Somewhere

4 Capítulo IV


Notas iniciais
Demorei mas aqui está o quarto capítulo. Entendendo mais um pouco sobre alguns dos personagens, e percebendo que por trás das fachadas felizes há problemas e segredos que eles não conseguem compartilhar... É, meu processo de aprofundamento (?) dos personagens é lento.

Capítulo IV

“Você não pode fazer isso com sua própria filha!”

“Cala a boca, seu merdinha! Você nem mesmo mora mais aqui pra meter o bedelho!”

“Eu interfiro no que bem entender! Você é só um fracassado que se embebeda pra tentar esquecer esse fato! Se encostar suas patas na Naoto de novo, eu a levarei comigo!”

“Apenas tente... eu mato vocês dois se tirar essa pirralha desta casa!”

Os pensamentos de Haine foram interrompidos pelo som de um copo batendo com certa força em uma mesa. Ele abriu os olhos lentamente e encarou a caneca com café à sua frente, com um olhar perdido. Ficou observando o vapor que subia do líquido enquanto Mihai se sentava ao seu lado; o óculos à frente de seu olhar cansado. Apoiou os cotovelos sobre a mesa e entrelaçou seus dedos, mantendo-os encostados em seu rosto.

“Então ela... cumpriu a promessa.” O homem disse em tom baixo, pensativo.

“Promessa...” O rapaz repetiu em um murmúrio, apenas para fechar os olhos e balançar a cabeça em seguida. “Aquilo não havia sido uma promessa. Ela só quer fugir...” Seu tom saiu alto agora, sem voltar a abrir os olhos ainda, e tomou a asa da xícara com sua mão, sentindo o vapor em suas narinas com a proximidade. “... Esquecendo que estou aqui.”

“Ela não quer te esquecer, Haine.” Mihai encarou-o dessa vez. “Conhecendo-a como a conheço, ela deve achar que já te trouxe problemas demais.”

“Ela nunca foi um problema pra mim!” Exclamou exaltado, mal provando o café. “Irmãos cuidam um do outro, não cuidam?!” Encarava o homem sentado à sua frente com raiva e aflição. Kiri, em pé e de braços cruzados atrás de Mihai, apenas mantinha a cabeça baixa. O rapaz suspirou, voltando a beber.

“... Por que você acha que... ela foi para New Jersey?” Kiri finalmente se pronunciou, quebrando o silêncio que se fizera por vários segundos.

Haine depositou a xícara vazia sobre a mesa novamente, com os olhos voltados para o chão e a mente longe. Demorou até se pronunciar novamente. “Ouvi que... Fuyumine foi pra lá.”

“... Entendo.” Mihai murmurou, voltando a ficar pensativo. “Tentarei... entrar em contato.”

“Mesmo que consiga, eu duvido que ele diga algo.” Ele cruzou os braços, fechando os olhos de novo. “Ela é a filha que ele nunca teve. E ele é o pai que ela queria ter tido.”

“Ele não é... insensato.” O mais velho respirou fundo. “Farei umas ligações daqui a pouco.”

“... Ela voltará pra casa.” Kiri murmurou após um suspiro. “Se ele disser que ela deveria voltar, sei que ela ouvirá. E, Haine...” Levantou o olhar para o rapaz sentado. “Sei que ela pode contar com você, mas saiba que nossas portas estarão sempre abertas também.” Ela esboçou um sorriso fraco, conseguindo arrancar um dele logo depois.

“Eu sei. E agradeço muito... a amizade.”

“Senhora Kiri.” Zack entrou de repente na sala, meio hesitante. “Desculpe interromper, mas poderia vir um instante?” Pelo tom dele, era algo meio preocupante. Haine tentou não pensar que a culpa fosse sua, por mais que soubesse ser, seja lá o que fosse.

“O que aconteceu dessa vez?” Ela soltou um longo suspiro enquanto caminhava apressada até a porta, a qual ela fechou com força após sair.

“É que... Haine explodiu com os clientes e eles estão indo embora.” O homem explicou hesitante, coçando o rosto com nervosismo.

