Someday

1 Something like cookies


Notas iniciais
Vincent e Chris... Cookies! Pecadores?

Era um sábado, eu completava meus dez anos de idade quando minha mãe aparece em minha cama com uma caixa enorme embrulhada em papel de presente de carros envenenados e com as rodas em chamas. Não era de costume deles me presentear daquela maneira, mas ainda era muito novo para me preocupar com qualquer coisa do tipo, até porque minha atenção se resumia a curiosidade de saber o que eu iria ganhar naquele ano. Eu pulo da cama, fingia que dormira a noite toda quando chegaram, ficando de olhos fechados e corpo envolto pelas cobertas até me tocarem. O som da canção de parabéns ecoou por toda a casa naquele dia, eu ganhara meu tão sonhado kit de ferramentas do Harold e Cia — um programa de TV que assistia na época. Lembro-me bem de como passei o dia inteiro montando coisas inúteis mas tão puras com aquelas ferramentas de plástico e madeira de isopor. Aquele foi um dia feliz.

Quando a tarde, já se passava perto das cinco da tarde quando nos aprontamos e fomos para a casa da minha avó, onde todos me esperavam para os parabéns, amigos, parentes e vizinhos, todos naquele quintal enorme todo enfeitado de balões e quadros do Harold. Sim definitivamente aquele foi um dia feliz. Embora naquele dia, eu fosse descobrir com um amigo de anos atrás algo que mudaria tudo em minha vida.

Enquanto serviam o jantar eu e ele estávamos abrindo meus presentes no quarto do meu tio — estávamos sós — que ficou viajando e não pode comparecer, quando Chris foi atrás de algo pontiagudo para cortar as cordinhas de um boneco que estava preso na embalagem, logo encontramos cigarros, DVD's com pessoas nuas na capa e um canivete, tudo embaixo de dois porta retratos que davam a impressão de que a gaveta estava lotada. Chris ficou muito agitado, ele não soube reagir aquilo, e quis assistir para ver do que se tratavam os tais filmes. Eu mais sensato como sempre, recuso e o alerto que alguém poderia ver-nos mexendo nas coisas do meu tio. Ele me ignora e coloca mesmo assim, para nossa surpresa o filme já iniciava com duas mulheres se beijando intensamente e ambos ficamos completamente sem graça, sem entender nada eu pauso e pergunto a ele

"Você já tinha visto algo assim?"

"Nunca... Mas porquê tem duas mulheres?"

"Minha mãe falou que essas pessoas são pecadoras, e que não se deve fazer isso ou você morre!''

"Mas elas não parecem mortas, não entendi essa."

"Você acha que é mentira?"

"Vamos testar! Se for mentira a gente fica bem!"

"E eu vou arriscar? Vai que a gente morre mesmo?"

"Eu não acredito nisso! — Aproxima-se de mim rapidamente e me beija"

"Meu Deus! E agora? Vamos morrer?"

"Nossa — ri descontroladamente — Você beija muito mau."

"Nunca conte isso a ninguém, senão te mato!"

"Eu arriscaria a minha imagem? Promete? Jure de dedinho. — estende o dedo mindinho pra mim, e assim juramos"

Algo me foi estranho naquele momento, eu senti alguma coisa diferente em mim, como se tivesse gostado mais do que estava assustado com o que ele tinha feito, e por mim, não teríamos parado. Isso me fez depois parar pra pensar sobre o que mamãe disse que as pessoas nascem pecadoras. Será que eu era mesmo um pecador e que eu ia morrer? Só me restava ignorar isso, e viver minha infância em paz.

Guardamos tudo e voltamos a brincar, ele o vilão como sempre e eu o mocinho, o estranho é que ele sempre ganhava, eu reclamava que o vilão nunca ganhava do super herói, mas ele dizia que isso era só influencia da mídia. Minutos depois minha mãe aparece com uma bandeja cheia de cookies diversos, e eu pego o com chocolate colorido e ele o que não tinha nada. Sempre fomos muito diferentes. Modo de pensar, conversas, interesses, e nunca imaginamos o quanto isso los levaria a viver os melhores momentos de nossas vidas.

...

Cinco anos depois, estávamos no ensino médio e novamente no meu aniversário em um shopping qualquer saímos eu e meus amigos mais chegados pra assistir um filme sobre uma detetive e sua companheira em busca de um fugitivo nos EUA, nada demais. Em certo momento quando fomos para a praça de alimentação, ficamos só eu e ele na mesa, todos tinham ido comprar algo e então ele me chama para andar com uma expressão tensa de como se algo ruim fosse acontecer. Paramos na área de brinquedos a qual sentamos em um daqueles video games de carro, e ficamos lado a lado conversando sobre o filme, e foi num segundo de silêncio quando o assunto surgiu.

"Não estamos mais do mesmo jeito que antes não é Vincent? Mudamos, crescemos. Não foi muito eu sei, mas já é algo para se colocar no currículo. Tantas coisas que já passamos juntos, sei que não foram as mais seguras, corretas ou até necessárias, mas cada uma foi especial."

"Não entendi qual a conexão disso com o que estávamos falando"

"Você acha ruim? Ser diferente?"

"Eu nunca parei para pensar o quão ruim pode ser, mas imagino que diferenças não aceitas são piores que qualquer male."

"Imagine aquelas diferenças escrotas, as quais você para um momento da sua vida para refletir sobre elas e decide que tem que aceitar como você é..."

"Sei, eu entendo"

"Eu só não faço ideia de como contar pros meus pais! — e seus olhos se encheram de lágrimas"

"Essa deve ser a pior parte!"

Ele segura minha mão, e enxuga as lágrimas com a outra. Eu já havia entendido o que ocorrera ali, e em silêncio sorrira para minhas ideias ao aliviar-me de uma dúvida que me assolava a anos, mas em tentativa de consolo e em negligência de meu próprio egoísmo eu indago a ele para confortá-lo.

"Eu não faço a menor ideia de como contar aos meus! No meu caso minha mãe surtaria, e entraria em estado de choque... Poderia até se matar."

Ele ri, mas prefere manter o silêncio, quando somos interrompidos por um casal com seus filhos que nos pergunta se íamos usar o brinquedo ou se eles poderiam usá-lo. Então saímos, e enquanto caminhávamos ele me abraça e me diz as frase mais linda com a maior fragilidade e pureza que já pude perceber em seus olhos.

"Eu te amo muito cara. Nunca esqueça isso!"

Eu não respondo, e apenas represento o que sentia com um sorriso tímido e sem graça, abraçando-o de volta e correspondendo ao que ele acabara de me dizer. Depois disso enquanto passávamos pela praça de alimentação durante o retorno ao cinema, paramos em um quiosque e compramos o que ali passaria a ser o símbolo de nossa amizade, um cookie colorido meu e um tradicional dele.

Notas finais
Espero que gostem! Dêem-me mais uma chance! Clique no botão "Póximo capítulo", e experimente continuar a leitura, comentar também ajuda muito! OBG E BJOS