Someday
10 Senior year - Part one
Notas iniciais
Passei o resto das minhas férias com Syan, ela ia frequentemente me visitar e passávamos as tardes inteiras vendo besteiras e conversando sobre o que tínhamos que fazer neste ano letivo. Quando chegávamos a falar das pessoas do colégio eu admito que eram os meus momentos favoritos, Syan era venenosa na língua e ela não poupava ninguém de suas opiniões rígidas.
Dizia que Karen era ótima, amiga, mas que ela tinha problemas de autoconfiança e que era mais insegura que espetinhos que vendem nas ruas. Falava que Cath era tímida e que seus estereótipos eram feitos com base nisso, pois poucas pessoas a conheciam de verdade. Que Chris não era tão crucificado quanto a sua homossexualidade quase pelo mesmo motivo, pois ele era mais discreto quanto a seu eu verdadeiro e ficava abertamente com várias meninas, às vezes chamado até de galinha.
Eu adorava ver as reflexões profundas que ela tinha com base nas suas observações meticulosas sobre o jeito de quase todas as pessoas que tínhamos em à volta. Eu comentava sobre as minhas, mas ela era muito cabeça quente para ouvi-las, quanto mais para concordar com as tais. Eu não me importava muito, não valia a pena discutir.
Eu também me aproximo muito de Mike nas férias, tínhamos nos afastado um pouco no final do primeiro ano depois de eu tê-lo traído sem querer. Ele estava ficando com Sasha e ia pedi-la em namoro no dia seguinte ao que eu fiquei com ela, sim eu estava sabendo, ele nunca mais falou com ela ou comigo do mesmo jeito, mas ele me perdoou. Tornamo-nos melhores amigos novamente, e isso era incrível.
As aulas começam, e é aquele clima de alegria pelo reencontro e a melancolia do último ano letivo de nossas vidas. Eu avisto Chris, mas não falo com ele, como a decisão era de sua parte ele – se quisesse – é quem deveria vir falar comigo, então optei por não força-lo a nada. No intervalo eu avisto ele e Cath juntos, e pelo que parecia ainda estavam namorando. Eu não tinha como saber, pois nas férias havia o excluído das minhas redes sociais e não ficava pedindo para ninguém para ficar me informando, e inclusive a minha mãe percebeu que eu estava distante dele, mas como ela não aprovava mais nossa amizade nem chegou a questionar se algo havia acontecido entre nós.
No final, quando toca o sinal para voltamos para nossas salas ele apenas acena para mim, Iana e Mike que estávamos juntos sentados ao lado da nossa sala e se vira novamente – éramos de salas diferentes, ele, Syan e Cath eram de outra turma, a que focava em exatas – para sua namorada. Isabel comenta comigo se eu estava bem com isso, ela sabia sobre o que nós tínhamos – na verdade quase todos minimamente próximos de nós já estavam sabendo – tido, e Mike também estava preocupado comigo, mas eu não estava no clima de respondê-los.
Levantei-me sem eles e entrei na sala, pelo resto do dia não falei com mais ninguém. Ele tinha conseguido, eu achava que ele já o tinha feito, mas percebi que ainda havia restado um pouquinho de mim e ele conseguiu achar e destruir. Eu estava desolado por completo, e decidido a ter novos objetivo para a minha vida a partir daquele momento. Apeguei-me mais aos estudos e mudei meu foco de profissão depois de uma aula incentivadora da coordenação, decidi fazer direito, vi que meu futuro estava em minhas mãos.
Eu sempre fui bem desleixado quanto à escola, nem sei como nunca tinha sido reprovado e mesmo assim estava na turma especial. Mas desta vez seria diferente, e todos perceberam como eu agarrei a ideia de estudar mais e desta vez estava dedicado. Deixei de ir para muitos eventos para ficar me preparando para as provas, elas estavam acima de tudo, mas era neste único ponto em que minha mãe não havia concordado, pois para ela Deus e a família deveriam estar acima de tudo na minha vida. Mas quando disse que o meu objetivo era passar em direito, bom ai ela deixou amolecer seu coração e abraçou a minha ideia.
Mike falava comigo às vezes sobre o Chris, perguntava se eu não queria ocupar minha cabeça de baixo com outras pessoas – sim ele usou essas palavras –, mas eu dizia que estava apaixonado pelos meus livros. Ele começou a namorar uma menina, Hellen, passaram quase três anos juntos quando terminaram, pois ela o deixou por outro. Seria engraçado, se ele não estivesse tão inconsolável. Eu, Mike e Iana ficamos os melhores amigos e o tempo só serviu para nos unir ainda mais, afinal, eles eram as únicas pessoas com as quais eu me comunicava com frequência, e eu não estava perdendo nada.
Iana não tocava no assunto, ela preferia não ser tão invasiva quanto a minha antiga relação com Chris, e era isso que eu mais amava nela. Ela não chega a namorar ninguém, era boa demais para qualquer um em sua cabeça, embora escondesse uma paixão por Mike em seu íntimo, paixão a qual ela não revela a nenhum de nós em momento algum.
