CAPÍTULO UM, O COMEÇO.


Em finais de Novembro após ter completado o meu vigésimo aniversário todos aqueles que me rodeavam de alguma maneira decidiram que eu estava deprimida presumivelmente porque era raro deslocar-me para sair expecto para a escola e isso porque era obrigatório, passava tempo excessivo na cama e aos fins-de-semana há muito que me deixara de encontrar-me com os meus amigos, isolando-me numa redoma dos meus livros lidos e dos mesmos jogos jogados vezes e vezes sem conta como se de um déjà-vu contínuo a minha vida se tratasse, comia quando queria e quando não queria já que a minha mãe fazia questão de me obrigar a engolir algo mesmo que soubesse que iria deitar fora ou dar ao nosso animal de estimação, um lavrador de cor bege e de seu nome Padfoot, graças à minha saga de livros preferida de J.K.Rowling, uma escritora Britânica que para mim era a única pessoa que parecia conhecer-me já que cada uma das suas personagens parecia possuir um pouco dos meus traços psicológicos, era de uma genialidade espantosa e nunca sequer tinha-me conhecido e talvez nunca fosse conhecer já que era algo tão remotamente impossível quanto eu acertar os números da lotaria e tornar-me assim a bilionária mais jovem do mundo.
Depressão não era o meu problema esse era outro, o de estar a morrer de forma lenta, definhando-me de dia para a dia até chegar ao estágio em que já nada me motivava ou sequer interessava-me, tudo tivera inicio no meu décimo quinto aniversário quando numa bela tarde de Verão senti-me fraca como se um súbito cansaço se tivera abatido sobre mim levando-me a apagar – como uma vela violentamente fustigada pelo vento – e a desmaiar no chão, só me lembro de acordar no hospital um pouco atordoada rodeada dos meus pais preocupados, a minha mãe abraçara-me num choro compulsivo e o meu pai ficara a olhar e sem reacção. Era um homem austero, severo e não tolerava nada que não fosse o pináculo da perfeição, rejeitando o defeito, a nossa relação nunca fora fácil por isso mesmo, eu deveria ter as médias mais altas e ser a melhor da turma, deveria ser a número um em qualquer coisa que fizesse e isso incluía os inúmeros clubes nos quais me inscrevera mas que eu propositadamente falhava por simplesmente não gostar daquilo, o sonho dele era o de me ver á frente da sua empresa de informática, controlando as suas exportações os negócios de milhares e sendo uma empresária de sucesso que como uma linhagem da realeza sucederia ao seu lugar e continuar-lhe-ia o legado porém o meu sonho era tornar-me uma artista, queria que a minha música alcançasse milhões ao redor do mundo, queria poder mudar algo e chegar aos ouvidos das pessoas fazendo-as reflectir ou então sorrirem com um prazer momentâneo como era o meu caso sempre que repetia vezes incontáveis a mesma música mesmo que a playlist do meu Ipod fosse como um buraco sem fim, tinha músicas para todos os meus estados de espírito do mais alegre ao mais depressivo, mas enfim regressos ao meu pai que insistia em dizer-me diariamente às refeições que músico era uma actividade de mendigos, dos pobres diabos preguiçosos que insistiam em não querer trabalhar, um pensamento pré-histórico, do século passado quase que tivera um ataque de coração no ano que abandonei o ensino normal para me dedicar exclusivamente a uma escola de artes performativas, Royal Academy of Arts, situada num dos centros mais movimentados de Londres e conhecida pela sua boa reputação já que albergava bons alunos e de lá tinham saído alguns dos melhores e maiores nomes da música porém ele simplesmente não aceitava e insistia que ser artista não era sequer uma profissão quanto mais uma actividade que eu deveria fazer, não era digno de uma jovem como eu palavras que nem sequer chegavam a alojar-se no meu cérebro, continuava a cantar e a tocar os milhões de instrumentos que aprendera em criança uma das poucas coisas pela qual lhe agradecia e a talvez a única actividade que me inscrevera que eu realmente tivera paixão.
Nesse dia, o do meu décimo quinto aniversário soube o meu coração não era totalmente saudável e que provavelmente no futuro iria necessitar de um transplante para sobreviver embora os médicos estivessem optimistas que com a medicação e o acompanhamento necessário talvez não necessitasse de uma intervenção tão drástica, Dr.Phillip o meu médico de família não era tão alarmista porém eu sabia que a verdade era essa e que apenas queriam poupar uma criança de quinze anos de todo aquele sofrimento, lembro-me das discussões nocturnas em casa entre o meu pai e a minha mãe nas quais a acusava de tudo isto ser culpa dela já que ele o homem idealista e perfeccionista, saudável e quase um Deus de casa não poderia ter uma filha com um defeito, naquele momento tive a sensação de ser um daqueles brinquedos estragados que as crianças deixam entregue a um canto enchendo-se de poeira, foi uma loucura até finalmente se habituar que o meu problema era sério e nesse momento a pena instaurou-se em casa, raramente me questionava ou me impedia de fazer aquilo que eu gostava e pensava duas ou três vezes antes de discutir comigo até o facto de a música ser a minha paixão fora aceitado porém eu sabia que não era de coração ou sincero quase como que uma espécie de esmola á doente e isso deixava-me irritada então tomei uma decisão a de nunca contar às pessoas sobre o meu estado de saúde, era enjoativo ser tratada com os olhares de pena como incapacitada que não poderia sair para lado algum sem o devido acompanhamento, sentia-me uma bebé e isso não era agradável afinal há muito que conquistara a minha independência nesse sentido e dela não queria abdicar.
Rachel, minha namorada há cerca de um ano e alguns meses por mim não muito bem contados pois era péssima em cálculos e ainda pior em relembrar-me das coisas tivera um choque no dia em que lhe contara que sofria e que de ano para ano o meu estado vinha-se agravando, chegara ao ponto do não querer tocar-me com medo que em algum dos nossos momentos o meu coração parasse graças ao extremo prazer porém isso foi ultrapassado e agora restava-me lidar com a indiferença do irmão dela para comigo, Michael um rapaz com pouco mais de 1,80 de altura, de porte atlético e cabelos loiros platinados optara por usar óculos escuros sempre que falava com ele, já que a junção da luz do sol em contacto com aquele loiro oxigenado poder-me-iam cegar, imagine-se só que deprimente, seria uma cega com problemas de coração já que os problemas andam aos pares era melhor prevenir que remediar, somente minha mãe sabia da minha opção sexual era um assunto tabu sempre que o meu pai se encontrava em casa e ela prometera-me não lhe contar para não piorar ainda mais a nossa relação, ela aceitava-me e continuara a amar-me, independentemente de ser Rachel ou um rapaz apesar de não nutrir um carinho extremo pela minha namorada achava-a presunçosa, coisas de mães, sorri ao lembrar-me desse mero detalhe.