“Não acredito...” Ela levou uma das mãos ao rosto, sacudindo a cabeça em desolação.

Foram apressados em direção ao salão principal, e Kiri tentou dialogar com as últimas três pessoas que restavam. Por fim, após desculpar-se e explicar-se por Haine, as pessoas se resignaram e decidiram ficar. As outras três garotas apenas suspiraram ao ver a cena.

“É culpa daquele metido a Kiri ter todo esse trabalho.” Laetitia bufou de raiva.

“Bom, não deixa de ser uma meia verdade, mas não foi proposital, eu acho.” Sarah limitou-se a sorrir sem graça, ainda desconcertada pelo que se passara.

A garota de cabelo colorido continuava inconformada e tão logo viu a dona do local fitá-la tão logo a chamou. Kiri caminhou até elas com uma expressão meio cansada, mas não era por nenhum esforço físico e elas perceberam isso imediatamente.

“Let, Zack me disse o que aconteceu e eu peço desculpas.” A mulher fez uma pequena reverência quando parou em frente à mesa, apesar de se referir à garota que a chamara por um apelido íntimo.

“Ei, você não precisa se desculpar por nada, Kiri!” Ela exclamou desconfortável. Quem ela queria que estivesse ali era o mal-educado, pois ele sim tinha que pedir alguma desculpa.

“Por favor, não se sinta mal, está tudo bem.” Lauren se manifestou quando acabara de beber o restante de seu café. “Aliás, aconteceu algo de muito grave? Você parece temerosa.”

“Aconteceu sim, mas como envolve Haine eu preferia não dizer nada.” Ela fitava a mesa à sua frente, porém seu olhar estava perdido em algum outro lugar.

“Haine? É o garoto de cabelo branco?” Sarah perguntou, arqueando uma sobrancelha.

“Sim.” Ela limitou-se a responder, erguendo o olhar para a jovem ruiva.

Mal respondera e logo Haine já saía pela porta da cozinha, vendo Kiri junto à mesa daquelas três de antes. Viu a garota atrevida e estreitou os olhos disfarçadamente. Laetitia fez o mesmo ao notá-lo. Ele apenas fez um aceno para Kiri e se dirigiu apressado para fora.

\"Arrogante.\" A jovem murmurou, observando-o sair, nem notando o suspiro de Kiri.

“Por favor, não o julguem mal. Haine é um bom rapaz, ele só está com... problemas familiares.” Ela concluiu de forma hesitante, julgando até onde poderia contar.

Sarah e Lauren decidiram não perguntar nada, e após ser mais uma vez tranqüilizada a mulher pediu licença e voltou para onde estivera conversando com os outros dois. A ruiva pôs-se a mexer a colherzinha no que restava de seu chá. “E então? Quais são os planos pro fim de semana?” Ela perguntou após algum tempo, esboçando um pequeno sorriso.

“... Eu vou pra casa da minha mãe como sempre.” Lauren sorriu também, apoiando o cotovelo sobre a mesa e recostando a cabeça na mão.

“Então não esqueça de mandar abraços por mim! E você, Let? Vai comigo na casa da Rafa?”

“Ahn? Ah, sim, vou. Mas não ficarei muito tempo.” Laetitia disse rápido, balançando a mão.

“Ué, e por quê?” Recebeu um olhar confuso da prima.

“Tenho que pegar um teleférico e ir pra casa dos meus pais. Preciso buscar umas coisas.” Ela deu de ombros, como se nem se desse conta do que estava falando.

“Ahh. Mande lembranças aos tios por mim.” Sarah sorriu de forma alegre para ela, que não percebeu, apenas confirmou de forma monossilábica.

“... Ainda está irritada com o tal Haine?” Lauren fitou-a meio confusa.

A resposta não veio de imediato, pois a pergunta surtira algum efeito estranho que fizera a garota estreitar os olhos. Laetitia apenas respirou fundo. “Não tanto, estou só pensando.”

