Sonhos

27 Por Enquanto


Notas iniciais
Capítulo inspirado na música Por Enquanto, que acho que a composição é do Renato Russo, sei lá. Espero que gostem.

Mas eu sei que alguma coisa aconteceu

Está tudo assim tão diferente

Sério, ele tinha que parar com isso.

Jason sorriu um sorriso que ele sabia ser descarado, e que supostamente deveria ser constrangido e não sem vergonha, mas o que ele poderia fazer? Era tão natural que ele mal conseguia controlar.

Nico parecia querer se esconder nas sombras, o rosto era mais chamas do que Leo, e ele tinha certeza que se dissesse outra bobagem o moreno iria utilizar aqueles punhos fechados e firmes no seu rosto. E mesmo que fosse baixinho e de aparência franzina, iria doer.

— Grace, você tem problemas.

Ele riu, porque era constante Nico dizer isso. Quase como um bordão. Ele coçou a bochecha, se desculpando.

O que tinha feito agora mesmo? Ele mal conseguia lembrar.

Recentemente estava com ímpetos que ele jurava não partirem só de seu interior. Ele simplesmente precisava fazer Nico corar, ou sorrir constrangido, ou tremer quando ele falava alguma bobagem mais profunda. Ele precisava.

Há alguns dias, estavam andando sozinhos pelas ruas de Nova Roma, a lua tão forte que sua luz parecia até palpável. E o vento estava ao seu favor, ele não se lembrava se fora de propósito ou não, mas o vento viera e bagunçara o caos do cabelo de Nico, e bem, ele os ajeitara. Tão delicadamente quanto julgava que deveria ser. No final, o filho de Hades estava tão vermelho, que nem conseguia falar. Jason recebera um soco no estômago, enquanto o outro ganhava distância à frente, o chamando de idiota, babaca, loiro ridículo.

Era o preço: Um hematoma e alguns xingamentos por um Nico fofo por alguns segundos.

O filho de Hades o ignorou, voltando ao livro que ele estava lendo. Naquele momento, haviam dois ou três livros no apartamento de Grace; ao que parece, o moreno percebera que estava passando mais tempo com ele do que em seu quarto no submundo, e que devido a isso, sua leitura estava atrasando.

Resultado: Livros enormes que Jason fazia questão de nem chegar perto perdidos por onde habitava; certo, nem tão enormes assim, mas ele os temia tanto, que pareciam aumentar ao olhar do medo.

Jason estava deitado em um sofá e Nico meio sentado e deitado em outro. Nico lia enquanto ele não fazia nada. Tirando algumas leves e ocasionais conversas que tinham, que eram compostas por frases econômicas, eles não tinham lá tanta interação.

E para falar a verdade, Jason gostava assim.

Ele sabia que o outro nunca seria alguém plenamente comunicativo, nem ele era comunicativo ao excesso, como Percy ou Leo eram. Ele simplesmente falava quando era preciso falar, e tanto ele quanto o moreno pareciam apreciar isso, disfrutando de um silêncio confortável. Diferente de Piper, que tinha uma certa tendência inocente de querer preencher silêncios com falas; não por ser uma tagarela, mas por ter a ideia de que o silêncio é primordialmente constrangedor.

E Nico, principalmente ele, ensinara a Jason que não. O que deixava o silêncio constrangedor eram as palavras que o antecediam.

Ele observou o outro com cuidado. Os olhos negros que pareciam perdidos, olhos de sono e de caos, os traços angulosos do rosto, a proeminência das bochechas italianas, os traços que se formavam em sua testa quando ele a franzia enquanto pensava, o sorrisinho de canto que poderia ser confundido com ironia, mas poderia ser só divertimento, mesmo... Jason acabou corando, porque ele sabia que observar esses traços em Nico tinha um sentido diferente agora.

Era tudo diferente, pois ele já sabia que tinha desenvolvido uma pequena queda pelo filho de Hades.

Foi um tanto chocante descobrir que gostava de garotos, também. Mapeando seu pensamento, ele descobriu vestígios de um pensamento antigo sobre isso. Como quando observara que Percy tinha um bom corpo quando o outro tirara a camisa para nadar, ou de como Leo conseguia ser charmoso quando estava concentrado em criar.

Nunca passara de nada além disso, que ele considerava até saudável, quase como constatações, não homossexualidade.

