Something Wrong - Pernico
3 Capítulo 2
Notas iniciais
– Quero que abram o livro na página 5.
O professor falava lá na frente, quase sem parar. Escrevia algo no quadro também, mas eu não conseguia ver absolutamente nada.
– Será que dá pra abaixar a cabeça? – falei, minha voz quase tão alta quanto a do professor. O garoto em quem eu esbarrei na entrada estava tapando minha visão.
Percebendo que falava com ele, provocou-me, erguendo-se ainda mais alto, fazendo com que eu perdesse a visão do quadro-negro por completo.
– Obrigado – disse irritado.
Ele e seus amigos começaram a rir.
– Silêncio! – vociferou o professor, que eu secretamente apelidei de Careca.
Depois de mais uma meia-hora de explicações incessantes, eu já havia me perdido em meus próprios pensamentos. As explicações do professor passavam por despercebidas.
“Você... seu babaca! Filho da puta!”
Ele riu.
“Seu veadinho de merda... Não se deixe enganar, Di Angelo. Você é um puto veado.”
As lágrimas estavam prestes a cair, e eu não podia deixar que elas molhassem meu rosto.
“Você... prometeu.” – disse, sem conseguir controlar a mim mesmo; sem manter-me firme e em silêncio.
– Nicolas? Nicolas!
Demorei um pouco para perceber que Careca falava comigo.
– Nico – respondi. – Pelo amor de Deus, meu nome é Nico.
– Não responda para mim dessa maneira! Pensa que é quem? – uma veia saltava em sua testa. – Responda a pergunta número dois da página vinte e seis, garoto.
Folheei rapidamente o livro. Ao me deparar com a tal pergunta, meu coração acelerou e percebi que não sabia nada sobre aquilo. Respirei fundo, mas continuei em silêncio.
O garoto dos olhos verdes ergueu o braço.
– Diga – falou o professor, o incitando a dizer o que queria.
– Sabe, acho que ele estava perdido demais em pensamentos para notar a aula... ou talvez só seja burro mesmo. Não podemos discriminá-lo, não é mesmo, professor? Dê um desconto a ele! – disse, irônico. Seus amigos riram.
Careca bufou.
– Dezesseis anos e parece uma criança! Santa infantilidade... Perseus, então por que não responde a pergunta para mostrar seu alto QI para a classe?
A turma riu.
– A culpa não é minha se eu tenho dislexia. – e depois virou-se para as risadas, e imitou nervoso: — Há-há.
– E a culpa não é dele – apontou para mim – se esse é o primeiro ano dele em uma escola. Há-há.
Subitamente, todos olhares voltaram-se para mim, curiosos.
– Voltando para a aula... Michael, cale a boca aí atrás!... enfim, quem me responde a pergunta 2?
#
O dia estava chegando ao fim, na escola. Logo, logo, eu estaria em casa.
Odeio admitir, mas meu primeiro dia estava sendo uma grande merda.
Minha próxima aula seria de literatura, e, por uma felicidade do destino, Perseus não estaria lá.
Eu estava a caminho da sala quando ouvi um som parecido com um rugido, ao longe. Porra! E eu já achava que finalmente me livraria dos “monstros”. Ri baixinho, para mim mesmo, e continuei andando.
O soco atingiu em cheio meu estômago, derrubando-me no chão. Logo após isso, veio uma sequência de chutes, socos e pontapés. Eu não tinha mais força para me levantar, o que só os fazia rir mais. Aquilo parecia nunca ter fim.
Tentei ocupar meu cérebro com alguma outra coisa, lembrando a mim mesmo sobre aquela reportagem em uma revista, que dizia que a dor era inteiramente psicológica. Talvez, pensei, essa dor excruciante passe se eu pensar em qualquer outra merda.
Mas não havia o que fazer. Poderia ocupar meus pensamentos com os mais lindos e gays unicórnios do universo, mas aquela dor não passaria. Aquilo me matava, me rasgava, me queimava por dentro.
Mas, pior do que isso, só a dor interna que eu sentia. O pesar de meus sentimentos e pensamentos. As terríveis lembranças e os terríveis fatos que me levaram àquilo. A parte externa estava sendo mutilada e morta, mas a interna continuava viva, e era a que mais machucava.