As outras duas se entreolharam mais confusas ainda, pois não era sempre que Laetitia se mostrava tão preocupada assim como agora. Decidiram não perguntar mais nada, e apenas trocaram mais alguns comentários entre si. Quando a outra se desligou de seus devaneios, puderam enfim pagar a conta e se retirarem, despedindo-se e tomando caminhos diferentes.

--x—x--

Gerard caminhava despreocupado pelas avenidas ainda lotadas da cidade, com um cigarro nos lábios. Usava sua habitual calça jeans escura e jaqueta preta de couro fino sobre uma camiseta, todos bem surrados. Eram quase sete da noite e o movimento não diminuíra tanto, mas ele já estava habituado. Apenas percorria com o olhar as pessoas e vitrines por onde passava, mesmo que já tivesse passado por algumas daquelas ruas repetidas vezes. E constatou, como sempre, que ninguém sequer o notava. Ele se sentia um fantasma às vezes.

Quando esse pensamento mais uma vez veio à sua mente, apenas suspirou irritado e jogou o cigarro na lixeira mais próxima. Dobrou uma esquina e seus olhos recaíram sobre um pequeno parquinho. Àquela hora já não havia ninguém, mas de alguma forma aquele vazio o fez se sentir melhor. Voltou a olhar para sua frente e viu do outro lado da rua a pessoa que procurava. Ele estava escorado em um poste e olhava para o céu.

“Aí, isso é um assalto.” Gerard fez uma cara feia de tédio e apontou para o outro a mão direita com o indicador esticado, simulando uma arma.

Jared abaixou a cabeça e encarou-o surpreso. “Desculpe, eu sou tão pobre quanto você. Aceita vale-refeição?”

“Vale-refeição é coisa de gay!” Ele soltou uma risada enquanto levava a mesma mão até o cabelo do outro rapaz, bagunçando-lhe as mechas antes arrumadas. “Ficar olhando estrelas também!”

“Ah, desculpe se minha opção sexual te ofende!” Ele riu também, mas de uma forma levemente irritada, afastando a mão do outro depressa e arrumando de novo seu cabelo. “Eu só aproveitei para refletir um pouco. Observar o céu me acalma.”

“É, muita gente me diz isso...” Gerard então levantou o olhar para o véu escuro que cobria a cidade, passeando-o pelos pontos brilhantes da mesma forma que fazia com as pessoas. “Mas sou insensível o bastante para não entender como.”

“Um dia você entenderá, com certeza.” Jared apenas sorriu e se virou, começando a caminhar. “Vamos, quanto mais cedo chegarmos mais cedo sairemos.”

Ele se virou para a mesma direção que o mais velho, e só então notou melhor as roupas que ele usava. Era a mesma calça escura que ele havia usado mais cedo, com uma camisa cinza-clara e um casaco preto por cima. E o que mais chamava atenção ali: uma echarpe branca, que combinava com o tênis branco meio gasto.

“... Você realmente parece uma estrela de cinema com esse visual.” Gerard brincou, arqueando as sobrancelhas.

“Oh, obrigado. Se você me lembrar mais tarde lhe dou um autógrafo.” Ele usou intencionalmente um tom de quem está mesmo atuando.

“Não esqueça de anotar o telefone junto.” O tom e o sorriso malicioso quase fizeram-no rir.

“Desculpe decepcioná-lo, mas você não faz meu tipo.”

“Ah, já saquei. Não gosta dos gordinhos...”.

Durante todo o caminho que percorreram as gracinhas e as risadas não pararam. Estavam se dando muito bem apesar da forma como se conheceram, ambos pensavam. E após dez minutos de caminhada Jared parou em frente a um muro baixo, todo branco, e dividido à sua frente por um portão cor prata com um interfone ao lado. Enquanto ele apertava a campainha e falava com alguém lá de dentro, Gerard aproveitou para dar uma olhada.

