Notas iniciais
Eu nem acredito no quanto demorei pra escrever esse capítulo. Bloqueio e trabalhos escolares são a pior combinação possível. Mas, bem, desculpem a demora e espero que gostem desse capítulo.

Capítulo V

Lauren acordou com algo felpudo roçando em seu rosto. Abriu os olhos a contragosto enquanto se remexia na cama, e ao fazer isso o que quer que fosse se afastara correndo. Sua mente ainda estava turva pelo sono e não conseguia raciocinar direito, mas apanhou instintivamente o relógio sobre a cômoda ao lado da cama; constatou que eram alguns minutos após as oito da manhã.

Devolveu o relógio ao seu lugar e esfregou os olhos com as mãos, se espreguiçando em seguida. Lembrou-se de que era sábado e, portanto, era muito cedo para se levantar, pelo menos para seus padrões. Mas ao olhar ao seu redor e se lembrar de onde estava, resolveu que o melhor era se levantar de uma vez e, cambaleando, saiu do quarto e foi ao banheiro.

Ela estava na casa da mãe, para onde fora na noite passada. Costumava passar quase todos os finais de semana nas casas dos pais, já que passava a semana inteira sem vê-los. Geralmente ela reservava o sábado para a casa da mãe e o domingo para a casa do pai. Aliás, a discrepância era bem grande já que a mãe morava num calmo subúrbio, um daqueles clássicos que se vê em filmes, e o pai morava bem no centro agitado da cidade.

Ao voltar do banheiro, tirou o pijama lentamente e vestiu a mesma roupa que usara na noite passada; uma calça escura e uma blusa cinza de mangas compridas. Penteou o cabelo e passou uma maquiagem leve, então saiu do quarto novamente e rumou para a cozinha. Viu a mãe de costas, de frente para a pia, e em um canto um gato preto que dormia sobre uma pequena cama especial para gatos. A jovem não resistiu e se aproximou sorrateiramente, agarrando a mãe pela cintura.

A mulher soltou um grito de susto e repreendeu-a bastante nervosa. Lauren apenas riu da situação; ela adorava pregar sustos na mãe. Sentiu algo roçar por seus pés, sobre os sapatos, e baixou o olhar para fitar o gato. “Bom dia pra você também, Noir.” Ela largou a mãe e então pegou o pequeno animal peludo, recostando-o sobre o colo.

“Insiste em chamar o pobre gato por esse nome. E vai encher sua roupa de pêlos.” Ela disse em tom de aviso, mas decidindo voltar sua atenção à água fervente no fogão.

“Mas combina com ele.” Ela respondeu sem tirar os olhos do animal, que tinha olhos verdes como os seus, enquanto o acarinhava. “Eu disse que li uma vez um quadrinho onde o personagem principal se transformava num gato igual a ele, e se chamava Noir. É impossível não associar.” Riu quando o gato tentou morder-lhe o dedo e ignorou o outro comentário.

“E, logicamente, tinha que ser algum quadrinho japonês...” Ela revirou os olhos castanhos, ainda de costas para a filha, terminando de preparar o café.

A jovem sentou-se em uma das cadeiras, observando a mãe colocar a garrafa com café sobre a mesa. Lauren serviu-se de uma xícara enquanto a outra ia fazer algumas panquecas, com o gato enroscando-se por suas pernas.

O cabelo louro-escuro e longo preso num rabo de cabalo, a pele meio rosada e as maneiras delicadas da mãe sempre permaneceram as mesmas, desde a mais remota lembrança que Lauren tinha. Apesar de já ter quarenta e cinco anos, a mulher não apresentava nenhum sinal que o tempo cruel costuma marcar nas pessoas; continuava a ter um semblante jovial. Às vezes sentia que ela era uma irmã mais velha, pois a relação que tinham nunca fora uma tradicional entre mãe e filha, e ela já possuía vinte e cinco anos quando teve Lauren.

Chamava-se Jessica Drake, tendo um dia sido a sra. Jessica Gray. Era fisioterapeuta formada e trabalhava numa clínica não muito longe de casa. Era geralmente bastante calma, paciente e amigável; mas quando tinha motivos para se irritar, era bom sair de perto pois uma casa poderia cair sobre sua cabeça. Lauren sabia bem de onde vinha seu sangue quente.

“E como estão as aulas na SVA?” Jessica perguntou de repente, ainda de costas para ela.

