Sonhos

10 Hoje a Noite Não Tem Luar


Notas iniciais
Confesso que não gosto muito da Legião Urbana por causa do Renato Russo, eu tenho uns problemas ideológicos com ele. Mas até curto algumas músicas. Quem puder, procurem a versão do Menudo e sorriam com a diferença. Capítulo inspirado na música homônima ao título do capítulo. Leiam as notas finais, por favor.

Todos acabaram por ir para cama muito tarde naquele dia. O assunto sobre o namoro dos dois se estendera por muito, todos tentando arrancar uma casquinha, uma informação a mais, e Nico se esquivando de todas as perguntas e impedindo Jason de respondê-las.

Jason riu sozinho. Era uma graça o modo como o moreno se envergonhava. Se bem que ele era extremamente suspeito de dizer algo, já que basicamente, ele achava tudo do moreno uma graça.

O filho de Júpiter estava em sua cama, parado, sem conseguir pregar os olhos. Visualizava o teto pintado, do próprio Chalé, sem se incomodar com a estátua do pai a olhá-lo de longe. Ele estava cansado, machucado, mas ainda assim muito feliz para esquecer o dia que passou.

Se decidiu por levantar-se e ir ao Chalé de Hades. A temperatura do dia fora amena, mas agora, tudo estava mais gelado e com cheiro de maresia. Enquanto colocava as roupas, sentiu as sombras tremularem ao seu redor e a presença de Nico encheu o quarto.

— Pensando em sair, Grace? — Perguntou a voz que ele já estava acostumado.

Ele assentiu, sorrindo. — Ia procurar você.

— E se eu estivesse dormindo? Iria me acordar?

— Claro que não, que espécie de monstro acha que eu sou? Já aprendi minha lição de que não devo te acordar... — Simulou uma voz de menino assustado. — Mas eu não estava conseguindo dormir aqui, muito escuro eu acho... Iria me infiltrar, calmamente, em suas cobertas.

Nico riu pelo nariz, jogando-lhe blusas pesadas. — Seu canalha. Vista, vamos passear.

— Por quê? Aqui dentro tá bom, olha a cama, não lhe parece quentinha? — Nico mandou-lhe um olhar de “sério-Grace-sério-mesmo?” — Vamos voltar antes de amanhecer, né?

O moreno deu de ombros, usando duas blusas extremamente grossas. — Quem sabe, o amanhecer é relativo.

Ele sorriu, aceitando. Fazer o que, né? Ele estava tão feliz naquele momento que não se importaria de fazer qualquer coisa por Nico, e para Nico. Ele colocou o grosso casaco, rindo por não conseguir fazer movimentos normalmente.

— Talvez você devesse colocar o outro...

— Que? Nossa, desse jeito eu não me mecho. A gente vai para o polo norte? — Ele viu o moreno negar com um menear de cabeça. — Então tá bom já, não preciso de mais. — No entanto, se resignou a vestir uma touca e luvas.

Nico estava especialmente mordível envolto por tantos panos, e Jason não conseguia parar de pensar em tirá-las todas e passarem o resto da noite por lá mesmo. No entanto, Nico parecia extremamente convicto de que deveriam “dar um passeio”, e se negou a dizer aonde iriam.

Levando em consideração o tanto de roupas, ele supôs que fosse um lugar frio. Canadá? Norte da Rússia, talvez? Ele andava estudando geografia, ultimamente, e alguns lugares pularam em sua mente, mas ele perdeu o fio do pensamento quando o moreno começou a puxá-lo pela mão para as sombras.

— Ah, não.

— Porra, Jason, sem dramas, vem logo.

O filho de Júpiter olhou Nico, contrariado. — Por que você sempre faz isso? ‘Cê sabe que eu odeio a sensação, me dá enjoo.

O moreno riu. — Quer remédio para não passar mal, antes? — Zombou com um sorrisinho de canto. — Deixa de ser bebezão, é rápido.

— Você vai me compensar depois, viu? —Ele murmurou, bufando e segurando firme nas roupas do outro.

O filho de Hades assentiu, e tudo passou a tremular, e Jason sentiu a sensação incômoda de se desmaterializar e viajar pelas sombras. De repente, tudo ficou extremamente frio, e seus dedos pareciam congelar grudados à roupa de Nico, ele sentiu os pés afundarem na umidade conhecida da neve.

Os olhos azul elétrico abriram-se, observando uma vastidão de profundidade branca. O sol brilhava branco, também.

— Impressionante, hun? — Nico disse, alto, já que o vento impedia de se ouvir direito.

— Onde estamos?

— Monte Everest. — O moreno disse. — Poucos semideuses já estiveram aqui, sabe? Provavelmente Dionísio, quando viajou para a Índia tenha passado pelas cordilheiras, mas você é talvez o único filho de Júpiter a pisar aqui, no ponto mais alto do mundo. — Jason sorriu, estavam ambos congelando já, mas isso não importava. — Provavelmente, Alexandre, que se dizia filho de Zeus, tenha passado pelos montes próximos. Mas não esse.

