Sonhos
16 Chasing The Sun
Notas iniciais
Jason lia, sem o mínimo interesse, o livro de história.
Estava no sofá, deitando em tédio, nadando em tédio, e ele tinha certeza, se quisesse, poderia comer o tédio. Lá fora chovia, e o subúrbio de New York parecia morto. Nico gostaria desse tempo, ele sempre preferia o frio ao calor massacrante que às vezes assolava a grande metrópole.
Não importava, ele não estava em casa, para variar. Nem nos domingos o moreno conseguia ficar em casa, mais. Hades pareceu ter descoberto, que essa nova vida de Nico, privilegiava sua efetividade e agora o moreno vivia cheio de trabalhos que o deus pedia para ser executados.
Não era bem culpa de Nico de qualquer forma, não é como se ele pudesse negar os pedidos do pai. Negar pedidos dos deuses era quase impossível; porque você pode negar, mas no outro dia acordar sem uma perna. É um sistema injusto, mas são assim que as coisas são.
Jason até agradecia ter o pai ausente, já que isso lhe proporcionava mais tempo livre.
Que ele gostaria de gastar com alguém especial.
Mas que não poderia, porque esse alguém especial estava provavelmente perdido em alguma gruta estranha no submundo. É... O mundo não era muito justo com ninguém. E Jason se voluntariava, constantemente, para acompanhá-lo e o outro negava a ajuda. Alegando que ele deveria ficar em casa, e estudar ou descansar, ou aprender a cozinhar alguma coisa e deixar de ser um inútil dependente dos serviços de delivery da cidade.
Além disso, depois da parada gay, Leo havia se obstinado a criar e fortalecer um laço com Nico; e deuses, só Jason sabia o quanto isso era difícil. O descendente hispânico vivia mandando mensagens de íris, e criando programas para os dois saírem juntos.
Nico jurava que era solidão devido a, suposta, falta de rola de Leo.
Jason sabia que era sim devido à solidão. Só solidão. Aquele grupo escolhido de sete semideuses tinha essa característica. Não havia um só ali, que não provara o amargo de estar sozinho, sem ninguém ao menos, para conversar.
E era por isso que não podia negar e reclamar das saídas dos dois juntos. Ainda que, por vezes, o filho de Júpiter sentia que Leo estava sacaneando Nico. O hispânico tirava tudo que podia das viagens pelas sombras de Nico, a cota que Jason não usava, era usada por Leo.
Seu foco mudou quando Nico pulou das sombras, os olhos cansados, ombros curvados e a jaqueta de aviador sempre lá, como sempre suja como um lamaçal, mas o loiro sempre a acharia bonita, se pendendo sobre aqueles ombros.
— Hey, Grace. — A voz saiu tão cansada quanto os olhos pareciam.
Jason fechou o livro nas mãos com felicidade. — Nico... Você não parece muito bem.
— Perséfone sentiu vontade de comer uma fruta que nasce nos vales perdidos do submundo... Aí eu te pergunto, a mãe dela não é deusa da agricultura? Então por que, caralhos alados, eu tenho que cuidar disso? — Ele bufou. — Madrasta idiota.
Jason deu um sorriso meio torto, como se fosse um pedido de desculpas por algo que ele não tinha feito. — Pelo menos está livre agora.
Um suspiro. — Por enquanto.
O loiro se levantou, ajudando o outro a tirar a blusa. Nico caminhou até a janela, abrindo as cortinas e deixando aquela luz cinza e mortiça, natural dos dias nublados, entrar. Seu semblante se relaxou de imediato.
— Talvez você devesse pedir a Hades para maneirar. — E o rosto do moreno voltou a ficar cansado.
— Não dá. Eu já sou abençoado por conseguir viver assim. A maioria dos semideuses normais, não consegue. — Ele olhou os pingos caindo lá fora. — Ainda mais filhos dos três grandes; nós temos poucos problemas... Não quero atrair um por bobagem.
O loiro mordeu o lábio inferior, sabendo que era verdade. Eles tinham o desejo e objetivo de conseguir viver uma vida normal, e lá estavam eles, na mais possível normalidade. E isso tinha um gosto bom para eles.
— O tempo está bonito hoje. — Nico deixou um sorriso, no canto dos lábios, brotar.