“Bem.” A filha deu de ombros. “Ultimamente temos tido muitos trabalhos... E aconteceram algumas coisas.”

“Relativas ao acidente no prédio principal? Fiquei preocupada quando soube, mesmo com você estudando no outro.” A frigideira emitia um chiado alto enquanto ela falava.

“Sim. Duas turmas foram transferidas para lá, mas até agora não houve grandes mudanças. Ao que parece, eles vão se formar junto conosco.” Bebeu um gole de café em seguida.

Continuaram a conversar, sobre coisas importantes e trivialidades, mesmo enquanto já estavam comendo. Lauren ajudou a mãe com a louça quando terminaram e depois foram para a sala, onde conversaram mais um pouco enquanto assistiam tv. Quando já estava perto da hora do almoço, Lauren voltou ao quarto e se arrumou mais um pouco, já que iria almoçar na casa de um amigo ali perto. Despediu-se então da mãe e saiu.

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Sarah esperava a prima em frente a uma lanchonete, onde já havia comprado um refrigerante. Usava uma blusa branca, uma saia jeans escura, meia-calça e tênis. Já estava começando a ficar ansiosa, pois havia combinado com a amiga que almoçaria em sua casa. Mas logo viu a imagem de Laetitia surgir na outra esquina e acenou alegremente. A prima também acenou-lhe, apressando-se mais um pouco. Ela também usava uma camiseta branca, uma calça jeans, tênis e um casaco azul, que contrastava com seu cabelo roxo.

“Você demorou.” A ruiva sorriu-lhe enquanto a abraçava.

“Estava terminando de ajeitar minhas coisas.” O gesto foi devolvido com menos entusiasmo, apesar da prima também sorrir. “Vamos correndo porque preciso ir cedo à casa dos meus pais.” Puxou a outra pela mão enquanto se aproximava mais da rua e ansiava por um táxi.

“E eu preciso ir à casa do Gee, mas não é por isso que estou apressada!” Ela quase tropeçou nos próprios pés ao ser puxada e acabou rindo.

Depois de alguns minutos elas suspiraram aliviadas por finalmente conseguirem um táxi. Quando já era quase uma e meia da tarde, elas enfim chegaram aonde queriam. Pagaram o taxista, saíram e tocaram a campainha da larga casa aonde se encontravam. Não demorou até que a porta fosse aberta por uma jovem de longos cabelos negros ondulados.

“Até que enfim vocês chegaram!” Ela exclamou antes de se jogar em Sarah para lhe dar um forte abraço. “Pensei que iam me dar o bolo!”

“É lógico que não!” A ruiva riu novamente, quase sendo esmagada pelo abraço. Logo ela foi largada e a outra foi abraçar Laetitia. “Chegamos atrasadas demais para o almoço?”

“Só uma meia hora.” Ela disse ao largar a garota de cabelo roxo, fazendo as primas arregalarem os olhos. “Calma, é brincadeira! Meus pais nem estão em casa, e mesmo que estivessem não teria problema algum em esperar vocês.”

“Ah, que bom...” Sarah suspirou e pôs uma mão sobre o peito. “Eu teria me odiado por tê-los feito esperar!”

“Você se desespera com pequenas coisas, Sarah, isso faz mal pro coração.” Laetitia disse em tom de gozação.

“Engraçadinha. Você também ficou apreensiva que eu vi.”

“Okay, okay, que tal nós entrarmos logo?” A outra interrompeu-as enquanto ria um pouco.

“Estou de pleno acordo com a Rafa.” Laetitia seguiu-a quando ela entrou.

A jovem em questão era Rafaella Mendez, de vinte anos. Ela tinha uma pele levemente morena e olhos castanhos muito claros. Seus pais eram brasileiros que haviam ido morar em New York por causa de seus trabalhos: o pai era fotógrafo e a mãe pintora. Mas ela nunca havia voltado à sua terra natal onde passara apenas o primeiro ano de sua vida, nem sabia falar português. Seguindo os passos do pai, ela havia se aventurado na área de fotografia e agora trabalhava como assistente de um fotógrafo que, apesar de novo, era bem experiente. E que, eventualmente, veio a se tornar seu namorado.

