Somewhere

6 Capítulo VI


Notas iniciais
Nem acredito que já faz tantos meses desde a última atualização... Minha única desculpa aceitável é a falta de inspiração. Enfim, espero que ninguém queira me matar por transformar os personagens de Dogs em "pessoas comuns". E espero também que o capítulo esteja pelo menos aceitável.

Capítulo VI

Laetitia não se surpreendeu muito quando o táxi parou em frente a uma construção pequena com características japonesas, no fundo já imaginava um local assim. A oriental saiu do veículo fitando o lugar com emoção enquanto a outra mantinha-se apoiada à porta do carro.

“Bem...” A garota de cabelos roxos começou hesitante, chamando a atenção da outra. “Eu já a trouxe onde queria, então... acho que já vou indo. Boa sorte aí com... com o que você está planejando, tchau.” Ela já estava entrando no carro novamente, sem-graça, quando Naoto tocou-lhe o braço direito e a impediu.

“Por favor, fique mais um pouco. Eu... eu quero retribuir sua ajuda de alguma forma.” Ela parecia um pouco insegura, mas suas palavras eram sinceras assim como sua gratidão.

Laetitia fitou-a por segundos até que desembolsou o dinheiro do táxi e acompanhou a oriental até à porta de entrada. Não entendia bem o que a movia no momento ou o que a atraía à garota; apenas sentia que deveria, e deixava este instinto guiá-la.

Os ombros de Naoto começavam a tremer conforme ela se aproximava mais, e abriu a porta apressada, escancarando-a sem cerimônia, correndo para o interior. Laetitia observou-a surpresa e na confusão do momento só foi capaz de fechar a porta novamente e segui-la. A oriental deixou a ampla sala e virou à direita numa entrada no canto esquerdo; a outra garota, na pressa, nem reparou no lugar. Naoto encontrou uma porta de correr, ao mais tradicional estilo japonês, e a abriu com rapidez embora seus dedos estivessem trêmulos.

O homem que estava sentado no chão de pernas cruzadas, em frente a uma mesinha onde havia uma chaleira e uma xícara servidas com chá preto, ambas de cor branca, olhou para ela surpreso com seus olhos escuros. Algumas finas mechas de seu cabelo curto e claro caíam-lhe pela expressão cansada e uma cicatriz percorria seu rosto, começando entre suas sobrancelhas e circundando seu nariz pelo lado esquerdo até seu lábio superior.

Lágrimas vieram aos olhos de Naoto enquanto ela soltava sua mala e ele se levantava. Quando Laetitia enfim alcançara-a, a viu correr em direção a um homem alto de meia idade e agarrar-se à camisa branca dele com força.

“Eu achei... achei que nunca conseguiria vê-lo de novo.” Ela soluçava enquanto ele repousava uma mão em suas costas, olhando-a com ternura.

“Eu também achei.” Sua voz grave estava levemente tomada por emoção, e levou um tempo até que ele notasse a presença da outra garota, olhando-a um tanto quanto surpreso. “E você é...?”

“Ah, e-eu sou Laetitia McCain.” Ela gaguejou enquanto estendia sua mão, e ao lembrar de que ele era japonês se curvou levemente, embora não precisasse.

“Foi ela quem me trouxe.” Naoto disse em tom baixo, se afastando um pouco e limpando suas lágrimas. Ele fitou-a e então voltou a observar a garota de cabelo roxo.

“Obrigado.” Fechou seus olhos e curvou sua cabeça, deixando-a mais sem-graça. “Pode me chamar de Fuyumine.”

Quando Laetitia deu por si, ela já havia contado sua versão da história ao homem e os três estavam sentados em volta da mesa tomando o chá meio amargo. Ele olhava sua xícara um pouco sério e só após um longo silêncio ele reergueu seu olhar para a outra oriental.

“Fugir desse jeito só complicará as coisas, Naoto, você sabe disso. Ele não vai aceitar.”

