Sonhos
24 Imbranato
Notas iniciais
E forse l'ho capito e sono qui
Scusa sai se provo a insistere
E talvez eu tenha entendido e estou aqui.
Desculpe, sabe, se tento insistir,
— Ah, cara, eu desisto. — Jason disse, jogando as cartas que tinha na mão na cama.
Nico sorriu vitorioso. — O rei dos fantasmas nunca perde.
O moreno observou o outro rolar os olhos, o orgulho um pouquinho ferido por ter perdido.
— Sério, é muita matemática para mim, muitas coisas para lembrar, como eu poderia lembrar que A Forja de Hephaestus, perderia para O Campo de Asphodelos? — Jason indagou, a mão correndo pelo cabelo completamente arrumado. — Não faz sentido.
Nico só pôde sorrir, vendo como o outro se esforçava para decorar regras básicas que estavam quase implantadas em seu consciente. Ele tinha certeza, que mesmo se tivesse perca de memória, ele nunca esqueceria do jogo.
— Você se acostuma com o tempo. — Disse suave, pegando as cartas e as embaralhando. Ele levantou o olhar por um segundo, e se encontrou com o sorriso estupidamente branco de Jason. — O quê?
O loiro negou com a cabeça, como se dissesse nada, mas tinha algo ali. Aquele azul elétrico faiscava, e Nico apertou os olhos, pressionando o outro.
— Fale.
Jason deu de ombros. — É engraçado ver como você fica feliz jogando esse jogo. — Ele respondeu naquele sorriso que ele dava quando descobria algo novo sobre Nico, e o próprio Nico já estava se irritando com isso. Era um detalhe de nada, uma besteira, e o outro ficava feliz por isso.
— Grace, você tem sérios problemas mentais.
Nico voltou a entregar as cartas, se preparando para um novo duelo. E era tão automático, que sua mente acabou vagando. Fora as perguntas do loiro sobre o jogo, ele passou a maior parte do tempo pensando em coisas aleatórias.
Tipo, porque caralhos ele ainda estava ali? De fato, ele já estava recuperado, e não precisava mais ficar. Reyna tinha pedido que ficasse, naquele tom meio de ordem, mas que não era; e ele ficou.
Além disso, o porquê de ter deixado o loiro fazer-lhe companhia ainda era um mistério. Afinal, ele só estava perdendo seu tempo naquele hospital devido ao herói/semideus que unificava dezenas de povos de monstros. Ele nem queria saber em que estado estava Los Angeles, agora.
Aliás, o que Jason faria a partir de agora? Ele não poderia voltar à cidade, e nem ao acampamento meio-sangue, já que se negava a encarar os amigos. Até agora, nem Hazel nem Frank tinham vindo ainda, mas ele não acreditava que Jason conseguiria encará-los de modo normal.
O cara fugira por meses, sem se importar em dar um aviso, em uma atitude muito parecida com a sua, mas que tinha propósitos completamente diferentes. Ele mirou Jason, fitando seu rosto concentrado no jogo.
— O que vai fazer a partir de agora, Grace? — Ele disse, enquanto jogava distraidamente uma carta naquele campo de batalha improvisado, em que o relevo era as dobras do lençol da cama.
Nico observou o semblante dele mudar, perdendo o foco no jogo. — Acho que não posso voltar para L.A., né? — Ele sorriu um sorriso oscilante.
— Só se você quiser morrer, ou fazer um árduo treinamento em sobrevivência, mas os monstros já mostraram que não vão aceitar sua “caça esportiva” mais.
— Eu ainda não posso voltar para o acampamento meio-sangue.
— Nenhuma ideia do que está procurando? — Ele perguntou intrigado, e recebeu um profundo olhar do outro, meio cortante, quase como uma estocada de espada ao mesmo tempo que tinha algo de terno e amplo como o azul do céu.
Jason corou.
— Talvez.
Jason corou?
— Pera, pera... O que foi isso?
— Isso o quê?
— Isso — Nico apontou para o outro, as suas sobrancelhas se unindo em uma cara de dúvida. — Isso com suas bochechas.
Jason colocou as mãos nas bochechas. — Acho que estou com calor, tá muito quente aqui. — Ele disse, se levantando e tirando a blusa que tirava para a amarrar na cintura, como se fosse uma maldita criança de cinco ou seis anos. Nico não sentia calor nenhum.
— Que seja... Talvez você devesse ficar aqui.
— Aqui?
