Someday
2 Kissing after drinking
Notas iniciais
Chegamos ao meio do segundo semestre, e nada demais tinha acontecido. Mesmo sentindo que nossa amizade havia evoluído, ele continuava distante. Certo dia em um aniversário qualquer estávamos nós e outras duas amigas nossas, Syan e Catherine, ambas muito próximas de nós. Ele me chama para conversar sobre alguma coisa em uma parte isolada do salão, entramos em uma área descoberta e que dava para uma escadaria que levava para o segundo andar — uma área que não estava sendo utilizada na festa, para tanto não havia decoração nem nada e era bem apertada. Ele parecia nervoso e estava com um copo de algo que cheirava muito forte a limão e álcool. Inicia a conversa.
"Não sei se percebeu mas eu to meio afim de alguém"
"Sim eu percebi. Ela parece bem interessada também! Deveria falar com ela, quem sabe não rola algo entre vocês."
Ele se irrita perceptivelmente, e minha indagação foi bem distante como se eu não concordasse com o que ele estava fazendo.
"Você é imbecil? Sabe que eu sou... E sim eu sei que Cath está gostando de mim e esse é um grande problema, somos grandes amigos já faz uns anos e eu gosto muito dela! Acho que isso pode ser um grande obstáculo entre a gente porque eu ainda não contei pra ela. Então para com essas brincadeiras sem graça!"
"Desculpa Chris, não sabia que isso era sério. Pensava que tava brincando sei lá, tu nunca fala sério."
Ele bebe um gole enorme e o copo que estava quase cheio caiu para menos da metade. Ele tosse e aperta os olhos com os dedos como se pensasse profundamente, de repente, ele desaba no chão derrubando o copo e chorando inconsolavelmente e eu fico sem qualquer ação por segundos. Mas não entendo o porquê de ele estar chorando por aquilo, afinal, mesmo sendo gay é sempre bom pra autoestima saber que tem alguém gostando de você. Eu me agacho ao seu lado e pergunto o que lhe ocorrera, ele demora um pouco pra responder mas no fim me conta tudo.
"É que... Eu não sei mais o que fazer! Eu estou muito nervoso com as coisas que estão acontecendo na minha cabeça, eu to gostando de duas pessoas ao mesmo tempo, e isso está me confundindo completamente e eu meio que às vezes me deparo com a escolha de em quem investir em quem é a melhor pessoa para eu me relacionar ou até mesmo como eu vou me livrar dos outros problemas que estou tendo em casa."
"Espera foi muita informação. Tu ta gostando de quem?"
"A Catherine e... Bom... Você sabe..."
"Não eu não sei...”.
Ele sem mais pensar, e da forma mais súbita possível joga o copo de vidro no chão e me beija. Em completa inércia eu não reajo aquilo e passo todos os segundos que durou processando o que estava acontecendo, e logo em seguida ele me empurra e sai correndo desesperado, quando tomo noção do ocorrido vou atrás dele e deparo-me com ele vomitando ao lado da porta e se engasgando, atraindo a atenção de todos que estavam no salão no momento. Ele olha para mim nos olhos, me encara e segue limpando a boca com o braço em direção ao banheiro. Quando os olhos de todos se voltam a mim no instante que ele sai, eu só fecho a porta e me escondo atrás dela, e durante os próximos minutos eu fico ali pensando no que aquilo tinha significado.
Depois de certo tempo, eu voltei para a festa e entrei na pista de dança onde esperava encontrá-lo com elas. Para minha surpresa ele estava lá, mas estava na parede com Catherine, envolvendo-a. Tinha acabado de me recuperar do choque pelo qual passara minutos atrás e já o via beijando-a loucamente pressionando-a contra a parede, corro para o lado de Syan e a pregunto o que estava acontecendo, ela com a maior naturalidade do mundo aplica ironia a sua resposta.
"Eu estou pegando todo mundo não está vendo? Quanto aos pombinhos ali, ele falou com ela por dois minutos depois de chamá-la pra conversar naquela mesma parede e ali estão desde então..."