O jardim era espaçoso e cheio das mais variadas plantas baixas e flores. A grama cobria todo o chão, mas havia um pequeno caminho feito por pedras lisas que levava até à porta de entrada. Ele pôde observar melhor quando o portão se abriu e caminhavam sobre essa trilha. A casa estava logo diante deles, formada pelo andar térreo e superior. Ela era branca, com vários detalhes de arquitetura moderna geralmente de cor prata, e no canto direito superior havia uma varanda cuja grade era preta, o que a fazia se destacar bem.

Gerard não se deixou impressionar tanto, apesar de achar que quem construíra a residência tinha bom gosto e era cuidadoso com os detalhes. Observou Jared e ele parecia totalmente normal, provavelmente já havia estado lá uma vez. Então a porta foi aberta e a primeira coisa que notaram foi a música, que lembrava um pouco new age. O rapaz de orbes verdes limitou-se a alargar os olhos.

“Jared, que bom que chegou cedo!” Rachel fora quem, obviamente, atendera a porta, e exibia um grande sorriso, que murchara um pouco ao perceber o acompanhante.

“Rachel, você com certeza já conhece o Way, então não tenho por que fazer apresentações.” Ele sorriu e pôs a mão esquerda sobre o ombro do outro. “Espero que não se importe.”

“Ah... claro que não.” O sorriso dela subitamente se tornou amarelo enquanto ela abria mais a porta para que eles entrassem. Ambos tentavam conter as risadas diante da reação dela.

A porta logo se fechou atrás deles e Rachel tocou o braço esquerdo de Jared, como que querendo levá-lo a algum lugar. Ele sorriu cordialmente e pediu que ela fosse à frente, usando da educação para disfarçar malmente o fato de querer manter-se afastado. Ela apenas se resignou e conduziu-os à sala de estar.

Gerard mais uma vez pôs-se a observar o ambiente que o cercava. A despeito das cores neutras da fachada, o interior possuía muitas cores fortes e escuras, apesar das paredes terem a mesma cor branca. Enquanto iam até a sala, passaram pela escada de formato circular e ele viu os degraus feitos de mármore branco. Pensou então que a jovem tinha muitos motivos para sentir-se no direito de ser esnobe, porque ter uma família com várias posses caras o fez pensar que até ele se sentiria tentado a tal comportamento.

Quando entraram no recinto, os olhares das aproximadamente quinze pessoas pararam sobre eles. Estavam todos espalhados pelos três sofás vermelhos e havia alguns petiscos sobre a larga porém pequena mesa de centro feita de alguma madeira rara. Um dos rapazes presentes se levantou e se dirigiu animado até o trio.

“Jared, meu caro!” Ele abraçou o rapaz, que retribuiu o gesto imediatamente com boa vontade. O abraço não durou mais que dois segundos e eles se puseram a se analisarem. “Quanto tempo, não é? Uma semana, talvez. Não mudou em nada.” Ele riu um pouco.

“Digo o mesmo de você, meu amigo, embora pareça mais magro.” Ele sorriu divertido.

“Ah, os infortúnios que uma simples gripe pode trazer.” Ele apenas meneou a cabeça. Então dirigiu seu olhar para Gerard, que olhava os dois com bastante estranhamento. “Ah, um amigo! Prazer, sou Thomas Larter.” Ele estendeu-lhe a mão, sorrindo.

“Gerard Way.” Apertou sua mão ainda meio surpreso. “Jared falou de você.”

“Espero que tenham sido coisas boas.” Ele riu mais uma vez.

Eles se dirigiram até o sofá onde o rapaz estava antes e se sentaram, cumprimentando algumas das pessoas. Gerard sentou no canto direito, Jared a seu lado e Thomas ao lado do amigo, deixando uma Rachel aborrecida no canto direito do sofá ao lado. Eles começaram uma conversa animada, e vez ou outra Gerard dizia alguma coisa. Ele observava o amigo de Jared e constatou que ele era mesmo da forma que havia sido descrito.

Era educado a ponto de parecer afetado e pelas conversas decididamente era inteligente. Bem diferente da prima, que parecia não entender muito coisa do que ele falava e só se manifestava para tentar impressionar Jared. Além disso, ele possuía olhos castanhos bastante espirituosos e perspicazes, e tinha um cabelo também castanho um tanto comprido que ia até o meio de seu pescoço, com algumas mechas que caíam-lhe pelo rosto. Concluiu que era um rapaz bonito e bem abastado; compreensível que ele e Jared fossem íntimos.

