Somente para Ela

1 Teoria da Destruição


Notas iniciais
Uma manhã de ressaca pode trazer sérias consequências para uma jovem.

TEORIA DE DESTRUIÇÃO

Não sabia se era para esconder uma tristeza que não admitia, ou se era simplesmente o ouvir das conversar dos amigos e o som alto da música. As cores pareciam mais fortes e intensas. O copo estava sempre cheio. Sabia que alguém o enchia constantemente. Mas estava bem. Não era nada que já não tivesse feito. Estava lá para se divertir. Talvez arranjar um paquera novo. Beijar alguém bonito e dormir com largo sorriso nos lábios. Por fim tudo ficaria bem, sua melhor amiga, seu novo amante ou um conhecido encontrado ao acaso no local, lhe renderiam uma carona.

Tirou os cabelos negros dos olhos, e tentou de maneira difusa focar o próprio quarto. Mas não teve muito tempo para se lembrar em como chegara ali. Sentiu o estômago doer e saltou da cama. Afastando as cobertas, ainda descalça, correu para o banheiro.

Colocou as mãos na parede e vomitou no vaso sanitário. Olhou aquela gosma transparente e mal-cheirosa por uns segundos, tentando avaliar a situação. Então deu a descarga e sentou-se no chão do banheiro. Exagerara de novo. Já deveria ter levantado duas ou três vezes para vomitar. Seu estômago já não tinha o que oferecer, mas seu corpo ainda tentava se livrar do excesso de álcool no organismo.

Como chegara em casa? Quem a levara? Não conseguia se lembrar. Tudo parecia distorcido e confuso. Abraçou os próprios joelhos e só então viu os talhos feitos nos braços. Cortes não muito profundos, alguns afiados e precisos, como a espada de um samurai. Outros lembravam uma tesoura cega tentando cortar papelão. Como fizera aquilo em si mesma. Ou quem fizera?

Levantou-se do chão do banheiro e voltou ao quarto. Os lençóis possuíam manchas de sangue e uma das facas da cozinha estava caída ao pé da cama. Olhou para os braços de novo. Imaginou se teria os feito sozinha. Alguns pareciam se encontrar em locais que ela não conseguiria infligir em si mesma. Foi até a porta da sala. Destrancada. Mas isso não significava nada. Ela poderia ter esquecido de fechar ao entrar. Imaginou que se alguém tivesse feito aquilo a ela, teria roubado suas coisas. Mas seu carro ainda estava na garagem e aparentemente nada de valor havia sido levado.

Voltou ao quarto e sentou na cama. O que tinha acontecido no dia anterior? Envolvera-se com alguém? Quem a levara para casa? Os pés não estavam doendo, então ela não voltara andando. Dúvidas. Exageros, sempre seus exageros. Tinha o rosto entre as mãos, escondendo os olhos da claridade que invadia o quarto. Refreando as ânsias que seu corpo insistia em lhe aplicar. Ouviu o celular tocar. Não precisou atender para saber quem era. Tinha um toque específico para cada um de seus amigos. Aquele pertencia ao membro mais recente do grupo, mas com quem criara uma rápida intimidade. Estendeu a mão para atender. Mas parou no meio do movimento.

Ouvira o mesmo som quando fora pagar sua conta, na noite anterior. Lembrava de ter tirado o telefone da bolsa e atendido. As palavras do outro lado da linha lhe pareceram distantes e atrapalhadas. Mas ela ouvira um nome, aquele nome, que ela jurara nunca mais pronunciar. As lembranças lhe pareceram desencontradas, mas ela sabia o que tinha ocorrido afinal.

Pegou uma toalha e se encaminhou ao banheiro. Ficou um longo tempo sentada dentro do box. Deixando que suas lágrimas se misturarem as gotas do chuveiro. Olhou para os cortes nos braços. Muito superficiais para matá-la, mesmo que tivesse perdido uma grande quantidade de sangue. O que tinha feito? Mais uma vez se punido? Mais uma vez voltado contra si mesmo? Deu de ombros e sorriu amargo. Preferia esquecer a noite anterior. Esquecer do que fizera. Do que fizera a si mesmo. De que havia derramado sangue ao invés de lágrimas. Ela precisava de punições maiores.

Notas finais
* dedico a fanfic as duas pessoas que mesmo sem saber me incentivaram a escrever: ao meu sempre e fabuloso Mauricio e ao doce e criativo Lantis.