Eu rio, e a abraço. Como não esperava outra reação vinda dela, ela corresponde ao abraço e me segura indagando que gostava da música que estava tocando naquele momento, e se ainda me lembro era Stay High, não sei como se dança valsa escutando aquela música mas foi o que ela me fez fazer ao me arrastar pro meio da pista e dançar comigo toda agarradinha ao meu peito, ela estava cheirando a álcool — ignora-se a ironia e obviedade do momento — mas algo nela me fazia achar que tinha que consolá-la de alguma forma. Eu apoio sua testa na minha, como era mais alto que ela foi uma cena engraçada, mas ainda sim foi um momento bem especial, eu então a pergunto.
"Está acontecendo alguma coisa? Eu pelo menos posso fazer alguma coisa pra te deixar melhor?"
"Se você parasse de ser fofo e me beijasse logo seria ótimo"
"Melhor obedecer"
Não foi algo do que me orgulho de ter feito, foi espontâneo, mas foi algo bem estranho de se pensar com o passar do tempo. Quando Chris viu a cena em um momento qualquer que abriu os olhos enquanto ficava com Catherine, ele não apenas travou como a apertou mais forte e fez com que todos na pista de dança parassem e começassem a nos olhar e iniciou-se assim uma disputa, quando eu e Syan percebemos o que estava acontecendo nós entramos na disputa, eu a sentei em um dos bancos e me posicionei entre suas pernas enquanto penetrava fundo com os dedos entre seus cabelos na nuca. Chris então subiu um pouco do vestido de Cath com a mão e com a outra subiu da sua cintura também para a nuca dela, ela por sua vez apertou sua bunda e colocou sua outra mão por dentro da sua camisa pelas costas, Syan não deixou por menos e tirou minha camisa superior, deixando-me apenas com a camiseta normal e entrelaçando os braços em volta do meu pescoço depois de por um de minhas mãos no seu peito. Todos vibravam cada vez mais, e como a situação estava intensa um daqueles garotos que são metidos a certinhos chamou um dos pais que terminou com o que ele chamou de "palhaçada", separando-nos após estremecer toda a estrutura do Buffet com um grito grave ensurdecedor. Após isso ele proibiu todos de ficarem na pista — embora não muito eficaz, foi o suficiente para manter todos longe por alguns minutos — e irem jantar.
Depois disso, fomos os quatro para a mesma mesa cada um com um prato bem diferenciado do outro, e o contraste sobre a mesa branca ficou tão bonito quanto às expressões estranhas que ocupava o rosto de cada um, mutuamente. Para cortar o silêncio, e como de costume Chris faz sua pronunciação.
"Eu não faço a menor ideia do que foi isso, mas eu gostei muito!"
"Eu imagino que todos gostaram, embora não tenha sido nada demais pra alguns.”
"Disso eu tenho certeza Syan, agora eu não tenho mais certeza se fiz ideia ou não... Vincent posso falar com você?"
"Mas de novo? Já não está satisfeito por hoje?"
Eu estava bem irritado com o que tinha acontecido, não tinha conseguido interpretar de quem afinal ele estava falando naquela conversa escrota que não teve nexo algum. Mas apesar de tudo, eu não entendi o motivo o qual ele tinha ficado com Catherine e passara vagamente pela minha cabeça que a segunda pessoa era eu, mas logo descartei a ideia. Resumindo, eu estava completamente desconfortável com a presença dele, comi muito minimamente e Syan nem tocou na comida, a única que comeu foi Catherine e mesmo assim foi pouco – todos estavam sem apetite pela bebida – me levantei e a chamei, e então saímos de lá, enquanto isso Chris me seguiu com os olhos ignorando o que Cath estava falando.
Eu então converso com Syan, omito sobre minha parte, e explico a ela o porquê que Chris havia feito aquilo. A melhor parte foi perceber que não havia nenhuma expressão de surpresa da parte dela, e minha dedução se conclui quando ela afirma que já sabia há tempos.