A tal paixão foi surgindo de pouquinho, mas Iara era forte demais para demonstrar qualquer tipo de sentimento por alguém. Baixinha, longos e morenos cachos, ela não era nem gorda nem magra, mas tinha um quadril farto. Mike branco e com a pele lisa, cabelo curto e loiro, sempre usando seus óculos Ray-Ban marrons. Ela era escandalosa, porém, tímida. Ele era extrovertido, porém, calmo e quieto. Eu amava neles o contraste que causavam, e como mesmo assim se davam tão bem entre eles e comigo.
Voltando ao assunto principal, Chris, nem tão mais principal assim. Ele conseguiu segurar Cath o ano inteiro, eles pareciam felizes na maior parte do tempo – devido à passividade de Catherine lógico –. Houveram apenas duas ou três brigas sérias entre eles neste período, pelo que eu fiquei sabendo. Mas eu conseguia viver os assistindo, tinha convencido a mim mesmo de que o tinha apagado da minha vida.
Foi assim durante o ano inteiro, nos aniversários ele não falava comigo, nem Cath e ainda conseguiu afastar Syan de mim do início para o meio do ano. Não saímos juntos nenhuma vez e ele sequer falou comigo por qualquer que seja a rede social existente. Eu consegui esquecê-lo, mas mesmo assim eu ainda o amava como amigo e estava irado visto a uma amizade de mais de uma década jogada fora por ele.
...
Chegou o grande dia, era a prova que iria decidir o nosso futuro. A A.A.D.E.M (Avaliação Anual de Desenvolvimento do Ensino Médio) era o fantasma dos estudantes e todos estavam muito nervosos. Infelizmente Iara e Mike não ficaram no mesmo local de prova que eu, mas Karen (que estava fazendo pela segunda vez), Tricie e Chris sim, mas isso não me fez falar com ele. Sentei bem próximo de Tricie que inclusive durante a prova me pediu ajuda, mas fingi que não a tinha visto, afinal, aquilo acima de tudo era uma competição e eu não havia me matado o ano inteiro para fazer alianças de última hora.
Todos pareciam despedaçados, eu fui um dos últimos a sair, passei cerca de quatro horas e cinquenta e cinco minutos quase estourando o tempo limite de cinco horas. Karen era a única otimista no carro – estávamos indo eu, Karen e Tricie para a casa dela – e por mais que eu não estivesse tão desapontado com a minha prova eu estava apreensivo, enquanto isso Tricie chorava silenciosamente com a testa apoiada no vidro da porta. Eu estava atrás sozinho olhando no celular se já tinha saído alguma coisa sobre as questões da prova, mas quase nada, só tweets do pessoal que fez dizendo que ela tinha sido horrível.
Passamos à tarde lá, ficamos por lá até bem tarde, e depois de umas duas horinhas Tricie já estava sorridente como sempre. Quando deu por volta das 23:00 minha mãe me liga me chamando para ir para casa, e Chris cinco minutos depois chega para buscar Tricie. Eu sequer levantei para falar com ele, e percebi que ele também estava rancoroso comigo, mas pouco me importei. Ouvi Karen perguntando a ele sobre o seu desempenho na avaliação, ele disse que foi bem.
Assim que eles saíram, eu me levantei e me despedi de Karen e fui a pé para casa, não esperava uma recepção diferente da minha mãe senão um comitê de tomara que tenha ido bem, orei por você o dia todo, porém, não foi o que aconteceu. Ela já estava deitada quando entrei, fui então dormir, havia sido um longo dia.
Amanheceu e o gabarito da prova tinha saído, mas infelizmente eu não tinha decorado quase nenhuma das minhas respostas – afinal, eram 100 questões – e tive que me contentar com as quatro que lembrava, que inclusive tinha errado uma, se não me engano a 41 era C. As nossas provas seriam liberadas na próxima semana e o resultado geral sairia em um mês, nunca estive tão ansioso.
Depois de umas três semanas da prova, Iara me chama para ir visitá-la, ela disse que tinha sido péssima e estava aguardando um resultado horrível, então, precisava desopilar e também disse que Mike já estava lá. Eu fui o mais rápido que pude, mas como não tinha avisado a minha mãe que iria, teria de chegar antes de ela voltar, pois, da última coisa que eu precisava naquele momento era uma discussão com ela. Peguei um táxi, pois ela não morava tão perto quanto Karen da minha casa, no final, deu 10 reais a mais do que eu tinha mas eles me ajudaram a pagar, ela realmente morava muito longe da minha casa. Assim que cheguei perguntei se Mike poderia me dar uma carona para casa, mas ele disse que ia dormir lá.
– Como assim você vai dormir aqui? – fico assustado e não consigo resistir a perguntar.