“Mas eu não aguento mais viver naquele inferno!” Ela bateu na mesa com os punhos fechados e o encarou aflita. “Na semana passada ele... ele...” Seu corpo começou a tremer levemente e ele a encarou sem querer acreditar.

“Ele... tocou em você?” Seu tom saiu mais hesitante do que pretendia, pois realmente tinha medo da resposta; e o silêncio da garota deu-lhe a confirmação cruel.Em um acesso de raiva bateu o punho direito com força na mesa, quase derrubando as xícaras e a chaleira, além de assustar ambas as garotas. “Aquele bastardo...!”

“... Mas não passaram dos toques.” Naoto confessou em um murmúrio, sentindo vergonha do que contava, porém sentindo a necessidade de contar. “Haine chegou a tempo de tirá-lo de cima de mim.”

Laetitia congelou ao ouvir aquele nome. ‘Haine? Espera, não é o garoto esquisito que apareceu no restaurante da Kiri e fez aquela cena? Não é possível que sejam pessoas diferentes, esse não é um nome comum...’ Tentando disfarçar sua surpresa e se perguntando que tipo de relação aqueles dois teriam entre si, ela resolveu apenas continuar prestando atenção.

“... Fico mais aliviado.” Fuyumine sentiu sua raiva amenizar um pouco e voltou a focar seu olhar no líquido que se remexia dentro da xícara. “Você nem ao menos falou com ele sobre isso, não é?”

Ela não respondeu de imediato, desviando seus olhos para a mesa. “Haine jamais teria aceitado ou permitido.”

“Por que não pediu ajuda dele? Se vocês processarem aquele cretino tenho certeza de que sua guarda...”

“Eu não posso.” Ela interrompeu-o com um tom firme embora ainda aflito, cerrando os punhos com força. “Já dei tanto trabalho a ele que não suportaria vê-lo passar por...”

“Naoto, você acha que ele está feliz vendo a própria irmã sofrer abusos?!” Ele agarrou seu ombro com força.

‘Irmão?! Abusada?!’ Laetitia estava quase em choque com tudo que ouvia, e já se sentia desconfortável por estar ali. Principalmente por saber agora quem era ela, de certa forma.

“É por isso que vim pra cá!” Naoto agarrou novamente a camisa dele com aflição, tentando não derramar mais lágrimas. “Não posso mais suportar aquela situação, e o senhor é a única pessoa que me resta!”

Fuyumine afrouxou sua mão sobre o ombro dela e a encarou tristemente. “Você sabe que poderá sempre contar com meu apoio até que eu morra, mas isso trará sofrimento tanto ao seu irmão quanto à Kiri e Mihai. Eles também a adoram muito.”

‘Eles são íntimos da Kiri... Esse mundo é definitivamente pequeno.’ Ela bebericou o restante de seu chá enquanto pensava em algum jeito de ir embora. Definitivamente não devia estar ali.

“... Eu não podia pedir a ajuda deles. Já fizeram demais por nós, e eu tenho certeza que aquele... maldito cairia com tudo pra cima deles.”

Encarou a garota com a mesma ternura de antes, afagando seu cabelo delicadamente. Logo se afastou e fechou os olhos com um suspiro, deixando-a um pouco confusa.

“Eles me ligaram ontem, e me fizeram prometer que daria notícias suas caso as tivesse.”

“... Entendi.” Ela desviou o olhar para a mesa, agarrando a borda de seu vestido silenciosamente.

“...” Fuyumine tomou a asa da xícara e bebeu seu chá, voltando-se a Naoto logo depois. “Mas eu não vou ligar se você não quiser.” Olhou-a com pesar embora ela agora o fitasse com semi-gratidão.

“Se vocês me derem licença...” Laetitia levantou-se de repente, surpreendendo os outros dois. “Eu gostaria de ir ao banheiro.”