“Na verdade... Eu já sabia disso faz um certo tempo, quando ele me mostrou alguns de seus hobbies, a sua insegurança quando se tocava no assunto e pelo simples fato de mulheres não participarem do seu vocabulário cotidiano. E para mim, você era tipo... O carinha que gostou dele a vida toda, mas sempre prezou tanto a amizade que decidiu deixar para lá. E não esquecendo o fato de você não ter ficado excitado durante todo o processo essa noite!”
“E quem disse que foi bom? Você pode não ter sido eficiente.”
“Meu amor, meu nome é Syan e eu nunca falho!”
“Bom agora todos pensam que eu e ele somos os mais machões possíveis”
“Quem dera tudo fosse como todos pensam!”
Nessa noite ficamos lá eu e ela sentados numa bancada na festa durante todo o resto da noite, conversávamos e ríamos, nesse período bebemos meia garrafa de vodca que tínhamos pegue no bar sem ninguém ver, o fato de eu não precisar expressar com todas as palavras como me sentia para ela tornava nossas conversas mágicas e inteligentes. Mesmo assim nada disso tirava Chris da minha cabeça, e referente a ele, tentava parecer bem mais entretido do que realmente estava enquanto estava com Cath, e forçava visivelmente o riso para não aparentar estar tão entediado quanto realmente estava com sua mente distante. Não queria que terminasse daquele jeito e mesmo assim terminou. Antes de todos partirem, a aniversariante – Penny – o chamou para dançar com ela, e ele estava lindo nem o tinha visto sair para se trocar. A dança era combinada e era para ensaiar que ele faltava o curso de inglês que fazíamos à tarde depois da aula regular, comentei isso com Syan.
No fim, quando quase todos já tinham ido ficamos eu, ele e outros convidados não importantes. Tive que ficar com ele pois ia de carona com sua mãe, nenhum dos dois proferiu ao outro uma palavra sequer. Quando ela finalmente chegou entramos em silêncio no carro e então ela quebra o silêncio fazendo as perguntas típicas de pais que só querem arrancar algo do filho, animados por eles já frequentarem festas sozinhos.
“E então... Como foi? Dançaram, brincaram?”
“Foi bem legal mãe, só lembra que o Vincent mora na terceira rua na casa Verde.”
“Responda minha pergunta mocinho. – ria – Eu não entendo esses jovens de hoje em dia! Todos distantes e indiferentes com os pais, como se não os amassem!”
“Mãe, meu Deus, a senhora tem 34 anos é praticamente uma jovem, garantindo uma proximidade bem perceptível entre a gente. Desencana dessa de mãe experiente que a senhora é tão nova que nem amadureceu ainda!”
Eu me assusto com o comportamento dele. Mesmo ela sendo bem nova e relativamente “legal” na visão geral de qualquer adolescente, ele deveria respeitá-la mais, afinal, ela era sua mãe. Quando paramos na minha casa, depois de ela entrar na rua certa – após errar duas vezes, confundindo com a casa verde da rua da frente – eu tiro o cinto e Chris segura minha mão. A mãe dele logo se distrai com o sinal do telefone e vai checar suas mensagens, ciente disso ele me abraça e me beija no rosto, e em seguida segurando minhas mãos ele me olha nos olhos e suspira um pedido de desculpas. Pelo menos era o que eu havia entendido. Eu sorrio para ele de lado, e apenas aperto suas mãos e saio do carro me despedindo de sua mãe que nem atenção prestou.
Aquela noite me fez ficar pensando profundamente sobre o que eu tinha com Chris, era uma amizade de nove anos e eu não sabia o que fazer, ao lembrar-me do que Syan me disse sobre o que ela achava de mim e tudo começou a se conectar na minha cabeça de uma forma espantosamente nova. Ela me atraiu mesmo sendo mulher, e eu já tinha sentido isso quanto a outras amigas minhas, e ao mesmo tempo eu me sentia mais apaixonado por Chris que se tornava cada vez mais presente em cada pensamento que eu tinha. Agora só faltava mais um estágio do meu dia, minha mãe e seus conceitos antiquados que criticariam mais uma vez o fato de eu descumprir o horário marcado para chegar em casa.
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