Ela e Sarah se conheceram um pouco depois que a ruiva se mudara para New York com os pais. Quando se mudou ela ainda precisava fazer o último ano do colegial, e foi transferida para a escola onde Rafaella estudava. A amizade só havia crescido desde então, e logo Laetitia também se tornara íntima da morena. Porém nenhuma das duas conhecia ainda o namorado da amiga, pois haviam começado a namorar há pouco tempo.

O almoço transcorreu um pouco agitado, visto que elas não paravam de fazer comentários e piadinhas sarcásticos. Ainda conversaram um pouco mais depois de ajudarem a tirar a mesa, mas quando eram quase duas e meia Laetitia se despediu e saiu.

“O que a Let vai fazer na casa dos pais dela?” Rafaella perguntou enquanto as duas retornavam à sala de estar.

“Eu não sei, ela disse que ia resolver umas coisas...” A ruiva disse com ar pensativo, ainda com essa expressão ao se sentar em um sofá.

“Ela está morando sozinha em um apartamento no Queens, não é? Acho tão perigoso, por que ela não fica no apartamento de vocês?”

“Nós nos oferecemos mas ela não quis, disse que ambos os lados não teriam privacidade suficiente.” Sarah suspirou. “Mas parece que tudo tem estado bem até agora. Nada aconteceu com ela e de vez em quando faz uns trabalhos avulsos para ter dinheiro extra... Pra dizer a verdade, tenho um pouco de inveja.” Riu um pouco desanimada.

“... Seus pais são super-protetores, né?” Rafaella a olhou um pouco desanimada também.

“É, pode-se dizer que sim. Mas eu entendo o lado deles.” Ela suspirou novamente. Sentiu sua bolsa vibrar e sobressaltou-se, então se deu conta de que era seu celular. Ela riu e balançou a cabeça ao reconhecer o número de Gerard.

“Ué, não vai atender?” Rafaella olhou-a confusa ao vê-la guardar o aparelho de novo.

“Não, não precisa. Mas eu preciso ir, estão me solicitando.”

“Huum, já vi tudo.” Lançou-lhe um olhar malicioso enquanto se levantava, levando um tapa leve no ombro.

“Não é nada disso e você sabe.” Sarah se levantou ainda rindo. Logo já estavam à porta de entrada novamente, combinando outro dia para se encontrarem, e então se despediram.

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Lauren deitou-se na grama sob a sombra da árvore, e o rapaz ao seu lado fez o mesmo. Após o almoço, para eles, não havia nada mais relaxante que ficarem largados no quintal, apenas sentido a brisa que soprava. Ela se mantinha de olhos fechados, enquanto ele observava o céu atentamente, como se não pensasse em nada.

“Ei.” Tomo chamou-a, sem ao menos piscar.

“O quê?” Ela também nem mesmo se mexeu.

“Quando será a próxima exposição?”

“Hm... mês que vem, é de um dos nossos professores.” Então se levantou um pouco e virou de lado, apoiando o cotovelo na grama e a cabeça na mão direita. “E o seu próximo concerto?”

Ele passeou o olhar pelas nuvens antes de responder, dando de ombros. “Eu larguei o violino. Decidi me dedicar à guitarra.”

“O quê?” Lauren olhou-o quase perplexa. “Há quanto tempo planejava isso?”

“Não é como se eu planejasse... mas eu me envolvi demais com o som, e violino não me agrada mais tanto.” Sentou-se num impulso e então fitou-a nos olhos, sorrindo. “Mas eu não vou parar definitivamente, de vez em quando vou treinar pra não perder a prática.”

“Pelo menos isso, não é. Você toca bem, é até cruel parar.” Ela também lhe sorriu.

Tomislav Milicevic, Tomo para os íntimos, era amigo de Lauren há muitos anos. Morava com os pais numa casa bem próxima à da mãe de Lauren e era apenas três anos mais novo que ela, tendo então seus 17 anos. Ele tocava violino desde pequeno e era um apaixonado por música, bem como se interessava por artes visuais também. Sempre acabava informado de exposições importantes e interessantes por Lauren.

“É, e você fala de mim se parou o piano.”

“Eu não podia me dedicar às duas coisas, você sabe... e amo desenhar mais que tocar piano.” Saiu da posição na qual estava e também se sentou.

“Você toca bem, é até cruel parar.” Ele disse, sorrindo com o olhar lançado por ela.

