Song for 2
4 Peter Pettigrew Part
Merda! Era isso que tinha feito, merda! Já fazia anos que eu tinha me aceitado então porque raios não consegui falar para Mary que não é fisicamente possível para ela me atrair de forma que ela tava perguntando? Droga, viu. Enquanto dirigia por uma Londres fria e com uma camada fina de chuva, pensei em várias formas diferentes que podia ter respondido do que ficar com aquela cara de besta.
Cheguei no meu apartamento um pouco antes que Remus, fazia tanto tempo que não ouvia ele chorar que sim de fato me assustei em primeiro momento. Mas agora fazendo o chocolate quente que ele gostava enquanto ele subia até o loft, eu não conseguia parar de pensar que talvez Mary estivesse chorando e tudo isso porque eu nunca contei a ela que sou assexual. Quase ninguém sabe, mas é porque eu não sinto necessidade de sair contando para as pessoas por aí e não quero lidar com isso na minha família.
Passei pelas minhas próprias barreiras e pelos relatos que alguns amigos que fiz na internet me contaram, não sei se tenho forças para enfrentar o que eles enfrentam sendo tão abertos assim. Sempre fui uma pessoa mais reclusa mesmo, por isso sofri muito bullying na adolescência, até por ser um grande fã de Star Wars e preferir ficar em casa cozinhando com a minha mãe do que ir no jogo da escola. Não estou pronto para sofrer ataques e opressões novamente e por isso que Remus só sabe e as pessoas que seguem meu perfil de fã de comics que não uso nem meu próprio nome, é Wormtail o nickname que uso até nos jogos.
—Pete? — escutei a voz fraca de Remus me chamar.
— Cozinha — respondi simplesmente servindo o chocolate quente e os cookies, essa era a nossa própria maneira de enfrentar as coisas. Alguns bebem álcool, mas Remus e eu sempre preferimos o chocolate.
— Obrigado — ele me deu um sorriso fraco e fungando — confrontei Sirius, mas ele não quer ir a público — mordi o lábio triste pelo meu amigo, sabia o quão importante era a relação dos dois pra ele — então disse que quando ele decidisse que vale a pena dar uma chance, aí eu volto para a cama dele.
— Ai ai vocês allos — revirei os olhos, mas abri um sorriso leve de apoio a ele — Sei que foi difícil para você, mas já estava na hora de você colocar seus sentimentos para fora — ele engasgou com a bebida e fechei os olhos na hora, já sabendo o que ele falaria.
— Claro e como foi a conversa com a Mary mesmo? Ah é verdade — ele abriu um sorriso irônico e eu fiz uma careta para ele — aliás, não é hoje que vocês tomam café juntos?
— Sim, eu estava com ela quando você me ligou — me joguei no sofá enquanto esperava ele me seguir com os cookies e a bebida quente — Ela tinha me feito uma pergunta e eu… eu gelei.
— Que pergunta? — Remus quase corre para se sentar ao meu lado com as coisas em seu braço, jurava que ele ia derrubar tudo.
— Perguntou se eu me sentia atraído por ela, se ela era sexy — Lupin engasgou na hora — toma mais devagar, faço mais se acabar.
— Uou pera, ela perguntou isso? Exatamente isso? E o que você respondeu? — disse ele ignorando meu comentário.
— Bom sim, perguntou se eu acho ela uma pessoa sexy — revirei os olhos e peguei minha caneca bebendo um pouco — eu não consigo entender porque seria importante ela ser atraente ou não, há muito mais nela que isso — havia frustração em minha voz, mas era mais porque eu não tive a coragem de falar com ela.
— Peter — Remus falou meu nome com muita calma, me lembrou quando ele me ensinava matemática — o que você respondeu?
— Nada — mordi o lábio e baixei os olhos de vergonha — Eu sei que parecia a hora perfeita só que não tive coragem de contar pra ela, sei que já deveria ter falado, mas…
— Eu não acredito — levantei os olhos rápido para encarar ele que estava com uma mão em seu rosto, mais um sinal de quando ele me ensinava as coisas — Peter, isso foi mais um sinal!