“Way, você faz Artes Finas, não é?” Thomas perguntou de repente, tirando-o de seus pensamentos. “Jared comentou algo a respeito há pouco.”

“Ah, sim, sim.” Ele confirmou e logo em seguida bebeu mais um gole do vinho que lhe fora servido minutos atrás.

“É o mesmo curso da Rachel.” Ele se virou para a prima e sorriu amavelmente, gesto que ela retribuiu prontamente. “Vocês estudam juntos em quais classes?”

“A maioria, exceto umas três ou quatro disciplinas.” Ele respondeu, dando de ombros.

“É um ótimo curso.” Rachel disse animada. “Eu lembro que mês passado fizeram uma pequena exposição com trabalhos das turmas, foi tão maravilhoso! E mês que vem tem a exposição do professor Nechvatal, provavelmente nós teremos algum trabalho a fazer.”

Gerard tentava não demonstrar sua surpresa em ver a garota falando tão animada sobre trabalhos e o curso em si. Será que ela gostava mesmo ou queria impressionar alguém? De uma forma ou de outra, ele tinha vários motivos para duvidar de cada palavra que pudesse sair da boca dela. Mas ele não demonstraria o que pensava, não ali. Principalmente com o primo da jovem mostrando-se tão atento ao que ela dizia. Atento demais.

“Vocês também estão trabalhando num projeto, não é?” Ela fitou Jared com um sorriso.

“Está bem informada, heim.” Ele apenas arqueou a sobrancelha.

“Eu contei a ela.” Thomas sorriu. “Nós teremos uma amostra daqui a dois meses, de um curta-metragem que estamos fazendo. Já podemos sentir como é trabalhar num filme de verdade, isso me deixa nervoso e animado!”

“E você tem se saído bem como diretor.” Jared sorriu e bebeu um gole de vinho.

“E você está ótimo como o protagonista, meu caro! Esse curta fará o maior sucesso entre as garotas do SVA.” Ele soltou algumas risadas antes de beber o que restava em seu copo.

“Você está protagonizando o curta?” Os olhos de Rachel pareceram brilhar de excitação.

“Sim, mas não é tão grande coisa quanto parece. Eu não vou aparecer tantas vezes assim, e o meu figurino é o pior.” Ele limitou-se a sorrir.

“Não deixe Emma ouvir isso ou ela arranca sua cabeça! Saiba que ela escolheu seu figurino com todo o carinho do mundo.” O sarcasmo na voz e na expressão de Thomas era evidente.

“O carinho dela por mim é realmente notável, principalmente quando me critica.”

“Bem, mas de qualquer forma eu acredito que será muito bom.” A loira comentou, chamando a atenção dos dois de volta para si. “Podem contar com meu apoio caso precisem!”

“Obrigado, Rachel.” O primo lhe sorriu com gentileza mais uma vez.

Gerard já estava começando a ficar incomodado com tudo aquilo. Não sabia bem explicar por que, mas era como se algo naquele ambiente de repente tivesse se tornado insuportável. Observou todos os outros conversando e teve vontade de sair correndo dali. Batia o dedo indicador sem parar contra o copo de vidro que segurava, impaciente.

“Está se sentindo bem, Gerard?” Logo ouviu a voz de Jared lhe sussurrar, meio preocupado.

“Ahn?” Voltou seu olhar surpreso para o outro rapaz. Ele percebeu gotas grossas de suor começarem a escorrer pela testa de Gerard.

“Você parece muito mal. O que está sentindo? Precisa de algo?” Sua preocupação parecia mais acentuada agora, prestando bastante atenção ao outro.

“Eu... eu estou bem. Talvez o vinho não tenha caído bem no meu estômago vazio.” Ele disse enquanto forçava um sorriso divertido; ação que fora logo percebida.