“Assim como você eu não parei totalmente... até sinto falta.” Ela apoiou os braços cruzados nos joelhos e olhou para o céu límpido. “Mas eu não tenho talento suficiente para o piano... no desenho eu me garanto mais.”

“Você tinha talento, mas não conseguia se dedicar totalmente. Assim como eu e o violino.” Tomo deu um tapinha no ombro direito dela ainda sorrindo. “Agora já temos algo para o qual conseguimos nos dedicar.”

“Sim.” Lauren sorriu de novo e se levantou, limpando a grama de sua calça. “Que tal uma partida de videogame pra animar nossa tarde?”

“Tudo bem, mas eu escolho o jogo dessa vez!” Tomo se levantou e ambos seguiram rindo até o seu quarto.

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Já deveria ter se passado mais de meia hora desde que Sarah entrara naquele ônibus quando enfim chegou ao seu destino. Atravessou a rua após descer na parada e procurou pelo prédio onde já estivera algumas vezes antes. Ao entrar foi direto para o elevador, e depois de alguns segundos já estava no quinto andar. Bateu numa das portas do lado esquerdo e não demorou até que esta fosse aberta.

“Você demorou.” Gerard disse logo em seguida enquanto enxugava seu cabelo com a outra mão. Vestia uma camisa verde-escura e uma calça jeans.

“Se deu tempo de você tomar um banho, então demorei mesmo.” Ela riu um pouco sem-graça e entrou quando ele se afastou da porta, fechando-a depois. “Eu tava na casa da Rafa... e, aliás, por que você me requisitou com tanta pressa mesmo?”

Ele não respondeu de imediato, apenas foi até o banheiro deixar a toalha enquanto Sarah se sentava no sofá. Depois foi ao quarto e voltou com um material de desenho, deixando-a surpresa. Sentou-se ao seu lado e passou a analisá-la.

“... Por favor, diga que você não estava planejando isso.” Ela virou o rosto e sorriu sem-graça novamente, mas Gerard segurou-a pelo queixo e a fez voltar-se para ele novamente.

“Na verdade é isso mesmo.” Ele sorriu meio travesso. “Se eu pedisse você não aceitaria, mas estando aqui eu sei que você não deixaria um velho amigo na mão... deixaria?” Sua expressão então tornou-se levemente triste enquanto mexia no cabelo dela.

“Você ainda me paga por isso, Gerard Way! Por que justo eu?” Ela lamentou emburrada.

“Porque eu não consegui pensar em outra pessoa com um rosto mais bonito que o seu.” Ele disse calmamente, afastando-se um pouco e colocando o caderno sobre seus joelhos. Sarah olhou-o atônita e ele compreendeu. “Não interprete errado, sua pervertida.”

“Você que diz algo esquisito de repente e eu sou a pervertida?” Ela fitou-o ainda surpresa por alguns segundos até Gerard fazer um gesto de desdém com as mãos.

“Não se preocupe, eu só quero desenhar seu rosto, você não faz meu tipo.”

“Eu não sou seu tipo mas acha meu rosto bonito? Eu te conheço há tanto tempo e ainda não te entendo!”

“Eu também não me entendo, agora, poderia ficar com uma expressão normal?” Gerard começou a fazer um rápido esboço, sem dar tanta atenção ao que ela dizia.

“E ainda tem coragem de ficar exigindo!” Sarah cruzou os braços e fuzilou-o com o olhar, mas ao vê-lo tão compenetrado desenhando suspirou e decidiu relaxar. “Só vou fazer isso porque somos amigos de longa data e gosto dos seus desenhos.”

“Obrigado, agora que tal uma expressão mais sexy?” Ele deu um de seus clássicos sorrisinhos de lado e levou uma almofada na cara.

Sarah apoiou o cotovelo na parte alta do recosto do sofá e apoiou seu rosto em sua mão, olhando meio embaraçada para o amigo. “Assim está bom?”

“Ótimo.” Ele sorriu e voltou a desenhar, depois de usar a almofada para se recostar.

Eles permaneceram em silêncio por um longo tempo, e sem se dar conta ela desviou o olhar para a janela logo ao lado do sofá para observar o movimento lá embaixo. Gerard terminou de fazer as linhas principais do desenho e, quando reergueu o olhar para ela, deteve-se quando ia chamar sua atenção. A forma como ela estava, meio de perfil, era bem mais bonita do que olhando diretamente para ele. Com muito cuidado, ele virou a página já rabiscada e deu início a um novo desenho, sem que ela percebesse.