– Porque a Iarinha pediu para eu dormir com ela hoje... – ela se abraça com ele e eles se beijam – E eu não recusei!
– Caralho... – eu ponho as duas mãos na boca, literalmente de queixo caído – Quan-quando isso aconteceu? Digo... vocês nem me falaram nada nem sequer... Caralho... – eu nem conseguia falar direito de tão surpreso.
– Eu te chamei aqui justamente para te contar. – disse Iara toda sorridente.
– E nós também tínhamos que te tirar de casa! Afinal, tem uma surpresa te esperando quando você chegar!
– O quê? Como assim? – Eu me sentei, era muita emoção de uma vez só.
– O que é não vamos dizer. É uma surpresa, e adivinha de quem foi a ideia. – ela se senta também – Sua mamãe.
Eles decidem mudar se assunto ao perceberem que eu estava quase tendo um ataque cardíaco naquele momento. E pegam um jogo de tabuleiro, e eu estava realmente precisando daquilo. Passara as últimas semanas que estava esperando o resultado apenas vendo vídeo-aulas e pesquisando mercado de trabalho, eu estava bem tenso e aquele momento entre amigos e de descontração me fez um bem que nada mais conseguiria.
Por mais divertido que tudo aquilo estivesse, eu estava pensando a cada minuto no que poderia ser a tal surpresa de que eles tinham me falado, e por mais que eu tentasse de vez em quando arrancar deles, eles estavam fiéis a manter segredo. Mike e Iara depois que anoitece me levam para casa, e quando eu chego tenho a visão da minha mãe escorada em um Gol branco, com uma fita vermelha enrolada nele com um laço gigante e uma faixa de parabéns.
Eu desço do carro travando em meu andar, e ela vem correndo e me abraça, o casal fica também sai do carro e ficam abraçados escorados no carro dele apenas nos observando. Eu tiro as faixas lentamente, e ela me entrega a chave – eu tinha feito minha carteira de motorista quatro meses antes, eu já podia ter tirado com 16, mas decidi só fazê-lo quando já estivesse próximo da minha maioridade.
O momento que eu entro é algo mágico, finalmente me sentia homem de verdade. Aquela experiência, sentir que o carro era seu e você tinha a autossuficiência de se levar aonde quisesse. Eu me sentia imortal. Até que minha mãe entra no banco do passageiro e diz:
– Vamos campeão. Quero ser a sua primeira vítima. – fecha a porta e põe o cinto – Acelera!
Eu decido obedecê-la e dou partida e depois ignição. Mike já estava com seu carro estacionado do meu lado, e Iara baixa o vidro, assim então, decidimos ir a um restaurante. Ver meus amigos namorando intrigou a minha mãe que depois da surpresa da notícia, que permaneceu quieta quanto a isso, bom, até chegarmos em casa.
– Por que eu nunca lhe vi com uma namorada Vincent?
– Porque se nenhuma menina me acha bonito ou interessante o suficiente para se sentir atraída por mim. – e começo a subir as escadas para ir para o meu quarto.
– Eu não acredito em você. – desse ela ao apoiar-se ao corrimão e gritar escadas acima.
Já no meu quarto, eu tiro a roupa e vou para o computador. Abro o Facebook e vejo uma foto gigante de um pôster promocional da nossa formatura, seria um baile estilo norte-americano com rei e rainha e tudo. Eu fico interessado e confirmo, fazendo o pedido do ingresso, o pagamento seria na hora e teria uma taxa simbólica de uns poucos reais. Fui olhar a lista e muitas pessoas já tinha marcado como participantes, inclusive o casalzinho de merda. A festa seria duas semanas depois do meu aniversário que ia ser mês que vem. Empolgação era meu nome do meio.
Desliguei o computador logo em seguida, e fui olhar as notificações do meu celular, abri o Snap e Phil tinha me mandado uma nude. Depois de me recompor, eu decido retribuir o favor, mas eu sem querer posto no histórico sem notar – não era uma foto explícita pois eu estava de cueca, mas meu volume estava bem marcado nela. Eu não sabia, mas Chris se masturba a vendo, ele ainda sentia algumas coisas por mim, e todo este tempo esteve renegando esse seu lado e se dedicando inteiramente à sua namorada, mas ele não aguentou relembrar de nossos momentos juntos.
Eu só saberia dos problemas que aquela foto iriam me causar um tempo depois de ela ter sido divulgada por mim mesmo. Sem perceber a burrada cometida vou me deitar e durmo feito uma pedra. Mal sabia eu que quando acordasse os 52 prints tirados e as mais de 300 visualizações na minha foto estariam em todos os grupos de bate-papo existentes entre o pessoal do colégio, e que minha caixa de mensagens estaria lotada com pessoas me chamando para conversar e conhecê-las. Enquanto tudo isso acontecia, eu sonhava comigo mesmo conversando com meu carro e rodando o mundo sem nunca precisar pagar pela gasolina.
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