“... Primeira porta logo ao sair.” Fuyumine indicou-lhe, e ela apenas pegou sua bolsa e saiu apressada sem esperar alguma palavra ou gesto deles.

Ao entrar trancou a porta e respirou fundo, sentando sobre a tampa do vaso sanitário. Apoiou o rosto nas mãos e refletiu bem no que estava pensando. Não devia fazer isso, afinal não tinha nenhuma relação com a sua vida, mas agora que havia se envolvido não conseguiria simplesmente esquecer. Talvez Naoto a odiasse depois disso, mas se lembrando do ocorrido do dia anterior e as palavras daquele homem minutos atrás sentiu-se motivada.

Tirou o celular de dentro da bolsa e buscou um número em sua agenda, ainda hesitando um pouco antes de apertar a discagem. Respirou fundo de novo ao encostar o fone no ouvido.

“Buon Viaggio.” Kiri atendeu do outro lado da linha.

“É a Laetitia.” Tentou usar o tom mais firme que conseguia.

“Let! Algum pedido em especial?”

“Ahn, bem, quanto a isso...” Comprimiu seus lábios com força, buscando as palavras certas.

“... Algum problema?”

“Kiri, eu... eu preciso lhe pedir algo que vai ser imensamente estranho.”

“... Peça, já estou ficando preocupada.”

“Preciso do telefone daquele garoto, Haine.”

“... Haine?” Pelo tom da mulher, o espanto era total.

“Eu sei que é estranho pedir isso depois de ontem, mas... eu prometo explicar depois. Preciso falar com ele algo importante.”

Apesar do choque inicial e o tom vacilante da garota, Kiri resolveu dar-lhe o número do celular do rapaz. Laetitia encarou os dígitos na tela por um tempo enquanto formulava as frases que julgava certas para dizer a ele. Quando enfim sentiu-se mais preparada, ela respirou fundo e discou. Um toque, dois toques, três toques... Ao quinto toque já estava no seu limite e quase desligando, quando finalmente foi atendida.

“Alô?” Aquela mesma voz fria e odiosa falou-lhe ao ouvido quase num sussurro.

“... Haine?”

“É ele. Espera... essa voz... a garota de ontem...?” Ele pareceu incerto e ao mesmo tempo desconfiado.

“Sim, Laetitia, prazer.”

“... Como diabos você conseguiu meu número e, principalmente, por quê?” Dessa vez seu tom era de poucos amigos, e ela se segurou para não desligar na cara dele.

“Eu posso explicar tudo que você quiser mais tarde, mas agora apenas me ouça.”

“Por que eu deveria?”

“... Naoto lhe soa familiar?” O leve sarcasmo em sua voz não foi notado por ele, pois ao ouvir aquele nome Haine emudeceu de tanta surpresa por um curto tempo.

“Como... como você...?”

“Eu a encontrei por acaso e descobri que é sua irmã. Você está procurando por ela, não é?”

“...” Ele ficou mudo por mais um tempo. “Não sei como você descobriu essas coisas, mas se está com ela...” Sua voz saiu ligeiramente aflita.

“... Eu liguei justamente pra isso.”

O sol já havia se posto no horizonte quando Haine finalmente chegou ao fim de uma das estradas que ligavam New York a New Jersey. O trânsito era muito intenso e a ansiedade e nervosismo que estava sentindo parecia transbordar de seu corpo. Tudo que mais queria era encontrá-la e levá-la para casa, pois embora soubesse que ela sempre estaria bem com Fuyumine, ela era sua única família.

Depois de passar por tantos sinais e ruas, quando ele finalmente chegou aonde queria parou o carro repentinamente e saltou de dentro do veículo. Correu para dentro exasperado e ao ver a porta corrida abriu-a abruptamente. Olhares confusos encararam-no e ele mal pôde acreditar ao vê-la. Naoto quase deixou a xícara cair de suas mãos tamanho seu espanto e Fuyumine não estava menos surpreso.