Quase meia hora se passou em que Sarah estivera perdida em pensamentos, e como num estalo ela lembrou onde estava e por que estava. Virou-se rapidamente para Gerard e percebeu que ele estava tão compenetrado quando antes no desenho. Ele voltou a olhá-la e antes que pudesse dizer algo ele a cortou.

“Volte para aquela pose de antes, ela estava mais bonita.”

Sarah acabou não dizendo nada, apenas voltou à posição que estava mais embaraçada que antes. Era estranho estar sendo desenhada por ele, principalmente porque adorava seus desenhos. Mas talvez ele conseguisse o milagre de fazê-la gostar de um quase auto-retrato...

--x—x--

Dentro do teleférico lotado, sobre o rio, Laetitia olhava a cidade de New York ficar para trás e observava o ar também cinzento de New Jersey. Não estava muito animada para ir à casa de seus pais, contudo precisava pegar alguns pertences que estavam ali desde que se mudara. Fazia menos de quatro meses, e alguns objetos acabaram esquecidos lá com tantas outras coisas para levar, comprar e fazer.

Depois de algum tempo conduzido pelos cabos, o teleférico finalmente alcançou o outro lado e Laetitia logo pôde sair. Apesar de gostar da vista proporcionada, saber que estava há tantos metros de altura numa caixa de metal não era muito apreciável. Saindo da área dos teleféricos, checou as horas em seu celular e caminhou rumo à uma parada de ônibus. Mas algo a fez desacelerar os passos ao passar pela entrada.

Havia uma garota sentada rente a um muro adjacente à estação, com uma mala ao seu lado. Ela abraçava as próprias pernas e escondia o rosto por entre seus joelhos. Sua pele era um pouco amarelada e seu cabelo era de um negro intenso e curto à altura do pescoço. Usava uma bota de cano longo que quase lhe alcançava os joelhos, uma jaqueta de couro preto e, ao que parecia, um vestido cinza por baixo.

Laetitia sentiu-se um pouco atraída por aquela menina que parecia tão frágil e se mantinha sentada na calçada sob o sol ardente da tarde. Mas ela possivelmente estava esperando alguém, e ela não pretendia perder tempo com estranhos. Retomou seu caminho e esperou pelo ônibus por um tempo. Levou menos de vinte minutos para chegar aonde queria.

Entrou pelo pequeno portão e tocou a campainha sem muito entusiasmo. Parecia uma típica casa de subúrbio norte-americana, com sua estrutura de madeira branca e telhas marrons, mas sua área era bastante ampla.Laetitia já estava quase tocando o botão novamente quando a porta foi finalmente aberta.

“Achei que não viria mais, já são quase 3 da tarde.” A mulher que a abriu, na faixa de quarenta anos e cabelos negros com sua cor ainda intacta, não demonstrou muita emoção ao vê-la. Sua expressão trazia sinais de cansaço e desgaste e seus olhos negros pareciam sem brilho.

“Precisei fazer umas coisas antes de vir, mãe.” A jovem entrou quando a mulher afastou-se da porta e foi em direção à cozinha. Ela olhou em volta, para a sala vazia e impecavelmente arrumada, e depois seguiu a mãe. “Onde está o pai?”

“Eu não sei. Nunca sei onde ele está.” O tom saiu com um rancor palpável enquanto ela colocava água na chaleira e acendia o fogo. “Chá verde?”

“Sim.” Ela respondeu num tom de voz baixo, observando-a pegar xícaras e saquinhos de chá. Sempre que a via, era como se sua infelicidade tivesse aumentado. “... Eu vou começar a guardar as coisas que faltam.”

“À vontade.” Ela não virou-se para fitá-la, e Laetitia apenas encaminhou-se para o antigo quarto. A cama, o guarda-roupa e a cômoda que antes eram seus ainda estavam do mesmo jeito que parecia ter deixado ao se mudar.

Não havia muito que guardar além de alguns livros que esquecera de levar antes e outros objetos de valor sentimental. Colocou-os em sua bolsa, já que a levara para isso, e depois de dar mais uma olhada no quarto voltou para a sala. Sua mãe estava sentada em um dos sofás, com uma bandeja com duas xícaras de chá sobre a mesa. Sentou-se do lado oposto, deixando a bolsa ao seu lado, e pegou uma das xícaras quando sua mãe fez o mesmo.