Mas aí ele percebeu que estava fazendo constatações demais sobre Nico. Até tentou negar o que sentia durante uns dias, mas ele soube que era uma paixonite quando o moreno chegara todo molhado em seu apartamento, em um dia com cara de sol, o nariz vermelho pelo frio do submundo, gelado e tremendo, e Jason não sabia de onde tinham tirado que Nico cheirava à morte, para si ele cheirava como terra e algo doce que ele não sabia identificar direito.

Era fofo, frágil e... Deuses, me prendam, ele pensara, mas era excitante, também.

Pode-se discordar de tudo, do mundo, dos livros, das pessoas, de você mesmo, mas não de uma ereção. A ereção é o que há de mais sincero em um cara.

Jason não conseguiu segurar a risada.

— O que foi? — Nico deu um daqueles sorrisinhos, como se partilhasse a graça por antecipação de uma piada ainda não contada.

— Pensando bobagens, só isso.

Nico rolou os olhos. — E quando você não está, Grace?

Jason fechou o rosto. A única coisa ruim desse novo estado em que se descobrira, era que ficava extremamente mais sensível ao humor do outro. Nico sempre tivera uma ironia corrosiva demais, e ele sempre soubera disso, mas agora parecia doer mais do que deveria.

O filho de Hades pareceu perceber isso, pois o olhou intrigado.

— Eu estou brincando. — Ele disse juntando as sobrancelhas. — Aconteceu alguma coisa?

Jason suspirou. Ele dava muita bandeira, como ele conseguia ser tão idiota, assim? Tinha até pensado em falar com Nico sobre o que sentia, e assim os dois poderiam lidar juntos com isso. Mas tinha receio do relacionamento dos dois não sobreviver a isso, tinha receio de Nico rejeitar não só seus sentimentos, mas sua amizade, também, pensando que tudo que fizera até agora fora por esse sentimento de Afrodite.

E deuses, todos sabem como Nico odeia Afrodite.

Ele negou com a cabeça. — Não, sei lá... Acho que é falta dos nossos amigos. — E o outro parecer aceitar essa justificativa, ele falara com tanta verdade na voz, que até ele estava comprando a própria resposta. — Eles fazem falta.

Nico fechou o livro que lia, se aproximando, e Jason abriu espaço para que ele pudesse sentar ao seu lado.

— Você vai conversar com eles quando estiver pronto.

Jason não pensou quando abriu a boca. — Eu acho que achei o que procurava. — Ele sabia que seu olhar quase perfurava o outro.

Nico sorriu de verdade, fazendo o loiro se derreter, ali. — Sério? Quer me contar?

— Não ainda. Quero ter certeza.

O moreno arqueou a sobrancelha. — E eu posso te ajudar nisso?

Ele deu de ombros, mas assentiu, segurando firme a manga da jaqueta de aviador do outro. — Posso te abraçar? — Ele notou Nico congelar à sua frente, se retraindo um pouco.

Bandeira, muita bandeira, pare com isso, Grace, ele pensou. Estava prestes a retirar o pedido quando o moreno assentiu e ele foi rápido em puxar o outro para si.

A sensação reconfortante de outro corpo contra o seu o envolveu, Nico emanava tão pouco calor, mas emanava. O outro tentou sair de seu abraço assim que foi envolvido, mas quando Jason o apertou mais ele acabou desistindo, passando timidamente os braços ao redor da cintura de Jason. Ele não poderia falar que se encaixavam muito bem, Nico era baixinho, e seu rosto acabou afundando-se no ombro do filho de Júpiter, enquanto o queixo do loiro se apoiava no topo da cabeça do moreno.

E aquele cheiro doce o invadia de novo, ele nem tentou disfarçar o óbvio quando respirou o cheiro dos cabelos do filho de Hades e só foram se separar quando Jason julgou já estar sendo constrangedor até para ele.

Eles se olharam, Nico tão vermelho e envergonhado como nunca, mas não houveram socos nem xingamentos, apenas um olhar carinhoso. Nenhum dos dois ousou falar nada, não era um silêncio constrangedor, era só estranho.

Nico voltou para seu livro, enquanto ele voltou para os próprios pensamentos.

Nunca estivera tão certo antes, estava tão apaixonado que não conseguiria negar se alguém o perguntasse isso naquele momento. Nem mesmo se Nico perguntasse.

Ele corou, até porque aquilo que há de mais sincero em um cara não o deixaria mentir.

Notas finais
Pois é, estamos chegando próximo do final, galera. TRÊS CAPÍTULOS, é o que falta para acabarmos. Well, qualquer erro avisem ao tio, tá? E espero que tenham gostado, até amanhã.