? — Disse enquanto sua mão se esgueirava pelo braço do outro, os dedos se entrelaçando no meio daquela gente toda.
Jason sorriu confuso. — Por que isso agora?
O filho de Hades deu de ombros. Buscou os lábios de Jason quando pensou que nenhum dos amigos os via.
— Ótimo, vou ficar traumatizados por tantos beijos gays, tenho que me esquivar a cada cinco metros. — Leo murmurou ao lado deles.
— É uma parada gay, Leo, o que você queria? — Jason murmurou.
— Ah sei lá, os filhos de Afrodite falaram que era tão legal, e eu agora tô aqui, passada.
Jason e Nico se entreolharam... Passada?
— Ele está tendo aula de Gaynês com os filhos de Afrodite. — Piper explicou.
Leo assentiu, passando com um pouco de dificuldade o braço pelos ombros de Nico. O filho de Hades já o tinha repelido tanto naquele dia, que estava até com dó de repelir de novo.
— Eu faço isso, Nico, para conseguir me aproximar de você. — Leo disse sério. — Mas de verdade, essa parada tá ó, uó.
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