Sonhos
12 Like a Virgin
Notas iniciais
O dia estava radiante e a vida era linda.
Pensou Jason, enquanto via aquela multidão de caixas e objetos perdidos. Aliás, como eles tinham conseguido tudo aquilo? Certo que a maioria das coisas eram relíquias, e pertenciam a Nico, mas mesmo assim, já era o suficiente para usar uma quantidade dolorosa de plástico bolha que ele poderia estar estourando.
E não importava que o dia estava, na realidade, meio frio e cinzento, para ele tudo parecia brilhar. E pouco importava, também, que a vida não era tão linda, como os vizinhos pareciam acreditar brigando dessa forma, gritando a plenos pulmões.
Nada, entende, nada importava.
— Céus, Jason, para, para de sorrir que tá começando até a brilhar. — Nico disse naquele mau humor clássico dos filhos de Hades, mas Jason sabia que era tudo charme, já que ele tinha um sorrisinho no rosto, também. — Pelo que parece vamos ter que aguentar nossos vizinhos brigando, constantemente.
O loiro deu de ombros. — Espero que eles consigam se acertar, não deve ser legal viver assim.
Jason viu Nico rolar os olhos, e dar um daqueles sorrisinhos: “Você e sua ingenuidade”. Mas não disse nada.
Ambos estavam, agora, em algum dos subúrbios de New York, e ainda que a vizinhança não fosse lá muito receptiva, nem os arredores floridos e cheios de pessoas sorrindo, era agradável. Tinha o fato de ambos estarem se mudando juntos, também.
Não que eles já não estivessem, de modo prático; mas fora por outras circunstâncias. Começaram a passar muito tempos juntos, mas o apartamento em Nova Roma era de Jason, e não raramente Nico passava um tempo fora, em seu quarto no mundo inferior.
Mas agora eles viviam juntos de comum acordo. Nico trouxera coisas que ele antes deixava no Palácio de Hades, e Jason se divertia descobrindo o que eram.
Fora interessante como tudo aconteceu. Ele mal sabia que Nico tinha pedido a ajuda de Annabeth, para falar a verdade ele que insistira para se mudarem logo, já que Nico não queria aquele apartamento, devido à má estrutura e localização. Mas ele ficara tão ansioso quando descobriu que o moreno procurava por um local, que acaba o atropelando na decisão.
Bem... Nico o deixara atropelá-lo, portanto não é como se não quisesse certo?
Ele tirou um livro extremamente grosso de alguma caixa, e se perguntou como o outro conseguia ler aquilo? Na verdade, como ele conseguia ler em geral... Jason tinha que lutar para ganhar das frases, e mesmo assim, às vezes se saía meio perdido, enquanto Nico lia quantidades absurdas, e cada vez se tornava mais inteligente.
— Pelos deuses, Jason, toma cuidado com esse livro, é um manuscrito original de Aristóteles. — Nico disse, tomando o livro da mão dele. — Que os filhos de Atena nunca sintam falta dele. — Sussurrou, em tom de oração, fazendo Jason rir.
— Você roubou, Nico! Se a Annabeth descobre...
— Você fica sem namorado, então bico calado, ouviu? — Respondeu, já colocando o livro em algum lugar afastado e voltando às caixas.
Jason suspirou. Ele estava feliz, mas isso não o impedia de ficar entediado. Nico conseguia ser um maníaco quando o assunto era referente às suas coisas, e à organização delas. Já era assim quando viviam em Nova Roma imagina agora?
Nico tinha todo um jeito próprio de arrumar as coisas, mesmo a fruteira, tinha quase uma ciência. E ficava mais bonito, de qualquer jeito. Quando Jason arrumava, parecia apenas um monte de frutas empilhadas, uns baguios jogados sem esmero; já com o moreno, parecia ser uma maldita obra de natureza morta.
Jason não conseguia arrumar nada, sem ser repreendido, e ouvir que estava fazendo errado. Mas nada mesmo. Ele se levantou sorrateiramente, indo para trás de Nico e abraçando o namorado pela cintura.
— Nicooooo. — Murmurou em uma voz que era propositalmente manhosa. — A gente tá nisso há horas, vamos parar um pouco.
— Se pararmos, eu sei que você não volta. — Respondeu, sem se importar com o abraço. — Falta pouco, comparado como quando começamos.
— Mas nós nem comemoramos. — Os lábios de Jason sussurram, se prendendo em um estalo contra a nuca de Nico, o cheiro dos cabelos do moreno o preenchendo por inteiro. — E deveria ser a primeira coisa a fazermos.
— Jason, nós... — Parou de falar quando a mão do loiro abriu o zíper de sua calça. — Okay, seu pervertido, meia hora não mata ninguém.
— Você nem resistiu dessa vez, Nico, tá ficando fácil.
— Calado.
xXx
Acabou com os dois jogados no colchão, sem nenhuma vontade de se mexer, e Nico mais preguiçoso que o próprio Jason. Eles estavam entre caixas, poeira e uma desordem tão profunda quanto uma mudança pode ser, mas nunca se sentiram mais leves e confortáveis.
Jason se aninhou em Nico, enfiando seu rosto na curva do pescoço do outro. O cheiro, o calor eram tão bons, que ele não sabia como tinha aguentado tanto tempo sem.
— Hey, Nico.
— Hum? — Murmurou em uma voz sonolenta.
— O que a gente faz agora?
Claro que ele não se referia ao agora, agora. Agora eles podiam dormir, trocar mais um beijos, relaxar na companhia um do outro, envoltos naquela aura de lar. Ele se referia à vida deles, o que fariam com o futuro que planejavam.
— Ah, a gente vive.
— E como fazemos isso?
Ele sentiu um chacoalhar de ombros, e sorriu. Claro, Nico não tinha a resposta exata. — Bem, a gente começa procurando o que fazer, o que estudar... Vamos ir atrás do que a gente gosta.
— Parece meio chato.
Nico riu. — A gente pode matar uns monstros, também. Somos filhos dos três grandes, eles vão vir atrás de nós rapidinho. — Jason só se abraçou mais a ele. — Está tudo bem? Você tá tão manhoso hoje.
Jason deu de ombros. — Eu me sinto bem por dentro, como nunca senti. Tá tudo mais estranho do que quando eu falei que tinha me apaixonado por você.
Nico sorriu, lhe beijando a bochecha, e logo depois se levantando. Ele vestiu uma camiseta grande demais, com uma estampa do David Bowie, que ele só usava em casa. Nico ficava bonito de qualquer jeito, mas seria melhor se fosse deitado ao lado dele. Jason gemeu uma reclamação.
— Alguém tem que terminar de arrumar tudo isso. — E acrescentou quando viu o outro se levantar: — Não precisa me ajudar, falta bem pouco.
— Nosso apartamento, nossa responsabilidade. Isso me inclui.
Nico sorriu um daqueles malditos sorrisos que fazia Jason tremer e se derreter inteiro. — Você é fofo demais pro seu bem.
— Vamos ver se você vai continuar achando isso quando eu te pegar de jeito na cozinha.
E o resto da tarde foi gasto em um flerte amigável de piadas e contatos despretensiosos.
[...]
Até Jason deixar cair, sem querer, um dos discos de Nico. Ele iria perder um braço? Iria, mas estava feliz. E era o que contava.
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