“Como está indo em New York?” Ela perguntou antes de beber o chá.

“Bem. Tenho conseguido me sustentar sem grandes problemas.”

“É bom ouvir isso.” A mulher mirava o chão com uma expressão um pouco triste, e logo voltou-se para a filha. “Seja sempre independente. Embora eu saiba que não precise lhe dizer isto.”

“...” Laetitia limitou-se a beber o chá, pois não queria dar continuidade aquele assunto.

Não demorou-se muito na casa dos pais. Mesmo porque sua mãe também não estava com disposição para conversar. Eram quase 4 horas quando ela pegou outro ônibus para voltar aos teleféricos. Apesar de não gostar muito deles, ainda eram um meio mais rápido de transitar pelas duas cidades.

Quando desceu na parada e voltou para a entrada onde estivera mais cedo, percebeu com espanto que aquela garota ainda se encontrava lá, na mesma posição. Dessa vez, Laetitia parou. Ela não poderia ignorar essa garota de novo, principalmente ao pensar que ela poderia estar há horas ali. Aproximou-se em passos lentos e, com cautela, tocou em um ombro da jovem. Esta ergueu o rosto lentamente e a garota de cabelos roxos surpreendeu-se mais ao notar que ela era oriental.

“Ah... Desculpe me intrometer, mas... está esperando alguém?” A princípio a pergunta de Laetitia não obteve resposta. A garota apenas a fitava confusa. “É que... eu passei por aqui há uma hora atrás e você estava aqui e...”

“Não.” Ela cortou-a, num tom baixo. “Não estou esperando ninguém.” A sua voz meio doce e meio intimidadora fizeram Laetitia se intrigar mais ainda com ela.

“Então... por que está aqui?” Ela agachou-se para ficar na mesma altura que a outra. A jovem de cabelos negros desviou o olhar para a calçada lentamente.

“Eu não tenho como chegar aonde quero.” Seu tom dessa vez saiu triste e sua expressão comprimiu-se. “Não tenho dinheiro algum.”

Laetitia entendeu no mesmo instante: ela havia fugido. Preferia não fazer conjecturas sobre aonde ela pretendia ir, mas agora simplesmente não conseguiria ignorar. Principalmente porque a aparência abatida dela indicava que estava ali, sem comer, há um bom tempo.

“Eu sei que vai parecer estranho...” Ela falou com cautela enquanto se levantava e atraía o olhar da outra garota para ela. “... mas se permitir eu posso levá-la aonde precisa ir, se for aqui pela área de Jersey.” Suas palavras fizeram a garota se surpreender totalmente, e ela manteve-se em silêncio a observando como se não acreditasse. “Eu estou falando sério, e não, não sou uma psicopata pervertida, apesar de parecer.”

“Não é isso...” A jovem oriental não mudou sua expressão. “Só não entendo o que você ganharia me ajudando.”

“Um alívio na consciência por ter ajudado alguém. Você tem um ótimo motivo para estar aqui, não é?”

A outra abaixou a cabeça, compreendendo que sua situação era mais do que óbvia embora ninguém pudesse saber os verdadeiros motivos por estar ali. E, durante o longo tempo que estivera ali sentada sem saber o que fazer, aquela garota estranha de cabelos roxos era a primeira que havia notado sua presença.

“... Você... está falando realmente sério?” Ela perguntou de forma hesitante num murmúrio.

“Sim.” Laetitia respondeu-lhe passando uma mão pelo cabelo, sem entender direito porque estava decidida a fazer isso. “Isso se você confiar na primeira estranha que te oferece ajuda.”

“... Eu vou confiar.” A bela jovem oriental levantou-se com dificuldade, sentindo-se fraca, e agarrou firmemente a alça da mala ao seu lado. “Mesmo que você seja uma psicopata, não tem problema. Morrer seria uma fuga infalível.”

Laetitia olhou-a admirada por ver aquela garota antes tão frágil agora emanar uma espécie de força e coragem. Ela definitivamente queria conhecer aquela garota.

“Então... antes de qualquer coisa, eu sou Laetitia McCain.” Sorriu e estendeu-lhe a mão direita. A outra também sorriu e apertou a mão estendida com a sua.

“Naoto Rammsteiner.”

Continua.