É, talvez a dor seja psicológica mesmo. Só não do jeito que eu imaginei.
Então, algo rugiu ao longe. Raaawr.
Seria minha imaginação?
Provavelmente, sim.
Mas, por enquanto, poderia servir de distração.
#
– Alguém pode me dizer o que originou o termo “suspense”?
Uma simpática professora de cabelos grisalhos perguntava.
– Alguém? Hum. Quero que pesquisem, então. Para a próxima aula. – voltou-se para o quadro, e escreveu a frase “somos infinitos” – Talvez alguns conheçam esta citação, pois não é de um livro clássico. Stephen Chbosky compôs um cenário comum, mas incrivelmente fantástico em “As Vantagens de Ser Invisível”. Garanto que muitos dos que leram o livro se identificaram com Charlie. Alguém aqui já leu?
Lentamente, alguns ergueram o braço – inclusive eu.
– Ótimo! Então, o que acharam? – ninguém respondeu, e ela direcionou seu olhar diretamente a mim. – Nico, não é mesmo?
Confirmei com um aceno tímido de cabeça.
– Pode me dizer o que achou do livro?
– Ahn... bom. Eu... gostei. Muito.
Ela franziu o nariz.
– Uma resposta bem subentendida, mas vale. Então... Ketleen? Pode respon...
Nesse exato momento, o alarme de incêndio tocou. A professora arregalou os olhos, como se dissesse: “O que está havendo aqui?”.
Meus colegas entraram em pânico, e se amontoaram na porta, tentando desesperadamente sair da sala de aula. Segui o fluxo, pois simplesmente achava que não seria legal morrer asfixiado ou queimado.
Mas, quando já havia saído da sala, não vi fogo ou sequer fumaça. Pessoas me empurravam, e novamente tive que andar com elas – agora para salvar-me de morrer pisoteado.
Quando, finalmente, encontrei um caminho para onde o grande grupo não havia seguido, e onde eu teria alguma chance de ficar sozinho e talvez até de salvar minha vida, algo atingiu minha perna, por trás. Oh, não, pensei. Isso foi o tiro de uma arma. Não parei. Escorei-me nos armários e tentei andar o mais rápido possível. Não olharia para trás.
Então pensei: não fazia sentido algum, já que não provocara nenhum barulho. Silenciador, talvez. Mas, novamente, não fazia sentido. Por que alguém estaria armado em uma escola? E por que essa pessoa usaria um silenciador? Um atentado? Uma chacina? Podia ser. Mas por que logo eu? Por que ele não atacara o grande grupo?
Todos esses pensamentos passavam rapidamente por minha cabeça, como um raio.
Diante das pressões física e psicológica, não aguentei e desabei no chão frio. Game Over. De bruços, rolei de modo a ficar deitado de barriga para cima, tentando desesperadamente ver o que me atingira. Eu já estava fodido mesmo; que diferença faria? Eu só queria ver o rosto do filho da puta antes de morrer.
Mas o que eu vi não foi um homem fortão, com seus músculos quase rasgando a camiseta, e um rosto que faria as menininhas gritarem no cinema. Eu vi um homem de meia-idade, calvo e gorducho. Sua camisa estava quase se rasgando, sim; mas pela barriga saliente.
Franzi o cenho, e logo depois olhei para minha perna. Eu não vi apenas sangue: vi um espinho.
Há-há. Não esse espinho que você pensa. Não um espinho de uma rosa. Um espinho de uns 30 centímetros de comprimento e um diâmetro parecido, que ia afinando conforme o comprimento e que ficava parecido com uma caneta bic na ponta. Aquela era a pior dor que eu já havia sentido.
Pouco a pouco, minha perna foi ficando dormente. O homem riu, quando me assustei.
– Não se preocupe! É o efeito do veneno, garoto. Ele se espalha rápido, não é mesmo?
Sua voz era rouca, mas não do estilo vocalista de Heavy Metal – parecia que ele tinha sido atropelado e suas cordas vocais dilaceradas no acidente. Acredite, era repugnante.
Gritei de dor, enquanto o homem apenas ria.
De repente, quando eu já havia perdido as esperanças de sobreviver, alguém pulou no pescoço do homem, com uma... aquilo era uma espada?!
Era o garoto dos olhos verdes.
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