“Naoto...” Ele murmurou dando dois passos recinto adentro e ela apenas continuou encarando-o confusa. A calça preta e a camisa social branca, com as mangas dobradas até o cotovelo, estavam amarrotadas, indicando que ele fora até lá com bastante urgência. Ela então voltou-se para Laetitia, que permanecia calmamente sentada e espantada apenas pela forma como ele entrara.

“Você...?” Naoto murmurou, sem saber o que dizer diante daquela situação inesperada.

“Não é como se eu realmente o conhecesse...” Ela disse e logo em seguida respirou fundo. “Mas eu conheço Kiri e Mihai e vi que ele estava louco por sua causa. Sei que não devia ter me intrometido, mas achei que ele tinha direito a pelo menos uma explicação sua já que estava tão preocupado.” Ela então se levantou, ajeitando sua bolsa e sendo encarada pelos outros três. “Peço desculpas por isso e acho que já chegou a hora de eu ir embora.”

Laetitia abaixou a cabeça, cobrindo seus olhos com a franja, e caminhou apressada para fora, mas ao passar por Haine ele segurou-a pelo braço. Ela voltou seu rosto surpresa para ele mas não encontrou seu olhar, ele continuava fitando a irmã.

“... Não é bom andar sozinha à noite. Espere só um pouco e eu te levo de volta.”

“... Não precisa se forçar a retribuir o favor.” Ela tentou puxar seu braço mas ele continuou segurando-a firmemente, e então encarou-a com seus olhos frios.

“Não estou me forçando, apenas deixe-me fazer isso.”

Laetitia por um momento esqueceu do dia anterior. O rapaz à sua frente não era aquele mal-educado que a ofendera, era apenas um irmão protetor que estava tentando ser gentil à sua maneira. Repreendeu-se por pensar assim, mas aquele olhar firme sobre si a desarmou e ela apenas desviou o seu.

“... Tudo bem, vou esperar lá fora.”

Diante da resposta dela Haine soltou seu braço lentamente e entrou na sala enquanto ela saía. Naoto desviou o olhar para a parede mais próxima, sentindo vergonha e raiva de si mesma e de tudo. Haine permaneceu de pé ao lado de Fuyumine; encarou-a por um longo tempo, esperando que ela retribuísse seu olhar, mas não obteve nem mesmo uma palavra.

“... Você nem deve fazer idéia do quão preocupado fiquei nos últimos dias. Não precisava fugir dessa forma.”

“Eu precisava sim.” Ela abaixou a cabeça.

“... Por que você nunca quer contar com a minha ajuda?”

“Haine...” Fuyumine disse ao se levantar, diante do silêncio dela. “Naoto o ama muito também, ela só não quer te fazer passar por mais momentos ruins.”

“... A simples existência dele já torna minha vida infeliz.” Cerrou seus punhos com força e fitou o homem com um olhar determinado. “Eu vou protegê-la. Naoto...” Voltou a fitá-la, esperando que ela fizesse o mesmo agora. “... Você é a única família que tenho.”

“Haine, eu... se eu voltar ele vai infernizar nossas vidas, quem sabe até mesmo te matar!” Voltou-se para o irmão. “Ele e vovô cortaram relações, aqui ele nunca vai me encontrar.”

Haine fitou-a com tristeza e, hesitante inicialmente, deu dois passos em sua direção. Ajoelhou-se sobre uma perna e então enlaçou-a num abraço.

“Sei o quanto você quer acreditar nisso, mas cedo ou tarde ele vai descobrir. Você o conhece, ele não tem escrúpulo algum e seria capaz de faz algo a Fuyumine.” Ele murmurou, sentindo-a tremer em seus braços. “Você sabe que comigo ele não tem chances. Eu vou te proteger dele sempre.”

“Mas... mas você já tem tanto trabalho com a loja...” Ela se agarrou a um de seus braços.

