Sonhos

17 Pra ser Sincero


Notas iniciais
Capítulo inspirado na música: Pra ser sincero, dos Engenheiros do Hawaii. E pra ser sincero, eu gostei dessa música (pegaram? trocadilho. Forget it). Vejo vocês nas notas finais.

Ele poderia ser o que for, mas antes de tudo, era o semideus mais informado.

A quantidade de conhecimento que Nico portava era uma coisa assustadora. Certo que ele não era louco de desafiar Annabeth, ou qualquer filho de Atena em conhecimento de física quântica. Não, isso não, isso ele considerava conhecimento inútil.

Mas ele conhecia as coisas. Ele sabia como elas funcionavam, ele guardava segredos e tabus. Ele buscava fatos escondidos no escuro das mentes dos outros, no grito de bruxas do submundo, na língua dos fantasmas.

Não era fácil conseguir o que ele sabia, ele lutara por esse conhecimento, às vezes colocando a própria vida em risco.

E para mantê-lo, ele sempre tinha de estar atrás de novos. E claro, ter uma rotina. Frequentemente ele visitava os dois acampamentos, que estavam mais unificados a cada dia depois da guerra contra Gaia, e conversava com seus informantes.

O seu informante do Acampamento Meio-Sangue era Rachel. Apesar de ser uma excêntrica, ela não ficava espalhando por aí a presença do filho de Hades, divulgava as informações sem grandes dramas e tinha olhos de quem entendia e de fato entendia.

Ele subia uma das intermináveis colinas do acampamento, procurando por ela, quando lá embaixo, ele viu uma silhueta conhecida. Duas, na verdade. Annabeth e Percy, os dois embaixo de uma árvore, se beijando.

Ele sempre fugia dessa imagem, só a existência daquele relacionamento já o afetava o suficiente; tentava sempre manter distância dos dois, para que não precisasse ver qualquer carinho entre eles.

Doía mais do que o imaginado.

Ele se controlou, procurando por qualquer sombra e entrando nela sem pensar muito para onde estava indo. Os olhos embaçados por lágrimas que ele segurava a qualquer custo. Quando ele abriu os olhos e conseguiu finalmente enxergar, o lugar todo era sombras menos aquele azul, elétrico demais para ser confundido.

xXx

Nós dois temos os mesmos defeitos
Sabemos tudo a nosso respeito

Certo, Nico nunca confessaria isso, mas ele não achava Dostoiévski tão interessante assim.

E por que ele lia, então?

Nesse caso, entramos em uma discussão mais interessante, afinal Nico não é alguém que sente algum tipo de prazer especial em mentir, nem sente prazer algum em apenas dizer a verdade, como um maldito anjinho soldado. Mas ele falava aquilo que queria e quando queria.

Ler Dostoiévski era legal, mas ele não se atraia tanto assim pela amargura e mazelas humanas, já bastava as dele; mas quando Jason o encarava com aquele olhos de orgulho por ter lido um livro daqueles, o que ele poderia fazer? Ele preferia gastar horas do seu dia em literatura Russa, e receber um desses olhares, do que qualquer outra coisa.

Era por isso, que agora, lia o maldito Dostoiévski.

Jason tendia a encará-lo de diferentes modos, mas geralmente, todos eram bem agradáveis. Tinha esse olhar de orgulho, o olhar de quero te fazer gemer, o olhar de você é meu anjo, esse Nico não gostava tanto porque ele achava uma vergonha um título desses para o Rei dos fantasmas, tinha o olhar de estou feliz com você...

Naquele momento, o loiro o encarava com o olhar de estou com fominha. Atenção, o diminutivo do substantivo FOME é extremamente necessário nesse caso; pois só ele pode expressar em gramática a cara de cachorro abandonado naquele olhar.

— Não vou cozinhar nada, esqueça. — Ditou, tentando passar um pouco de firmeza na voz.

— Ah, Nico. Por favor, tenha piedade de minha alma, estou morrendo aos poucos.

O moreno torceu o nariz. — Sério, como você consegue ficar tão magro? Cara... Você provavelmente comeu o tanto equivalente ao meu peso, no café da manhã; não é possível que já esteja com fome.

— Estou.

— Me nego a cozinhar.

Jason mordeu o lábio, sorrindo de canto. — Di Angelo, nós dois sabemos que eu vou te atrapalhar de ler por mais de uma hora, até o momento em que você vai cozinhar me fazendo prometer compensá-lo em algo. — Jason levantou a mão, pedindo silêncio quando Nico iria interrompê-lo. — Algo que, nós dois sabemos, mesmo prometendo, eu não vou fazer; por que não pulamos logo para a parte em que eu me esbaldo de comida e você volta a ler seu livro?