Eles estavam tão alto, que Jason podia sentir-se tocando as estrelas e se banhando do brilho frio delas e a lua um cascalho na ponta dos dedos. O sol nunca estivera tão grande, ainda que baixo, e ele nunca, mesmo quando voava, estivera tão alto antes. Seus braços se abriram, e ele sentiu as correntes de ar ao seu redor extremamente fortes e limpas, ainda que não fosse o ar usualmente conhecido.

— Parece que o mundo pertence a nós, não?

— Eu quero voar. — Ele disse, segurando firme o pulso de Nico.

— Jason, não, é perigo... — Era tarde demais, Jason já pulara e se deixara ser arrastado pelas correntes de ar, e o pior, levando Nico junto.

Eles voaram ao redor da montanha, o moreno tão fortemente agarrado ao outro que era como se Jason apenas tivesse ganhado peso por comer hambúrguer demais. Em algum momento Jason foi atingido por uma corrente extremamente poderosa, e acabou rodopiando algumas vezes, assustando tanto Nico que o filho de Hades não se importou em gritar feito uma garotinha, fazendo o loiro rir enquanto rodava.

— Jason, por favor, vamos descer! — Gritou Nico, e ele assentiu, mergulhando em direção à base da montanha.

Foi quase impossível pousar delicadamente no chão, de modo que ambos rolaram pela neve de forma nada graciosa. Nico tão verde quanto um filho de Deméter e Jason a representação humana da satisfação. Quando se olharam, com neve por toda a roupa, não conseguiram deixar de rir.

— Eu devia voltar pro acampamento e te deixar aqui. — O moreno fingiu irritação.

— Desculpe, não consegui me controlar. — Se desculpou sorrindo. — Hey, Nico. — Quando os olhos negros do outro fixaram-se nos seus, todo aquele frio que ele sentia, se dissipou, e pareceu derreter como a neve em que se deitavam. — Me dá um beijo?

— Não, você não merece.

— Um só?

xXx

Quando eles voltaram ainda era madrugada, as folhas das árvores todas orvalhadas e o céu todo lua e estrelas.

Os dois saíram nos campos de morango, e mesmo que ambos estivessem cansados, não queriam dormir, ainda. Nenhum dos dois se incomodaram com as Harpias, tinham força suficiente para acabar com elas se precisassem, e estavam meio escondidos pelo cheiro de morangos e pela folhagem rala.

Eles iriam embora no dia seguinte, e sabiam que os amigos não iriam gostar disso. E mesmo Nico, não estava tão entusiasmado para voltar para Nova Roma.

— Nós devíamos nos mudar para uma cidade, sabe? — Jason disse. — New York, talvez...

Nico riu de canto, e o loiro sabia o porquê. New York não era o tipo de cidade que ele gostava. Jason gostava de céus imensos, a perder-se de vista quando olhasse, gostava de estrelas brilhantes e luas grandes, gostava de ar vívido. E New York era uma cidade onde o vento tinha de passar por frestas, as ruas eram mais iluminadas que os céus e a única coisa grande, eram os prédios e letreiros das principais avenidas.

Além disso, tinha o fator Percy, que era um incômodo a Jason.

Verdade seja dita, o loiro odiava aquela cidade, que por uma dessas piadinhas do destino, era a favorita de Nico.

— Quem sabe? — O moreno deu de ombros. — Eu sei que você só a sugeriu por mim, o que você quer?

— Eu quero que você seja feliz.

— Além disso, você não quer outras coisas?

— Eu quero que meus amigos sejam felizes. — Respondeu simples, e viu Nico espalmar a própria cabeça.

— Seja egoísta, Grace. O que você quer?

— Ah, eu quero... Sorrir. — E sorriu, vendo um assentir do moreno o incentivando. — Quero voar. — E sorriu, acrescentando. — Bastante, porque eu gosto de voar. E quero assistir aquelas séries policiais, com você brigando comigo por eu achar aquilo incrível, embora o roteiro seja horrível. Eu quero descobrir mais sobre eu mesmo, e meu passado e quero passar mais tempo com a Thalia. — Ele parou, olhando as estrelas. — Quero quebrar essa maldição de que semideuses não podem se dar bem, sabe?

Nico sorriu. — Só isso, nada mais?

— Ah, eu quero que você seja feliz. — Ele disse novamente, fazendo Nico rir de sua ingenuidade. — De preferência comigo, e eu gostaria que você parasse de usar só preto: Você fica tão bonito em roupas claras.

— Mais algo?

O loiro pensou por alguns segundos, antes de soltar, extremamente cara de pau, na visão de Nico: — Mais um beijinho?

Notas finais
Então, eu acho essa música cafona, também. E acho uma tristeza meio artificial, por isso prefiro focar mais na fofura da letra. Partes da letra estão dispersas no texto, e eu percebi a tendência de cada vez mais eu apenas pegar detalhes, y'know? Bom, é isso aí, espero que tenham gostado. See you tomorrow.