“Você pode me ajudar, se quiser. E cuidar de você nunca foi ou será um trabalho.” Haine apertou-a com mais força e repousou seu queixo em um dos ombros dela.

Fuyumine os observou e não pôde evitar um suspiro e um sorriso tristes. “Naoto...” Ele chamou-a num tom calmo e ela ergueu o olhar. “Vá com seu irmão. Ele cuidará melhor de você, e sabe aonde vir quando quiser me ver.”

Naoto baixou o olhar para o chão, agarrando aquele braço pálido com força e refletindo. Fechou os olhos e suspirou, permanecendo assim por longos segundos. Sabia que deveria ter feito isso desde o início, mas se preocupava tanto com ele que não queria lhe dar mais problemas. Erguendo o braço direito lentamente para trás, tocou-lhe os cabelos prateados.

“Vamos para casa então.” Haine esboçou um sorriso quase imperceptível e se levantou, puxando-a junto. Pegou a mala que estava no chão e conduziu a garota para fora da sala, até à entrada da casa, sendo seguido pelo homem mais velho. Ao pararem à porta, os olhos de Naoto demoraram-se na figura alta do avô até ela abraçá-lo com força. “Saiba que virei visitá-lo sempre.”

“Estarei esperando.” Ele disse com ternura novamente, afagando-lhe o cabelo.

Então virou-se para o irmão, fitando-o ainda com uma leve insegurança, e em resposta ele segurou sua mão firmemente. Despediu-se do homem com um pedido de desculpas e um aceno com a cabeça, saindo então em direção ao carro. Encontrou Laetitia sentada na calçada, abraçando as próprias pernas e fitando o nada.

“Ei.” Os olhos dela focaram rapidamente na direção dele. “Venha.”

Laetitia ainda observou-o colocar a mala no banco traseiro e logo depois Naoto entrar pelo mesma porta. Então, suspirando, levantou-se e abriu a porta do passageiro. Enquanto se sentava e colocava o cinto, tentava não pensar muito no fato de que estava no carro de uma pessoa que a havia insultado há pouco mais de 24 horas. Haine entrou no carro logo em seguida e, após fitá-la por dois segundos, decidiu colocar o cinto também. Por algum tempo tudo que eles ouviram fora o ronco quase silencioso do motor. Haine mantinha os olhos fixos na estrada e Laetitia olhava pela sua janela com a cabeça apoiada no braço. Aquele silêncio tenso que pairava sobre eles por um momento intimidou Naoto, que agarrava a borda do seu vestido, mas sua curiosidade foi maior.

“Laetitia...”

“Sim?”

“Você disse que conhece Kiri e Mihai...” Ela falava devagar, escolhendo as palavras com cuidado.

“É, costumo comer lá com frequência.”

“Então... foi assim que vocês dois se conheceram?”

Haine parou bruscamente quando um semáforo mudou para a luz vermelha e ambas se assustaram ao serem jogadas com força para frente e depois para trás. A garota de cabelo roxo era a mais sobressaltada, mas ele não ficara menos tenso.

“C-como eu disse antes, não é como se nos conhecêssemos...” Ela cruzou os braços.

“Hã?” A mais nova olhou-a com confusão. “Mas você tem...”

“Nos vimos pela primeira vez ontem e trocamos alguns ‘elogios’.” Haine disse indiferente, porém frisando a última palavra, sem desviar o olhar do semáforo. Laetitia remexeu-se no banco e Naoto o fitou.

“Na verdade você me insultou. Eu não estava fazendo nada de mais.” Ela quis corrigir.

“Se bem me lembro você foi tão educada quanto eu.”

“Só estava lhe retribuindo o favor, sr. nervosinho.”

“Quem está insultando quem agora?”

Naoto olhava de um para o outro conforme falavam e Laetitia resolveu encerrar aquele diálogo desnecessário quando o semáforo mudou para verde. Um silêncio ainda mais tenso se formou e a mais nova tentava se distrair olhando a paisagem ou entrelaçando os dedos.