Nico o encarou profundamente, aquele olhar que ele sabia que fazia gelar o coração de qualquer um, aquele olhar negro e doloroso, que parece sugar a luz e a vontade de viver de quem o encara.

Ou assim era, já que pareceu ser completamente inefetivo contra Jason. Aquele maldito o estava fazendo perder a prática.

— Assim como minha ideologia anarquista, me nego a curvar-me ao sistema, até o máximo que eu consiga.

Jason riu, dando de ombros. Mas Nico sabia que o outro não tinha desistido, ele o conhecia bem de mais para saber que com seu estômago, nunca se brincava. O loiro se dirigiu ao aparelho de som na sala, mas antes que pudesse ligá-lo, o moreno tirou um iPod do bolso, fone preto e com um relevo de caveira brilhando em prata. Aquele sorriso irônico.

— Se você pensa em me atrapalhar com essas suas músicas estranhas, Grace, esqueça.

Jason o olhou intrigado. — Desde quando você é tão adepto da tecnologia?

— Desde quando um loiro idiota começou a quebrar meus discos.

Os olhos azuis elétricos se apertaram em um claro desafio, a cicatriz no canto da boca, se curvando em um sorriso. Sexy. Yeah, Nico adorava provocar o outro.

Jason saiu como uma tempestade para dentro do quarto de ambos, ele arqueou a sobrancelhas quando o barulho de coisas sendo reviradas pareceu flutuar para fora do cômodo, demorando pouco para o loiro sair com aquele mesmo sorriso sexy, as roupas, agora, cheias de pó.

— Pare de me olhar estranho, Grace. — Nico disse, enquanto o loiro vinha caminhando, olhando diretamente a ele, as mãos escondidas atrás do corpo.

— Sem problema, pode ficar aí lendo seu livro, enquanto eu fico aqui — Ele ergueu a mão em um grito. — Jogando Mythomagic sozinho!

Nico, vergonhosamente, engasgou com o ar, arfando. — Isso é jogo sujo, filho de Júpiter.

— Cada um com suas armas.

— Que seja, eu não sou mais uma criança, não preciso disso. — O moreno fingiu escárnio, tentando voltar ao livro.

— Não precisa? Nem mesmo se for a edição limitada Romana gold deluxe de Pluto?

— Como você conseguiu isso?! — O livro quase voou para longe junto com sua dignidade, sua cabeça até meio tonta pela velocidade em que se levantara.

— Por aí. — O loiro disse como se fosse nada, quando ele sabia que aquilo significava muito.

Nico o encarou, as mãos se perdendo nos cabelos caóticos. — Eu sou filho de Hades, Rei dos Fantasmas, Embaixador de Pluto e... Você entendeu. Não vou ser derrotado assim.

Tudo pompa. Era claro, para ambos, que já tinha perdido, mas ele era muito orgulhoso e cabeça dura para admitir. Se sentou no sofá, as costas no braço dele, e se focou em não olhar Jason e fingir ler o livro.

— Nico... — Foi engraçado ver tudo acontecer, Jason se enfiando entre seus braços e o livro, as costas largas dele contra seu peito. — É um presente, cara. O nerd aqui é você, o que eu iria fazer com esse Mythomagic sozinho?

Nico sentiu o calor subir até o rosto, tudo mais quente, e a voz terna do outro o acariciando daquela maneira, o fazia se sentir muito confortável, ainda que a posição não o fosse. Ele não tinha porte para que o corpo do loiro estivesse escorado daquela maneira sobre o seu.

— Leia um pouco para mim, já que é quase impossível eu conseguir. — O filho de Júpiter tentou se ajustar ao pouco espaço, se mexendo. — Nico... Eu espero que essa coisa dura, na linha da sua cintura, seja um controle remoto.

As bochechas do moreno pareceram queimar. — E-eu vou cozinhar para você. — Gaguejou para o outro.

Jason negou, se virando. — Não precisa, estou com fome de outra coisa agora.

Notas finais
Estou com uma dor nas costas, que não sei da onde veio. Anyway, espero que tenham gostado, eu destaquei o trecho que eu gostei hoje porque eu construí a cena pensando nele, mesmo. E eu decidi escrever sem um controle rigoroso nas palavras, provável que aconteça de eu escrever um capítulo mais pequeno, mas acho difícil. See you, guys.