— Sinal? Que? — franzi a testa pra ele.
— Lembra que eu tinha comentado que tava achando que Mary estava dando alguns sinais para você? Esse foi mais um! — ouvi sua risada fraca enquanto ele balançava a cabeça — Mary gosta de você, bobão.
— QUE? COMO ASSIM? VOCÊ TEM CERTEZA? — estava completamente surpreso, como uma garota igual Mary poderia gostar de alguém como eu?
— Tenho uns 95% de certeza, mas você é cego mesmo quando se trata a você né?
— Olha quem fala — retruquei revirando os olhos, mas minha cabeça só passava meus momentos com Mary, igual a um filme.
— Touche — Remus riu triste e ergueu a caneca para mim — mas é, ela parece gostar de você, só que provavelmente tem receio de você não sentir o mesmo.
— E eu não sinto, não tudo o que ela sente pelo menos — senti meu coração acelerar, estava ficando ansioso.
— Sabe Pete, sempre disse para você ir na sua e que você real não precisava se expor se não quisesse, mas…
— Mas eu preciso me abrir com a Mary, eu sei — me afundei um pouco no sofá quando completei sua frase — eu gosto muito dela, mas precisamos ter essa conversa antes de qualquer coisa. Já vi algumas historias nem um pouco agradáveis e eu quero pelo menos continuar sendo amigo dela sabe?
Remus assentiu com a cabeça, ele entendia o que eu queria dizer. Ficamos em silêncio durante um tempo, ele pensando em Sirius e eu em Mary, antes de eu dar play em Friends que é nossa série comfort. Assistimos vários episódios até que depois de algumas horas Remus caiu no sono e eu decidi fazer nosso almoço. Talvez eu tenha exagerado, mas cozinhar me ajudava a pensar.
Se Mary de fato gostava de mim isso era incrível porque eu de fato amava cada pedacinho de quem ela é, mas a conversa seria muito desconfortável. E se ela me menosprezar? Se de algum jeito ela soltasse alguma frase que me machucasse? Eu estava pronto para ela não querer estar comigo pelo fato de eu ser assexual? Porque eu sou estrito então não tenho a vontade de fazer sexo com ninguém, será que ela conseguiria aceitar isso? Ela me aceitaria assim?
Passei o resto do dia ansioso pela noite, tinha chamado ela para vir jantar comigo depois que eu saísse do restaurante. A gente já tinha feito isso algumas vezes quando ela chegava de alguma viagem muito tarde ou quando eu tinha que ficar no outro restaurante no período da manhã no dia do nosso café ou só quando tivemos um dia ruim e os dois precisavam rir. Cheguei em casa e comecei a preparar o prato favorito dela, lasanha.
Mary chegou no loft na hora que eu tinha colocado para assar. Ela estava com a mesma roupa o que significava que ela teve um dia muito cheio que não teve tempo nem de ir para casa. Eu sabia quais seriam as primeiras palavras dela então quando a vi abrindo a boca não me contive em disparar.
—Lavei as toalhas essa semana, estão na gaveta de sempre — Mary abriu um sorriso, mas em seus olhos havia uma certa tristeza.
—Obrigada Peter — ela disse antes de sumir.
Fiquei repassando o discurso várias vezes, lendo as palavras chaves que anotei no celular enquanto esperava Mary e a lasanha. Minhas mãos sempre soavam muito quando estava nervoso e nesse momento eu já tinha lavado elas algumas vezes. Quando Mary saiu do banheiro com roupas mais confortáveis e inclusive meu moletom que ela pegou emprestado fazia 2 anos, eu já estava sentado na mesa com a lasanha e um sorriso nervoso.
—Agora estou muito melhor — Mary disse se sentando e sorrindo para a mesa — hmm está com um cheiro delicioso.
—É, está — minha garganta estava seca e a respiração não tava ajudando, como é que se falava aquilo? — Mary hoje mais cedo…
—Peter, por favor, não — ela nem me olhava enquanto se servia — tá tudo bem…
—Na-não, não está- minha voz falhou bem na hora — eu preciso te contar uma coisa está bem?