“... Quer que eu ligue o rádio?” Ele perguntou ao ver a inquietude dela.

“Não...” Ela se deteve ao lembrar de algo. “Você ainda tem aquele CD?”

“Com as suas favoritas, tenho sim.” Haine abriu o porta-luvas e pegou um cd entre vários que estavam jogados ali, ignorando o susto da outra garota quando seus braços se esbarraram. Colocou o cd no player e em poucos segundos uma melodia relaxante começou a tocar. Naoto fechou os olhos e acomodou-se melhor no banco traseiro, enquanto Laetitia surpreendeu-se ao ouvir aquela música tão familiar.

“Duvet?” Ela murmurou, mais para si mesma, e Haine dessa vez olhou-a de soslaio.

“Você conhece?”

“É uma das minhas favoritas.” Não retribuiu o olhar, mas não havia hostilidade em sua voz. Ele voltou a olhar para frente, com o carro agora parado no tráfego da Ponte George Washington. A tranquilidade da música pareceu ter feito todos relaxarem, e Haine resolveu se arriscar.

“Que tipo de música você costuma ouvir?”

Laetitia olhou-o extremamente surpresa, mas decidiu-se por enfim continuar a conversa. As respostas de início eram curtas e quando alguma música realmente interessante começava a tocar eles se mantinham em silêncio. Naoto apenas prestava atenção, mas por causa de seu cansaço não demorou muito para que cochilasse. O clima desconfortável que havia no carro tornara-se mais ameno, mas isso não significava que estavam apreciando a companhia um do outro. De fato, tudo que Laetitia queria era chegar em casa. Apesar de, para seu espanto, encontrarem alguns gostos em comum, sua antipatia por ele continuava a mesma; embora tivesse que admitir para si mesma que a afeição que tinha pela irmã era admirável.

“Em qual área você mora?” Haine perguntou quando já estavam de volta a Manhattan.

“Rua 17 a oeste, um pouco depois do Chelsea Market.” Ao ouvir a resposta, ele alargou os olhos surpreso. Laetitia notou, mas sua curiosidade não era grande o bastante para fazê-la perguntar.

O CD logo terminou e eles dessa vez permaneceram em silêncio enquanto Haine dirigia até o lugar indicado. O trânsito na 11ª Avenida estava relativamente agitado para um sábado à noite, mas não demorou muito para que ele chegasse até a rua em questão. Ele parou o carro na esquina e recostou-se no banco, permitindo-se soltar um suspiro cansado, enquanto Laetitia tirava o cinto. Antes de abrir a porta, ela respirou fundo para falar.

“Obrigada pela carona.”

“Não foi nada. Eu que agradeço por... me dizer onde ela estava.” Olhou de relance para o banco de trás e ela fez o mesmo.

“Bom, então... tchau.” Sem esperar por uma resposta ela abriu a porta e desceu do carro. Ao fechá-la, olhou rapidamente para a figura dele através do vidro e o viu trocar a marcha. Afastou-se dois passos e, no curto momento que levou para o carro juntar-se novamente ao tráfego, ele a fitou uma última vez com seus olhos frios.

Laetitia virou-se e, soltando um longo suspiro, começou a caminhar pela calçada em direção ao prédio onde morava. Sentia-se desgastada e confusa; aquele provavelmente havia sido um dos dias mais estranhos de sua vida. Apesar de estar decidida a fingir que aquele dia não havia acontecido, ou pelo menos até conseguir organizar seus pensamentos e entender o que havia acontecido, no fundo ela sentia que iria encontrar aqueles dois mais vezes do que gostaria ou deveria. Soltou outro longo suspirou ao entrar num prédio ligeiramente estreito e de paredes marrom.

“Sinto que a cada dia que passa minha vida fica mais esquisita e sem sentido.”

Continua.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.