O loiro se aproximou, e tudo era nuvens, não muito à frente, no outro lado da rua, havia um prédio, do lado dele, mais um prédio. Uma rua de prédios e ninguém andava por ali, tudo molhado, cheiro de asfalto molhado, cheiro de terra molhada de algum lugar que ele não conhecia, havia de verdade, terra, só terra, em algum lugar em New York? Ele sentia o cheiro, ao menos.
E ele concordou, apenas os ombros dos dois se tocavam, mas ele conseguia sentir o calor do outro vir pelo ar daquele dia meio gelado. E aquele momento, ele não trocaria por um por do sol em Paris, por uma manhã em Veneza, nem por um dia de sol litorâneo. Ele olhou para Nico do seu lado.
— É, bonito mesmo.
xXx
Nico gostava de queijo.
Ele conseguiu ver isso, na primeira mordida que o moreno dera no primeiro pedaço de pizza, agora no quarto, ele já tinha aquilo como certeza absoluta, assim como dizem: O Homem pagará impostos, morrerá, e agora, Nico comerá queijo.
Tinha escolhido a pizzaria com cautela, o outro era Italiano, não? Provavelmente, gostava de pizza. Todos os Italianos gostam.
Ele tinha pedido uma hora, uma hora para que falasse porque estava ali, porque ia atrás de Nico, e apresentar qualquer argumento decente.
Mas ele não sabia o que falar.
Não sabia como falar.
Estava ali por uma coincidência. Ele simplesmente correu do acampamento e acabou ali. Ele não correu de um titã, e nem de Gaia, mas de seus amigos sim. E depois de ter fugido, acabou em Los Angeles.
E era impossível não conectar o nome do filho de Hades com a entrada do submundo. Quem sabe, talvez seu cérebro tenha o mandado inconscientemente para L.A. para que não esquecesse que Nico precisava de ajuda.
Não que ele próprio não precisasse.
Nico levantou os olhos negros, tão duros e escuros quanto o próprio submundo, uma mistura de dor e raiva.
— E-Eu... — Jason tentou falar.
— Você me convidou para conversar, e agora só fica me olhando comer. — O moreno disse. — Tô achando que você tem algum tipo de fetiche, mesmo.
Os olhos de Jason se abaixaram, e ele colocou o braço sobre a mesa de plástico, brincando com o guardanapo de papel barato da pizzaria barata.
— Por que você não confia na gente?
Com “a gente” ele quisera dizer todos do grupo dos sete. Nico deu um risinho de escárnio. — A última vez que eu confiei em alguém, minha irmã morreu.
— Nico, não...
— Eu sei que não foi culpa do Percy, — Foi só o filho da Hades falar o nome do Herói, filho de Poseidon, e o ar pareceu pesar mais. — mas eu aprendi a lição. Não se deve confiar nas pessoas.
— Você pode confiar em mim.
O moreno à sua frente rolou os olhos, e Jason correu para não deixar a frase solta, sem nenhuma credibilidade.
— Eu fugi do acampamento... — Nico pareceu subitamente mais interessado. — Eu não sei porque, mas precisei sair de lá. E você pode não acreditar, mas eu não sou perfeito, nem nada na minha vida é como você parece pensar.
E Nico sorriu ironicamente, pelo que pareceu a vigésima vez naquela menos de uma hora, que se encontraram; e deuses como ele odiava esse sorrisinho.
— E você espera que eu confie em alguém, que está perdido? —Um brilho negro reluziu nos olhos do moreno. — Alguém que foge dos próprios amigos. — Nico riu pelo nariz. — Você é inacreditável, Filho de Júpiter.
Não tinha como ele ter usado palavras mais dolorosas para Jason. — Você pode dizer isso, mas eu estou tão perdido quanto você. Você não está muito melhor, sabe disso. — O sorriso de escárnio do moreno, se transformou em um olhar ofensivo. — Mas eu confio em você, e se eu tiver em perigo, vou pedir sua ajuda e vou esperar até que confie em mim. No mesmo quarto de hotel.
Nico se virou e saiu sem dizer mais nada, e nem ele conseguiria dizer algo. Os dois plenamente esgotados da conversa. Apesar de tudo, um leve sorriso escapou dos lábios do loiro quando viu as notas verdes sobre a mesa. Nico tinha lá suas delicadezas.
Os dois não se veriam em um mês inteiro.
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