—Foi algo com o Remus? — agora aqueles lindos olhos me encaravam e eu esqueci por um segundo como respirava, talvez até como o coração batia.
—Não, o Remus está bem ou quase isso — fiz uma careta, ele realmente precisava se resolver com o Sirius — mas não tem a ver com ele, quer dizer tem, mas não tem.
—Peter você está me confundindo.
— Tá, eu vou começar de novo — respirei fundo antes de iniciar meu monólogo — Marmay você é uma pessoa maravilhosa sabe? E eu te acho linda, talentosa, meiga, incrível, inteligente, higiênica — ela riu e eu vi um brilho em seu olhar, sim ela é linda — mas quando você perguntou de atração, sexy, bem eu travei porque eu não me atraio pelas pessoas como você — agora ela ficou triste e se retraiu — mas não é por você só, é tipo ninguém mesmo — nossa é muito mais difícil do que parece falar para as pessoas, precisei respirar algumas vezes — então eu sou assexual, mas não sou arromântico ta? Não confunda porque tem muita gente que acha que todo assexual é arromântico, mas não somos. Na realidade é muito amplo, mas eu não, eu sou assexual estrito. Nem sei se você sabe o que isso quer dizer e eu posso te ensinar, indicar alguns mecanismos de pesquisa e tudo mais porque tem algumas threads do twitter que nossa — revirei os olhos e ri de nervoso — bom, mas tô fugindo do foco, o foco é que eu te acho incrível e linda, mas não tenho atração sexual por você porque eu não sinto mesmo sabe? Por ninguém! E você não sabia disso antes porque eu preferi guardar isso pra mim sabe? Não sou bom com confrontos então tenho receio de falar isso com a minha família apesar de que o Remus já me incentivou a falar pelo menos para os meus amigos, ele diz que o Sirius e James iriam respeitar e tudo mais porque nossa você não sabe como foi difícil ser amigo do Pads antes de Wolfstar! — mordi o lábio fechando os olhos — eu não devia ter contado isso, finge a sonsa se eles se assumirem ta? Mas as fanfics estão muito no caminho certo — ri nervoso — sim eu leio fanfic e pulo todos os smut, por que allo tem que colocar smut em tudo? Quer dizer nem todos né, tem algumas que não colocam tanto e… — respirei fundo — divaguei de novo, okay acho que é muita informação então por favor diga algo!
— Então eu não tenho mau hálito? — Mary disse com seu rosto ainda sem expressão, assimilando tudo eu acredito
— Bom só quando come alho, mas aí não tem como não ter — brinquei e ela fez uma careta me tacando uma bolinha de papel.
— Eu pensei que… que você não tinha interesse por mim e agora descubro que não tem como você ter mesmo.
— Bom em parte, eu não tenho interesse sexual nenhum em você mesmo, mas isso não me impede de querer ver filmes abraçado com você, fazer cafuné, cozinhar juntos, fazer todas aquelas cenas românticas de clichês — ri junto com ela — nada me impede de gostar de você de verdade porque eu gosto sabe, muito e eu acabei de perceber que me declarei — bati a mão na testa na hora, eu sempre me comuniquei muito com as mãos — tá, eu tinha escrito um discurso mais fofinho e se você quiser fingir que eu não falei agora e...
— Peter eu também gosto de você — ela diz rindo um pouco me interrompendo.
— Gosta? Uau, tá, ótimo, mas é que — respirei fundo e a felicidade que segundos havia me invadido eu tinha que mandar embora pra poder dizer — eu não posso dar pra você o relacionamento “completo” que vocês allos querem — eu percebi que a encarava muito naquela conversa.
— Sexo não é tudo em um relacionamento, pelo menos não pra mim — ela tinha falado baixinho e com as bochechas rosadas — a gente pode dar um jeito, eu acho — disse esticando a mão e eu a peguei com carinho.
Sorri e deixei a alegria me invadir, poxa aquela mulher incrível gostava de mim também! Aproveitei o resto da noite com ela e foi muito bom, como sempre é bom estar com ela.
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