“Está acontecendo alguma coisa?” Thomas observava-os confuso e levemente preocupado, e sua pergunta acabou atraindo a atenção de algumas das pessoas para o sofá em questão.

Gerard começou a se sentir pior com tantos olhares sobre si, sentindo que logo perderia o controle. “Será que eu poderia... usar o banheiro?” Perguntou com bastante esforço.

“... Claro. Subindo as escadas, primeira porta à esquerda.” O rapaz respondeu-lhe mais confuso ainda.

Levantou-se apressado e deixou o copo sobre a mesa, caminhando rapidamente para a direção onde vira as escadas. Já não prestava atenção em nada, estava ocupado demais subindo e procurando a porta indicada. Entrou afoito e trancou-se, apoiando os braços sobre a pia e respirando fundo. Além daquela sensação de desconforto, sentia um tremor começar a tomar conta de seu corpo e um vazio que parecia devorar suas entranhas.

Entendeu então o que era; o efeito havia passado. Mas ali ele não poderia fazer nada.

A fim de tentar minimizar tudo que estava sentindo, tirou de um bolso da jaqueta um vidrinho laranja e tirou um comprimido da mesma forma desesperada. Colocou-o na boca e abriu a torneira, bebendo a água como se sua vida dependesse disso. Respirou fundo mais uma vez e se olhou no espelho. Olhos vermelhos, suor, dor.

Lavou o rosto imediatamente e fechou a torneira, enxugando o rosto logo depois. Começava a se sentir mais calmo pelo fato de ter tomado o comprimido, mesmo sabendo que levaria alguns minutos até surtir algum efeito. Mas pelo menos passaria o restante da noite bem, até poder retornar ao apartamento e tomar o que realmente precisava. Então ele ouviu o término do CD e o silêncio reinar na casa. Aquilo deixou-o melhor.

Lá embaixo, Jared colocou o copo vazio sobre a mesa e fitou o nada enquanto pensava. A reação de Gerard não lhe era estranha; ele já vira a mesma cena, em algum lugar de seu passado. Thomas, por outro lado, pensava ser apenas um mal-estar momentâneo e resolveu não tocar no assunto, distraindo os colegas ali presentes. Rachel aproveitou a ocasião e levantou-se de seu lugar, indo sentar ao lado do rapaz de olhos azuis.

“Está tão preocupado assim com o Way?” Ela tentou disfarçar que não se importava tanto.

“Sim. Ele parece muito mal, e foi de repente.” Jared limitou-se a dizer nada que ela já não soubesse. Se ele contasse o que suspeitava, e logo para ela, não seria nada bom.

“... Vocês viraram amigos tão repentinamente. Até ontem nem se conheciam, e já até convidou-o para vir à minha casa.” Dessa vez, ela não conseguiu conter o desprezo na voz.

A expressão de Jared não mudou; apenas virou o rosto e lançou-lhe um olhar frio. “Talvez, Chatwin, se você tentasse conhecer melhor as pessoas ao invés de se esconder atrás do dinheiro da sua família para se gabar, você veria que nem todos são desprezíveis.”

Jared levantou-se num impulso e dirigiu-se para fora da sala em direção à escada, deixando uma Rachel totalmente estática no sofá. Apesar de estar nervoso, tentou ser o mais delicado possível, se é que era possível. Não era o momento mais apropriado para explodir com as investidas da garota. E esta, por sinal, continuava sentada da mesma forma que antes, com os olhos azul-escuros alargados e fixados no chão.

Aquela fora a primeira vez que ele usara palavras tão grosseiras. E tudo por culpa daquele idiota do Way. Além de vir sem ser convidado por ela, ainda fizera aquele papel todo. As palavras de Jared pareciam ecoar em sua mente cada vez mais. O que doera mais não foram as palavras em si, pois não eram tão fortes; era o significado nas entrelinhas. Ele a considerava mesquinha e egocêntrica, era isso? Não, ele não podia ter essa imagem dela. Não depois daquele ano inteiro que ela passara tentando causar boa impressão.