— É. Eu duvido que eles vão vir te procurar, eles não foram até agora. — O moreno encarou o teto do quarto, meio enjoado, muito branco para ele. — Devem estar esperando você procurá-los.
Jason pareceu ponderar por alguns instantes antes de responder simples. — Piper viria.
Nico torceu o nariz. Realmente, as filhas de Afrodite ligavam demais para o romance, e se Grace e ela tinham algo inacabado, isso seria inevitável.
— E talvez você devesse falar com ela. Terminar de uma vez.
Jason fez uma carranca, se negando a encontrar com seus olhos, e Nico arqueou as sobrancelhas. Certo que o loiro nunca tinha falado em terminar, mas bem, era óbvio certo? Não tinha como ele gostar da menina fugindo dela, assim.
— Vou pensar... E você?
— Eu? Eu vou continuar fazendo minhas coisas.
— Isso significa longe dos seus amigos? De mim?
Nico suspirou. — Jason, eu não me adapto a nenhum dos acampamentos. — Ele encarou o outro. — Talvez isso de ficar me procurando, já esteja indo longe demais, você já me achou afinal. Você deveria parar.
— Não posso.
— Claro que pode.
— Não, não posso. — E lá estava aquele corar de novo, fazendo Nico arquear a sobrancelha e medir a própria temperatura. — Eu acho que você tem algo a ver com o que eu estou procurando.
O moreno suspirou com raiva, deuses, sério, qual era o problema desse idiota? Nico tinha assumido gostar de Percy, e certo, ele entendeu que Jason lhe apoiara, mas a esse ponto era muito estranho. Se Nico estivesse na pele do outro, duvidava que faria algo parecido.
Jason não tinha vergonha ou medo dele tentar algo consigo? Ele teria. Embora soubesse que não faria nada, não seria normal temer isso?
— Além disso, eu gosto de passar tempo com você e eu quero que você confie em mim. — O filho de Júpiter disse.
— Eu confio o suficiente em você.
— Por que não me fala como se sente, então?
O outro era irritantemente irritante. Nico não era alguém que falava droga, e ele odiava admitir para si mesmo que a companhia do outro fazia bem, quanto mais falar em voz alta. Falar qualquer coisa... As palavras têm poder, elas doem quando saem, no entanto, ao mesmo tempo, Nico estava cansado, de passar tanto tempo sozinho, não gostando de si mesmo, com raiva de si mesmo e sem ninguém para conversar.
Nico virou seu olhar para o outro, com raiva. — O que você quer que eu fale? Que eu me apaixonei por um cara? Que minha irmã morreu parcialmente por minha culpa, devido a um maldito boneco? — Ele bateu nas cartas. — Que eu sou tão estúpido, que mal consigo preservar qualquer laço sentimental?
Nico deixou algumas mechas de seu cabelo caírem sobre seu rosto, querendo se esconder daquele momento de silêncio constrangedor.
— Desculpe, eu... Eu não deveria te pressionar assim.
— Esqueça. Eu só não quero falar sobre essas coisas, mas eu... Confio em você, até. — Mas ao invés de receber um sorriso do outro, recebeu um arquear de sobrancelha e um loiro se aproximando colocando a mão na sua testa. — O que você está fazendo, idiota? — Tentou se afastar, mas Jason o segurou, e droga, ele não estava tão recuperado quanto pensava.
— Não parece ser febre. Estranho... — O loiro coçou o próprio queixo, com um sorriso divertido no rosto.
— Idiota... — Nico disse em meio a um bocejo, ele não tinha dormido a noite toda, como era de praxe, os espíritos estavam altos; e agora, à luz do dia, eles se cansavam, um pouco, despertando sono em Nico, também.
— Você deveria dormir um pouco.
— Você também.
— Depois que eu tiver certeza que você está bem. — Nico rolou os olhos, Jason tinha tanta ingenuidade e sinceridade nas palavras, que às vezes ele poderia jurar que o loiro o estava cantando.
Ele se virou para o lado, se encolhendo na cama, e murmurando um vai embora mal educado; mas de novo aquela sensação, a mesma de quando passara a noite no hotel do outro, de alguém respirando e dormindo no mesmo local que ele, o envolveu.
E estranhamente, de um modo até meio engraçado, ele diria, sentira dedos pelo seu cabelo. Algo que ele não sentia há anos, desde a morte da irmã. Uma paz que ele não sentia há muito tempo.
Antes de cair no sono, ele continuava a sentir. E fingiu que dormia, até fingir tão bem, que dormiu.
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