Thomas percebeu a aflição da prima e ficou extremamente preocupado. Tocou-lhe o ombro esquerdo de forma hesitante, o que a fez virar o rosto e encará-lo profundamente. Sentiu-se desarmado. “Rachel, o que aconteceu? Jared disse algo de errado?”

“Não... não é nada disso. Não se preocupe.” Ela murmurou e desviou o olhar, tentando se conter. Sabia que, não importava quem fosse, se a pessoa fizesse ou dissesse qualquer coisa de ruim para ela, o primo tiraria satisfações na hora. E tudo que ela menos queria era que ele brigasse com Jared, ou suas chances de contato com ele diminuiriam drasticamente.

“... Tudo bem então.” Ele apenas suspirou e também virou o rosto.

Havia algo errado sim, conhecia a prima bem o suficiente, mas sabia que ela não contaria. Ela nunca contava nada que envolvesse seu amigo Jared, pois tinha uma queda enorme por ele desde o ano anterior, quando foram apresentados um ao outro na festa de aniversário de vinte anos dela. Uma parte dele se arrependia amargamente disso, já que desde aquela noite parecia que o seu principal objetivo era conquistá-lo de qualquer jeito. Isso o enlouquecia, mas ele tivera que se resignar com a idéia; uma hora ela se cansaria, pois o amigo nada queria. Só não o perdoaria se ele de alguma forma brincasse com ela.

Enquanto isso, Jared terminava de subir os degraus da escada e batia na porta do banheiro um pouco hesitante. Ele já estava nervoso por causa de Rachel, e esperava não ter nenhuma surpresa desagradável agora. Quando ouviu a porta ser destrancada e logo a mesma se abrir, respirou aliviado por ver Gerard aparentemente bem.

“Você está melhor? O que aconteceu?”

“Estou bem, obrigado. Foi só um mal-estar... acho que foi mesmo o vinho que não caiu bem.” Ele apenas sorriu enquanto fechava a porta. “Devo ter feito você passar vergonha com tudo isso, e sinto muito.”

“Não se preocupe, vários amigos do Thomas costumam fazer coisas muito piores do que sair correndo.” Jared também esboçou um sorriso, embora por dentro não estivesse engolindo o que o outro dissera. “Escute, provavelmente servirão o jantar em alguns minutos, então se você quiser ir embora logo esta é a chance, ou então não escaparemos mais.”

“Está perguntando isso por preocupação mesmo ou por querer se livrar da Chatwin?” Gerard arqueou uma sobrancelha enquanto descia alguns degraus e sorria divertido.

O outro apenas o seguiu e pendeu a cabeça para o lado direito. “As duas coisas.”

“Já que foi sincero, podemos ir então. Conheço um restaurante chinês ótimo perto daqui.” Terminou de descer as escadas mas não soltou o corrimão, esperando a leve tontura passar e desejando que ele não percebesse.

“Então vamos nos despedir do Thomas.” Jared ainda mantinha o mesmo sorriso e passou o braço esquerdo pelas costas de Gerard, deixando-o confuso. “Direi que você não está passando muito bem e o levarei para casa. Quando se trata de doenças ele logo acredita.”

“Okay, senhor ator. Só não espere que eu o convide para entrar, você me deu o fora antes de chegarmos, lembra?” Gerard deixou escapar uma risada baixa e pôs o braço direito sobre o abdômen, como se estivesse com dor no local.

“É uma pena saber disso, eu estava alimentando esperanças.”

Quando chegaram à sala de novo, assumiram posturas sérias e contaram a Thomas o que supostamente se passava, desculpando-se por terem que ir tão cedo. O rapaz acreditou e os tranquilizou, dizendo que com a saúde não se deve mesmo brincar. Rachel quase ficara roxa de raiva, o que fez Gerard pensar que ela acabaria jogando uma maldição sobre ele. Se é que já não havia jogado.

E após saírem da casa, entreolharam-se e começaram a gargalhar no meio da rua, enquanto se dirigiam ao tal restaurante chinês que o rapaz de olhos verdes havia mencionado.

Continua.